Texto escrito em abril de 2010, por ocasião do 5º aniversário da dedicação do Santuário
Nota do Somos Servos
O texto que publicamos a seguir constitui um importante documento para a história da presença dos Servos de Maria no Acre e, particularmente, para a história do Santuário São Peregrino, no bairro Floresta, em Rio Branco.
Foi escrito por Frei Charlie M. Leitão de Souza, OSM, em abril de 2010, a pedido do Sr. Ernani Brunoro, para uma publicação paroquial preparada por ocasião do quinto aniversário da dedicação do Santuário.
Frei Charlie havia sido pároco de São Peregrino durante o período decisivo da construção do atual templo. Por isso, seu relato possui o caráter de testemunho de quem participou diretamente dos acontecimentos.
Preservamos o conteúdo do documento original, realizando apenas pequenos ajustes ortográficos e de pontuação para a presente publicação.
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Cinco anos da dedicação do Santuário São Peregrino
Meus irmãos e minhas irmãs,
Por ocasião do 5º aniversário da dedicação do Santuário de São Peregrino, uno-me a todos vocês em ação de graças a Deus pela construção desse Santuário dedicado ao Padroeiro da Diocese de Rio Branco e da Paróquia de São Peregrino.
O período de 1º de julho de 2003 a 5 de maio de 2005, período da construção do Santuário, deixou marcas indeléveis na história da comunidade da Floresta e, por que não dizer, na história da cidade de Rio Branco, devido à repercussão desse fato em nível nacional e internacional, pois se trata do primeiro Santuário dedicado a São Peregrino na América Latina.
Os Servos de Maria, quando chegaram ao Acre em 1920, deram início a uma história de grande heroísmo e de realizações. A fé cristã semeada por missionários nessa região no final do século XIX e início do século XX foi a base de um trabalho exaustivo e incomensurável de promoção da fé e da dignidade da pessoa humana, numa ação evangelizadora.
Isso possibilitou aos Servos de Maria, sob a ação do Espírito Santo e com a proteção e intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, a edificação de uma Igreja local autônoma, constituída num primeiro momento Prelazia do Acre e Purus, em 1926 Prelazia de São Peregrino e, em 1986, Diocese de Rio Branco.
São Peregrino foi acompanhando os passos dos primeiros missionários servitas em terras acreanas: na cidade de Sena Madureira, onde a igreja matriz foi dedicada a São Peregrino — e ainda hoje é caracterizada por pinturas nas paredes que recordam a vida do santo —, e na cidade de Rio Branco, onde, em 1935, havia uma igrejinha de madeira dedicada a São Peregrino às margens do Rio Acre.
Ela foi trasladada para a atual localização no bairro da Floresta, entre mangueiras que, com suas sombras e frutos, aglomeravam inúmeras pessoas num recanto de paz e de louvor à criação de Deus.
Esse mesmo templo vivo foi agraciado com uma construção em alvenaria na década de 1960, que perdurou, com algumas reformas, até o período da construção do atual Santuário de São Peregrino.
A comunidade cristã sempre foi muito reconhecedora de personagens ilustres do período referido: Ana Rosa, Mariquinha, Frei Gregório Dal Monte, Frei André Ficarelli, entre outros.
E essa memória é dinâmica e histórica, rica de detalhes que vivenciamos juntos na construção do Santuário de São Peregrino.
O projeto da nova igreja
Em 2002, quando assumi a função de pároco, já vinha sendo encaminhado o projeto de construção pela comunidade cristã, liderada pelo meu predecessor, Frei Nivaldo M. Machado.
Não se tratava de uma simples construção.
O anseio da comunidade cristã, há décadas, de poder dispor de um templo maior e adaptado às novas exigências da paróquia era algo que não podíamos mensurar com a capacidade humana.
Pude conhecer pessoalmente três projetos de construção do Santuário, feitos em épocas distintas e em estilos diversos, e com iniciativas louváveis, inclusive com lançamento de pedra inaugural, frustradas pelas vicissitudes humanas e econômicas do período.
Foi assim que, como pároco, ainda me recordo como se fosse hoje, no dia 19 de março de 2003, festa de São José, no escritório paroquial, com a presença de José Roberto, João Braga e do engenheiro paroquiano Gérson, avaliamos as alternativas possíveis e apresentamos à comunidade a planta da construção que se iniciaria em julho daquele ano, logo após a construção da Gruta de São Peregrino, idealizada por Frei Gilson de Lima Freitas, estimado e fiel coadjutor na paróquia.
O projeto constava de três etapas: o templo; o anexo pastoral, com salas de catequese, salão paroquial e estruturas adjacentes; e o anexo administrativo, com secretaria, sala do pároco e outros espaços.
A meta estabelecida foi a construção do templo com mais de 500 metros quadrados de edificação.
Começava uma aventura
Frei Nivaldo, durante sua breve permanência na paróquia, havia pedido à Ordem dos Servos de Maria ajuda econômica para a construção do Santuário.
A generosidade de tantos irmãos Servos de Maria, de todas as partes do mundo, e os recursos acumulados pelas iniciativas da paróquia, de modo particular dos casais do serviço Encontro de Casais com Cristo e dos tradicionais arraiais da comunidade de São Peregrino, formaram o capital inicial.
Esse recurso foi considerado pelos técnicos mais entusiastas suficiente para a edificação do alicerce e de alguns metros das paredes principais do templo.
Era uma aventura que se iniciava, pois a maior parte da obra dependeria exclusivamente dos recursos próprios da comunidade nos meses sucessivos.
Logo após o início das obras, confiadas ao paroquiano e mestre de obras Idalécio, iniciou-se um movimento de arrecadação de recursos nas casas, nas celebrações, na campanha do Dízimo e na campanha para a construção.
Dona Rita Souza liderou o primeiro bingo, em dezembro daquele ano, no Colégio Meta.
Os casais realizaram o primeiro Réveillon da Família, no Clube Juventus.
Uma cidade mobilizada
A festa de São Peregrino em 2004 adquiriu uma dimensão jamais vista, envolvendo toda a cidade de Rio Branco.
A novena foi celebrada dentro do canteiro de obras, pois a igreja antiga foi aos poucos sendo demolida e envolvida pela nova construção.
Na quermesse, realizada no Parque das Acácias, houve a participação de mais de três mil pessoas, com almoço, bingos e Rainha da Quermesse.
Realizou-se também a procissão festiva pelas ruas do bairro.
No mesmo ano foram realizados o Bazar de São Peregrino, o Festival do Sorvete e o segundo Réveillon da Família, na AABB.
Recebemos inúmeras doações de garrotes, carneiros, sacos de cimento, areia, barro...
O arrecadado nos eventos e as doações pessoais recebidas eram convertidos em crédito nos comércios da cidade, que nos favoreciam com bons descontos, graças ao conhecimento e à intercessão de tantos paroquianos que iam comigo, como anjos da guarda, falar com os gerentes e proprietários.
Assim conseguimos adquirir a cobertura da igreja, o forro, o piso, a pintura...
O sonho de inaugurar em 2005
Em certa ocasião havia expressado aos paroquianos meu desejo de inaugurar a nova igreja na festa de São Peregrino de 2005, por ocasião dos 70 anos de devoção a São Peregrino na localização atual.
Um desejo que se tornou uma motivação a mais para os que estavam mais próximos, liderando os trabalhos.
À medida que a construção avançava, as dimensões da obra me pareciam gigantescas para as nossas possibilidades.
Reconhecia-me parco de fé diante das dificuldades e de certas incompreensões de alguns irmãos.
Apesar da minha pouca fé, dava-me conta da grandeza de uma comunidade que assume um projeto e se empenha verdadeiramente: na campanha das janelas e dos bancos, doados pelas famílias e grupos; na solicitação de emendas parlamentares na Assembleia Legislativa e junto ao Governo do Estado do Acre.
O nascimento do Santuário
Era Páscoa de 2005.
Faltavam poucos meses para a festa de São Peregrino. As comissões que preparavam a festa do padroeiro se reuniam com frequência. A inauguração não tardaria muito.
Pedi ao bispo diocesano que desse o título de Santuário de São Peregrino à nova igreja paroquial.
Frei Gilson encarregou-se, com um grupo de pessoas, de tentar conseguir a doação dos materiais litúrgicos e de organizar a celebração solene da dedicação do Santuário.
Dona Terezinha Mascarenhas organizava todo o cerimonial da inauguração, com a devida referência às autoridades públicas e civis do município e do Estado.
O Crucifixo, esculpido em madeira cerejeira, foi encomendado em Minas Gerais e chegaria dias antes da inauguração, assim como os bancos em mogno, fabricados pelo artesanato de São Peregrino, em Sena Madureira.
Era muito significativo ver as pastorais, os jovens, os casais e os anciãos da comunidade empenhados em deixar tudo pronto para aquele tão esperado dia.
Os casais do ECC, a Confraria Nossa Senhora das Dores, a Ordem Secular dos Servos de Maria e a Pascom foram apoios importantes no processo da construção do Santuário.
A empresa Albuquerque Engenharia doou todo o projeto.
A assessoria jurídica para a obtenção do título definitivo de propriedade do terreno e a assessoria técnica competente, quase diariamente no local da construção, foram significativas para a conclusão da primeira etapa do projeto.
3 de maio de 2005
Na noite do dia 3 de maio de 2005, durante a celebração eucarística de dedicação do Santuário de São Peregrino, presidida pelo bispo diocesano, com a igreja repleta de fiéis, foi consagrado o templo dedicado a São Peregrino.
Na presença de autoridades civis e religiosas, foi desvendada a placa de inauguração do Santuário, afixada ao lado direito da porta principal, expressando uma súplica escolhida pelas lideranças da Paróquia, em forma de oração:
“Que Deus confirme a obra de nossas mãos!”
Parabéns ao Santuário de São Peregrino no seu 5º aniversário.
O Santuário é obra de muitas mãos, algumas conhecidas e outras anônimas, que permanecerão na memória dos que fazem parte desse templo vivo do Senhor, chamado a ser sempre resplandecente no seu Santuário, para a glória de Deus e para a salvação da humanidade, pela intercessão da Mãe de Deus e nossa Mãe e de São Peregrino.
Frei Charlie M. Leitão de Souza, OSM
Abril de 2010
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Nota documental
O documento original foi localizado na correspondência eletrônica entre Frei Charlie e Ernani Brunoro. Em 8 de abril de 2010, Brunoro solicitou o texto para a revista preparada no contexto da festa de São Peregrino. No dia seguinte, 9 de abril de 2010, Frei Charlie enviou o artigo em anexo, com o nome “Revista Sao Peregrino 2010.doc”.
O documento constitui um testemunho de primeira mão sobre a construção do atual Santuário São Peregrino e registra nomes, datas, iniciativas comunitárias e circunstâncias que marcaram a obra realizada entre 2003 e 2005.
Fonte: Arquivo pessoal de Frei Charlie M. Leitão de Souza, OSM. Correspondência com Ernani Brunoro, abril de 2010. Documento: Revista Sao Peregrino 2010.