Maria, Mãe no caminho dos que deixam sua terra
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana prossegue:
Socorro dos migrantes, rogai por nós.
Esta invocação possui uma história recente.
Em 2020, o Papa Francisco determinou que fossem acrescentadas à Ladainha Lauretana três invocações:
Mãe da misericórdia,
Mãe da esperança
e Socorro dos migrantes.
A Igreja colocou, assim, nos lábios dos fiéis uma oração que nasce de uma das grandes realidades humanas de nosso tempo:
milhões de pessoas em caminho.
Homens.
Mulheres.
Crianças.
Famílias inteiras.
Alguns partem procurando trabalho.
Outros fogem da violência.
Da perseguição.
Da fome.
Da guerra.
De desastres.
Outros simplesmente procuram a possibilidade de construir uma vida digna.
E a Igreja reza:
Socorro dos migrantes, rogai por nós.
Maria também conheceu o caminho
Este título não foi simplesmente acrescentado porque a migração se tornou um tema contemporâneo.
Existe uma profunda raiz evangélica.
Maria também conheceu o que significa deixar sua casa.
Viajar.
Não encontrar lugar.
Partir às pressas.
Viver em terra estrangeira.
O Evangelho de Mateus conta que, depois da visita dos Magos, um anjo apareceu em sonho a José e disse:
“Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egito.”
Não era uma viagem planejada.
Era uma fuga.
Herodes procurava o Menino
A família precisava partir porque Jesus estava ameaçado.
Francisco recordou uma coisa importante:
a fuga da Sagrada Família para o Egito não foi resultado de uma decisão livre.
Foi provocada pela violência de Herodes.
Também hoje muitas pessoas não deixam sua terra porque simplesmente desejam viajar.
Partem porque ficar se tornou perigoso ou impossível.
Uma família obrigada a fugir
Podemos imaginar a cena.
José precisa tomar uma decisão rapidamente.
Maria recebe novamente o Menino nos braços.
Algumas coisas são preparadas.
Outras ficam para trás.
E começam a caminhar.
Não sabem exatamente como serão os próximos dias.
Precisam atravessar fronteiras.
Precisam encontrar abrigo.
Precisam viver numa terra que não é a sua.
Deus tornou-se refugiado
Há algo profundamente desconcertante nesse mistério.
O Filho de Deus entra na história e conhece também a condição daquele que precisa fugir.
Jesus não observa a experiência do migrante apenas de longe.
A Sagrada Família experimenta o deslocamento.
O medo.
A insegurança.
A necessidade de acolhida.
Maria sabe o que significa partir
Por isso, quando um migrante reza:
“Socorro dos migrantes, rogai por nós”,
não se dirige a uma Mãe distante dessa experiência.
Maria sabe o que significa colocar-se a caminho.
Sabe o que significa proteger uma criança durante uma viagem incerta.
Sabe o que significa viver longe de casa.
A estrada atravessa a vida de Maria
Se olharmos atentamente para o Evangelho, perceberemos que Maria está frequentemente a caminho.
Vai visitar Isabel.
Viaja para Belém.
Foge para o Egito.
Retorna.
Vai a Jerusalém.
Acompanha Jesus.
Está no caminho do Calvário.
Maria não é uma figura imóvel.
É uma mulher que caminha.
A fé também é caminho
Talvez isso nos ajude a compreender algo sobre nossa própria vida.
Todos somos peregrinos.
Podemos possuir uma casa.
Uma comunidade.
Uma missão.
Mas nenhuma dessas realidades é definitiva.
Estamos a caminho.
A Carta aos Hebreus recorda que não temos aqui cidade permanente.
Procuramos aquela que há de vir.
O migrante recorda uma verdade que esquecemos
Quem deixa sua terra carrega frequentemente poucas coisas.
Documentos.
Algumas roupas.
Fotografias.
Um telefone.
Lembranças.
E muita esperança.
Essa realidade pode recordar-nos que não conseguimos carregar tudo conosco.
A vida é passagem.
Mas não podemos romantizar a migração
Ao mesmo tempo, precisamos ter cuidado.
A experiência migratória pode ser enriquecedora.
Pode abrir oportunidades.
Pode favorecer encontros entre povos e culturas.
Mas a migração forçada traz também enorme sofrimento.
Não devemos transformar a dor concreta das pessoas numa simples metáfora espiritual.
Há quem parta porque não possui outra alternativa.
O direito de permanecer
Francisco insiste numa dimensão importante:
as pessoas deveriam possuir também a liberdade de não precisar emigrar.
Ninguém deveria ser obrigado a abandonar sua terra porque nela já não consegue viver em segurança e dignidade.
Por isso, a pastoral dos migrantes não começa apenas na chegada.
Também exige trabalhar por condições humanas que permitam às pessoas viver dignamente em sua própria terra.
Quem chega possui um nome
Existe um risco quando falamos sobre migração.
Começamos a falar apenas em números.
Fluxos.
Percentuais.
Fronteiras.
Estatísticas.
Mas atrás de cada número existe uma pessoa.
Um nome.
Uma família.
Uma história.
Jesus também teve um nome
A família que atravessou a fronteira para o Egito não era uma estatística.
Era:
Jesus, Maria e José.
Isso muda nosso olhar.
O migrante não é primeiramente um problema a ser resolvido.
É uma pessoa a ser reconhecida em sua dignidade.
“Era estrangeiro e me acolhestes”
Jesus leva essa realidade ainda mais longe.
No Evangelho de Mateus, identifica-se com o estrangeiro:
“Era estrangeiro e me acolhestes.”
Não diz apenas:
“Vocês ajudaram alguém.”
Diz:
“Foi a mim que o fizestes.”
A acolhida torna-se lugar de encontro com Cristo.
Reconhecer o rosto de Cristo
Francisco pediu que Maria, Solacium migrantium, nos ajude a reconhecer o rosto de seu Filho nos irmãos e irmãs obrigados a fugir de sua terra.
Essa é talvez a chave espiritual desta invocação.
O rosto do migrante pode tornar-se lugar teológico.
Lugar de encontro.
Lugar onde Cristo nos espera.
Acolher não é apenas abrir uma porta
A Igreja costuma resumir sua resposta aos migrantes em quatro verbos:
acolher, proteger, promover e integrar.
São quatro movimentos importantes.
Acolher é o começo.
Mas não basta.
Proteger
O migrante pode tornar-se particularmente vulnerável.
Pode sofrer exploração.
Trabalho indigno.
Tráfico humano.
Violência.
Discriminação.
Abuso.
Acolher cristãmente significa também defender sua dignidade.
Promover
A pessoa migrante não quer permanecer eternamente dependente.
Possui capacidades.
Profissão.
Experiência.
Sonhos.
Dons.
Promover significa ajudar para que possa desenvolver sua própria vida e contribuir para a sociedade que a recebe.
Integrar
Integrar não significa apagar a identidade de quem chega.
Uma pessoa traz consigo:
uma língua,
uma cultura,
uma história,
uma culinária,
uma maneira de rezar,
uma memória familiar.
O encontro verdadeiro permite que todos sejam enriquecidos.
A Igreja conhece muitas línguas
Pentecostes oferece uma imagem muito bonita.
Pessoas de diferentes povos escutam o anúncio do Evangelho.
As línguas não desaparecem.
Mas todos conseguem compreender as maravilhas de Deus.
A Igreja não precisa transformar todos em iguais.
Sua unidade é comunhão na diversidade.
Uma palavra para nossas comunidades
Também nossas comunidades religiosas conhecem cada vez mais essa realidade.
Irmãos de países diferentes.
Culturas diferentes.
Línguas diferentes.
Formas diferentes de compreender horários, alimentação, autoridade, silêncio, convivência e expressão dos sentimentos.
Isso pode provocar dificuldades.
Mas também pode tornar-se uma enorme riqueza.
A interculturalidade exige conversão
Não basta colocar pessoas de culturas diferentes na mesma casa.
Isso é apenas convivência multicultural.
A verdadeira interculturalidade exige algo mais.
Escutar.
Aprender.
Perguntar.
Renunciar à ideia de que nossa própria maneira de fazer as coisas é necessariamente a única correta.
A família servita não possui uma única nacionalidade
Nossa Ordem nasceu num lugar concreto.
Florença.
Mas o carisma não pertence a um único povo.
Hoje os Servos de Maria vivem em diferentes países e culturas.
Isso significa que o carisma precisa encontrar expressão em muitos rostos.
Muitas línguas.
Muitas maneiras de viver.
Sem perder sua identidade fundamental.
Brasileiros e moçambicanos
Essa experiência torna-se muito concreta quando irmãos brasileiros e moçambicanos vivem, estudam e trabalham juntos.
Não se trata simplesmente de um irmão estrangeiro adaptar-se a uma cultura dominante.
Todos precisam aprender.
Todos possuem algo a oferecer.
Todos precisam fazer algum caminho.
A fraternidade torna-se escola de interculturalidade.
A formação possui uma responsabilidade especial
Os jovens em formação precisam ser preparados para uma Ordem internacional.
Talvez sejam enviados para outro país.
Talvez precisem aprender outra língua.
Talvez vivam com irmãos de culturas muito diferentes.
Por isso, aprender a acolher diferenças faz parte da própria formação religiosa.
O estrangeiro pode revelar algo sobre nós
Quando alguém de outra cultura chega, começamos a perceber costumes que antes considerávamos naturais.
Descobrimos que aquilo que julgávamos “normal” era, algumas vezes, apenas nosso modo de fazer.
O encontro com o outro amplia nossa visão.
Maria em terra estrangeira
Podemos imaginar Maria no Egito.
Outra cultura.
Outros costumes.
Talvez outra língua.
Ela precisa aprender a viver num lugar que não havia escolhido.
Essa imagem aproxima Maria de tantas mães migrantes.
As mães migrantes
Há mulheres que atravessam fronteiras carregando crianças.
Preocupam-se com alimentação.
Moradia.
Escola.
Documentação.
Saúde.
Futuro.
Talvez compreendam de maneira particularmente profunda esta invocação:
Socorro dos migrantes, rogai por nós.
As crianças
As crianças migrantes merecem atenção especial.
Algumas adaptam-se rapidamente.
Aprendem a língua.
Fazem amizades.
Mas podem carregar também perdas profundas.
Deixaram avós.
Amigos.
Casa.
Escola.
Paisagens.
Cheiros.
Costumes.
Acolher uma criança significa também respeitar sua memória.
Os idosos migrantes
Também existem idosos que migram.
Às vezes para acompanhar os filhos.
Às vezes porque já não possuem ninguém em sua terra.
Para eles, a adaptação pode ser ainda mais difícil.
A língua é mais complicada.
Os vínculos são menores.
A saudade pode ser profunda.
Uma comunidade cristã pode tornar-se uma nova família.
Migração e vocação religiosa
Existe também uma espécie particular de migração na vida religiosa.
O religioso deixa sua casa.
Sua família.
Sua cidade.
Às vezes seu país.
Não porque despreze suas raízes.
Mas porque responde a uma missão.
Essa disponibilidade precisa ser vivida com liberdade e maturidade.
Partir não significa deixar de pertencer
Maria deixa Nazaré.
Mas não perde sua identidade.
Também o migrante leva consigo sua história.
A verdadeira acolhida não exige que alguém apague suas raízes.
Ajuda-o a criar novas raízes sem destruir as antigas.
Uma palavra para quem recebe
Talvez devêssemos perguntar:
Como reagimos quando chega alguém diferente?
Com curiosidade?
Com medo?
Com suspeita?
Com indiferença?
Com acolhida?
A hospitalidade cristã começa quando deixamos de perguntar apenas:
“De onde você veio?”
e começamos a perguntar:
“Qual é sua história?”
Escutar antes de julgar
Nem toda migração possui a mesma causa.
Existem situações muito diferentes.
Por isso precisamos evitar generalizações.
Cada pessoa possui uma história concreta.
Escutar é o primeiro gesto de acolhida.
O Bom Samaritano
A parábola do Bom Samaritano oferece aqui uma luz.
O homem caído na estrada não apresenta documentos.
Não explica sua origem.
Não prova que merece ajuda.
O samaritano vê uma pessoa ferida.
E aproxima-se.
A compaixão começa pela proximidade
Talvez essa seja uma palavra profundamente servita.
Proximidade.
Nossa espiritualidade das Dores de Maria deveria tornar-nos atentos às dores concretas das pessoas.
Não apenas às grandes questões abstratas.
Mas à pessoa que está diante de nós.
Para nós, Servos de Maria
Nossa Senhora das Dores ensina-nos a permanecer junto às cruzes.
A migração forçada produz muitas cruzes:
a separação,
a saudade,
a insegurança,
a discriminação,
a exploração,
o medo,
a solidão.
Nossa presença pode ajudar alguém a carregar uma dessas cruzes.
A paróquia como casa
Uma paróquia pode tornar-se um dos primeiros lugares onde um migrante encontra pertencimento.
Talvez ainda não conheça muitas pessoas.
Mas encontra uma igreja.
Uma Missa.
Uma comunidade.
Uma imagem de Nossa Senhora.
Uma oração conhecida.
De repente, em terra estrangeira, alguma coisa se torna familiar.
A catolicidade torna-se concreta
A palavra católica significa universal.
Essa universalidade não é apenas uma ideia.
Torna-se concreta quando pessoas de diferentes povos rezam juntas:
Pai nosso.
Talvez com sotaques diferentes.
Mas dirigindo-se ao mesmo Pai.
Hospitalidade e prudência
Acolher não significa ignorar toda necessidade de organização, legislação ou discernimento.
Sociedades possuem responsabilidades complexas.
Mas para o discípulo de Cristo existe um princípio que nunca pode desaparecer:
a dignidade humana vem primeiro.
Nenhuma pessoa deixa de possuir dignidade porque atravessou uma fronteira.
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação podemos perguntar:
Como olho para quem vem de outro lugar?
Como ameaça?
Como estranho?
Como número?
Ou como pessoa?
E depois:
Existe alguém perto de mim que está longe de sua terra e precisa sentir-se acolhido?
Talvez a acolhida seja simples
Nem sempre precisamos realizar algo extraordinário.
Às vezes basta:
aprender o nome,
perguntar pela família,
ajudar numa informação,
oferecer uma refeição,
explicar como funciona alguma coisa,
escutar,
convidar,
rezar juntos.
A hospitalidade começa em pequenos gestos.
Também nós somos peregrinos
No final, a presença do migrante recorda-nos uma verdade espiritual:
todos estamos a caminho.
Nenhuma casa terrestre é definitiva.
Nenhuma função.
Nenhum cargo.
Nenhum convento.
Nenhuma cidade.
Nossa pátria definitiva está em Deus.
Maria caminha conosco
Aquela que caminhou para Isabel,
para Belém,
para o Egito,
para Jerusalém,
para o Calvário,
continua sendo invocada pela Igreja como companheira daqueles que caminham.
Por isso rezamos:
Socorro dos migrantes, rogai por nós.
Oração
Socorro dos migrantes,
Mãe que conheceu o caminho,
a partida,
a insegurança
e a terra estrangeira,
acompanhe todos aqueles
que vivem longe de sua casa.
Proteja os que fogem
da guerra,
da perseguição,
da violência,
da fome
e de toda situação
que ameaça sua dignidade.
Guarde as crianças migrantes.
Sustente as mães e os pais
que carregam a preocupação
pelo futuro de seus filhos.
Conforte os idosos
que sentem saudade
de sua terra e de sua história.
Proteja aqueles que viajam
por caminhos perigosos.
Livre-os da exploração,
do tráfico,
da violência
e de toda forma de escravidão.
Abençoe aqueles que os acolhem.
Faça de nossas paróquias
e comunidades religiosas
casas onde o estrangeiro
possa encontrar irmãos.
Ensine-nos a acolher,
proteger,
promover
e integrar.
Aos nossos jovens em formação,
dê um coração aberto
às diferentes culturas.
À nossa Família Servita,
espalhada entre povos e nações,
conceda a graça da verdadeira fraternidade intercultural.
Que brasileiros,
moçambicanos
e irmãos de todas as nações
não sejam apenas pessoas
que vivem sob o mesmo teto,
mas verdadeiros irmãos.
Livre-nos do preconceito,
da indiferença
e do medo do diferente.
Ensine-nos a escutar
antes de julgar.
A nós, Servos de Maria,
dê olhos capazes de reconhecer
as dores escondidas
de quem deixou sua terra.
E quando encontrarmos
um estrangeiro em nosso caminho,
ajude-nos a reconhecer nele
o rosto de Jesus,
que também conheceu com você
a condição de refugiado.
Maria, companheira dos caminhos,
caminhe com aqueles que partem.
Sustente aqueles que chegam.
Console aqueles que sentem saudade.
E faça de nós
uma família onde ninguém
seja estrangeiro.
Socorro dos migrantes, rogai por nós.
Para guardar no coração
Maria é Socorro dos migrantes porque também conheceu o caminho, a fuga e a terra estrangeira. Invocá-la exige mais que devoção: pede-nos olhos capazes de reconhecer no migrante uma pessoa, uma história e, à luz do Evangelho, o próprio Cristo que deseja ser acolhido.
Fontes
Sagrada Escritura, especialmente Ex 22,20; Lv 19,33-34; Mt 2,13-23; Mt 25,31-46; Lc 1,39-56; Hb 13,1-2.
Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Carta aos Presidentes das Conferências Episcopais sobre as invocações Mater misericordiae, Mater spei e Solacium migrantium, 20 de junho de 2020.
Papa Francisco, Mensagens para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, especialmente 2014, 2015, 2018, 2020 e 2023.
Papa Francisco, Homilia no aniversário da visita a Lampedusa, 8 de julho de 2020.
Pio XII, Constituição Apostólica Exsul Familia, 1º de agosto de 1952.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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