Maria, morada viva da presença de Deus
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana prossegue com uma invocação de extraordinária beleza:
Tabernáculo da eterna glória, rogai por nós.
Depois de contemplarmos Maria como Vaso espiritual, a Igreja aprofunda o mesmo mistério.
Maria não apenas se abriu à ação de Deus.
Ela se tornou morada.
O Filho eterno do Pai habitou nela.
Aquele que os céus não podem conter aceitou habitar no ventre de uma jovem de Nazaré.
Deus deseja habitar entre nós
Toda a história bíblica pode ser lida como a história de um Deus que deseja aproximar-se de seu povo.
Deus chama Abraão.
Caminha com Israel.
Manifesta sua presença.
Faz erguer a Tenda do Encontro.
Habita no meio de seu povo.
O Templo torna-se sinal dessa presença.
Mas tudo isso prepara um acontecimento ainda maior:
“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.”
Em Jesus, Deus não apenas visita seu povo.
Vem morar conosco.
E escolheu Maria
Para entrar em nossa história, o Filho de Deus quis nascer de uma mulher.
O anjo anuncia:
“O Espírito Santo virá sobre você e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra.”
Maria responde:
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”
E então acontece o mistério.
O Verbo eterno assume nossa humanidade.
Maria torna-se a morada viva daquele que é a glória do Pai.
Por isso a Igreja pode chamá-la:
Tabernáculo da eterna glória.
A glória possui um rosto
Mas precisamos compreender bem a expressão.
A eterna glória não é Maria.
É Cristo.
Maria é o tabernáculo.
Cristo é aquele que nela habita.
Maria é a morada.
Cristo é o Senhor.
Maria acolhe.
Cristo salva.
Como acontece em tantos títulos da Ladainha, quanto mais profundamente contemplamos Maria, mais claramente somos conduzidos a Jesus.
O primeiro tabernáculo
Há uma imagem muito querida à espiritualidade cristã:
Maria como o primeiro tabernáculo do Verbo encarnado.
Durante os meses da gestação, ela carrega consigo Jesus.
Vai à casa de Isabel.
Caminha pelas estradas.
Entra numa casa.
E leva Cristo consigo.
A presença de Maria torna-se presença de Cristo porque Cristo habita nela.
A Visitação
A Visitação ajuda-nos particularmente a compreender esta invocação.
Maria chega à casa de Isabel.
Isabel escuta sua saudação.
João estremece de alegria.
Isabel fica cheia do Espírito Santo.
E pergunta:
“Como posso merecer que a mãe do meu Senhor venha me visitar?”
Maria entrou naquela casa.
Mas ela trouxe consigo o Senhor.
Essa é sua missão.
Uma presença que leva outra Presença
Existe algo muito bonito aqui.
Maria não precisa fazer um grande discurso.
Sua presença já carrega um mistério.
Porque ela traz Jesus.
Isso também pode transformar nossa compreensão da missão.
Nem sempre evangelizamos falando muito.
Às vezes evangelizamos pela maneira como chegamos.
Pela maneira como escutamos.
Pela serenidade.
Pelo acolhimento.
Pela compaixão.
Uma pessoa habitada por Deus pode levar alguma coisa da presença de Deus aos lugares onde entra.
Habitados por Deus
E aqui a invocação começa a falar diretamente de nós.
Maria foi morada do Verbo de maneira única e irrepetível.
Mas todo cristão é chamado a tornar-se morada de Deus.
Jesus diz:
“Se alguém me ama, guardará minha palavra, meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele nossa morada.”
Que afirmação extraordinária!
Deus deseja habitar também em nós.
Nosso corpo é templo
São Paulo aprofundará essa realidade:
“Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?”
A vida cristã não consiste apenas em procurar Deus fora de nós.
Pelo Batismo, somos chamados a viver habitados por sua presença.
Isso dá uma dignidade extraordinária à existência humana.
A Eucaristia
Para nós, católicos, a palavra tabernáculo desperta imediatamente outra associação.
O Santíssimo Sacramento.
A presença eucarística de Cristo.
Depois da comunhão, aquele que Maria carregou em seu ventre vem sacramentalmente ao nosso encontro.
O Cristo que repousou nos braços de Maria entrega-se a nós como alimento.
Por alguns momentos, tornamo-nos também, de maneira sacramental, portadores de sua presença.
Depois da comunhão
Talvez esta invocação possa transformar a maneira como vivemos os minutos depois da comunhão.
Não precisamos imediatamente procurar muitas palavras.
Podemos simplesmente permanecer.
Adorar.
Agradecer.
Maria ensina essa atitude.
Guardar Cristo.
Não como quem possui alguma coisa.
Mas como quem acolhe Alguém.
Uma pergunta eucarística
Depois da Missa, poderíamos perguntar:
O que faço com Cristo que recebi?
Maria, depois de acolher Jesus, vai ao encontro de Isabel.
Também nós somos enviados.
A Eucaristia não termina na igreja.
Quem recebeu Cristo torna-se enviado para levá-lo ao mundo.
O tabernáculo e a missão
Existe, portanto, uma ligação profunda entre:
adoração e missão.
Quanto mais acolhemos Cristo, mais somos enviados.
Maria recebe Jesus e parte.
Também a Igreja recebe Cristo na Eucaristia e depois escuta:
“Ide.”
Não podemos conservar para nós aquilo que recebemos.
Para nós, Servos de Maria
Esta invocação possui uma beleza particular para a espiritualidade servita.
Ser Servo de Maria significa aprender com ela a acolher Cristo para levá-lo aos outros.
Nossa vida não existe para apresentar a nós mesmos.
Existe para apresentar Jesus.
Nossa pregação.
Nossa pastoral.
Nossa formação.
Nossa fraternidade.
Nossos projetos.
Tudo deveria conduzir para Ele.
O perigo de uma casa sem presença
Podemos possuir belas igrejas.
Conventos históricos.
Boa organização.
Projetos pastorais.
Calendários cheios.
Mas existe uma pergunta mais profunda:
Deus habita realmente no centro de nossa vida?
Porque uma casa religiosa pode estar cheia de atividades e espiritualmente vazia.
Pode existir muito movimento e pouca oração.
Muita administração e pouca contemplação.
Muito trabalho para Deus e pouco tempo com Deus.
Uma comunidade habitada
Como seria uma comunidade verdadeiramente habitada pela presença de Deus?
Não seria uma comunidade sem problemas.
Mas seria uma comunidade onde se reza.
Onde existe espaço para silêncio.
Onde a Palavra é escutada.
Onde a Eucaristia ocupa o centro.
Onde os irmãos procuram reconciliar-se.
Onde o pobre é acolhido.
Onde o idoso é cuidado.
Onde o jovem encontra testemunho.
Onde a presença de Cristo lentamente transforma as relações.
O silêncio do tabernáculo
Existe uma característica muito bonita do tabernáculo:
silêncio.
Cristo está presente sem ruído.
Não se impõe.
Espera.
Talvez Maria tenha aprendido profundamente essa linguagem.
Grande parte de sua vida acontece no silêncio de Nazaré.
Poucas palavras.
Muita presença.
Isso pode ser uma escola para nós.
Nem tudo precisa ser mostrado
Vivemos numa cultura de exposição.
Fotografar.
Publicar.
Mostrar.
Comentar.
Maria nos lembra que algumas das maiores obras de Deus acontecem escondidas.
Durante meses, ninguém vê o mistério que cresce dentro dela.
Mas ali está acontecendo o acontecimento que mudará a história.
A fecundidade espiritual nem sempre é visível.
A vida escondida
Isso possui grande valor para a vida religiosa.
Nem todo serviço recebe reconhecimento.
Nem toda fidelidade aparece.
Nem toda oração produz resultados imediatamente visíveis.
Nem todo cuidado é percebido.
Mas Deus habita também naquilo que ninguém vê.
A vida escondida de Nazaré continua sendo uma grande escola de santidade.
Uma palavra para os idosos
Talvez essa verdade seja particularmente consoladora para nossos irmãos idosos.
Quando diminuem as atividades, pode surgir a sensação de inutilidade.
Mas a vida cristã não vale apenas pelo que produz.
Existe também a fecundidade da presença.
Um irmão que reza.
Que oferece sua fragilidade.
Que abençoa.
Que permanece unido a Cristo.
Pode ser uma presença profundamente fecunda dentro de uma comunidade.
Uma palavra para os jovens
E os jovens em formação precisam descobrir desde cedo:
a vocação não consiste simplesmente em fazer coisas para Deus.
Antes de tudo, significa permitir que Deus habite em nós.
Sem vida interior, o apostolado facilmente se transforma em ativismo.
Sem oração, o serviço perde sua fonte.
Sem Cristo, até uma obra religiosa pode tornar-se apenas uma organização.
Preparar espaço
Talvez esta invocação nos faça outra pergunta:
Que espaço Deus encontra dentro de mim?
Nosso coração pode estar ocupado por muitas coisas.
Projetos.
Preocupações.
Ressentimentos.
Desejos.
Ansiedades.
Planos.
Maria ensina a abrir espaço.
“Faça-se em mim.”
Tabernáculos vivos
Há ainda uma consequência profundamente concreta.
Se Deus deseja habitar nas pessoas, precisamos aprender a respeitar o mistério presente em cada ser humano.
Não podemos ajoelhar diante do tabernáculo e depois desprezar uma pessoa.
Não podemos adorar Cristo na Eucaristia e ignorá-lo no irmão necessitado.
A adoração verdadeira educa nosso olhar.
Junto às dores
Para nós, Servos de Maria, isso se torna ainda mais exigente.
Contemplamos Maria junto à Cruz.
Ali ela permanece diante do corpo ferido de Cristo.
Essa contemplação deve ajudar-nos a reconhecer Cristo nos corpos feridos da humanidade.
No enfermo.
No idoso.
No pobre.
No migrante.
No abandonado.
No irmão que sofre silenciosamente.
Levar Cristo conosco
Talvez possamos resumir toda esta invocação com a imagem da Visitação.
Maria parte levando Jesus.
Nós também somos enviados a fazer o mesmo.
Ao entrar num hospital.
Numa casa.
Numa sala de aula.
Numa comunidade.
Numa reunião.
Num encontro vocacional.
Numa visita pastoral.
A pergunta pode ser:
Estou levando Cristo comigo?
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação podemos perguntar:
Minha vida é um lugar onde Deus encontra espaço para habitar?
E também:
Quem se aproxima de mim encontra alguma coisa da presença de Cristo?
Não precisamos ser extraordinários.
Maria ensina a grandeza da simplicidade.
Às vezes basta uma presença verdadeiramente habitada por Deus.
Oração
Tabernáculo da eterna glória,
você acolheu em seu ventre
o Filho eterno do Pai
e levou sua presença
pelos caminhos deste mundo.
Ensine-nos a abrir espaço para Deus.
Quando nossa vida estiver cheia demais
de nós mesmos,
esvazie nosso coração.
Quando o ativismo nos afastar da oração,
conduza-nos novamente ao silêncio.
Quando recebermos Cristo na Eucaristia,
ensine-nos a guardá-lo
com reverência e gratidão.
E depois nos envie,
como você partiu para a casa de Isabel,
para levar Cristo aos outros.
Faça de nossas comunidades
verdadeiras moradas de Deus:
casas de oração,
fraternidade,
acolhida,
reconciliação
e serviço.
Abençoe nossos irmãos idosos
e faça-nos reconhecer
a fecundidade de sua presença e oração.
Ensine aos nossos jovens
que antes de fazer muitas coisas para Deus
é necessário deixar-se habitar por Ele.
A nós, Servos de Maria,
conceda a graça de levar Cristo conosco
a todas as dores humanas.
Que nossa presença nunca termine em nós mesmos.
Que quem nos encontrar
possa encontrar alguma coisa dele.
Que quem entrar em nossas casas
perceba que Cristo habita no meio de nós.
E que toda a nossa vida proclame silenciosamente:
“O Verbo se fez carne
e habitou entre nós.”
Tabernáculo da eterna glória, rogai por nós.
Para guardar no coração
Maria é Tabernáculo da eterna glória porque acolheu Cristo e o levou ao mundo. A vocação cristã continua esse movimento: acolher o Senhor, deixar-se habitar por Ele e levá-lo aos irmãos.
Fontes
Sagrada Escritura, especialmente Ex 40,34-38; Lc 1,26-45; Jo 1,14; Jo 14,23; 1Cor 3,16.
Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, especialmente nn. 52-53.
Catecismo da Igreja Católica, especialmente a doutrina sobre a Encarnação, Maria e a presença eucarística de Cristo.
Pietro Ansalone, SJ, Le Litanie Lauretane, segunda edição, Nápoles, 1858 — obra inspiradora da série.
Ladainha de Nossa Senhora, formulário português publicado pela Santa Sé.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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