Trajetória de vida e necrológio
Frei Heitor Maria Turrini, OSM, Ettore M. Turrini em italiano, nasceu em Maserno di Montese, província de Modena, Itália, em 27 de maio de 1926, filho de Antônio Turrini e Natália Fenocchi.
Ainda muito jovem ingressou na Ordem dos Servos de Maria. Iniciou o noviciado em 15 de agosto de 1943 e emitiu a primeira profissão religiosa em 27 de agosto de 1944. Fez a profissão solene em 8 de setembro de 1947.
Recebeu o diaconato em 5 de outubro de 1950 e, três dias depois, em 8 de outubro de 1950, foi ordenado presbítero.
Preparava-se para uma missão que marcaria definitivamente sua existência: o Brasil.
Missionário no Brasil
Frei Heitor chegou ao Brasil em 1950, com apenas 24 anos. Concluiu seus estudos em São Paulo e iniciou uma longa trajetória missionária que o ligaria profundamente à Amazônia e, particularmente, ao Acre.
Como religioso presbítero, viveu e trabalhou sobretudo em São Paulo, Brasiléia, Sena Madureira e Rio Branco.
Sua missão, porém, ultrapassou os limites da atividade estritamente paroquial.
Frei Heitor possuía extraordinária capacidade de mobilizar pessoas e recursos. Diante de uma necessidade, procurava imediatamente uma solução.
Na homilia de suas exéquias foi recordado como homem de “visão de futuro”, envolvido em numerosos projetos sociais, educacionais, pastorais e missionários.
Sua atuação esteve relacionada, em diferentes momentos, ao Instituto e Colégio Nossa Senhora das Dores, ao Hospital Santa Juliana, à Colônia Souza Araújo, à Igreja Cristo Libertador, à Creche Piratininga, ao Colégio Santa Juliana, ao Centro de Treinamento, à Colônia de Férias Santo Antônio Pucci, à Galeria Meta, à Fazenda da Esperança e a numerosas outras iniciativas.
Uma notícia publicada no Acre já em 1959 documenta Frei Heitor ligado à Procuradoria das Missões dos Servos de Maria e relata uma expedição ao alto Rio Chandless para contato com comunidades indígenas. Décadas depois, permanecia a mesma paixão missionária.
O “frade voador”
Uma das características mais singulares de sua atividade missionária foi a utilização da aviação para vencer as enormes distâncias amazônicas.
Frei Heitor trabalhou para conseguir aeronaves destinadas às missões. O objetivo era permitir o deslocamento dos missionários e, sobretudo, facilitar o transporte de enfermos em uma região onde praticamente não existiam estradas.
A própria história do Hospital Santa Juliana registra a chegada, em 1968, de um bimotor Dornier proveniente da Alemanha, fruto de uma campanha realizada por Frei Heitor na Europa para atender às necessidades das missões acreanas.
Ele próprio tornou-se piloto.
Sua personalidade dinâmica e sua disposição para enfrentar longas viagens fizeram com que fosse lembrado como um missionário que dificilmente aceitava a palavra “impossível”.
“Salve a Selva!”
Com o passar dos anos, outra dimensão tornou-se particularmente expressiva em sua missão: a defesa da Amazônia.
Frei Heitor compreendeu que o serviço aos pobres, aos povos indígenas e às populações amazônicas estava inseparavelmente ligado à defesa da floresta.
Promoveu a campanha “Salve a Selva”, escreveu e divulgou A Amazônia que não conhecemos e procurou sensibilizar autoridades civis, eclesiais e a sociedade para a preservação da região.
Nessa causa esteve profundamente unido a seu confrade e amigo Frei Paolino M. Baldassarri, OSM.
A defesa dos pobres, dos povos indígenas e da criação tornou-se uma das marcas de seu testemunho.
Um homem de projetos e relações
Frei Heitor possuía temperamento forte e, ao mesmo tempo, profundamente afetuoso.
Era capaz de insistir incansavelmente quando acreditava que determinada obra poderia beneficiar os pobres.
Pedia ajuda, procurava benfeitores, estabelecia relações e mantinha amizades.
Acreditava profundamente na Providência.
Sua maneira de viver essa confiança fazia com que envolvesse outras pessoas em seus projetos. O que começava como uma necessidade encontrada numa comunidade podia transformar-se em uma campanha envolvendo pessoas de lugares muito distantes.
Visitou diversos países e também colaborou com a presença dos Servos de Maria nas Filipinas.
Um irmão entre os últimos
Por trás das obras, campanhas e viagens havia uma convicção mais profunda: no outro, Frei Heitor reconhecia a presença de Deus.
Acolhia indígenas, pobres, enfermos, pessoas atingidas pela hanseníase, presidiários, perseguidos e tantas outras pessoas que encontrava nas margens da sociedade.
Sua atuação na Amazônia tornou inseparáveis evangelização, promoção humana, justiça, paz e defesa da criação.
Não por acaso, sua memória permaneceu também na sociedade acreana. Uma escola pública de Rio Branco recebeu o nome de Escola Frei Heitor Maria Turrini.
Retorno definitivo à Amazônia
Depois de muitos anos de missão, Frei Heitor passou um período vivendo novamente na Itália.
Mas a Amazônia continuava presente em seu coração.
Em idade já avançada, voltou ao Brasil. Uma das motivações dessa viagem foi visitar o lugar onde repousava seu antigo companheiro de missão, Frei Paolino Baldassarri.
O retorno, que poderia ter sido apenas uma visita, tornou-se definitivo.
Frei Heitor permaneceu no Acre.
Ali encerraria a mesma caminhada missionária iniciada tantas décadas antes.
Falecimento
Nos últimos tempos, sua saúde tornou-se frágil.
Após cerca de quinze dias de internação, Frei Heitor faleceu na manhã de 8 de janeiro de 2022, no Hospital Santa Juliana, em Rio Branco, aos 95 anos de idade. Os registros contemporâneos mencionam comprometimento pulmonar e grave quadro respiratório.
Seu velório aconteceu na Igreja São Peregrino.
No domingo, 9 de janeiro de 2022, foi celebrada a Missa exequial. Depois da celebração, seu corpo foi conduzido ao Cemitério Morada da Paz, em Rio Branco, onde foi sepultado.
Depois de mais de sete décadas de vida religiosa, o missionário italiano que fizera da Amazônia sua terra repousava definitivamente no Acre.
Um filho amado, um irmão solícito, um Servo fiel
Na homilia exequial, Frei Heitor foi recordado a partir de três expressões que resumem sua existência:
um filho amado;
um irmão solícito;
um Servo fiel.
Amava o Evangelho.
Amava a Igreja.
Amava a Ordem dos Servos de Maria.
Amava o Acre.
Amava a Amazônia.
E procurou transformar esse amor em serviço concreto.
Sua memória permanece não apenas nas construções e instituições para as quais colaborou, mas sobretudo nas pessoas que encontrou, ajudou e envolveu em sua aventura missionária.
Como foi proclamado em suas exéquias:
“Frei Heitor nos espera no Paraíso.”
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Dados biográficos
Nome: Frei Heitor (Ettore) M. Turrini, OSM
Nascimento: 27 de maio de 1926 — Maserno di Montese, Modena, Itália
Noviciado: 15 de agosto de 1943
Primeira profissão: 27 de agosto de 1944
Profissão solene: 8 de setembro de 1947
Diaconato: 5 de outubro de 1950
Ordenação presbiteral: 8 de outubro de 1950
Chegada ao Brasil: 1950
Falecimento: 8 de janeiro de 2022 — Rio Branco, Acre
Sepultamento: 9 de janeiro de 2022 — Cemitério Morada da Paz, Rio Branco
Descanse em paz!
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Nota documental
Esta trajetória foi preparada a partir da documentação referente a Frei Heitor M. Turrini, da homilia exequial e do necrológio posteriormente elaborado por Frei Charlie M. Leitão de Souza, OSM, confrontados com registros contemporâneos de seu falecimento e de sua atuação missionária.
A homilia exequial permanece publicada separadamente, preservando seu caráter de testemunho pessoal e documento histórico.
Somos Servos — Memória histórica da Ordem dos Servos de Maria