Uma vida inteiramente aberta ao Espírito
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana prossegue:
Vaso espiritual, rogai por nós.
É uma imagem antiga.
Talvez, para nossos ouvidos, até um pouco enigmática.
Por que chamar Maria de vaso?
Na linguagem bíblica, o vaso é um recipiente.
Algo preparado para receber, guardar e oferecer.
Seu valor não está apenas em si mesmo.
Está também naquilo que contém.
Quando a Igreja chama Maria de Vaso espiritual, contempla uma criatura inteiramente aberta à ação de Deus.
Maria recebe.
Guarda.
E oferece.
Um vaso feito para receber
Um vaso fechado não pode receber nada.
Um vaso já cheio também não possui espaço para algo novo.
Maria aparece no Evangelho com uma extraordinária disponibilidade interior.
Na Anunciação, escuta.
Pergunta.
Discernindo a Palavra, finalmente responde:
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”
É como se toda a sua existência se abrisse para Deus.
Maria não diz:
“Tenho meus próprios planos e não quero que sejam alterados.”
Diz:
“Faça-se.”
Aqui começa a espiritualidade do vaso:
dar espaço a Deus.
O Espírito Santo virá sobre você
O anjo anuncia:
“O Espírito Santo virá sobre você e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra.”
Maria torna-se Mãe pela ação do Espírito Santo.
Por isso, chamá-la Vaso espiritual possui uma profundidade especial.
Ela é a mulher sobre quem repousa o Espírito.
Aquela que se deixa conduzir pela ação divina.
Não vive fechada em si mesma.
Está disponível.
Receber a Palavra
Maria recebe primeiro a Palavra.
Antes de carregar Jesus em seu ventre, acolhe o anúncio pela fé.
Essa ordem é importante.
Escuta.
Crê.
Acolhe.
E então o Verbo se faz carne.
Também nossa vida cristã começa assim.
Deus fala.
Nós escutamos.
A Palavra pede espaço.
Quando a acolhemos verdadeiramente, ela começa a transformar nossa existência.
Guardar
Mas o vaso não apenas recebe.
Também guarda.
São Lucas repete que Maria guardava os acontecimentos, meditando-os em seu coração.
Ela não desperdiça aquilo que recebe.
Não deixa a Palavra passar superficialmente.
Guarda.
Retoma.
Medita.
Procura compreender.
Essa atitude pode questionar nossa maneira de ouvir a Palavra de Deus.
Quantas leituras escutamos?
Quantas homilias?
Quantos retiros?
Quantos textos espirituais?
Quantas vezes rezamos a Liturgia das Horas?
Mas quanto disso realmente guardamos?
Um coração que conserva
Existe uma diferença entre ouvir e guardar.
Podemos ouvir uma leitura e esquecê-la imediatamente.
Maria ensina outra atitude.
Talvez uma única frase da Escritura possa acompanhar todo o nosso dia.
Uma palavra pode permanecer conosco durante uma semana.
Um versículo pode atravessar anos de nossa vida.
A Palavra guardada lentamente nos transforma.
Receber para oferecer
Há ainda uma terceira dimensão.
Maria não recebe Cristo para conservá-lo somente para si.
Depois da Anunciação, parte para visitar Isabel.
Ela leva consigo aquele que recebeu.
Na casa de Isabel, sua presença produz alegria.
João estremece no ventre materno.
Isabel fica cheia do Espírito Santo.
Maria recebeu.
Agora começa a oferecer.
Essa é uma lei fundamental da vida espiritual:
os dons de Deus nunca são apenas para nós.
Cheios para transbordar
Talvez possamos imaginar um vaso que recebe água até transbordar.
Assim deveria ser a vida cristã.
Recebemos graça para comunicar graça.
Recebemos consolo para consolar.
Recebemos perdão para perdoar.
Recebemos a Palavra para anunciá-la.
Recebemos vocação para servir.
Recebemos Cristo para levá-lo aos outros.
Maria não é um recipiente fechado.
É uma existência que recebe de Deus e se transforma em dom.
Vasos de barro
São Paulo utiliza uma imagem muito bonita:
“Trazemos este tesouro em vasos de barro.”
Somos frágeis.
Possuímos limitações.
Podemos quebrar.
Cometemos erros.
Nem sempre somos aquilo que gostaríamos de ser.
Mas Deus escolhe colocar seu tesouro em vasos frágeis.
Isso é consolador.
Deus não espera nossa perfeição para começar a agir.
Ele pede disponibilidade.
A fragilidade não impede a graça
São João Paulo II utilizou justamente essa imagem ao invocar Maria como Vaso espiritual.
Falando aos sacerdotes, chamou-nos de frágeis vasos de barro e pediu que Maria nos obtivesse a graça de sermos preenchidos pela unção divina.
Que imagem bela para nossa vocação!
Somos frágeis.
Mas podemos ser cheios do Espírito.
Somos limitados.
Mas podemos carregar um tesouro.
Somos imperfeitos.
Mas Deus continua escolhendo servir-se de nós.
O problema não é ser vaso de barro
Às vezes gastamos muita energia tentando parecer fortes.
Não queremos que percebam nossas limitações.
Temos dificuldade de pedir ajuda.
Temos dificuldade de admitir um erro.
Mas a Escritura já nos chama:
vasos de barro.
A questão não é esconder nossa fragilidade.
A questão é perguntar:
o que estou permitindo que Deus coloque dentro de mim?
De que estamos cheios?
Esta talvez seja a pergunta central desta invocação.
Todo vaso acaba sendo preenchido por alguma coisa.
Também nosso coração.
Pode estar cheio de:
ressentimentos,
preocupações,
vaidade,
comparações,
necessidade de reconhecimento,
medos,
reclamações.
Ou pode tornar-se cada vez mais cheio de:
Palavra,
oração,
gratidão,
compaixão,
esperança,
Espírito Santo.
Esvaziar para receber
A vida espiritual exige também esvaziamento.
Às vezes pedimos:
“Senhor, encha-me de sua graça.”
Mas nosso coração já está ocupado por muitas coisas.
Maria ensina a disponibilidade.
Talvez precisemos esvaziar:
uma mágoa antiga,
uma ambição,
uma necessidade de controlar,
uma opinião à qual estamos excessivamente presos,
um apego.
Não para ficarmos vazios.
Mas para abrirmos espaço para Deus.
Uma palavra para a vida religiosa
Esta invocação possui enorme riqueza para a vida consagrada.
A profissão religiosa é, em certo sentido, uma declaração:
“Quero que minha vida pertença a Deus.”
Mas essa entrega precisa ser renovada.
Podemos ter feito profissão há muitos anos e, pouco a pouco, encher novamente a vida de nós mesmos.
Nossos projetos.
Nossas preferências.
Nossos territórios.
Nossa maneira de fazer.
Por isso precisamos continuamente rezar:
Vaso espiritual, rogai por nós.
Uma palavra para os sacerdotes
São João Paulo II relacionou esta invocação diretamente ao sacerdócio.
O sacerdote também é vaso.
Não é proprietário da graça.
É ministro.
A Palavra que anuncia não é sua.
A Eucaristia que celebra não é sua obra.
O perdão que comunica não nasce dele.
O povo não lhe pertence.
Ele recebe para transmitir.
Quanto mais profundamente compreendemos isso, mais humilde se torna nosso ministério.
O vaso não é o tesouro
Existe aqui uma verdade libertadora.
Nós não somos o tesouro.
Cristo é o tesouro.
Nós somos vasos.
Isso nos liberta de precisar ocupar o centro.
Se alguém encontra Cristo através de nosso serviço, cumprimos nossa missão.
Não precisamos ser lembrados.
Não precisamos ser indispensáveis.
O vaso cumpriu sua finalidade quando entregou aquilo que recebeu.
Uma palavra para os jovens em formação
Também a formação pode ser compreendida assim.
O objetivo não é simplesmente encher um jovem de conteúdos.
É ajudá-lo a tornar-se interiormente disponível à ação de Deus.
Estudo é necessário.
Disciplina é necessária.
Conhecimento da Ordem é necessário.
Mas a pergunta permanece:
Existe espaço interior para Deus?
Sem isso, podemos formar uma pessoa informada, mas não necessariamente um religioso profundamente espiritual.
Vaso espiritual e vida comunitária
Também uma comunidade pode perguntar:
Do que nossa casa está cheia?
De reclamações?
De tensões?
De individualismo?
Ou de oração?
De acolhida?
De fraternidade?
De esperança?
O ambiente comunitário também possui um conteúdo.
Quem chega percebe rapidamente aquilo que transborda de uma casa.
O perfume de Cristo
São João Paulo II, ao falar de Maria como Vas spirituale, relacionou essa imagem ao compromisso de difundir o bom perfume de Cristo.
É uma imagem belíssima.
Um vaso que contém perfume acaba perfumando o ambiente.
Talvez possamos perguntar:
Que perfume nossa presença deixa?
Paz?
Bondade?
Acolhida?
Esperança?
Ou tensão?
Servos de Maria: vasos para o serviço
Para nós, Servos de Maria, esta invocação pode tornar-se um programa espiritual.
Receber.
Guardar.
Oferecer.
Receber a Palavra.
Guardá-la no coração.
Oferecê-la pela vida.
Receber Cristo.
Guardá-lo na contemplação.
Oferecê-lo no serviço.
Receber a compaixão de Maria.
Guardá-la na espiritualidade.
Oferecê-la aos que sofrem.
Junto à Cruz
No Calvário, Maria continua sendo Vaso espiritual.
Ali recebe uma nova palavra:
“Eis o teu filho.”
Mesmo na dor, permanece aberta à vontade de Deus.
Não se fecha.
Sua maternidade se alarga.
Isso é extraordinário.
O sofrimento poderia fechá-la.
Mas, em Cristo, torna-se abertura para uma nova maternidade.
Quando a dor nos fecha
Também nós corremos o risco de nos fechar quando sofremos.
Uma decepção.
Uma perda.
Uma injustiça.
Uma experiência difícil.
Podemos construir paredes interiores.
Maria junto à Cruz pede por nós para que a dor não transforme nosso coração num recipiente fechado.
Que mesmo feridos continuemos capazes de receber e oferecer amor.
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação podemos perguntar:
Do que meu coração está cheio?
E uma segunda pergunta:
Existe espaço para Deus colocar alguma coisa nova em mim?
Talvez hoje Ele queira colocar:
mais paciência,
mais liberdade,
mais misericórdia,
uma nova missão,
um novo modo de servir.
Mas para receber precisamos estar abertos.
Oração
Vaso espiritual,
você se abriu inteiramente
à ação do Espírito Santo.
Ensine-nos a dar espaço a Deus.
Esvazie-nos daquilo que nos fecha:
do orgulho,
do ressentimento,
da vaidade,
da necessidade de controlar
e da busca de reconhecimento.
Ensine-nos a receber a Palavra,
a guardá-la no coração
e a transformá-la em vida.
Quando nos sentirmos frágeis,
recorde-nos que Deus escolheu
colocar seu tesouro
em vasos de barro.
Aos sacerdotes,
conceda a humildade de recordar
que são ministros da graça
e não seus proprietários.
Aos jovens em formação,
dê um coração aberto ao Espírito.
Aos formadores,
conceda sabedoria para cultivar
não apenas conhecimento,
mas verdadeira vida interior.
Faça de nossas comunidades
vasos cheios de oração,
fraternidade, acolhida e esperança.
E a nós, Servos de Maria,
ensine a receber, guardar e oferecer.
Que sejamos frágeis vasos de barro,
mas repletos da unção divina.
E que nossa presença espalhe,
onde estivermos,
não o perfume de nós mesmos,
mas o bom perfume de Cristo.
Vaso espiritual, rogai por nós.
Para guardar no coração
Maria é Vaso espiritual porque se deixa preencher pela graça e pela ação do Espírito. Também nós somos vasos frágeis: nossa grandeza não está no recipiente, mas no tesouro que Deus deseja colocar em nós.
Fontes
Sagrada Escritura, especialmente Lc 1,26-45; Lc 2,19.51; Jo 19,25-27; 2Cor 4,7.
São João Paulo II, Homilia da Missa Crismal, 12 de abril de 2001.
Pietro Ansalone, SJ, Le Litanie Lauretane, segunda edição, Nápoles, 1858 — obra inspiradora da série.
Ladainha de Nossa Senhora — Ladainha Lauretana, tradição litúrgica da Igreja.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu comentário: sua colaboração edificará tantas almas sedentas de Deus e nos fará cada vez mais servos uns dos outros.