A liberdade de um coração que pertence a Deus
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
Depois de invocar Maria como Mãe puríssima, a Ladainha Lauretana prossegue:
Mãe castíssima, rogai por nós.
À primeira vista, esta invocação poderia parecer muito semelhante à anterior.
Mas há uma riqueza própria na palavra castidade.
Na espiritualidade cristã, a castidade não significa simplesmente renunciar a alguma coisa. Ela significa aprender a amar de maneira verdadeira, livre e ordenada.
É a educação do coração para que nenhuma pessoa seja transformada em objeto de posse.
É aprender a dizer com a própria vida:
o outro não me pertence; pertence a Deus.
Maria ama sem possuir
Maria recebeu uma missão absolutamente singular: ser Mãe de Jesus.
Entretanto, desde o princípio, ela precisou aprender que aquele Filho não lhe pertencia como propriedade.
Jesus pertencia ao Pai.
Já na apresentação no Templo, Simeão anuncia que a vida daquela criança estará ligada à contradição e que uma espada atravessará também a alma de Maria.
Mais tarde, quando Jesus permanece no Templo, Maria escuta:
“Não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai?”
Maria é mãe.
Mas precisa aprender continuamente uma maternidade que não aprisiona.
Ela ama profundamente e, justamente porque ama, deixa o Filho cumprir a missão recebida do Pai.
Castidade é liberdade para amar
Aqui encontramos uma chave importante.
Castidade não significa ausência de amor.
É exatamente o contrário.
A castidade procura libertar o amor daquilo que o deforma.
Do egoísmo.
Da posse.
Da manipulação.
Da necessidade de controlar o outro.
Da utilização das pessoas para preencher nossos vazios.
Um coração casto pode amar profundamente porque aprende a dizer:
“Eu quero o seu bem, não simplesmente aquilo que você pode oferecer a mim.”
Maria vive essa liberdade.
Uma mãe que deixa partir
Chega o momento em que Jesus deixa Nazaré.
Começa sua missão.
Forma uma comunidade de discípulos.
Percorre cidades e aldeias.
Maria não tenta impedir seu caminho.
Não exige ocupar o centro.
Ela permanece discípula.
Essa atitude é extraordinariamente importante.
Até o amor mais verdadeiro precisa aprender a deixar o outro responder à própria vocação.
Isso vale para pais e filhos.
Para formadores e formandos.
Para superiores e comunidades.
Para sacerdotes e fiéis.
Para amigos.
Para todos nós.
Amar não significa decidir a vida do outro.
Uma palavra para a formação
Esta invocação possui especial importância quando acompanhamos jovens em discernimento vocacional.
Um formador não é dono da vocação de ninguém.
Pode acompanhar.
Escutar.
Orientar.
Corrigir.
Discernir.
Mas existe um espaço sagrado no qual somente Deus e a consciência da pessoa podem entrar.
Maria nos ensina essa delicadeza.
Acompanhar alguém significa ajudá-lo a perguntar:
“Senhor, o que você quer de mim?”
e não:
“Como posso fazer esta pessoa realizar aquilo que eu quero?”
A castidade também aparece no respeito à liberdade do outro.
Castidade e vida religiosa
Para nós, religiosos, esta invocação toca diretamente nossa consagração.
Professamos castidade para dizer com toda a existência:
Deus é suficiente para dar sentido à minha vida.
Isso não elimina os afetos.
Não elimina amizades.
Não elimina a necessidade de amar e ser amado.
Ao contrário, pede que nossos afetos sejam continuamente educados e integrados.
O religioso não é chamado a possuir menos amor.
É chamado a possuir um coração mais disponível para amar.
O risco da posse
Podemos não possuir bens materiais e, mesmo assim, possuir pessoas.
Podemos querer que determinado irmão esteja sempre do nosso lado.
Podemos criar dependências afetivas.
Podemos exigir exclusividade.
Podemos ficar incomodados quando alguém de quem gostamos estabelece outras relações.
Podemos transformar amizade em controle.
Podemos até usar nossa função religiosa para criar dependência.
Tudo isso precisa ser colocado diante de Deus.
A castidade liberta o amor da posse.
Maria junto à Cruz
No Calvário, essa liberdade alcança uma profundidade impressionante.
Maria vê o Filho morrer.
Não pode retê-lo.
Não pode impedir a entrega.
Permanece.
E justamente ali recebe uma nova maternidade:
“Mulher, eis aí o teu filho.”
Maria perde e recebe.
Entrega e acolhe.
Sua maternidade se alarga.
O coração que não possui torna-se capaz de receber muitos filhos.
Uma fecundidade diferente
Aqui está uma das grandes belezas da castidade consagrada.
Ela não é chamada à esterilidade.
É chamada a outra forma de fecundidade.
Quantas pessoas podem encontrar acolhida no coração de alguém que não vive fechado sobre seus próprios interesses?
Quantos jovens podem ser acompanhados?
Quantos enfermos podem ser visitados?
Quantos pobres podem ser acolhidos?
Quantas pessoas podem encontrar um irmão?
A castidade, quando verdadeiramente vivida, alarga o coração.
Para nós, Servos de Maria
A expressão Mãe castíssima possui, portanto, uma força particular para um Servo de Maria.
Maria nos ensina a servir sem possuir.
A acompanhar sem controlar.
A amar sem exigir exclusividade.
A formar sem fabricar cópias de nós mesmos.
A exercer autoridade sem criar dependências.
A construir fraternidade sem formar pequenos círculos fechados.
A castidade deve tornar nosso coração disponível.
Uma pergunta para o coração
Esta invocação pode nos levar a uma pergunta muito concreta:
Meu modo de amar torna as pessoas mais livres ou mais dependentes de mim?
É uma pergunta exigente.
Porque nem toda proximidade é liberdade.
Nem todo cuidado é desinteressado.
Nem todo afeto está suficientemente purificado.
Precisamos permitir continuamente que Deus eduque nosso coração.
Castidade e ternura
Mas existe também algo que não podemos esquecer.
Castidade não significa frieza.
Jesus foi casto e profundamente afetuoso.
Maria foi castíssima e profundamente materna.
Uma pessoa consagrada não deveria tornar-se distante, rígida ou incapaz de demonstrar carinho.
A verdadeira castidade produz uma ternura livre.
Uma proximidade que respeita.
Uma amizade que não aprisiona.
Um cuidado que não invade.
Um amor que sabe estar próximo e também sabe deixar partir.
Oração
Mãe castíssima,
você amou Jesus
com coração de verdadeira mãe
e soube entregá-lo inteiramente
à missão recebida do Pai.
Ensine-nos a amar sem possuir.
Purifique nossos afetos
de toda busca de domínio,
dependência e exclusividade.
A nós, religiosos,
ensine a viver nossa castidade
não como ausência de amor,
mas como liberdade para amar mais.
Dê-nos relações fraternas
sinceras, maduras e transparentes.
Aos que acompanham os jovens,
conceda delicadeza para respeitar
o mistério da vocação de cada pessoa.
Aos que exercem autoridade,
ensine a orientar sem dominar.
E faça de nossas comunidades
lugares onde cada irmão possa crescer
na liberdade dos filhos de Deus.
Mãe castíssima, rogai por nós.
Para guardar no coração
A castidade não diminui o amor: purifica-o da posse para que o coração se torne livre para amar e servir.
Fonte da série
Pietro Ansalone, SJ, Le Litanie Lauretane, segunda edição, organizada pelo Pe. Raffaele Nicolella, Nápoles: Tipografia de F. Ferrante, 1858.
Adaptação pastoral e espiritual para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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