Maria reflete a beleza de Deus
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
Depois de invocarmos Maria como Virgem fiel, a Ladainha Lauretana muda sua linguagem.
Começam agora imagens.
Símbolos.
Figuras que procuram dizer alguma coisa do mistério de Maria.
A primeira delas é:
Espelho de justiça, rogai por nós.
À primeira vista, a expressão pode parecer estranha.
Por que chamar Maria de espelho?
E por que espelho de justiça?
A imagem é muito mais profunda do que parece.
O espelho não produz a luz
Um espelho possui uma característica muito simples:
não produz a luz que reflete.
Recebe a luz.
E a devolve.
Essa imagem ajuda-nos a compreender Maria.
Tudo aquilo que admiramos nela vem de Deus.
Sua santidade.
Sua graça.
Sua fé.
Sua beleza interior.
Sua fidelidade.
Maria não é a fonte da graça.
Deus é a fonte.
Ela é a criatura que acolheu de maneira singular a ação de Deus.
Por isso, contemplá-la é perceber refletida nela alguma coisa da beleza daquele que a criou.
Maria não guarda a luz para si
Existe aqui uma característica fundamental da verdadeira espiritualidade mariana.
Maria nunca nos prende a si mesma.
Na Anunciação, responde à Palavra de Deus.
No Magnificat, proclama:
“Minha alma engrandece o Senhor.”
Em Caná, diz:
“Fazei tudo o que Ele vos disser.”
Sua vida inteira aponta para outro.
Para Deus.
Para Cristo.
Como um espelho que recebe a luz, Maria reflete aquilo que recebeu.
Mas o que significa “justiça”?
Quando ouvimos a palavra justiça, talvez pensemos imediatamente em tribunais, leis, direitos e deveres.
Tudo isso possui importância.
Mas a linguagem bíblica é mais ampla.
Ser justo significa viver numa relação correta com Deus e, consequentemente, com os outros.
É permitir que nossa vida se ajuste à vontade de Deus.
Nesse sentido, justiça aproxima-se de:
santidade,
retidão,
fidelidade,
obediência à vontade de Deus.
Maria é chamada Espelho de justiça porque sua existência reflete essa profunda conformidade com Deus.
“Faça-se em mim”
Talvez nenhuma palavra revele isso melhor que a resposta da Anunciação:
“Faça-se em mim segundo a tua palavra.”
Maria ajusta sua vontade à Palavra recebida.
Não porque tenha perdido sua liberdade.
Exatamente o contrário.
Sua liberdade encontra sua realização mais profunda quando se abre livremente ao projeto de Deus.
Aqui encontramos o coração da justiça bíblica:
uma vida colocada em harmonia com a vontade divina.
Um espelho precisa estar voltado para a luz
Existe uma imagem que pode ajudar nossa oração.
Para refletir a luz, o espelho precisa estar voltado para ela.
Maria vive voltada para Deus.
Escuta.
Guarda.
Medita.
Pergunta.
Confia.
Serve.
Permanece.
Por isso sua vida se torna luminosa.
Talvez aqui esteja também um segredo para nossa vida espiritual.
Não precisamos produzir a santidade por nossas próprias forças.
Precisamos voltar-nos continuamente para Deus.
Aquilo que contemplamos começa a nos transformar
Existe ainda outro aspecto da imagem.
Quando olhamos para um espelho, também encontramos nossa própria imagem.
Contemplar Maria não significa apenas descobrir quem ela é.
Pode ajudar-nos a perceber quem nós somos chamados a ser.
Diante de sua fé, percebemos nossa falta de confiança.
Diante de sua humildade, reconhecemos nosso orgulho.
Diante de sua disponibilidade, percebemos nossas resistências.
Diante de sua fidelidade, reconhecemos nossas inconstâncias.
Maria não nos humilha.
Mostra-nos uma possibilidade.
Mostra aquilo que a graça pode realizar numa criatura.
Espelho da Igreja
Existe uma dimensão ainda maior.
Maria não é somente modelo de cada cristão individualmente.
É também imagem da Igreja.
A Igreja olha para Maria e contempla aquilo que deseja tornar-se:
fiel à Palavra,
inteiramente de Cristo,
santa,
servidora,
materna,
compassiva,
perseverante junto à Cruz.
Aquilo que contemplamos realizado singularmente em Maria torna-se também uma vocação para toda a comunidade cristã.
Para nós, Servos de Maria
Essa imagem possui uma força especial para nossa vocação servita.
Nós carregamos Maria no próprio nome:
Servos de Maria.
Mas isso provoca uma pergunta:
O que as pessoas enxergam quando olham para nossa vida?
Porque nós também somos chamados a refletir alguma coisa.
Não a nós mesmos.
Não nossa importância.
Não nossas obras.
Mas Cristo.
Uma comunidade também pode ser espelho
Uma comunidade religiosa pode perguntar:
O que estamos refletindo?
Quando alguém entra em nossa casa, encontra fraternidade?
Quando um jovem se aproxima, encontra esperança?
Quando um pobre bate à porta, encontra acolhida?
Quando um irmão envelhece, encontra cuidado?
Quando alguém erra, encontra verdade acompanhada de misericórdia?
Quando existem diferenças, encontra diálogo?
Nossas comunidades também deveriam tornar-se, humildemente, espelhos do Evangelho.
Quando o espelho fica embaçado
Mas sabemos que nem sempre refletimos bem.
O egoísmo embaça.
O ressentimento embaça.
A vaidade embaça.
A busca de poder embaça.
A indiferença embaça.
A rotina espiritual embaça.
O pecado não destrói nossa vocação, mas pode obscurecer aquilo que deveríamos refletir.
Por isso precisamos continuamente de conversão.
Conversão é deixar Deus limpar o espelho
Talvez possamos compreender o sacramento da Reconciliação também por meio dessa imagem.
Deus não nos descarta porque o espelho ficou manchado.
Purifica.
Perdoa.
Restaura.
Devolve transparência.
A vida espiritual não consiste em fingir que nunca possuímos manchas.
Consiste em permitir que a misericórdia de Deus nos purifique continuamente.
Justiça e misericórdia
Existe um ponto muito importante.
A justiça de Deus não pode ser transformada em dureza.
O Evangelho mostra que justiça e misericórdia não são inimigas.
Por isso, refletir a justiça de Deus significa também aprender a tratar cada pessoa segundo sua dignidade.
Não favorecer alguns por amizade.
Não condenar alguém por antipatia.
Não utilizar uma função para benefício próprio.
Não julgar precipitadamente.
Escutar antes de decidir.
Buscar a verdade.
Proteger os frágeis.
Corrigir com caridade.
Uma palavra para quem exerce autoridade
Espelho de justiça é uma invocação particularmente apropriada para quem recebeu responsabilidades.
Prior.
Superior.
Formador.
Pároco.
Conselheiro.
Administrador.
Quanto maior a responsabilidade, maior a necessidade de imparcialidade.
A autoridade cristã não pode funcionar segundo:
“gosto deste”,
“não gosto daquele”,
“este concorda comigo”,
“aquele me contrariou”.
A justiça exige liberdade interior.
Justiça na vida comunitária
Também nas pequenas coisas.
Divisão de tarefas.
Uso dos bens.
Horários.
Responsabilidades.
Oportunidades de estudo.
Cuidados de saúde.
Atenção aos idosos.
Acompanhamento dos jovens.
A justiça aparece quando não pensamos apenas:
“O que é melhor para mim?”
Mas:
“O que é justo para todos?”
Maria diante das injustiças do mundo
O Magnificat mostra ainda que Maria não possui uma espiritualidade desligada da história.
Ela canta um Deus que olha para os humildes.
Que derruba os poderosos.
Que eleva os pequenos.
Que sacia os famintos.
Que permanece fiel à sua misericórdia.
Portanto, contemplar Maria como Espelho de justiça também deve educar nosso olhar para aqueles cuja dignidade é ferida.
Servos junto aos pequenos
Para nós, Servos de Maria, isso possui consequências.
A devoção mariana não pode limitar-se ao interior de nossas igrejas.
A Mãe que canta o Magnificat leva-nos ao encontro:
dos pobres,
dos migrantes,
dos enfermos,
dos idosos,
dos esquecidos,
dos que sofrem injustiça,
dos que não possuem voz.
Se contemplamos Maria e não aprendemos a perceber os pequenos, alguma coisa ainda falta em nossa contemplação.
Refletir Cristo
Mas existe uma verdade ainda mais profunda.
Maria não é o ponto final.
A luz que nela contemplamos é a luz de Deus.
Por isso, o objetivo da vida cristã não é simplesmente tornar-nos semelhantes a Maria.
É, com Maria, tornar-nos cada vez mais semelhantes a Cristo.
Ela é o espelho porque vive inteiramente voltada para Ele.
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação podemos perguntar:
O que minha vida está refletindo?
Quando as pessoas convivem comigo, percebem:
paz?
misericórdia?
justiça?
acolhida?
verdade?
serviço?
Ou encontram principalmente minha irritação, minhas opiniões, minhas exigências e meu desejo de reconhecimento?
É uma pergunta exigente.
Mas talvez seja exatamente essa a graça desta invocação.
Oração
Espelho de justiça,
você viveu inteiramente voltada para Deus
e refletiu em sua vida
a beleza de sua graça.
Ensine-nos a fazer o mesmo.
Quando nosso coração estiver embaçado
pelo egoísmo ou pelo ressentimento,
conduza-nos à misericórdia de Deus.
Quando precisarmos tomar decisões,
dê-nos liberdade para procurar
não nossa vantagem,
mas aquilo que é verdadeiro e justo.
Aos que exercem autoridade,
conceda imparcialidade e sabedoria.
Aos formadores,
dê um olhar capaz de reconhecer
a verdade de cada pessoa.
Às nossas comunidades,
conceda relações marcadas
pela justiça, pela misericórdia
e pelo respeito à dignidade de todos.
Faça-nos atentos aos pobres,
aos enfermos, aos migrantes,
aos idosos e a todos aqueles
cuja dignidade é ferida.
E a nós, Servos de Maria,
conceda a graça de viver
de tal maneira voltados para Cristo
que alguma coisa da luz dele
possa refletir-se também em nós.
Que diminuamos,
para que Ele apareça.
Que sirvamos,
para que Ele seja encontrado.
Que nossa vida seja um pequeno espelho
da misericórdia e da justiça de Deus.
Espelho de justiça, rogai por nós.
Para guardar no coração
Maria é Espelho de justiça porque não produz a luz que contemplamos nela: recebe-a de Deus e a reflete com extraordinária transparência. Também nós somos chamados a viver voltados para Cristo até que alguma coisa de sua luz apareça em nossa vida.
Fontes
Sagrada Escritura, especialmente Lc 1,26-55; Lc 2,19.51; Jo 2,5.
São Paulo VI, Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição, 8 de dezembro de 1975.
Papa Francisco, discursos por ocasião da abertura dos anos judiciários da Rota Romana e do Tribunal do Estado da Cidade do Vaticano, 2024.
Pietro Ansalone, SJ, Le Litanie Lauretane, segunda edição, Nápoles, 1858 — obra inspiradora da série.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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