Maria permanece junto de nossas dores
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana prossegue:
Consoladora dos aflitos, rogai por nós.
Talvez nenhuma invocação desta parte da Ladainha esteja tão próxima da espiritualidade dos Servos de Maria.
Aflitos.
É uma palavra que pode incluir muitas pessoas.
Quem perdeu alguém.
Quem recebeu uma notícia difícil.
Quem atravessa uma crise familiar.
Quem está sozinho.
Quem não sabe como resolver um problema.
Quem sofre por um filho.
Quem enfrenta uma enfermidade.
Quem perdeu o trabalho.
Quem atravessa uma crise de fé ou de vocação.
Quem simplesmente chegou ao limite das próprias forças.
Para todos eles, a Igreja reza:
Consoladora dos aflitos, rogai por nós.
De onde vem a consolação?
Antes de falar de Maria, precisamos novamente começar por Deus.
São Paulo chama o Senhor de:
“Pai das misericórdias e Deus de toda consolação.”
A fonte da consolação é Deus.
Maria não ocupa o lugar do Espírito Santo, que Jesus chama de Consolador.
Também não substitui Cristo.
Ela é Mãe e discípula.
Recebe de Deus e conduz a Deus.
Por isso, quando a chamamos Consoladora dos aflitos, reconhecemos nela uma presença materna que nos acompanha até a verdadeira fonte da consolação.
Maria conhece a aflição
Maria pode acompanhar quem sofre porque sua história não foi protegida da dor.
Simeão lhe anuncia:
“Uma espada traspassará a tua alma.”
Pouco depois, precisa fugir com José e o Menino para o Egito.
Mais tarde conhece a angústia de procurar Jesus.
E finalmente chega ao Calvário.
A mulher que a Igreja chama Consoladora dos aflitos é também aquela que conhecemos como:
Nossa Senhora das Dores.
“Junto à Cruz estava sua Mãe”
Para nós, Servos de Maria, tudo converge para esta cena.
Maria junto à Cruz.
Ela não está distante.
Não observa de longe.
Não foge.
Permanece.
Essa talvez seja a primeira grande lição sobre a consolação cristã:
consolar começa por permanecer.
Nem toda dor precisa imediatamente de palavras
Diante de alguém que sofre, sentimos frequentemente necessidade de dizer alguma coisa.
Queremos explicar.
Dar uma resposta.
Encontrar uma frase religiosa.
Mas algumas dores são grandes demais para explicações rápidas.
Maria ensina outra linguagem.
A presença.
Estar
Há momentos em que a palavra mais importante do Evangelho poderia ser simplesmente:
estar.
Estar junto ao enfermo.
Estar com quem perdeu alguém.
Estar ao lado de um irmão em crise.
Estar próximo de uma família que sofre.
Estar sem tentar ocupar o lugar da dor do outro.
Maria estava.
Consolar não é explicar
Precisamos distinguir essas coisas.
Consolar não significa possuir uma explicação para o sofrimento.
Nem sempre sabemos por que determinada coisa aconteceu.
A fé não nos obriga a fabricar respostas.
Consolar significa ajudar alguém a não atravessar sozinho aquilo que está vivendo.
“Eu estou com você”
Talvez esta seja uma das frases mais consoladoras que podemos oferecer:
“Eu estou com você.”
Não:
“Eu sei exatamente o que você sente.”
Porque talvez não saibamos.
Não:
“Isso vai passar rapidamente.”
Porque talvez não passe.
Mas:
“Você não precisa atravessar isso sozinho.”
Maria não retira a Cruz
No Calvário, Maria não consegue retirar Jesus da Cruz.
Isso é importante.
Sua presença não elimina imediatamente o sofrimento.
Mas impede que o sofrimento seja vivido sem amor.
Também nós nem sempre conseguiremos resolver a situação de alguém.
Mas podemos impedir que aquela pessoa fique completamente sozinha.
A consolação de Deus passa por pessoas
São Paulo diz algo muito bonito:
Deus nos consola em nossas tribulações para que também nós possamos consolar aqueles que sofrem.
Portanto, a consolação recebida transforma-se em missão.
Quem foi consolado aprende a consolar.
Nossas próprias feridas podem tornar-se escola
Às vezes uma experiência dolorosa torna-nos mais sensíveis à dor dos outros.
Quem viveu um luto pode compreender melhor o silêncio de quem perdeu alguém.
Quem enfrentou uma enfermidade talvez visite um enfermo de maneira diferente.
Quem conheceu uma crise pode tornar-se menos apressado ao julgar.
Isso não torna o sofrimento bom.
Mas mostra que Deus pode fazer nascer compaixão até de nossas feridas.
Não desperdiçar a dor
A dor pode fechar-nos.
Mas também pode aprofundar-nos.
Pode tornar-nos amargos.
Ou mais humanos.
Não escolhemos muitas das dores que chegam.
Mas, com a graça de Deus, podemos escolher o que permitiremos que elas façam conosco.
Maria não deixa que a dor destrua sua capacidade de amar.
Nossa Senhora das Dores
Aqui tocamos diretamente o coração da espiritualidade servita.
Contemplamos Maria nas dores não porque desejamos permanecer presos ao sofrimento.
Contemplamos aquela que permanece fiel dentro do sofrimento.
A espada atravessa sua alma.
Mas não destrói sua fé.
Não destrói sua maternidade.
Não destrói sua capacidade de permanecer.
A compaixão
A palavra compaixão significa, de certo modo:
sofrer com.
Não observar a dor de fora.
Aproximar-se.
Nossa Ordem recebeu uma particular sensibilidade para esta dimensão.
Estar com Maria junto às infinitas cruzes onde Cristo continua sofrendo em seus irmãos.
Onde estão essas cruzes?
Estão muito perto.
Num hospital.
Num quarto de convento.
Numa família em conflito.
Na solidão de um idoso.
No desemprego.
Na dependência.
No luto.
Na depressão e em outras formas de sofrimento psíquico.
Na migração forçada.
Na pobreza.
Na violência.
Há muitos Calvários.
O hábito não basta
Usar o hábito dos Servos de Maria é um sinal bonito.
Mas ele precisa corresponder a uma maneira de viver.
Se somos Servos da Mãe das Dores, deveríamos ser homens capazes de perceber a dor.
Não apenas a dor evidente.
Também aquela que alguém tenta esconder.
Perguntar
Às vezes começa com uma pergunta simples:
“Como você está?”
Mas feita de verdade.
Não como saudação automática.
E depois precisamos estar preparados para escutar a resposta.
Escutar é uma forma de consolação
Muitas pessoas não precisam primeiramente de conselhos.
Precisam contar sua história.
Ser escutadas sem interrupção.
Sem julgamento imediato.
Sem transformar a conversa numa história sobre nós mesmos.
Escutar pode ser uma grande obra de misericórdia.
O silêncio
Também existe o silêncio que consola.
Não o silêncio da indiferença.
Mas o silêncio de quem respeita uma dor para a qual não existem palavras suficientes.
Maria junto à Cruz ensina esse silêncio.
Uma palavra para nós, sacerdotes
O ministério sacerdotal coloca-nos diante de muitas dores.
Confissões.
Funerais.
Hospitais.
Crises matrimoniais.
Famílias preocupadas.
Pessoas que perderam alguém.
Há momentos em que o sacerdote precisa pregar.
Mas há outros em que seu primeiro ministério é simplesmente estar presente.
No funeral
Especialmente diante da morte, precisamos evitar explicações fáceis.
A fé anuncia a Ressurreição.
Mas a esperança cristã não proíbe as lágrimas.
Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro.
Podemos chorar e crer ao mesmo tempo.
“Jesus chorou”
É um dos versículos mais breves e mais profundos do Evangelho.
Jesus sabe que Lázaro será chamado para fora do túmulo.
E mesmo assim chora.
Isso significa que a esperança não elimina a compaixão.
Não precisamos escolher entre fé e lágrimas.
Uma palavra para nossas comunidades
Também uma comunidade religiosa precisa aprender a consolar.
Vivemos juntos durante muitos anos.
Por isso atravessaremos juntos:
mortes de familiares,
doenças,
limitações,
mudanças,
frustrações,
crises,
envelhecimento.
Nessas horas descobrimos a qualidade de nossa fraternidade.
Às vezes convivemos e não percebemos
É possível morar na mesma casa e não perceber que um irmão está sofrendo.
Cumprimentamo-nos.
Rezamos juntos.
Sentamo-nos à mesma mesa.
Mas não perguntamos.
A vida fraterna precisa de atenção.
O irmão silencioso
Nem todos conseguem pedir ajuda.
Alguns sofrem silenciosamente.
Outros se isolam.
Outros tornam-se irritados.
Às vezes aquilo que interpretamos apenas como mau humor pode esconder sofrimento.
Não precisamos diagnosticar ninguém.
Precisamos aprender a aproximar-nos com respeito.
Uma palavra para os superiores
Quem exerce autoridade possui uma responsabilidade especial.
Nem toda dificuldade pode ser resolvida pelo superior.
Mas ninguém deveria sentir que sua dor é irrelevante para a comunidade.
Governar também significa cuidar.
Escutar.
Encaminhar quando necessário.
Procurar ajuda adequada.
Consolação não substitui ajuda profissional
Este ponto é importante.
Existem sofrimentos que necessitam de acompanhamento médico ou psicológico.
A oração é preciosa.
A fraternidade é indispensável.
Mas procurar profissionais competentes também pode ser parte responsável do cuidado.
Maria não nos ensina a negar a realidade.
Ensina-nos a cuidar.
Uma palavra para os jovens em formação
A formação religiosa precisa educar para a compaixão.
Não basta conhecer:
Constituições,
liturgia,
teologia,
história da Ordem.
Precisamos aprender a perceber pessoas.
O irmão não é um exercício de formação
A convivência coloca-nos diante de pessoas reais.
Com qualidades.
Limitações.
Histórias.
Feridas.
Culturas.
Ritmos diferentes.
Aprender a amar pessoas concretas é uma das maiores escolas da vida religiosa.
Uma palavra para os idosos
Nossos irmãos idosos também podem experimentar aflições que nem sempre verbalizam.
A perda de autonomia.
A diminuição das forças.
A saída de uma função.
A morte de contemporâneos.
O medo de tornar-se um peso.
A comunidade precisa dizer não apenas com palavras, mas com atitudes:
“Você continua pertencendo a nós.”
A presença vale mais que a produtividade
Esse é um princípio profundamente evangélico.
Uma pessoa não vale pelo que consegue produzir.
Vale porque é pessoa.
Porque é irmão.
Porque é filho de Deus.
Uma comunidade que consegue viver isso torna-se um sinal de consolação.
Maria recebe um novo filho
No momento da Cruz, Jesus diz:
“Mulher, eis o teu filho.”
Depois ao discípulo:
“Eis a tua mãe.”
No lugar da dor nasce uma nova relação.
Maria recebe o discípulo.
O discípulo recebe Maria.
Mesmo no Calvário, Deus está formando comunhão.
A consolação cria vínculos
Talvez isso nos ensine algo.
Quando acompanhamos alguém em sua dor, pode nascer uma fraternidade muito profunda.
Não porque desejemos o sofrimento.
Mas porque a compaixão aproxima.
Consolar não significa manter alguém dependente
A verdadeira consolação ajuda a pessoa a levantar-se.
A recuperar esperança.
A retomar seu caminho quando possível.
Maria não nos prende à própria dor.
Conduz-nos para Cristo.
Da Cruz para Pentecostes
A última imagem de Maria no Novo Testamento não é o Calvário.
Nos Atos dos Apóstolos, ela está com os discípulos em oração.
A mulher das Dores está agora no meio de uma comunidade que espera o Espírito Santo.
Isso é muito significativo.
A dor não foi a última palavra.
A consolação possui horizonte pascal
A espiritualidade servita precisa ser profundamente pascal.
Contemplamos as dores de Maria.
Mas fazemos isso à luz da Ressurreição.
Não somos servidores do sofrimento.
Somos servidores da compaixão e da esperança.
Consolar é ajudar alguém a esperar novamente
Talvez possamos definir assim.
Uma pessoa aflita pode perder a capacidade de imaginar o amanhã.
Tudo parece fechado.
Consolar é permanecer perto até que, pouco a pouco, ela consiga perceber novamente alguma possibilidade de futuro.
Às vezes a esperança do outro enfraquece
Nesses momentos podemos esperar com ele.
Rezar por ele.
Caminhar ao lado.
A comunidade pode carregar temporariamente a esperança daquele que já não consegue carregá-la sozinho.
O Magnificat e a consolação
Maria conhece a dor, mas também canta.
No Magnificat, proclama um Deus que olha para os humildes.
Que não esquece.
Que cumpre suas promessas.
A consolação cristã nasce dessa certeza:
Deus não esqueceu você.
Não estamos abandonados
Podemos não compreender.
Podemos não receber imediatamente aquilo que pedimos.
Mas não estamos abandonados.
Cristo entrou na própria experiência humana da dor.
E Maria permaneceu junto dele.
Para nós, Servos de Maria
Talvez esta invocação possa tornar-se quase um programa de vida:
Consoladora dos aflitos, ensine-nos a consolar.
Ensine-nos a perceber.
A aproximar-nos.
A escutar.
A permanecer.
A respeitar o silêncio.
A chorar com quem chora.
A procurar ajuda quando necessária.
A anunciar esperança sem banalizar a dor.
Nossas comunidades como lugares de consolação
Que alguém possa entrar numa comunidade dos Servos de Maria e perceber:
“Aqui minha dor pode ser acolhida.”
Não porque tenhamos resposta para tudo.
Mas porque aprendemos de Maria a permanecer.
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação podemos perguntar:
Quem perto de mim está atravessando uma aflição?
Talvez eu já saiba.
Talvez precise prestar mais atenção.
E depois:
O que essa pessoa realmente necessita de mim?
Uma resposta?
Uma visita?
Uma escuta?
Uma oração?
Um silêncio?
E quando o aflito somos nós?
Também precisamos aprender a receber consolação.
Nem sempre somos aqueles que ajudam.
Às vezes somos nós que precisamos dizer:
“Não estou bem.”
Permitir que um irmão se aproxime também é humildade.
A fraternidade possui duas direções:
cuidar
e deixar-se cuidar.
Oração
Consoladora dos aflitos,
Mãe que permaneceu junto à Cruz,
aproxime-se de todos aqueles
que atravessam a noite da dor.
Console quem perdeu uma pessoa querida.
Quem recebeu uma notícia difícil.
Quem sofre no corpo
ou no coração.
Quem vive uma crise familiar.
Quem perdeu o trabalho.
Quem se sente sozinho.
Quem não consegue enxergar saída.
Quem chora escondido
para que ninguém perceba.
Ensine-nos a não oferecer
respostas fáceis diante da dor.
Dê-nos a sabedoria
de saber quando falar
e quando permanecer em silêncio.
Faça-nos capazes de escutar.
Aos sacerdotes,
dê um coração atento
às dores das pessoas
que lhes são confiadas.
Aos superiores e formadores,
conceda sensibilidade
para perceber o irmão
que precisa de ajuda.
Aos nossos jovens,
ensine a compaixão.
Aos nossos irmãos idosos,
conceda a certeza
de que sua presença continua preciosa
para a comunidade.
Faça de nossos conventos
casas de consolação.
Que ninguém sofra sozinho
sob o mesmo teto conosco.
A nós, Servos de Maria,
conceda a graça de viver profundamente
aquilo que nosso nome significa.
Como você permaneceu junto à Cruz,
ensine-nos a permanecer
junto às cruzes de nosso tempo.
Sem fugir.
Sem julgar.
Sem transformar a dor
em discurso vazio.
Ensine-nos a estar presentes.
E quando nossa própria força faltar,
recorde-nos que toda consolação
vem de Deus,
Pai das misericórdias
e Deus de toda consolação.
Leve-nos sempre a Jesus,
que chorou com os que choravam,
carregou nossas dores
e venceu a morte.
Que nele nossas lágrimas
não sejam a última palavra.
E que, sustentados pela esperança
da Ressurreição,
possamos também sustentar
aqueles que Deus colocar em nosso caminho.
Consoladora dos aflitos, rogai por nós.
Para guardar no coração
Maria não consola porque possua uma explicação para cada sofrimento, mas porque permanece. Junto à Cruz ela nos ensina que, quando não podemos retirar a dor, ainda podemos amar, acompanhar e impedir que alguém sofra sozinho.
Fontes
Sagrada Escritura, especialmente Lc 1,46-55; Lc 2,34-35; Jo 11,32-36; Jo 19,25-27; At 1,12-14; 2Cor 1,3-7; Rm 12,15.
São João Paulo II, Homilia e oração no Santuário de Kevelaer, 2 de maio de 1987; Angelus, 6 de setembro de 1987.
São João Paulo II, Carta ao Cardeal Franciszek Macharski por ocasião do Congresso Mariano Internacional de Kevelaer, 29 de agosto de 1987.
Tradição espiritual dos Servos de Maria, especialmente a contemplação da Virgem junto à Cruz e o serviço de compaixão diante das dores humanas.
Ladainha de Nossa Senhora, formulário oficial da Santa Sé.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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