Maria nos conduz à Porta que é Cristo
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana prossegue:
Porta do céu, rogai por nós.
É uma invocação belíssima.
Mas precisa ser compreendida corretamente.
No Evangelho, Jesus diz claramente:
“Eu sou a porta.”
Portanto, Cristo é a Porta da salvação.
É por Ele que chegamos ao Pai.
É por sua morte e ressurreição que o caminho da vida eterna foi aberto para nós.
Então por que chamamos Maria de Porta do céu?
Porque toda a existência de Maria está voltada para Cristo.
Ela o acolheu.
Trouxe-o ao mundo.
Seguiu-o.
Permaneceu com Ele junto à Cruz.
E agora continua dizendo aos discípulos:
“Fazei tudo o que Ele vos disser.”
Cristo é a Porta
Precisamos começar por aqui.
Maria não substitui Jesus.
Não existe um caminho mariano paralelo a Cristo.
Toda verdadeira devoção mariana termina nele.
Jesus é o Salvador.
Jesus é o Caminho.
Jesus é a Porta.
Maria é Mãe, discípula e intercessora.
Por isso, quanto mais autenticamente nos aproximamos dela, mais deveríamos desejar conhecer, amar e seguir seu Filho.
Uma porta que se abriu para Deus
Podemos contemplar a Anunciação sob esta imagem.
Deus bate à porta da liberdade humana.
O anjo apresenta o projeto divino.
Maria escuta.
Pergunta.
Discernindo, responde:
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”
E a porta se abre.
O Verbo entra em nossa história.
O “sim” de Maria
Há algo extraordinário nisso.
Deus quis realizar a Encarnação respeitando a liberdade de uma criatura.
Maria não é instrumento passivo.
Responde livremente.
Seu fiat torna-se uma porta aberta para o projeto de Deus.
Por sua maternidade, aquele que é eterno entra no tempo.
Aquele que é invisível torna-se visível.
O Filho de Deus torna-se nosso irmão.
Deus entrou por uma porta humilde
E qual porta escolheu?
Uma jovem de Nazaré.
Uma existência escondida.
Uma casa simples.
Deus não entrou na história pelo espetáculo do poder.
Entrou pela humildade.
Talvez isso já diga muito sobre os caminhos de Deus.
Portas abertas e portas fechadas
A imagem da porta pode transformar-se num exame de consciência.
Existem portas em nosso coração.
Algumas estão abertas.
Outras talvez permaneçam fechadas.
Podemos permitir que Deus entre em nossa oração, mas não em nossas decisões.
Na liturgia, mas não em nossos relacionamentos.
Em nossa pregação, mas não em nossas mágoas.
Em nosso ministério, mas não em nossos projetos pessoais.
Maria ensina uma abertura mais profunda:
“Faça-se em mim.”
Abrir toda a casa
A vida cristã amadurece quando deixamos de oferecer a Deus apenas algumas partes de nós.
Cristo deseja entrar.
Naquilo que compreendemos.
E naquilo que ainda não compreendemos.
Em nossas forças.
E em nossas fragilidades.
Em nosso presente.
E em nosso futuro.
Maria abre a porta inteira de sua existência.
Uma porta que conduz a Cristo
Em Caná, Maria mostra claramente sua missão.
Percebe a necessidade.
Intercede.
E então diz:
“Fazei tudo o que Ele vos disser.”
Talvez nenhuma frase explique melhor o sentido de Porta do céu.
Maria não diz:
“Parem em mim.”
Diz:
“Escutem Jesus.”
Ela abre uma passagem para o encontro com Cristo.
Passar pela Porta
Francisco explicou esta invocação de maneira muito bonita.
Maria passou pela porta estreita que é Jesus.
Acolheu-o de todo o coração.
Seguiu-o todos os dias.
Inclusive quando não compreendia tudo.
Inclusive quando uma espada atravessou sua alma.
Por isso, a Igreja a invoca como Porta do Céu.
A porta estreita
Jesus fala também da porta estreita.
Não porque Deus queira dificultar nossa salvação.
Mas porque seguir Cristo exige deixar algumas coisas do lado de fora.
O orgulho.
O egoísmo.
A autossuficiência.
A injustiça.
A recusa de perdoar.
Não conseguimos atravessar a porta carregando tudo aquilo que nos impede de amar.
Maria passou por essa porta
Maria passou.
Pela humildade.
Pela fé.
Pelo serviço.
Pela fidelidade.
Pela Cruz.
Por isso pode acompanhar-nos.
Não como alguém que nos oferece um atalho.
Mas como Mãe que conhece o caminho.
Porta do céu e Assunção
Esta invocação possui também uma bela relação com a Assunção.
Maria percorreu o caminho do discípulo.
E agora contemplamos nela aquilo para o qual todos fomos criados:
a comunhão plena com Deus.
Francisco recordou que, ao contemplarmos Maria na glória, vemos nossa meta.
Ela nos faz levantar os olhos.
O céu não é uma ideia abstrata.
É a nossa verdadeira pátria.
Nossa vida possui uma direção
Isso é muito importante.
Não caminhamos simplesmente para a velhice.
Nem apenas para a morte.
Caminhamos para Deus.
A morte não é nossa vocação final.
Nossa vocação é a vida eterna.
Maria, Porta do céu, ajuda-nos a recordar a direção da viagem.
Uma palavra para os idosos
Talvez esta invocação possua especial beleza na velhice.
Depois de tantos anos, a pessoa percebe mais claramente que esta vida é peregrinação.
As forças diminuem.
Algumas responsabilidades são entregues.
Pessoas queridas já partiram.
Mas a esperança cristã diz:
a casa definitiva ainda está diante de nós.
Preparar-se para o encontro
Pensar no céu não significa desprezar esta vida.
Pelo contrário.
Significa vivê-la com responsabilidade.
Se caminhamos para o encontro com Deus, então importa:
como amamos,
como perdoamos,
como servimos,
como tratamos os pobres,
como cuidamos dos irmãos,
como usamos nossos dons.
A eternidade começa a ser preparada no cotidiano.
Uma palavra para os jovens
Para os jovens, a Porta do céu oferece outra perspectiva.
A vida não é um corredor sem direção.
Existe uma meta.
Uma vocação.
Um sentido.
Vale a pena perguntar:
Para onde minhas escolhas estão me levando?
Nem toda porta conduz ao mesmo lugar.
Nem toda possibilidade precisa ser experimentada.
Discernir também significa escolher por quais portas queremos passar.
A porta da vocação
Toda vocação possui momentos em que Deus abre uma porta.
Um encontro.
Uma palavra.
Um retiro.
Uma experiência de oração.
Uma pessoa.
Um serviço.
De repente percebemos:
“Talvez Deus esteja me chamando por aqui.”
Maria ajuda-nos a não ter medo de atravessar as portas que Deus abre.
E também aceitar as portas que se fecham
Mas a vida espiritual exige aprender outra coisa.
Nem toda porta permanece aberta para sempre.
Uma missão termina.
Uma função passa.
Uma etapa da vida conclui-se.
Uma possibilidade deixa de existir.
Também isso precisa ser entregue.
Quem confia em Deus aprende que uma porta fechada não significa necessariamente abandono.
Pode significar que chegou a hora de procurar onde Deus está abrindo outra.
Uma palavra para nossas comunidades
Nossas comunidades também possuem portas.
E aqui a imagem torna-se muito concreta.
Como são nossas portas?
Acolhedoras?
Ou fechadas?
Quem chega encontra alguém que recebe?
O jovem vocacionado sente-se bem-vindo?
O pobre encontra escuta?
A pessoa que procura confissão encontra disponibilidade?
O irmão de passagem encontra fraternidade?
Uma comunidade com portas abertas
Uma comunidade cristã não pode transformar-se numa fortaleza.
Precisamos de prudência.
Organização.
Limites.
Mas nossa identidade continua sendo a hospitalidade evangélica.
Maria recebeu Cristo.
Recebeu Isabel.
Recebeu o discípulo junto à Cruz.
Uma espiritualidade mariana deveria formar pessoas capazes de acolher.
Para nós, Servos de Maria
Isso possui um significado particular.
Somos chamados a estar junto às dores humanas.
Muitas pessoas chegam até nós carregando portas fechadas.
Uma perda.
Uma rejeição.
Um fracasso.
Uma doença.
Uma crise familiar.
Uma crise vocacional.
Talvez não consigamos resolver seus problemas.
Mas podemos ajudá-las a perceber que ainda existe uma porta aberta:
a esperança em Deus.
Junto à Cruz
No Calvário, tudo poderia parecer fechado.
Jesus morre.
Os discípulos dispersam-se.
A esperança parece terminar.
Maria permanece.
E justamente da Cruz nasce um caminho novo.
A Ressurreição mostrará que aquilo que parecia uma porta definitivamente fechada tornou-se passagem para a vida.
A Páscoa é a grande Porta
Aqui encontramos o centro cristológico desta invocação.
O céu não foi aberto simplesmente pelo consentimento de Maria.
Foi aberto pelo mistério pascal de Cristo.
Por sua morte.
Por sua ressurreição.
Maria participa desse mistério como Mãe e discípula.
Mas o Salvador é Jesus.
Não existe verdadeira devoção mariana sem Páscoa
Por isso, toda espiritualidade mariana precisa ser pascal.
Maria nos acompanha:
de Nazaré a Belém,
de Caná ao Calvário,
da Cruz à esperança da Ressurreição.
Ela nunca nos afasta do mistério de Cristo.
Conduz-nos para dentro dele.
Porta da misericórdia
Há ainda outra imagem muito bela.
Cristo é a porta da misericórdia.
Talvez alguém pense:
“Depois de tudo o que fiz, Deus não pode mais me receber.”
O Evangelho responde:
a porta continua aberta para quem volta.
A conversão começa quando temos coragem de bater novamente.
Nossas comunidades como portas de misericórdia
Também aqui existe uma missão para nós.
Uma paróquia.
Um convento.
Uma igreja.
Uma comunidade religiosa.
Deveriam ser lugares onde uma pessoa pudesse perceber:
“Ainda posso voltar para Deus.”
Isso não significa dizer que tudo está certo.
Significa anunciar que a misericórdia é maior que o pecado.
Abrir portas para os outros
Talvez uma das formas mais bonitas de honrar Maria como Porta do céu seja tornar-nos pessoas que abrem portas.
Portas para quem precisa recomeçar.
Portas para um jovem que procura sua vocação.
Portas para um pobre.
Portas para um migrante.
Portas para um irmão que precisa conversar.
Portas para a reconciliação.
Não sermos nós uma porta fechada
Existe também uma pergunta incômoda, mas necessária:
Será que alguém encontra dificuldade para aproximar-se de Deus por causa de nossa maneira de agir?
Nossa dureza.
Nossa impaciência.
Nossa incoerência.
Nossa falta de acolhida.
Também podemos tornar-nos obstáculos.
Por isso precisamos continuamente de conversão.
Maria aponta para a Porta
Maria nunca ocupa o lugar de Cristo.
Sua missão é materna:
tomar-nos pela mão e apontar.
“É por ali.”
Para Jesus.
Para sua Palavra.
Para a Eucaristia.
Para a Cruz.
Para a Ressurreição.
Para o Pai.
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação podemos perguntar:
Qual porta de meu coração ainda está fechada para Deus?
E depois:
Para quem Deus está me pedindo que eu abra uma porta?
Talvez exista alguém esperando:
acolhida,
perdão,
uma oportunidade,
uma conversa,
uma visita.
Oração
Porta do céu,
você acolheu Cristo
e seguiu fielmente o caminho
que conduz ao Pai.
Ensine-nos a passar pela verdadeira Porta,
que é Jesus, seu Filho.
Abra nosso coração
à Palavra de Deus.
Ajude-nos a fechar as portas
ao orgulho,
ao egoísmo,
ao ressentimento
e a tudo aquilo que nos afasta do Evangelho.
Quando Deus abrir diante de nós
um caminho novo,
dê-nos coragem para atravessá-lo.
Quando uma etapa terminar,
dê-nos liberdade para entregá-la.
Aos jovens,
conceda luz para discernir
as portas de sua vocação.
Aos nossos irmãos idosos,
dê a serenidade de olhar para o céu
não com medo,
mas com esperança.
Faça de nossas comunidades
casas de portas abertas:
ao jovem,
ao pobre,
ao migrante,
ao pecador que deseja recomeçar,
ao irmão que precisa de acolhida.
A nós, Servos de Maria,
ensine a permanecer junto às cruzes
e a abrir caminhos de esperança.
Que ninguém encontre em nós
uma barreira para chegar a Deus.
E que toda verdadeira devoção a você
nos faça escutar novamente sua palavra:
“Fazei tudo o que Ele vos disser.”
Conduza-nos a Jesus,
a Porta da misericórdia,
da salvação
e da vida eterna.
Porta do céu, rogai por nós.
Para guardar no coração
Maria é Porta do céu porque sua vida inteira se abre para Cristo e nos conduz a Ele. Mas a Porta da salvação é Jesus: a verdadeira devoção mariana nunca termina em Maria; passa com ela para Cristo e, por Cristo, chega ao Pai.
Fontes
Sagrada Escritura, especialmente Lc 1,26-38; Jo 2,1-11; Jo 10,7-9; Jo 14,6; Jo 19,25-27.
Bento XVI, Angelus, 26 de agosto de 2007; Homilia na Solenidade da Assunção, 15 de agosto de 2008.
Papa Francisco, Angelus, 21 de agosto de 2016; 15 e 25 de agosto de 2019.
Ladainha de Nossa Senhora, formulário português publicado pela Santa Sé.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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