A Mãe que nos conduz à misericórdia
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana prossegue:
Refúgio dos pecadores, rogai por nós.
Talvez esta seja uma das invocações mais consoladoras de toda a Ladainha.
Porque fala de nós.
Não apenas de alguns.
De todos nós.
Todos necessitamos da misericórdia.
Todos carregamos fragilidades.
Todos conhecemos quedas.
Todos temos alguma coisa da qual precisamos pedir perdão.
E justamente aí a Igreja nos ensina a rezar:
Refúgio dos pecadores, rogai por nós.
O pecador não é abandonado
Existe uma tentação espiritual muito perigosa.
Depois do pecado, podemos pensar:
“Agora não posso mais voltar.”
A vergonha afasta-nos da oração.
A culpa faz-nos esconder.
O desânimo diz:
“Você já tentou outras vezes.”
“Você vai cair novamente.”
“Deus deve estar cansado de você.”
Mas o Evangelho diz outra coisa.
Volte.
Jesus veio procurar os pecadores
Quando criticam Jesus porque se aproxima dos pecadores, Ele responde:
“Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores à conversão.”
Esta é a primeira verdade que precisamos guardar.
Cristo não veio porque éramos perfeitos.
Veio porque precisávamos ser salvos.
O Refúgio não substitui o Salvador
É necessário deixar isso muito claro.
Maria não perdoa os pecados por um poder independente.
Deus perdoa.
Cristo salva.
Cristo reconciliou-nos com o Pai.
Cristo confiou à Igreja o ministério da Reconciliação.
Quando chamamos Maria de Refúgio dos pecadores, pedimos que sua intercessão materna nos ajude a voltar para seu Filho.
Refúgio não significa esconderijo
Também precisamos compreender a palavra refúgio.
Um refúgio é lugar onde alguém ferido encontra proteção para recuperar forças.
Não é lugar para permanecer indefinidamente escondido.
Maria não nos protege do chamado à conversão.
Protege-nos do desespero para que tenhamos coragem de nos converter.
Ela não diz:
“Seu pecado não importa.”
Diz:
“Volte para meu Filho.”
“Fazei tudo o que Ele vos disser”
Em Caná, Maria pronuncia uma frase que ilumina toda verdadeira devoção mariana:
“Fazei tudo o que Ele vos disser.”
Também diante do pecado, sua missão permanece a mesma.
Ela aponta para Cristo.
Para sua Palavra.
Para sua misericórdia.
Para uma vida nova.
O filho que volta
Talvez nenhuma parábola explique melhor a misericórdia do que a história do filho pródigo.
Ele parte.
Desperdiça.
Cai.
Chega ao fundo.
E então toma uma decisão:
“Vou voltar para meu pai.”
A conversão começa assim.
Não quando conseguimos consertar tudo sozinhos.
Mas quando decidimos:
“Vou voltar.”
O Pai estava esperando
E então acontece algo extraordinário.
O filho ainda está longe.
Mas o pai o vê.
Corre.
Abraça.
Não começa com um interrogatório.
Começa com um abraço.
Depois haverá vida nova.
Mas primeiro existe misericórdia.
É esse Pai que Maria deseja que conheçamos.
Maria não fica entre nós e o Pai
Ela não é uma barreira que precisamos atravessar para chegar a Deus.
Ao contrário.
Ajuda-nos a descobrir que podemos voltar.
São João Paulo II explicou que, quando a consciência do pecado nos pesa, procuramos Aquele que possui o poder de perdoar, e Maria ajuda-nos a chegar até Ele.
Quando a vergonha nos impede
Algumas pessoas carregam pecados confessados há muitos anos e continuam sem conseguir aceitar que foram perdoadas.
Deus perdoou.
Mas elas continuam condenando a si mesmas.
Existe aqui uma diferença importante entre:
arrependimento e desespero.
O arrependimento aproxima de Deus.
O desespero diz que não existe mais caminho.
Maria, Refúgio dos pecadores, ajuda-nos a escolher o primeiro.
Nenhum pecado é maior que a misericórdia
Isso não significa minimizar o mal.
Pecado é pecado.
Pode ferir profundamente.
Pode destruir relações.
Pode exigir reparação.
Pode possuir consequências que permanecem.
Mas existe uma afirmação cristã ainda maior:
a misericórdia de Deus é maior.
A misericórdia não elimina a responsabilidade
Perdão não significa fingir que nada aconteceu.
A conversão verdadeira procura também reparar aquilo que for possível.
Pedir perdão.
Restituir.
Mudar comportamentos.
Evitar ocasiões de pecado.
Assumir responsabilidades.
A misericórdia não nos infantiliza.
Levanta-nos para uma vida nova.
A mulher acusada
No Evangelho, apresentam a Jesus uma mulher acusada de pecado.
Querem condená-la.
Jesus não aprova seu pecado.
Mas também não permite que seja reduzida ao seu pecado.
Depois diz:
“Vai e, de agora em diante, não peques mais.”
Há duas coisas inseparáveis:
misericórdia e conversão.
Você é maior que seu pecado
Talvez precisemos dizer isso muitas vezes.
Uma pessoa não pode ser reduzida ao pior momento de sua vida.
Existe sempre uma história maior.
Existe a graça.
Existe liberdade.
Existe possibilidade de recomeçar.
O Evangelho nunca chama o pecado de bem.
Mas também nunca diz ao pecador arrependido:
“Você terminou.”
Pedro
Pedro negou Jesus.
Três vezes.
Depois chorou.
Poderia ter pensado que sua história de discípulo havia terminado.
Mas o Ressuscitado volta ao seu encontro.
E pergunta:
“Tu me amas?”
A misericórdia não apenas perdoa Pedro.
Devolve-lhe uma missão.
Depois da queda ainda pode existir missão
Isso é extraordinário.
Deus consegue escrever santidade também em histórias marcadas por quedas.
Não porque o pecado seja necessário.
Mas porque a graça é capaz de levantar.
Às vezes, justamente quem experimentou profundamente a misericórdia torna-se mais capaz de oferecê-la aos outros.
Uma palavra para nós, sacerdotes
Aqui esta invocação torna-se particularmente exigente.
Francisco insiste que o confessor precisa ser testemunha da misericórdia.
A pessoa que entra no confessionário talvez já tenha travado uma enorme batalha interior simplesmente para chegar até ali.
Não sabemos quanto custou abrir aquela porta.
Sentar-se.
Começar a falar.
O confessionário precisa ser lugar de retorno
Isso não significa banalizar o pecado.
O confessor precisa ajudar no discernimento.
Orientar.
Às vezes corrigir.
Mas tudo deve servir ao encontro com a misericórdia de Deus.
Uma pessoa deveria sair do sacramento sabendo:
“Posso recomeçar.”
O sacerdote também é pecador
Existe outra verdade que nos protege da dureza.
Nós, sacerdotes, também nos confessamos.
Também precisamos pedir perdão.
Também dependemos da misericórdia.
Isso muda nossa maneira de escutar o outro.
Não estamos de um lado como perfeitos diante dos imperfeitos.
Somos pecadores reconciliados servindo à reconciliação de outros pecadores.
O ministério da Reconciliação
São Paulo escreve:
“Deus reconciliou consigo o mundo em Cristo e confiou-nos o ministério da reconciliação.”
Que responsabilidade.
Não somos proprietários da misericórdia.
Somos ministros.
Não decidimos quem merece o amor de Deus.
Anunciamos aquilo que recebemos.
Uma palavra para quem não se confessa há muito tempo
Talvez alguém tenha medo de voltar.
Vergonha.
Uma experiência ruim no passado.
Muitos anos se passaram.
A primeira coisa a recordar é simples:
volte.
Você não precisa preparar um discurso perfeito.
Procure um sacerdote.
Diga quanto tempo passou.
Comece.
A misericórdia de Deus já estava esperando antes mesmo de você entrar na igreja.
Uma comunidade que permite recomeçar
Também nossas comunidades religiosas precisam aprender a misericórdia.
Vivemos juntos durante anos.
Conhecemos as limitações uns dos outros.
Lembramos erros antigos.
E existe um perigo:
não permitir que o irmão mude.
Continuamos olhando para ele a partir de algo que aconteceu dez anos atrás.
Dar espaço à conversão do outro
Se acreditamos na conversão, precisamos permitir que alguém seja diferente daquilo que foi.
Isso não significa ingenuidade.
Nem apagar responsabilidades.
Significa não aprisionar definitivamente uma pessoa no passado.
Deus continua trabalhando.
Correção fraterna e misericórdia
A misericórdia não elimina a correção fraterna.
Pelo contrário.
Corrigimos justamente porque acreditamos que o irmão pode crescer.
Mas a correção cristã não humilha.
Não coleciona erros.
Não transforma fragilidades em armas.
Seu objetivo é recuperar a comunhão.
Uma palavra para os jovens em formação
A formação precisa ser um lugar onde seja possível falar a verdade.
Um jovem que sente que precisa parecer perfeito começará a esconder.
Suas dúvidas.
Fragilidades.
Dificuldades.
Erros.
Isso é perigoso.
Uma boa formação não exige perfeição instantânea.
Exige verdade e disponibilidade para crescer.
Não esconder para permanecer
O discernimento vocacional precisa de liberdade.
Pode haver dificuldades que precisam ser trabalhadas.
Outras podem indicar que determinado caminho não é o mais adequado.
Mas tudo precisa começar pela verdade.
Deus trabalha melhor com nossa verdade do que com uma imagem religiosa cuidadosamente construída.
Uma palavra para os formadores
O formador precisa unir duas coisas:
verdade e misericórdia.
Misericórdia sem verdade pode tornar-se permissividade.
Verdade sem misericórdia pode transformar-se em dureza.
Maria ajuda-nos a manter as duas.
Nossa Senhora das Dores e os pecadores
Para nós, Servos de Maria, existe uma dimensão ainda mais profunda.
Maria está junto à Cruz.
E o que Jesus faz na Cruz?
Perdoa.
“Pai, perdoa-lhes.”
A Mãe das Dores está presente no lugar onde a misericórdia chega ao extremo.
Junto à Cruz ninguém pode vangloriar-se
Diante do Crucificado, percebemos simultaneamente duas coisas:
a gravidade do pecado
e a imensidão do amor de Deus.
Nosso pecado é sério.
Custou a Cruz.
Mas o amor é maior.
Cristo entrega a própria vida.
Refúgio não é fuga da Cruz
Maria conduz o pecador justamente até ali.
Ao Crucificado.
Não para esmagá-lo com culpa.
Mas para que perceba:
“Você é amado até este ponto.”
E desse amor nasce a conversão.
A Igreja como casa de misericórdia
Também nossas igrejas, paróquias e conventos deveriam ser lugares onde as pessoas percebam:
“Aqui ainda existe caminho de volta.”
Isso não significa uma Igreja sem exigência.
Significa uma Igreja que nunca fecha a porta da conversão.
Quantas pessoas carregam vergonha
Algumas permanecem afastadas durante anos.
Por situações familiares.
Por escolhas erradas.
Por dependências.
Por experiências negativas.
Por medo de julgamento.
Precisamos distinguir situações concretas e respeitar a disciplina da Igreja.
Mas nunca deveríamos transmitir a alguém:
“Deus não quer mais você.”
A santidade começa muitas vezes por um retorno
Grandes santos conheceram conversão.
Outros atravessaram períodos de tibieza.
Outros descobriram progressivamente a profundidade do Evangelho.
Santidade não significa possuir um passado impecável.
Significa permitir que a graça transforme nossa história.
Cair e levantar
Na vida espiritual, podemos cair mais de uma vez.
A pergunta decisiva não é simplesmente:
“Você caiu?”
Mas:
“Vai levantar?”
Maria, Refúgio dos pecadores, estende-nos maternalmente a mão e aponta para Cristo.
Não fazer as pazes com o pecado
Mas precisamos acrescentar algo.
A misericórdia não pode tornar-se desculpa para acomodação.
Não podemos dizer:
“Deus perdoa, então não importa.”
Quem experimenta verdadeiramente a misericórdia começa a desejar uma vida diferente.
Não por medo.
Mas por gratidão.
A conversão é um caminho
Algumas mudanças acontecem rapidamente.
Outras levam tempo.
Há hábitos profundamente enraizados.
Feridas.
Dependências.
Situações complexas.
Por isso precisamos de perseverança.
Confissão.
Oração.
Direção espiritual.
Às vezes ajuda profissional.
E sobretudo confiança na graça.
Maria desperta esperança
São João Paulo II disse algo muito bonito sobre este título:
Maria desperta em nós a esperança de emenda e perseverança no bem, mesmo quando isso parece humanamente impossível.
Essa talvez seja a essência de Refúgio dos pecadores.
Ela nos ajuda a acreditar:
“Com a graça de Deus, ainda posso recomeçar.”
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação podemos perguntar:
Existe alguma coisa que eu ainda não tive coragem de colocar diante da misericórdia de Deus?
Talvez um pecado.
Uma ferida.
Uma culpa antiga.
Uma relação quebrada.
Uma verdade sobre mim mesmo.
Maria não nos convida a esconder.
Convida-nos a levar tudo a Cristo.
E outra pergunta
Existe alguém que eu mantenho aprisionado no erro que cometeu?
Talvez Deus já esteja trabalhando naquela pessoa.
E nós continuamos olhando apenas para seu passado.
Quem recebeu misericórdia precisa aprender a oferecê-la.
Oração
Refúgio dos pecadores,
Mãe de Misericórdia,
acolha-nos quando a vergonha
nos fizer querer fugir de Deus.
Não permita que confundamos
arrependimento com desespero.
Quando cairmos,
ajude-nos a levantar.
Quando tivermos medo de voltar,
tome-nos pela mão
e conduza-nos ao seu Filho.
Ensine-nos a reconhecer nossos pecados
sem desculpas,
mas também sem perder a esperança.
Conduza-nos ao Sacramento da Reconciliação.
Aos sacerdotes,
conceda um coração de pai
no ministério da Confissão.
Faça-nos firmes na verdade,
mas ricos em misericórdia.
Que ninguém encontre em nós
uma porta fechada
quando procura sinceramente voltar para Deus.
Aos jovens em formação,
dê coragem para viver na verdade
e liberdade para pedir ajuda.
Aos formadores,
conceda sabedoria para corrigir
sem humilhar
e acompanhar sem esconder a verdade.
Faça de nossas comunidades
lugares de reconciliação,
onde seja possível pedir perdão,
perdoar
e recomeçar.
A nós, Servos de Maria,
ensine a permanecer com você
junto à Cruz,
onde vemos ao mesmo tempo
a gravidade do pecado
e a grandeza infinita da misericórdia.
Quando alguém estiver caído,
não nos deixe passar adiante.
Quando alguém desejar voltar,
não nos deixe fechar a porta.
Quando nós mesmos cairmos,
não permita que o orgulho
nos impeça de pedir perdão.
E em todos os momentos
aponte-nos para Jesus Cristo,
aquele que veio não para condenar,
mas para salvar,
não para abandonar o pecador,
mas para chamá-lo à vida nova.
Refúgio dos pecadores, rogai por nós.
Para guardar no coração
Maria é Refúgio dos pecadores não para esconder-nos de nossa responsabilidade, mas para proteger-nos do desespero e conduzir-nos a Cristo. O verdadeiro refúgio termina em conversão: reconhecer o pecado, receber a misericórdia e recomeçar.
Fontes
Sagrada Escritura, especialmente Lc 5,20-32; Lc 15,11-32; Jo 2,1-11; Jo 8,1-11; Jo 21,15-19; 2Cor 5,18-20.
Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, n. 8, sobre a Igreja que necessita continuamente de purificação e segue o caminho da penitência e renovação.
São João Paulo II, Homilia no Santuário de Nossa Senhora de Zapopán, México, 30 de janeiro de 1979.
Bento XVI, discurso aos participantes do Curso sobre o Foro Interno, 25 de março de 2011.
Papa Francisco, discursos à Penitenciaria Apostólica de 12 de março de 2015, 4 de março de 2016, 9 de março de 2018 e 25 de março de 2022.
Ladainha de Nossa Senhora, tradição litúrgica da Igreja.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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