Um coração transparente diante de Deus
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
Depois de invocar Maria como Mãe da Esperança, a Ladainha Lauretana prossegue:
Mãe puríssima, rogai por nós.
A palavra pureza pode parecer, à primeira vista, relacionada apenas à dimensão corporal da pessoa.
Na espiritualidade cristã, porém, ela possui um significado muito mais profundo.
Pureza é também unidade do coração.
É não viver dividido diante de Deus.
É desejar aquilo que é verdadeiro.
É amar sem querer possuir.
É servir sem procurar a própria glória.
É permitir que Deus ocupe o centro da existência.
Nesse sentido, Maria aparece diante de nós como:
Mãe puríssima.
Um coração voltado para Deus
O Evangelho nos oferece uma chave preciosa para compreender essa pureza.
Diante dos acontecimentos que ainda não compreendia plenamente, Maria:
“guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração.”
Seu coração é lugar de acolhida.
Ela não reage simplesmente aos acontecimentos.
Recebe-os.
Guarda-os.
Medita-os.
Procura reconhecer neles a passagem de Deus.
A pureza de Maria é, portanto, também uma pureza do olhar.
Ela aprende a olhar a própria história a partir de Deus.
“Bem-aventurados os puros de coração”
Jesus proclamará:
“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.”
O coração puro consegue enxergar.
Não porque compreende tudo, mas porque não permite que interesses desordenados obscureçam continuamente seu olhar.
Maria é essa mulher de olhar límpido.
Na Anunciação, percebe a ação de Deus.
Na Visitação, reconhece suas maravilhas e canta o Magnificat.
Em Caná, percebe a necessidade dos outros.
No Calvário, permanece diante do mistério que ultrapassa qualquer compreensão.
Seu olhar está educado para Deus e, justamente por isso, torna-se atento aos irmãos.
Pureza e liberdade
Existe uma relação profunda entre pureza e liberdade.
Quanto mais nosso coração se enche de interesses, ressentimentos, ambições e necessidades de reconhecimento, menos livres nos tornamos.
Começamos a servir esperando alguma coisa.
Ajudamos esperando gratidão.
Trabalhamos esperando reconhecimento.
Aceitamos responsabilidades desejando prestígio.
Até a vida religiosa pode ser contaminada por essa lógica.
Maria aponta para outra direção.
Ela serve porque ama.
Vai à casa de Isabel sem procurar recompensa.
Percebe a falta de vinho em Caná sem chamar atenção para si.
Permanece junto à Cruz quando já não existe nenhuma vantagem humana em permanecer.
Esse é o coração puro:
amar sem transformar o outro em instrumento de nossos interesses.
“Ele olhou para a humildade de sua serva”
No Magnificat, Maria não coloca a si mesma no centro.
Ela canta:
“O Todo-poderoso fez em mim grandes coisas.”
O sujeito principal de sua história é Deus.
Essa talvez seja uma das manifestações mais profundas de sua pureza interior.
Maria não precisa apropriar-se da obra de Deus.
Não diz:
“Vejam o que eu fiz.”
Diz:
“Vejam o que Deus fez.”
A alma pura devolve a Deus a glória.
Uma palavra para a vida religiosa
Para nós, religiosos, Mãe puríssima pode tornar-se uma invocação muito concreta.
Podemos perguntar:
Por que faço aquilo que faço?
Por que aceitei esta missão?
Por que quero determinada função?
Por que fiquei magoado quando não fui escolhido?
Por que preciso tanto que reconheçam meu trabalho?
Por que tenho dificuldade quando outro irmão recebe aquilo que eu desejava?
A pureza de coração toca nossas intenções.
Não basta fazer uma coisa boa.
É preciso permitir que Deus purifique também as motivações pelas quais a fazemos.
Pureza nas relações fraternas
Existe ainda outra dimensão.
Um coração puro aprende a olhar os irmãos sem reduzi-los aos seus defeitos.
Isso é especialmente importante na vida comunitária.
Depois de anos convivendo, conhecemos as fragilidades uns dos outros.
Sabemos quem é difícil.
Quem se atrasa.
Quem fala demais.
Quem pouco colabora.
Quem possui determinados hábitos que nos incomodam.
E lentamente podemos começar a enxergar o irmão apenas através dessas limitações.
Maria nos ensina outro olhar.
Pureza é também recuperar a capacidade de reconhecer que cada irmão continua sendo obra da graça de Deus.
Correção fraterna continua necessária.
Verdade continua necessária.
Mas nenhuma fragilidade esgota o mistério de uma pessoa.
Pureza e compaixão
A pureza cristã não cria pessoas frias.
Produz compaixão.
Quanto mais próximo de Deus está o coração, mais capaz se torna de perceber o sofrimento humano.
Maria vê que falta vinho.
Maria permanece junto à Cruz.
Maria está com a comunidade reunida em oração.
Seu coração voltado para Deus permanece profundamente voltado para as pessoas.
Por isso, uma comunidade verdadeiramente contemplativa não deveria tornar-se distante do sofrimento humano.
Quanto mais contemplamos Deus, mais deveríamos aprender a enxergar os irmãos.
Servos de Maria de coração puro
Para a espiritualidade servita, essa invocação torna-se um programa:
servir com coração puro.
Sem procurar dominar.
Sem possuir.
Sem transformar o ministério em propriedade.
Sem utilizar a comunidade para nossos interesses.
Sem fazer do serviço uma maneira de construir nossa própria importância.
Servir como Maria.
Discretamente.
Atentamente.
Livremente.
Uma pergunta para o coração
Hoje podemos perguntar:
O que precisa ser purificado em minhas intenções?
Talvez não precisemos abandonar aquilo que fazemos.
Talvez precisemos apenas reaprender por que fazemos.
A mesma obra pode nascer da vaidade ou do amor.
A mesma palavra pode nascer da caridade ou do desejo de vencer uma discussão.
O mesmo silêncio pode ser contemplação ou ressentimento.
O coração precisa continuamente ser purificado.
Oração
Mãe puríssima,
você viveu com o coração inteiramente voltado para Deus.
Purifique nosso olhar,
para que saibamos reconhecer
a presença do Senhor em nossa história.
Purifique nossas intenções,
para que não procuremos no serviço
nossa própria glória.
Purifique nossas relações,
para que saibamos enxergar nos irmãos
mais do que suas fragilidades.
Purifique nossas comunidades
da competição, do ressentimento
e da busca de poder.
Ensine-nos a guardar a Palavra no coração,
a perceber as necessidades dos outros
e a permanecer fiéis junto às cruzes da humanidade.
Faça de nós Servos de Maria
de coração simples, livre e transparente,
para que em tudo apareça menos o nosso nome
e mais o nome de Cristo.
Mãe puríssima, rogai por nós.
Para guardar no coração
Pureza de coração é viver de tal maneira que nossas intenções se tornem transparentes diante de Deus e nosso serviço não procure outra glória senão a dele.
Fonte da série
Pietro Ansalone, SJ, Le Litanie Lauretane, segunda edição, organizada pelo Pe. Raffaele Nicolella, Nápoles: Tipografia de F. Ferrante, 1858.
Adaptação pastoral e espiritual para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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