Uma vida inteiramente entregue a Deus
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana prossegue:
Mãe sempre virgem, rogai por nós.
Duas palavras parecem aproximar realidades que, segundo a experiência humana comum, seriam difíceis de colocar juntas:
Mãe e Virgem.
Mas é justamente nessa união que a Igreja contempla um dos sinais mais profundos do mistério de Maria.
Ela é verdadeiramente Mãe.
E permanece inteiramente consagrada a Deus.
Sua maternidade não diminui sua entrega.
Sua virgindade não torna sua existência estéril.
Em Maria, consagração e fecundidade encontram-se.
Uma vida que pertence ao Senhor
A virgindade de Maria não deve ser compreendida somente como integridade corporal.
Ela manifesta algo mais profundo:
Maria pertence inteiramente a Deus.
Seu corpo, sua inteligência, seus afetos, sua liberdade, seus projetos e seu futuro são colocados diante do Senhor.
Por isso sua resposta ao anjo resume toda a sua existência:
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”
Maria não oferece a Deus apenas alguma coisa.
Oferece-se.
E justamente por isso torna-se Mãe
Aqui encontramos o paradoxo cristão.
Aquela que se entrega inteiramente a Deus não se torna estéril.
Torna-se fecunda.
Maria recebe o Verbo.
Carrega-o em seu ventre.
Dá-o à luz.
Apresenta-o ao mundo.
A virgindade cristã, portanto, não significa fechamento.
Significa disponibilidade.
Um coração verdadeiramente entregue a Deus torna-se capaz de gerar vida ao redor de si.
A fecundidade vem de Deus
Existe aqui uma palavra importante também para nossa vida espiritual.
Nem sempre aquilo que produzimos exteriormente revela nossa verdadeira fecundidade.
Podemos realizar muitas atividades e gerar pouca vida.
Podemos ter agendas cheias e corações vazios.
Podemos administrar muitas obras e formar poucas pessoas.
Maria aponta para outra lógica.
Primeiro:
acolher Deus.
Depois:
deixar Deus produzir seus frutos.
A fecundidade cristã nasce da comunhão.
Nazaré
Pensemos nos longos anos de Nazaré.
Exteriormente, quase nada sabemos deles.
Não há grandes discursos de Maria.
Não há multidões.
Não há obras extraordinárias registradas pelo Evangelho.
Existe uma casa.
Existe trabalho.
Existe oração.
Existe convivência.
Existe fidelidade cotidiana.
E ali está crescendo o Salvador do mundo.
Quantas vezes Deus realiza suas maiores obras no escondimento!
Maria nos ensina a não confundir fecundidade com visibilidade.
Uma palavra para a vida consagrada
Para nós, religiosos, esta invocação possui evidente profundidade.
Nossa consagração só encontra sentido se nos tornar fecundos para o Reino de Deus.
A castidade não é simplesmente aquilo a que renunciamos.
É a liberdade que desejamos oferecer a Deus para que nossa vida possa estar disponível a muitos.
Um religioso pode não ter filhos segundo a carne e tornar-se pai de muitos na fé.
Uma religiosa pode não exercer maternidade biológica e tornar-se profundamente materna para inúmeras pessoas.
Essa fecundidade não se mede por números.
Mede-se pela vida que ajudamos a nascer.
Comunidades que geram vida
Também nossas comunidades religiosas precisam perguntar:
Somos fecundos?
Não apenas:
Quantas atividades realizamos?
Mas:
Quantas pessoas encontram Deus conosco?
Os jovens conseguem discernir sua vocação perto de nós?
Os pobres encontram acolhida?
Quem sofre encontra escuta?
Os idosos encontram cuidado?
Os irmãos crescem em humanidade e fé?
Nossa oração sustenta alguém?
Nossa presença desperta esperança?
Uma comunidade pode ser pequena e profundamente fecunda.
A formação dos jovens
Essa reflexão possui especial importância para a formação.
Uma casa de formação não existe simplesmente para aumentar números.
Existe para ajudar uma vocação a amadurecer diante de Deus.
Formar é preparar terreno.
Semear.
Regar.
Esperar.
Discernir.
E reconhecer humildemente que o crescimento pertence ao Senhor.
Maria ensina a acolher aquilo que Deus gera.
Não aquilo que nós gostaríamos de fabricar.
A virgindade do coração
Existe ainda uma dimensão que alcança todos os cristãos.
Todo discípulo é chamado a possuir, de alguma maneira, um coração virginal.
Isto é:
um coração que não pertence aos ídolos;
que não se vende ao poder;
que não vive escravo do dinheiro;
que não transforma pessoas em propriedade;
que não divide sua fidelidade entre Deus e inúmeros pequenos senhores.
Nesse sentido, a virgindade espiritual significa:
um coração cujo centro continua sendo Deus.
Maria junto à Cruz
No Calvário, a maternidade de Maria se alarga.
Aquela que deu à luz Jesus escuta:
“Mulher, eis aí o teu filho.”
Sua fecundidade recebe uma nova dimensão.
A Mãe de Jesus torna-se mãe na comunidade dos discípulos.
Há aqui um mistério muito bonito.
Quanto mais Maria pertence a Deus, mais sua maternidade se amplia.
A consagração não fecha seu coração.
Alarga-o.
Para nós, Servos de Maria
Esta invocação pode tornar-se uma verdadeira oração vocacional para os Servos de Maria.
Somos chamados a aprender de nossa Senhora uma existência:
consagrada e fecunda,
contemplativa e disponível,
recolhida e missionária,
inteiramente de Deus e inteiramente aberta aos irmãos.
Não basta usar o hábito.
Não basta possuir uma história religiosa.
Não basta conservar estruturas.
Nossa consagração precisa continuar gerando vida.
Uma pergunta para o coração
Podemos perguntar:
Minha consagração está gerando vida ao meu redor?
Depois de tantos anos de vocação, alguém encontra esperança por causa de minha presença?
Alguém se aproxima de Deus?
Algum jovem encontra orientação?
Algum irmão encontra acolhida?
Alguma pessoa ferida encontra escuta?
Se pertencemos verdadeiramente ao Senhor, essa pertença deve produzir frutos.
Oração
Mãe sempre virgem,
você pertenceu inteiramente ao Senhor
e sua entrega tornou-se fecunda
pela ação do Espírito Santo.
Ensine-nos a oferecer a Deus
não somente nossas obras,
mas nossa própria vida.
A nós, consagrados,
conceda um coração indiviso,
livre para amar e disponível para servir.
Faça de nossas comunidades
lugares onde novas vidas possam florescer,
as vocações possam amadurecer,
os pobres sejam acolhidos
e os que sofrem encontrem esperança.
Quando procurarmos resultados imediatos,
recorde-nos os anos silenciosos de Nazaré.
Quando confundirmos fecundidade com sucesso,
ensine-nos novamente
que é Deus quem faz crescer.
E faça de nós, Servos de Maria,
homens inteiramente entregues ao Senhor
e, justamente por isso,
inteiramente disponíveis aos irmãos.
Mãe sempre virgem, rogai por nós.
Para guardar no coração
A consagração verdadeira não fecha o coração: quanto mais uma vida pertence a Deus, mais pode tornar-se fecunda para os irmãos.
Fonte da série
Pietro Ansalone, SJ, Le Litanie Lauretane, segunda edição, organizada pelo Pe. Raffaele Nicolella, Nápoles: Tipografia de F. Ferrante, 1858.
Ladainha de Nossa Senhora — Ladainha Lauretana, formulário oficial em português da Santa Sé.
Adaptação pastoral e espiritual para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu comentário: sua colaboração edificará tantas almas sedentas de Deus e nos fará cada vez mais servos uns dos outros.