Maria acolheu Cristo, Sabedoria eterna do Pai
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana prossegue com uma das mais antigas e belas imagens dirigidas à Mãe de Deus:
Trono da Sabedoria, rogai por nós.
Em latim:
Sedes Sapientiae.
Para compreender esta invocação, precisamos começar por uma verdade fundamental:
a Sabedoria não é Maria.
A Sabedoria é Cristo.
Maria é chamada Trono da Sabedoria porque acolheu em seu ventre, carregou nos braços e apresentou ao mundo Jesus Cristo, a Sabedoria eterna do Pai.
A Sabedoria tornou-se criança
Existe algo extraordinário nessa imagem.
Aquele por quem todas as coisas foram criadas torna-se pequeno.
O Verbo eterno assume nossa carne.
A Sabedoria de Deus aceita ser carregada nos braços de uma mulher.
Maria contempla um menino.
Mas a fé reconhece:
ali está o Filho eterno do Pai.
Por isso a iconografia cristã tantas vezes representa Maria sentada, trazendo Jesus sobre os joelhos.
Ela torna-se como que o trono vivo no qual repousa a Sabedoria encarnada.
Maria não ocupa o trono de Cristo
É importante perceber a delicadeza teológica dessa imagem.
Maria é o trono.
Cristo é aquele que está entronizado.
Maria sustenta.
Cristo reina.
Maria apresenta.
Cristo salva.
Maria acolhe.
Cristo é a Sabedoria.
Mais uma vez, a Ladainha não nos afasta de Jesus.
Ao contrário.
Quanto mais compreendemos o título mariano, mais claramente encontramos Cristo.
Antes de carregar Jesus nos braços, Maria o acolheu pela fé
Há, porém, uma dimensão ainda mais profunda.
Maria não acolheu Jesus apenas fisicamente.
Primeiro acolheu a Palavra.
Escutou.
Perguntou.
Confiou.
Respondeu:
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”
Antes de tornar-se trono para o corpo de Cristo, Maria tornou-se morada para sua Palavra.
Por isso sua sabedoria começa na escuta.
Um coração que escuta
A Bíblia possui uma bela expressão para definir a verdadeira sabedoria:
um coração que escuta.
Não basta acumular conhecimentos.
Podemos saber muitas coisas e continuar tomando decisões profundamente equivocadas.
A sabedoria cristã é mais do que informação.
É aprender a olhar a vida com os olhos de Deus.
Maria possui esse coração.
Ela escuta.
Guarda.
Medita.
Discerne.
“Maria guardava todas essas coisas”
São Lucas repete uma atitude característica da Mãe de Jesus:
Maria guardava todas essas coisas, meditando-as em seu coração.
Nem tudo era imediatamente compreensível.
O nascimento em Belém.
As palavras dos pastores.
A profecia de Simeão.
Jesus no Templo.
Maria não recebe respostas instantâneas para tudo.
Mas não abandona o mistério.
Guarda.
Essa atitude é profundamente sapiencial.
Nem tudo precisa ser compreendido imediatamente
Vivemos numa época que deseja respostas rápidas.
Queremos compreender.
Resolver.
Explicar.
Classificar.
Maria ensina outra atitude.
Existem acontecimentos que precisam primeiro ser guardados.
Uma palavra.
Uma experiência.
Uma dificuldade.
Uma mudança.
Uma perda.
Uma decisão.
Às vezes Deus revela lentamente o significado daquilo que estamos vivendo.
A sabedoria sabe esperar.
Conhecimento e sabedoria não são a mesma coisa
Podemos possuir títulos acadêmicos e não possuir sabedoria.
Podemos conhecer teologia e não saber perdoar.
Podemos conhecer as Constituições e não saber viver fraternalmente.
Podemos dominar a liturgia e tratar mal as pessoas.
Podemos falar sobre Maria e não aprender sua humildade.
O conhecimento é precioso.
Mas precisa tornar-se vida.
A verdadeira sabedoria pergunta:
Como aquilo que conheço transforma minha maneira de viver?
A sabedoria começa pela humildade
Existe uma tentação que acompanha o conhecimento:
o orgulho.
Quanto mais sabemos, mais facilmente podemos imaginar que já não precisamos escutar.
Maria apresenta outro caminho.
Ela é Sedes Sapientiae e continua dizendo:
“Eis aqui a serva do Senhor.”
A sabedoria cristã nunca nos torna superiores.
Torna-nos mais conscientes do mistério.
Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais percebemos quanto ainda precisamos aprender.
Uma palavra para a formação
Esta invocação é particularmente preciosa para a formação religiosa.
Formar não significa apenas transmitir conteúdos.
É necessário estudar.
Conhecer a Escritura.
A teologia.
A história da Ordem.
As Constituições.
A liturgia.
A espiritualidade.
Mas tudo isso precisa formar uma pessoa.
O conhecimento precisa descer:
da cabeça ao coração
e do coração à vida.
Caso contrário, teremos informação religiosa sem verdadeira formação espiritual.
Estudar aos pés da Sabedoria
Um jovem em formação pode rezar:
Trono da Sabedoria, rogai por nós.
Antes de estudar.
Antes de uma aula.
Antes de preparar um trabalho.
Antes de uma prova.
Mas essa oração não pede simplesmente boas notas.
Pede algo maior:
que aquilo que estudamos nos aproxime da verdade e nos transforme em pessoas melhores.
Uma palavra para os formadores
Também quem forma precisa desta invocação.
Porque conhecer livros não significa automaticamente conhecer pessoas.
Cada jovem possui uma história.
Um ritmo.
Dons.
Feridas.
Possibilidades.
Limites.
Não existe formação verdadeiramente cristã sem escuta.
O formador precisa de um coração sábio.
Sabedoria para governar
O mesmo vale para quem exerce autoridade.
Um prior não precisa apenas conhecer normas.
Precisa saber aplicá-las com sabedoria.
Uma mesma situação pode exigir firmeza.
Outra, paciência.
Outra, espera.
Outra, diálogo.
Outra, decisão.
Por isso, governar uma comunidade exige mais que inteligência administrativa.
Exige discernimento.
Sabedoria no Capítulo conventual
Esta invocação poderia acompanhar particularmente nossos Capítulos.
Antes das discussões.
Antes das decisões.
Antes das votações.
Antes de tratar questões delicadas.
Poderíamos pedir:
Trono da Sabedoria, rogai por nós.
Para que não procuremos simplesmente defender nossa posição.
Para que saibamos escutar.
Para que a experiência de um irmão complete a nossa.
Para que ninguém confunda firmeza com obstinação.
E para que juntos procuremos aquilo que serve melhor à fraternidade e à missão.
Sabedoria e silêncio
Maria também nos ensina que a sabedoria precisa de silêncio.
Não necessariamente ausência de sons.
Mas espaço interior.
Quem vive constantemente ocupado, reagindo e falando, pode perder a capacidade de perceber os movimentos mais delicados de Deus.
O silêncio cria espaço para a Palavra.
Maria guarda.
Medita.
Espera.
A sabedoria da Cruz
Mas a Sabedoria que Maria carrega nos braços em Belém será também o Crucificado do Calvário.
Isso muda completamente nossa ideia de sabedoria.
A sabedoria de Deus não é a lógica do poder.
É a lógica do amor que se entrega.
Maria, Sedes Sapientiae, precisará aprender também essa sabedoria difícil.
A criança de seus braços é o Filho que um dia verá na Cruz.
E ela permanecerá.
Para nós, Servos de Maria
Aqui encontramos novamente nossa vocação.
Servos de Maria não deveriam ser apenas pessoas que sabem sobre Maria.
Precisamos aprender com Maria.
Aprender a escutar.
Guardar.
Meditar.
Discernir.
Servir.
Permanecer.
E sobretudo aprender dela a acolher Cristo.
Tornar-nos também morada da Palavra
Existe uma consequência muito bonita desta invocação.
Maria foi morada da Sabedoria de maneira única.
Mas todo cristão é chamado a acolher Cristo.
Quando ouvimos a Palavra e a colocamos em prática, Cristo encontra espaço em nós.
Quando recebemos a Eucaristia, acolhemos aquele que Maria carregou em seu ventre.
Quando servimos um irmão, encontramos aquele que ela nos apresenta.
Assim, contemplar Maria como Trono da Sabedoria desperta uma pergunta:
Há espaço para Cristo em mim?
Comunidades onde Cristo possa habitar
Podemos ampliar a pergunta:
Nossa comunidade é um lugar onde Cristo encontra espaço?
Há espaço para sua Palavra?
Há espaço para oração?
Há espaço para silêncio?
Há espaço para os pobres?
Há espaço para os jovens?
Há espaço para os idosos?
Há espaço para quem pensa diferente?
Há espaço para o perdão?
Uma comunidade sábia não é aquela que possui respostas para tudo.
É aquela que mantém Cristo no centro.
A verdadeira sabedoria conduz ao amor
Bento XVI recordou que a verdadeira sabedoria se manifesta concretamente nas obras de misericórdia.
Isso é decisivo.
Se nossa sabedoria não nos torna mais capazes de amar, alguma coisa está faltando.
A sabedoria cristã possui mãos.
Visita.
Alimenta.
Acolhe.
Perdoa.
Ensina.
Cuida.
Serve.
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação podemos perguntar:
Estou procurando apenas saber mais ou estou permitindo que aquilo que conheço transforme minha vida?
Talvez tenhamos lido muitos livros.
Escutado muitas homilias.
Participado de muitos retiros.
Rezamos durante muitos anos.
A pergunta continua:
Tudo isso está me tornando mais semelhante a Cristo?
Essa é a sabedoria que importa.
Oração
Trono da Sabedoria,
você acolheu em seu ventre
Cristo, Sabedoria eterna do Pai.
Ensine-nos a acolher a Palavra
com um coração disponível.
Quando pensarmos que sabemos tudo,
dê-nos humildade para continuar aprendendo.
Quando não compreendermos
os acontecimentos de nossa vida,
ensine-nos a guardá-los no coração
e a esperar a luz de Deus.
Aos jovens em formação,
conceda amor pelo estudo
e desejo ainda maior pela verdade.
Aos formadores,
dê um coração capaz de escutar.
Aos que exercem autoridade,
conceda discernimento, prudência
e liberdade interior.
A nossas comunidades reunidas em Capítulo,
dê a sabedoria de procurar juntas
não a vitória de uma opinião,
mas a vontade de Deus.
A nós, Servos de Maria,
ensine a acolher Cristo
como você o acolheu.
Faça de nosso coração uma morada para sua Palavra
e de nossas comunidades lugares
onde a Sabedoria do Evangelho
possa tornar-se fraternidade,
compaixão e serviço.
E quando o conhecimento nos tornar orgulhosos,
recorde-nos que a verdadeira Sabedoria
se fez pequena,
foi colocada em seus braços
e entregou-se por amor na Cruz.
Trono da Sabedoria, rogai por nós.
Para guardar no coração
Maria é Trono da Sabedoria porque acolhe e apresenta Cristo. A verdadeira sabedoria cristã começa quando também nós damos espaço à Palavra de Deus e permitimos que ela transforme nossa maneira de viver.
Fontes
Catecismo da Igreja Católica, nn. 721-722.
São João Paulo II, celebração das Vésperas no Seminário São José, Yonkers, 6 de outubro de 1995.
Bento XVI, discurso aos estudantes das Universidades Pontifícias de Roma, 30 de outubro de 2008; Angelus, 6 de novembro de 2011.
Pietro Ansalone, SJ, Le Litanie Lauretane, segunda edição, Nápoles, 1858 — obra inspiradora da série.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu comentário: sua colaboração edificará tantas almas sedentas de Deus e nos fará cada vez mais servos uns dos outros.