Maria leva consigo a presença de Deus
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana prossegue:
Arca da aliança, rogai por nós.
Talvez poucas invocações da Ladainha permitam perceber tão claramente a profunda unidade entre o Antigo e o Novo Testamento.
Para compreendê-la, precisamos voltar à história de Israel.
A Arca: sinal da presença de Deus
Depois da aliança no Sinai, Israel recebeu a ordem de construir a Arca da Aliança.
Ela acompanharia o povo em sua caminhada.
A Arca recordava uma certeza fundamental:
Deus está no meio de seu povo.
Israel não caminhava sozinho.
Deus havia estabelecido uma aliança.
Ele queria permanecer próximo.
A Arca tornou-se, assim, sinal da presença divina e da fidelidade de Deus à sua aliança.
A Palavra guardada na Arca
A Arca estava particularmente ligada às tábuas da Lei, à Palavra da Aliança.
Isso nos permite perceber imediatamente a beleza da aplicação mariana.
A antiga Arca guardava a palavra da aliança.
Maria acolhe em si a Palavra feita carne.
Não apenas palavras escritas em pedra.
Mas o próprio Verbo.
Jesus Cristo.
Da antiga Arca à nova Arca
Bento XVI explicou esta invocação de maneira particularmente clara:
Maria é a Arca da Aliança porque acolheu Jesus em si.
Ela recebeu a Palavra viva.
Recebeu aquele que é a nova e eterna Aliança entre Deus e a humanidade.
Assim, o título não termina em Maria.
Mais uma vez, ele nos conduz diretamente a Cristo.
Maria é Arca porque Cristo está nela.
A Anunciação
Há uma correspondência bíblica muito bonita.
No Antigo Testamento, a glória do Senhor cobre a Tenda da Reunião.
Na Anunciação, Gabriel diz a Maria:
“O Espírito Santo virá sobre você e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra.”
Bento XVI viu nessa linguagem uma evocação da nuvem da presença divina sobre a Tenda e a Arca.
Maria torna-se, então, a nova morada de Deus.
A nova Arca.
Não feita de madeira.
Mas uma pessoa viva.
Deus escolhe um coração
Aqui acontece uma transformação extraordinária.
Deus não deseja simplesmente habitar num objeto sagrado.
Ele vem habitar numa pessoa.
Num coração.
Maria acolhe Deus pela fé.
Seu ventre torna-se morada do Verbo encarnado.
A aliança agora possui um rosto:
Jesus Cristo.
Maria se levanta e parte
Depois da Anunciação, Lucas escreve:
“Maria levantou-se e foi às pressas à região montanhosa.”
Ela parte para visitar Isabel.
Essa viagem possui uma surpreendente correspondência com outra viagem narrada no Antigo Testamento.
A viagem da Arca.
Davi e a Arca
No Segundo Livro de Samuel, Davi decide levar a Arca para Jerusalém.
A chegada da Arca provoca alegria.
Davi dança diante dela.
A presença de Deus está chegando.
Séculos depois, Lucas narra outra viagem pelas montanhas da Judeia.
Agora quem caminha é Maria.
E ela traz em seu ventre Jesus.
João salta de alegria
Quando Maria entra na casa de Isabel, acontece algo extraordinário.
Isabel diz:
“Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre.”
Bento XVI chama atenção para esse detalhe.
João Batista salta diante de Maria assim como Davi dançava diante da Arca.
Por quê?
Porque a verdadeira presença de Deus chegou.
“Como posso merecer?”
Há ainda outra correspondência muito bonita.
Davi pergunta diante da Arca:
“Como virá a mim a Arca do Senhor?”
Isabel pergunta:
“Como posso merecer que a mãe do meu Senhor venha me visitar?”
As cenas possuem uma impressionante proximidade.
A tradição cristã percebeu nessa construção de Lucas uma apresentação de Maria como Arca da Nova Aliança.
Mas existe uma diferença decisiva
A antiga Arca era um sinal.
Maria traz a realidade para a qual o sinal apontava.
A antiga Arca indicava a presença de Deus.
Maria traz em seu ventre Deus feito homem.
A antiga Arca estava associada à antiga aliança.
Maria traz aquele que estabelecerá a nova e eterna Aliança em seu sangue.
Por isso, a grandeza de Maria vem sempre daquele que ela carrega:
Jesus.
Uma Arca em movimento
Há ainda uma imagem belíssima na Visitação.
Maria não permanece parada.
Ela recebe Cristo e parte.
A Arca da Nova Aliança está em movimento.
Vai ao encontro de uma pessoa que precisa de ajuda.
Isso nos ensina algo fundamental.
Quem acolhe verdadeiramente Deus não fica fechado em si mesmo.
A presença de Deus nos coloca a caminho.
Contemplação que se transforma em serviço
Maria poderia permanecer em Nazaré contemplando o mistério extraordinário que aconteceu nela.
Mas não.
Levanta-se.
Parte.
Serve Isabel.
Essa é uma característica profundamente mariana da vida cristã:
acolher Deus e partir para servir.
Contemplação e serviço não são inimigos.
Uma coisa conduz à outra.
Levar Jesus às casas
Maria entra na casa de Zacarias e Isabel levando Jesus.
Talvez aqui esteja uma das mais belas imagens da missão.
Também nós entramos em muitas casas.
Na visita aos enfermos.
Na pastoral.
Na bênção das famílias.
Na direção espiritual.
No acompanhamento vocacional.
Na visita a uma pessoa idosa.
A pergunta poderia ser:
O que estamos levando conosco?
Não levar apenas a nós mesmos
Podemos entrar numa casa levando nossas opiniões.
Nossas preocupações.
Nossos projetos.
Nossa pressa.
Ou podemos entrar levando algo da presença de Cristo.
Uma palavra.
Uma escuta.
Uma bênção.
Uma oração.
Um silêncio respeitoso.
Maria ensina a entrar nas casas levando Jesus.
A alegria da presença
A chegada da Arca provoca alegria.
A chegada de Maria também.
João salta.
Isabel fica cheia do Espírito Santo.
Maria canta o Magnificat.
A casa inteira parece tomada pela alegria.
Não porque todos os problemas desapareceram.
Mas porque Deus visitou seu povo.
Nossa presença produz o quê?
Isso nos leva a uma pergunta muito concreta.
Quando entramos numa comunidade, numa casa ou numa reunião:
o que nossa presença produz?
Paz?
Alegria?
Confiança?
Esperança?
Ou tensão?
A pessoa que carrega Cristo deveria ajudar o ambiente a tornar-se mais humano e mais fraterno.
Uma palavra para nós, sacerdotes
Esta imagem possui também enorme força sacerdotal.
Quantas vezes levamos sacramentalmente Cristo conosco.
Na Eucaristia.
Na comunhão aos enfermos.
No Viático.
Há algo profundamente mariano nesse gesto.
Levamos aquele que Maria carregou.
Ao entrar na casa de um enfermo com a Eucaristia, poderíamos recordar:
Arca da aliança, rogai por nós.
A Eucaristia e Maria
A antiga Arca recordava a presença de Deus no meio do povo.
Maria carregou corporalmente o Verbo encarnado.
E a Igreja guarda no tabernáculo o Corpo sacramental de Cristo.
Essas realidades não são idênticas, mas todas nos conduzem ao mesmo centro:
Deus deseja permanecer no meio de seu povo.
A nova e eterna Aliança
Na Última Ceia, Jesus toma o cálice e fala de seu sangue como sangue da nova Aliança.
Essa Aliança será selada na Cruz.
E Maria estará lá.
A mulher que carregou em seu ventre aquele que é a Nova Aliança permanece junto dele quando entrega sua vida.
A Arca junto à Cruz
Aqui o título adquire uma ressonância profundamente servita.
Maria acolheu Jesus em Nazaré.
Levou-o a Isabel.
Deu-o ao mundo em Belém.
Apresentou-o no Templo.
Acompanhou sua missão.
E permanece junto dele no Calvário.
A Arca não abandona o Tesouro que recebeu.
Para nós, Servos de Maria
Esta invocação toca diretamente nossa espiritualidade.
Somos chamados a permanecer com Maria junto à Cruz.
Mas também somos chamados a caminhar com ela pelas estradas da Visitação.
Existem, portanto, dois movimentos profundamente servitas:
permanecer e partir.
Permanecer junto a quem sofre.
Partir ao encontro de quem precisa.
Permanecer e partir
Há momentos em que o amor exige movimento.
Precisamos ir.
Visitar.
Procurar.
Servir.
Há outros momentos em que o amor exige permanência.
Ficar.
Escutar.
Acompanhar.
Não abandonar.
Maria sabe fazer as duas coisas.
Na Visitação, parte.
No Calvário, permanece.
Uma comunidade como Arca
Também nossas comunidades podem tornar-se, humildemente, lugares da presença de Deus.
Não porque sejamos perfeitos.
Mas porque Cristo ocupa o centro.
Uma comunidade torna-se sinal da presença de Deus quando:
reza,
celebra a Eucaristia,
vive a fraternidade,
acolhe,
serve,
reconcilia,
cuida dos frágeis.
A Arca não existe para si mesma
A antiga Arca existia em função da presença e da Aliança.
Maria também não conserva Jesus para si.
Isso é muito importante para a Igreja.
Não recebemos Cristo para possuí-lo.
Recebemos para oferecê-lo.
A Igreja existe para evangelizar.
A comunidade religiosa existe para servir.
A vocação existe para tornar-se dom.
Uma palavra para os jovens em formação
Talvez uma pergunta importante para um jovem seja:
“O que estou carregando dentro de mim?”
Uma vocação não pode ser sustentada apenas por entusiasmo.
É preciso carregar a Palavra.
Guardar Cristo.
Cultivar vida interior.
Caso contrário, podemos ter muitas atividades e pouco conteúdo.
Guardar a Palavra
Maria não apenas carrega fisicamente Jesus.
São Lucas também diz que ela guarda os acontecimentos no coração.
Aqui existe outra relação com a Arca.
A Arca guarda a Palavra da Aliança.
Maria guarda a Palavra.
Também nós precisamos aprender a guardar.
Uma frase do Evangelho.
Uma palavra recebida na oração.
Uma luz do retiro.
Uma correção que nos ajudou.
Uma experiência de Deus.
Uma palavra para os idosos
Os irmãos idosos podem ser também guardiões da memória da Aliança.
Carregam histórias.
Nomes.
Missões.
Dificuldades atravessadas.
Graças recebidas.
Uma comunidade precisa escutar seus idosos.
Porque perder a memória pode significar perder também a consciência da fidelidade de Deus ao longo do caminho.
Memória e esperança
A Arca recordava a Aliança.
A memória cristã não é nostalgia.
Recordamos para continuar caminhando.
Quando lembramos aquilo que Deus já realizou, encontramos coragem para confiar novamente.
A memória da fidelidade de Deus alimenta a esperança.
A Arca e os pobres
Há ainda uma consequência missionária.
Maria, levando Cristo, vai servir.
Portanto, carregar Deus nunca pode tornar-nos indiferentes às necessidades concretas.
A verdadeira espiritualidade produz movimento em direção ao outro.
Quanto mais Cristo habita em nós, mais deveríamos perceber:
o enfermo,
o idoso,
o pobre,
o migrante,
o jovem desorientado,
o irmão que sofre.
Uma Igreja em Visitação
Talvez possamos imaginar a Igreja segundo esta imagem:
uma Igreja em Visitação.
Uma Igreja que recebeu Cristo e parte.
Não esperando apenas que as pessoas venham.
Mas indo.
Batendo às portas.
Visitando.
Escutando.
Levando esperança.
A presença que carregamos
No fundo, esta invocação coloca diante de nós uma pergunta muito simples:
Quem estamos levando conosco?
Maria leva Jesus.
Esse é o segredo de sua fecundidade.
Não precisa ocupar o centro.
Carrega o Centro.
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação podemos perguntar:
Existe espaço em mim para guardar a Palavra de Deus?
E também:
Depois de receber Cristo, para quem estou sendo enviado?
Talvez exista uma Isabel esperando nossa visita.
Um enfermo.
Um irmão.
Uma família.
Um idoso.
Uma pessoa que simplesmente precisa perceber que Deus não a esqueceu.
Oração
Arca da aliança,
você acolheu em seu ventre
Jesus Cristo,
a Palavra viva
e a Nova e Eterna Aliança.
Ensine-nos a acolher o Senhor
com a mesma fé.
Faça de nosso coração
uma morada para sua Palavra.
Ensine-nos a guardar
aquilo que Deus realiza em nossa vida
e a reconhecer sua fidelidade
ao longo de nossa história.
Depois, coloque-nos a caminho.
Como você partiu às pressas
para a casa de Isabel,
envie-nos ao encontro
de quem precisa de nossa presença.
Aos sacerdotes,
dê profunda reverência
ao levar a Eucaristia aos enfermos.
Aos jovens em formação,
conceda uma vida interior
capaz de sustentar a missão.
Aos nossos irmãos idosos,
dê a alegria de transmitir
a memória da fidelidade de Deus.
Faça de nossas comunidades
lugares onde Cristo esteja no centro
e de onde partamos para servir.
A nós, Servos de Maria,
ensine seus dois movimentos:
partir quando o amor exige presença
e permanecer quando a dor exige companhia.
Que não levemos a nós mesmos,
mas Cristo.
Que não anunciemos nossa importância,
mas sua presença.
E que, por onde passarmos,
alguém possa novamente experimentar
a alegria da visita de Deus.
Arca da aliança, rogai por nós.
Para guardar no coração
Maria é Arca da Aliança porque acolhe Cristo, a Palavra viva e a Nova Aliança. E a Arca não permanece parada: Maria recebe Jesus e parte para levá-lo aos outros.
Fontes
Sagrada Escritura, especialmente Ex 25,10-22; Ex 40,34-38; 2Sm 6,1-16; Lc 1,26-56; Jo 19,25-27; Hb 9,4.
Catecismo da Igreja Católica, n. 2676.
São João Paulo II, Angelus, 10 de julho de 1983.
Bento XVI, Homilia na Solenidade da Assunção, 15 de agosto de 2011; Audiência Geral, 2 de janeiro de 2013.
Papa Francisco, Homilia em Marselha, 23 de setembro de 2023.
Ladainha de Nossa Senhora, formulário português publicado pela Santa Sé.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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