16/09/2026

Documento histórico: Frei Charlie recorda a construção do Santuário São Peregrino de Rio Branco



Texto escrito em abril de 2010, por ocasião do 5º aniversário da dedicação do Santuário

Nota do Somos Servos

O texto que publicamos a seguir constitui um importante documento para a história da presença dos Servos de Maria no Acre e, particularmente, para a história do Santuário São Peregrino, no bairro Floresta, em Rio Branco.

Foi escrito por Frei Charlie M. Leitão de Souza, OSM, em abril de 2010, a pedido do Sr. Ernani Brunoro, para uma publicação paroquial preparada por ocasião do quinto aniversário da dedicação do Santuário.

Frei Charlie havia sido pároco de São Peregrino durante o período decisivo da construção do atual templo. Por isso, seu relato possui o caráter de testemunho de quem participou diretamente dos acontecimentos.

Preservamos o conteúdo do documento original, realizando apenas pequenos ajustes ortográficos e de pontuação para a presente publicação.

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Cinco anos da dedicação do Santuário São Peregrino

Meus irmãos e minhas irmãs,

Por ocasião do 5º aniversário da dedicação do Santuário de São Peregrino, uno-me a todos vocês em ação de graças a Deus pela construção desse Santuário dedicado ao Padroeiro da Diocese de Rio Branco e da Paróquia de São Peregrino.

O período de 1º de julho de 2003 a 5 de maio de 2005, período da construção do Santuário, deixou marcas indeléveis na história da comunidade da Floresta e, por que não dizer, na história da cidade de Rio Branco, devido à repercussão desse fato em nível nacional e internacional, pois se trata do primeiro Santuário dedicado a São Peregrino na América Latina.

Os Servos de Maria, quando chegaram ao Acre em 1920, deram início a uma história de grande heroísmo e de realizações. A fé cristã semeada por missionários nessa região no final do século XIX e início do século XX foi a base de um trabalho exaustivo e incomensurável de promoção da fé e da dignidade da pessoa humana, numa ação evangelizadora.

Isso possibilitou aos Servos de Maria, sob a ação do Espírito Santo e com a proteção e intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, a edificação de uma Igreja local autônoma, constituída num primeiro momento Prelazia do Acre e Purus, em 1926 Prelazia de São Peregrino e, em 1986, Diocese de Rio Branco.

São Peregrino foi acompanhando os passos dos primeiros missionários servitas em terras acreanas: na cidade de Sena Madureira, onde a igreja matriz foi dedicada a São Peregrino — e ainda hoje é caracterizada por pinturas nas paredes que recordam a vida do santo —, e na cidade de Rio Branco, onde, em 1935, havia uma igrejinha de madeira dedicada a São Peregrino às margens do Rio Acre.

Ela foi trasladada para a atual localização no bairro da Floresta, entre mangueiras que, com suas sombras e frutos, aglomeravam inúmeras pessoas num recanto de paz e de louvor à criação de Deus.

Esse mesmo templo vivo foi agraciado com uma construção em alvenaria na década de 1960, que perdurou, com algumas reformas, até o período da construção do atual Santuário de São Peregrino.

A comunidade cristã sempre foi muito reconhecedora de personagens ilustres do período referido: Ana Rosa, Mariquinha, Frei Gregório Dal Monte, Frei André Ficarelli, entre outros.

E essa memória é dinâmica e histórica, rica de detalhes que vivenciamos juntos na construção do Santuário de São Peregrino.

O projeto da nova igreja

Em 2002, quando assumi a função de pároco, já vinha sendo encaminhado o projeto de construção pela comunidade cristã, liderada pelo meu predecessor, Frei Nivaldo M. Machado.

Não se tratava de uma simples construção.

O anseio da comunidade cristã, há décadas, de poder dispor de um templo maior e adaptado às novas exigências da paróquia era algo que não podíamos mensurar com a capacidade humana.

Pude conhecer pessoalmente três projetos de construção do Santuário, feitos em épocas distintas e em estilos diversos, e com iniciativas louváveis, inclusive com lançamento de pedra inaugural, frustradas pelas vicissitudes humanas e econômicas do período.

Foi assim que, como pároco, ainda me recordo como se fosse hoje, no dia 19 de março de 2003, festa de São José, no escritório paroquial, com a presença de José Roberto, João Braga e do engenheiro paroquiano Gérson, avaliamos as alternativas possíveis e apresentamos à comunidade a planta da construção que se iniciaria em julho daquele ano, logo após a construção da Gruta de São Peregrino, idealizada por Frei Gilson de Lima Freitas, estimado e fiel coadjutor na paróquia.

O projeto constava de três etapas: o templo; o anexo pastoral, com salas de catequese, salão paroquial e estruturas adjacentes; e o anexo administrativo, com secretaria, sala do pároco e outros espaços.

A meta estabelecida foi a construção do templo com mais de 500 metros quadrados de edificação.

Começava uma aventura

Frei Nivaldo, durante sua breve permanência na paróquia, havia pedido à Ordem dos Servos de Maria ajuda econômica para a construção do Santuário.

A generosidade de tantos irmãos Servos de Maria, de todas as partes do mundo, e os recursos acumulados pelas iniciativas da paróquia, de modo particular dos casais do serviço Encontro de Casais com Cristo e dos tradicionais arraiais da comunidade de São Peregrino, formaram o capital inicial.

Esse recurso foi considerado pelos técnicos mais entusiastas suficiente para a edificação do alicerce e de alguns metros das paredes principais do templo.

Era uma aventura que se iniciava, pois a maior parte da obra dependeria exclusivamente dos recursos próprios da comunidade nos meses sucessivos.

Logo após o início das obras, confiadas ao paroquiano e mestre de obras Idalécio, iniciou-se um movimento de arrecadação de recursos nas casas, nas celebrações, na campanha do Dízimo e na campanha para a construção.

Dona Rita Souza liderou o primeiro bingo, em dezembro daquele ano, no Colégio Meta.

Os casais realizaram o primeiro Réveillon da Família, no Clube Juventus.

Uma cidade mobilizada

A festa de São Peregrino em 2004 adquiriu uma dimensão jamais vista, envolvendo toda a cidade de Rio Branco.

A novena foi celebrada dentro do canteiro de obras, pois a igreja antiga foi aos poucos sendo demolida e envolvida pela nova construção.

Na quermesse, realizada no Parque das Acácias, houve a participação de mais de três mil pessoas, com almoço, bingos e Rainha da Quermesse.

Realizou-se também a procissão festiva pelas ruas do bairro.

No mesmo ano foram realizados o Bazar de São Peregrino, o Festival do Sorvete e o segundo Réveillon da Família, na AABB.

Recebemos inúmeras doações de garrotes, carneiros, sacos de cimento, areia, barro...

O arrecadado nos eventos e as doações pessoais recebidas eram convertidos em crédito nos comércios da cidade, que nos favoreciam com bons descontos, graças ao conhecimento e à intercessão de tantos paroquianos que iam comigo, como anjos da guarda, falar com os gerentes e proprietários.

Assim conseguimos adquirir a cobertura da igreja, o forro, o piso, a pintura...

O sonho de inaugurar em 2005

Em certa ocasião havia expressado aos paroquianos meu desejo de inaugurar a nova igreja na festa de São Peregrino de 2005, por ocasião dos 70 anos de devoção a São Peregrino na localização atual.

Um desejo que se tornou uma motivação a mais para os que estavam mais próximos, liderando os trabalhos.

À medida que a construção avançava, as dimensões da obra me pareciam gigantescas para as nossas possibilidades.

Reconhecia-me parco de fé diante das dificuldades e de certas incompreensões de alguns irmãos.

Apesar da minha pouca fé, dava-me conta da grandeza de uma comunidade que assume um projeto e se empenha verdadeiramente: na campanha das janelas e dos bancos, doados pelas famílias e grupos; na solicitação de emendas parlamentares na Assembleia Legislativa e junto ao Governo do Estado do Acre.

O nascimento do Santuário

Era Páscoa de 2005.

Faltavam poucos meses para a festa de São Peregrino. As comissões que preparavam a festa do padroeiro se reuniam com frequência. A inauguração não tardaria muito.

Pedi ao bispo diocesano que desse o título de Santuário de São Peregrino à nova igreja paroquial.

Frei Gilson encarregou-se, com um grupo de pessoas, de tentar conseguir a doação dos materiais litúrgicos e de organizar a celebração solene da dedicação do Santuário.

Dona Terezinha Mascarenhas organizava todo o cerimonial da inauguração, com a devida referência às autoridades públicas e civis do município e do Estado.

O Crucifixo, esculpido em madeira cerejeira, foi encomendado em Minas Gerais e chegaria dias antes da inauguração, assim como os bancos em mogno, fabricados pelo artesanato de São Peregrino, em Sena Madureira.

Era muito significativo ver as pastorais, os jovens, os casais e os anciãos da comunidade empenhados em deixar tudo pronto para aquele tão esperado dia.

Os casais do ECC, a Confraria Nossa Senhora das Dores, a Ordem Secular dos Servos de Maria e a Pascom foram apoios importantes no processo da construção do Santuário.

A empresa Albuquerque Engenharia doou todo o projeto.

A assessoria jurídica para a obtenção do título definitivo de propriedade do terreno e a assessoria técnica competente, quase diariamente no local da construção, foram significativas para a conclusão da primeira etapa do projeto.

3 de maio de 2005

Na noite do dia 3 de maio de 2005, durante a celebração eucarística de dedicação do Santuário de São Peregrino, presidida pelo bispo diocesano, com a igreja repleta de fiéis, foi consagrado o templo dedicado a São Peregrino.

Na presença de autoridades civis e religiosas, foi desvendada a placa de inauguração do Santuário, afixada ao lado direito da porta principal, expressando uma súplica escolhida pelas lideranças da Paróquia, em forma de oração:

“Que Deus confirme a obra de nossas mãos!”

Parabéns ao Santuário de São Peregrino no seu 5º aniversário.

O Santuário é obra de muitas mãos, algumas conhecidas e outras anônimas, que permanecerão na memória dos que fazem parte desse templo vivo do Senhor, chamado a ser sempre resplandecente no seu Santuário, para a glória de Deus e para a salvação da humanidade, pela intercessão da Mãe de Deus e nossa Mãe e de São Peregrino.

Frei Charlie M. Leitão de Souza, OSM
Abril de 2010

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Nota documental

O documento original foi localizado na correspondência eletrônica entre Frei Charlie e Ernani Brunoro. Em 8 de abril de 2010, Brunoro solicitou o texto para a revista preparada no contexto da festa de São Peregrino. No dia seguinte, 9 de abril de 2010, Frei Charlie enviou o artigo em anexo, com o nome “Revista Sao Peregrino 2010.doc”.

O documento constitui um testemunho de primeira mão sobre a construção do atual Santuário São Peregrino e registra nomes, datas, iniciativas comunitárias e circunstâncias que marcaram a obra realizada entre 2003 e 2005.

Fonte: Arquivo pessoal de Frei Charlie M. Leitão de Souza, OSM. Correspondência com Ernani Brunoro, abril de 2010. Documento: Revista Sao Peregrino 2010.

Santuário São Peregrino de Rio Branco: uma obra de muitas mãos



No bairro Floresta, em Rio Branco, Acre, encontra-se um dos lugares mais significativos da presença dos Servos de Maria na Amazônia: o Santuário São Peregrino. Sua história atravessa diferentes gerações de missionários, religiosos e leigos e encontrou um momento decisivo entre 2003 e 2005, quando foi construído o atual templo.

A história dessa construção foi registrada pelo próprio Frei Charlie M. Leitão de Souza, OSM, então pároco de São Peregrino, num artigo escrito em abril de 2010 para uma revista paroquial, por ocasião do quinto aniversário da dedicação do Santuário.

Uma devoção antiga no Acre

A devoção a São Peregrino está profundamente ligada à história dos Servos de Maria no Acre.

Frei Charlie recorda que, já em 1935, existia em Rio Branco uma pequena igreja de madeira dedicada a São Peregrino, situada às margens do Rio Acre. Posteriormente, ela foi trasladada para a região que corresponde ao atual bairro Floresta.

Ali, entre mangueiras que ofereciam sombra e frutos aos moradores, consolidou-se a comunidade cristã de São Peregrino.

Na década de 1960, a antiga capela recebeu uma construção em alvenaria. Com diversas reformas ao longo dos anos, aquele templo continuou servindo à comunidade até o início da construção da igreja atual.

Frei Charlie recorda também nomes que permaneceram ligados à memória da comunidade, entre eles Ana Rosa, Mariquinha, Frei Gregório Dal Monte e Frei André Ficarelli, OSM.

O sonho de uma igreja maior

O desejo de construir uma igreja maior não nasceu de uma única pessoa.

Durante anos, a comunidade desejava um templo capaz de responder ao crescimento da paróquia e às novas necessidades pastorais. Segundo o testemunho de Frei Charlie, pelo menos três projetos diferentes chegaram a ser elaborados em épocas distintas. Houve inclusive iniciativas acompanhadas do lançamento de pedra inaugural, mas circunstâncias humanas e econômicas impediram que fossem levadas adiante.

Quando Frei Charlie assumiu a Paróquia São Peregrino, em 2002, o projeto de uma nova igreja já vinha sendo encaminhado pela comunidade sob a liderança de seu predecessor, Frei Nivaldo M. Machado, OSM.

Frei Nivaldo havia também solicitado à Ordem dos Servos de Maria auxílio econômico para a futura construção.

19 de março de 2003: o projeto começa a tomar forma

Frei Charlie conservou na memória até mesmo o dia em que a futura igreja começou a ganhar contornos concretos.

Em 19 de março de 2003, solenidade de São José, reuniu-se no escritório paroquial com José Roberto, João Braga e o engenheiro paroquiano Gérson.

Foram estudadas as alternativas existentes e definida a planta que seria apresentada à comunidade.

O projeto previa três grandes etapas: a construção do templo, do anexo pastoral, com salas de catequese, salão paroquial e outras dependências, e do anexo administrativo, destinado à secretaria, sala do pároco e demais serviços.

Somente o templo teria mais de 500 metros quadrados de edificação.

Pouco antes, havia sido construída a Gruta de São Peregrino, idealizada por Frei Gilson de Lima Freitas, OSM, então coadjutor da paróquia.

Começa a construção

O artigo de 2010 estabelece com precisão o período da obra: de 1º de julho de 2003 a 5 de maio de 2005.

Os trabalhos foram confiados ao paroquiano e mestre de obras Idalécio.

Havia algum recurso inicial proveniente da ajuda dos Servos de Maria e das iniciativas paroquiais, particularmente do Encontro de Casais com Cristo (ECC) e dos tradicionais arraiais da comunidade. Entretanto, aquele valor permitiria apenas iniciar a construção.

Era necessário levantar praticamente todo o restante enquanto a obra avançava.

Começou então uma verdadeira mobilização comunitária.

Uma comunidade constrói seu Santuário

A construção do Santuário tornou-se um projeto assumido pelos paroquianos.

Foram realizadas campanhas nas casas, nas celebrações e por meio do dízimo. Em dezembro de 2003, Dona Rita Souza liderou o primeiro bingo no Colégio Meta. Os casais promoveram o Réveillon da Família, no Clube Juventus.

Em 2004, a festa de São Peregrino adquiriu proporções ainda maiores.

A novena foi celebrada dentro do próprio canteiro de obras, pois a antiga igreja era gradualmente demolida enquanto a nova construção a envolvia.

Uma grande quermesse realizada no Parque das Acácias reuniu mais de três mil pessoas, com almoço, bingos e a escolha da Rainha da Quermesse. Houve ainda procissão pelas ruas do bairro, bazar de São Peregrino, Festival do Sorvete e um segundo Réveillon da Família.

As ofertas assumiam as mais diversas formas.

Chegavam garrotes, carneiros, sacos de cimento, areia, barro e outros materiais. O dinheiro arrecadado era convertido em crédito nos estabelecimentos comerciais de Rio Branco. Paroquianos acompanhavam Frei Charlie nas negociações com comerciantes, gerentes e proprietários, conseguindo descontos e condições favoráveis.

Assim foram adquiridos materiais fundamentais para a cobertura, o forro, o piso e a pintura da igreja.

A Albuquerque Engenharia colaborou doando todo o projeto da construção.

“Inaugurar na festa de São Peregrino”

Frei Charlie alimentava um desejo: que a nova igreja pudesse ser inaugurada durante a festa de São Peregrino de 2005, quando se recordavam os setenta anos da devoção ao santo naquele local.

À medida que a construção avançava, porém, aumentavam também os desafios.

Em seu relato, Frei Charlie reconhece que, diante das dimensões da obra e das dificuldades econômicas, muitas vezes lhe parecia que o projeto ultrapassava as possibilidades da paróquia.

Foi então que se revelou ainda mais claramente a força da comunidade.

Famílias e grupos participaram das campanhas para aquisição das janelas e dos bancos. Buscaram-se também recursos públicos por meio de emendas e outras formas de colaboração.

O que inicialmente parecia uma aventura foi tomando a forma do novo templo.

De igreja paroquial a Santuário

Na Páscoa de 2005, a inauguração já estava próxima.

Foi nesse contexto que Frei Charlie pediu ao bispo diocesano que concedesse à nova igreja paroquial o título de Santuário de São Peregrino.

Enquanto isso, Frei Gilson, juntamente com um grupo de colaboradores, procurava os materiais litúrgicos necessários e trabalhava na organização da celebração solene da dedicação.

Dona Terezinha Mascarenhas assumiu a organização do cerimonial da inauguração e o relacionamento com as autoridades civis.

Um grande crucifixo, esculpido em madeira de cerejeira, foi encomendado em Minas Gerais. Os bancos de mogno foram confeccionados pelo artesanato de São Peregrino, em Sena Madureira.

Pastorais, jovens, casais e idosos trabalhavam para que tudo estivesse pronto.

O ECC, a Confraria Nossa Senhora das Dores, a Ordem Secular dos Servos de Maria e a Pastoral da Comunicação estiveram entre os grupos que contribuíram significativamente durante o processo.

3 de maio de 2005

Finalmente chegou o dia esperado.

Na noite de 3 de maio de 2005, uma multidão ocupou a nova igreja para a celebração eucarística da dedicação.

Presidida pelo bispo diocesano, a celebração marcou a consagração do novo templo dedicado a São Peregrino.

Diante dos fiéis e das autoridades civis e religiosas presentes, foi descerrada a placa de inauguração colocada ao lado direito da porta principal.

Nela estava gravada uma oração escolhida pelas lideranças da própria paróquia:

“Que Deus confirme a obra de nossas mãos!”

Poucas palavras poderiam resumir melhor aquela história.

“Uma obra de muitas mãos”

Cinco anos depois, ao recordar os acontecimentos, Frei Charlie evitou atribuir a construção a si mesmo.

Embora tenha conduzido o projeto como pároco durante os anos decisivos da obra, preferiu registrar:

“O Santuário é obra de muitas mãos, algumas conhecidas e outras anônimas.”

É justamente nessa frase que se encontra uma chave para compreender a história do Santuário São Peregrino.

Houve o trabalho do pároco, dos demais Servos de Maria, dos engenheiros e trabalhadores. Houve a colaboração das pastorais e movimentos. Houve pessoas que ofereceram dinheiro e outras que ofereceram materiais. Algumas organizaram festas; outras venderam rifas, prepararam alimentos ou procuraram comerciantes e autoridades. Muitas rezaram e sustentaram espiritualmente a obra.

Por isso, o Santuário não é somente um edifício.

É a memória concreta de uma comunidade que acreditou que poderia construir sua igreja e transformou essa esperança em realidade.

A súplica gravada na entrada permanece, assim, como testemunho para as gerações futuras:

“Que Deus confirme a obra de nossas mãos!”

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Fonte principal:
Frei Charlie M. Leitão de Souza, OSM, Revista São Peregrino 2010, texto escrito em abril de 2010 para o quinto aniversário da dedicação do Santuário São Peregrino, Rio Branco–AC. Documento conservado na correspondência com Ernani Brunoro.

15/09/2026

A Catedral de Rio Branco: uma obra de Frei André M. Ficarelli, OSM

A Catedral de Rio Branco: uma obra de Frei André Ficarelli, OSM

Entre as muitas marcas deixadas pelos Servos de Maria no Acre, a Catedral Nossa Senhora de Nazaré, em Rio Branco, ocupa um lugar especial. Sua história está profundamente ligada à presença missionária de Frei André M. Ficarelli, OSM, frade italiano que dedicou grande parte de sua longa vida religiosa e sacerdotal ao povo acreano.

Um jovem Servita que fez do Acre sua terra

Frei André M. Ficarelli nasceu em San Donnino di Casalgrande, Reggio Emilia, Itália, em 12 de outubro de 1922, filho de Armando Ficarelli e Lavinia Morini. No batismo recebeu o nome de Nicodemos.

Ainda jovem ingressou na Ordem dos Servos de Maria. Realizou o noviciado em Montefano e fez sua primeira profissão religiosa em 6 de outubro de 1940. Professou solenemente em Reggio Emilia, em 28 de fevereiro de 1944, e foi ordenado presbítero em Roma, em 27 de março de 1948.

Dois anos depois, em 1950, chegou ao Brasil e estabeleceu-se em Rio Branco. Começava uma ligação com o Acre que atravessaria décadas e somente terminaria com sua morte.

A Catedral Nossa Senhora de Nazaré

O Inter Nos On Line nº 146, publicado pela Província São Peregrino do Brasil e Moçambique em 5 de setembro de 2015, ao recordar a vida de Frei André, inclui a Catedral Nossa Senhora de Nazaré entre as principais obras que ele deixou no Acre.

O boletim recorda que Frei André possuía grande habilidade para a construção, chegando a defini-lo como um “arquiteto prático”. Além da Catedral, são mencionadas entre suas realizações a casa episcopal, o Colégio Nossa Senhora das Dores, o Hospital Santa Juliana, a Galeria Meta, o Centro de Treinamento e outras obras.

A relação entre Frei André e a Catedral, entretanto, não se limitou à construção material.

Enquanto a Catedral esteve confiada aos Servos de Maria, ele exerceu também ali o ministério de pároco, fazendo daquele templo não apenas uma obra arquitetônica, mas um lugar de evangelização e serviço pastoral.

Uma igreja construída com os olhos da fé

Por ocasião da morte de Frei André, em setembro de 2015, os jornais do Acre recordaram particularmente sua ligação com a Catedral.

A Gazeta do Acre, em matéria reproduzida pelo Inter Nos, apresentou-o como idealizador da Catedral Nossa Senhora de Nazaré e recordou que o missionário italiano havia chegado ao Acre em 1950.

Outra notícia, também recolhida pelo boletim provincial, recordava que a Catedral foi inaugurada em 1958 e atribuía a Frei André papel decisivo em sua realização.

Talvez um dos testemunhos mais expressivos tenha sido dado pelo Pe. Massimo Lombardi durante as homenagens após sua morte:

«“Esta catedral foi construída com os olhos da fé do frei André.”»

A frase ajuda a compreender o significado mais profundo da obra. A Catedral não foi simplesmente um edifício erguido por um religioso com habilidade para construções. Ela nasceu no contexto da missão, como expressão concreta da presença da Igreja e do serviço dos Servos de Maria ao povo acreano.

Cinquenta anos de uma história

A ligação de Frei André com a Catedral permaneceu viva durante toda a sua existência.

Em 14 de agosto de 2009, ele lançou o livro 50 anos de Catedral Nossa Senhora de Nazaré: Você faz parte dessa história!, conservando e transmitindo a memória de uma obra da qual havia participado desde seus primeiros tempos.

O título é significativo: a Catedral não pertencia apenas à memória dos religiosos ou dos responsáveis por sua construção. Era uma história construída juntamente com o povo.

Uma vida entregue à Igreja do Acre

A contribuição de Frei André ultrapassou amplamente os limites da Catedral.

Depois de alguns períodos fora do Acre — inclusive em São Paulo, Rio de Janeiro e Roma — retornou definitivamente a Rio Branco em 1978.

Entre 1979 e 1984, foi Vigário Provincial do então Vicariato Provincial OSM do Acre. Durante mais de vinte anos, pelo menos entre 1978 e 1998, exerceu também o serviço de Vigário Geral da Prelazia e posteriormente Diocese de Rio Branco.

O Inter Nos recorda o testemunho de Dom Moacyr Grechi, para quem Frei André foi um colaborador fundamental na missão da Igreja acreana.

Mesmo na velhice, enquanto teve forças, continuou celebrando a Eucaristia e atendendo confissões. Nos últimos anos, já debilitado, permaneceu no convento São Filipe, assistido pelos confrades, formandos e profissionais da saúde.

O último encontro com sua Catedral

Frei André faleceu em 3 de setembro de 2015, depois de 92 anos de vida e 74 anos de vida religiosa na Ordem dos Servos de Maria.

Seu corpo foi levado justamente para a Catedral Nossa Senhora de Nazaré.

Ali, diante da obra à qual sua vida estava tão intimamente ligada, o povo pôde despedir-se daquele missionário que havia feito do Acre sua própria terra.

As exéquias foram celebradas em 4 de setembro, presididas por Dom Moacyr Grechi e concelebradas pelo bispo diocesano Dom Joaquim Pertíñez, pelo Prior Provincial Frei Paulo M. Angeloni, pelos Servos de Maria de Rio Branco e Sena Madureira e por sacerdotes diocesanos.

Também estavam presentes religiosas Servas de Maria, membros da Fraternidade Secular, formandos e numerosos fiéis.

Depois das exéquias, Frei André foi sepultado no Cemitério São João Batista.

Uma Catedral como memória da missão servita

Hoje, contemplar a Catedral Nossa Senhora de Nazaré significa também recordar uma página importante da presença dos Servos de Maria no Acre.

Pedras, paredes e torres permanecem, mas o verdadeiro monumento deixado por Frei André Ficarelli encontra-se na comunidade cristã que ajudou a servir e edificar.

Sua história recorda algo profundamente ligado à vocação servita: estar onde a Igreja necessita, permanecer junto ao povo e transformar a fé em serviço concreto.

A Catedral de Rio Branco tornou-se, assim, mais do que uma construção associada ao talento de Frei André. Tornou-se testemunho de uma vida missionária.

E talvez a melhor síntese continue sendo aquela pronunciada no momento de sua despedida:

«“Esta catedral foi construída com os olhos da fé do frei André.”»

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Fonte principal

INTER NOS ON LINE, nº 146, Província São Peregrino do Brasil e Moçambique, Rio de Janeiro, 5 de setembro de 2015, pp. 26–29. Necrológio de Frei André M. Ficarelli, OSM.

O boletim reproduz ainda notícias publicadas pela Gazeta do Acre em 3 e 4 de setembro de 2015 e pelo jornal O Rio Branco em 4 de setembro de 2015.

Arquivo: correspondência da Província São Peregrino do Brasil / Servos de Maria.

AS REVELAÇÕES DE FREI EGÍDIO


Uma preciosa entrevista publicada no Inter Nos em 1972

Entre os documentos que conservam a memória do Servo de Deus Frei Egídio Maria Moscini, OSM, esta entrevista possui um valor muito especial. Publicada no boletim Inter Nos, nº 69, em 1972, nas páginas 22–23, ela nos permite ouvir Frei Egídio narrando, com suas próprias palavras, algumas recordações dos primeiros anos de sua vida missionária no Brasil.

Naquele momento, Frei Egídio vivia na comunidade do Seminário dos Servos de Maria, em Turvo, Santa Catarina. Já idoso, recordava com simplicidade e bom humor a longa viagem para o Brasil, a chegada à missão do Acre, o serviço como sacristão e cozinheiro e até as dificuldades dos primeiros dias, quando ainda não sabia falar português.

Um detalhe percebido pelo próprio entrevistador é particularmente significativo: Frei Egídio evitava dizer “eu”. Ao contar suas histórias, referia-se a si mesmo simplesmente como “o Frei Egídio”.

Reproduzimos abaixo a entrevista, conservando a linguagem característica do documento.

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A ENTREVISTA DO MÊS:

“AS REVELAÇÕES DO FREI EGÍDIO”

Aproveitando da convivência com a comunidade do Seminário de Turvo, o redator deste boletim teve ocasião de entrevistar o nosso bondoso e simpático velhinho, Fr. Egídio.

1. Viagem de 3 meses e 14 dias de Bolonha para Rio Branco

Ao dizer isto, o Fr. Egídio chega a dar risada. Mas eles fizeram lá o seu turismo também. Assim nos conta o Fr. Egídio:

«“Saímos em 10 de Bolonha, no dia 14 de junho de 1921: Pe. Antônio Busi, Filipe Gallerani, Donato Gabrielli, o Fr. Egídio (êle nunca diz ‘eu’, mas sempre o ‘Fr. Egídio’) e 10 irmãs servas de Maria.

Viajamos de trem até Turim e aí paramos 1 semana, depois até à França e aí paramos mais 1 semana. Daí para Londres e lá também ficamos 1 semana.

Estava conosco o Provincial Pe. José Albarelli, que sabia o francês e o inglês.

Por fim partimos para o Brasil, de navio, e paramos em Fortaleza onde nós padres ficamos hospedados no Seminário diocesano e as irmãs num colégio de freiras.

Fomos em seguida para Belém e daí para Manaus (7 dias de viagem). Em Manaus um senhor português muito bondoso, amigo dos missionários servos de Maria, arranjou nossa viagem num navio pequeno para Rio Branco.

POR FIM, NO DIA 25 DE SETEMBRO CHEGAMOS EM RIO BRANCO, ONDE ESTAVA O FREI TIAGO SÒZINHO. ERA HORA DA JANTA E O FREI TIAGO ESTAVA COMENDO PIRÔ” (= pirão).»

2. Frei Egídio: Sacristão e Cozinheiro

À pergunta sobre o que fazia em Rio Branco, Frei Egídio respondeu:

«“Dunque, Pe. José, Frei Egídio cuidava da Igrejinha de São Sebastião e S. Filipe e fazia comidinha para o Fr. Tiago.”»

E continua:

«“Frei Tiago era muito bonzinho e fazia tudo de graça (casamentos, batizados etc.) e então sempre faltava dinheiro para a comida. E o ‘Fr. Egídio’ era obrigado a preparar só pirô, pirô!”»

Nesse ponto, Frei Egídio oferece uma pequena lição:

«“Olhe, Pe. José, é bom a gente ser bonzinho, mas não demais. Fazer tudo de graça não dá.

Por isso Fr. Tiago ficou doentinho e a notícia correu pela cidade. Um dia apareceu um fazendeiro muito bondoso e prometeu dar todos os dias um litro de leite e um quilo de carne para o Fr. Tiago e o irmãozinho.

E o ‘Fr. Egídio’ todos os dias passava o rio e ia lá na fazenda buscar.”»

3. Uma novena que durou trinta anos

Falando do Frei Filipe, Frei Egídio conta:

«“Depois de uma semana que chegamos em Rio Branco, recebemos carta do Bispo D. Próspero, pedindo para o Fr. Filipe ir a Xapuri para fazer a novena de N. Sra. da Conceição. Esta novena (diz o Fr. Egídio dando risada) durou 30 anos porque o Fr. Filipe não mais voltou de lá.”»

4. Frei Egídio: o mudinho

Perguntado sobre como fazia para se fazer entender em português nos primeiros tempos, respondeu:

«“Ih!, Pe. José! Nos primeiros tempos Fr. Egídio ficava mudinho, mudinho...

Logo nos primeiros dias, Fr. Tiago foi para Brasiléia e lá ficou 15 dias e o Fr. Egídio ficou sozinho, sozinho, sem saber falar nada, nada...

Mas Fr. Tiago colocou um grande aviso na parede da sacristia e quando chegava alguém pedindo qualquer coisa, Fr. Egídio apontava o aviso e a gente agradecia e ia embora contente. Não sei o que estava escrito naquele aviso.”»

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A simplicidade de Frei Egídio em suas próprias palavras

A entrevista revela algo que uma simples cronologia dificilmente conseguiria transmitir. Frei Egídio recorda os sacrifícios da missão sem se colocar no centro da narrativa. Fala da pobreza, da alimentação escassa, das longas viagens e da dificuldade com a língua portuguesa com uma simplicidade quase desarmante.

Chama atenção também sua maneira de falar: “comidinha”, “bonzinho”, “irmãozinho”, “mudinho”. Até as dificuldades são recordadas com bom humor. Quando fala de Frei Filipe, por exemplo, brinca dizendo que a novena de Nossa Senhora da Conceição “durou 30 anos”, porque o frade permaneceu em Xapuri.

Mas talvez o detalhe mais belo seja aquele registrado entre parênteses pelo entrevistador:

“êle nunca diz ‘eu’, mas sempre o ‘Fr. Egídio’.”

É um pequeno testemunho que ajuda a perceber a personalidade daquele irmão religioso que passou a vida no serviço cotidiano: na sacristia, na cozinha, no trabalho e na oração.

Décadas depois, quando sua vida começou a ser estudada de maneira mais sistemática, muitos outros documentos permitiram precisar sua trajetória. Esta entrevista, porém, conserva algo insubstituível: a voz do próprio Frei Egídio, recordando os primeiros passos de sua missão no Brasil.

Fonte

Inter Nos, nº 69, 1972, pp. 22–23.
“A entrevista do mês: ‘As revelações do Frei Egídio’”.

Nota editorial: A transcrição procura conservar a linguagem e as características do texto publicado em 1972. Eventuais formas antigas de grafia, nomes ou informações cronológicas pertencem ao documento original e devem ser compreendidas em seu contexto histórico.

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