Os últimos dias de Frei Paulino e a memória de uma vida inteiramente entregue a Deus e ao povo da Amazônia
Chegamos à última parte de nossa caminhada pelas páginas de O prego e a medalha, de Frei Franco M. Azzalli, OSM.
Depois de acompanharmos Frei Paulino M. Baldassarri pelas estradas, florestas e rios da Amazônia; depois de encontrá-lo nas desobrigas, entre os pobres, os enfermos e as famílias; depois de contemplarmos sua espiritualidade mariana e escutarmos a memória do povo, chegamos aos últimos dias de sua vida.
Mas, diante de uma existência como a de Frei Paulino, fica uma pergunta:
foi realmente o fim?
Até o fim, servindo
Era 28 de março de 2016, segunda-feira da Oitava da Páscoa.
Frei Paulino já tinha quase noventa anos.
Mesmo com a saúde fragilizada, continuava fazendo aquilo que realizara durante grande parte de sua vida: atendendo os doentes.
Naquele dia, enquanto recebia as pessoas, começou a sentir-se mal.
O missionário que tantas vezes havia cuidado dos outros precisava agora ser cuidado.
Foi chamado o atendimento de emergência. Sua pressão estava muito baixa e tornou-se necessária a transferência para Rio Branco.
Começavam seus últimos dias.
Há algo profundamente significativo nessa cena.
Frei Paulino não estava afastado do povo.
Não estava preocupado consigo mesmo.
Estava servindo.
Quase no final de sua existência, encontramos novamente o mesmo homem que durante décadas percorreu os rios do Acre para chegar às comunidades mais distantes.
O Servo continuava servindo.
Noventa anos
Frei Paulino havia nascido em 2 de abril de 1926, em Loiano, na região de Bolonha, Itália.
No dia 2 de abril de 2016, completou noventa anos já hospitalizado.
Seis dias depois, em 8 de abril, faleceu em Rio Branco.
Encerrava-se uma existência longa e intensa, da qual aproximadamente sessenta anos haviam sido vividos como religioso e missionário no Acre, particularmente em Sena Madureira e nas comunidades espalhadas ao longo dos rios.
Noventa anos.
Mas os números, sozinhos, não conseguem medir uma vida.
Como medir as horas passadas dentro de um barco?
As viagens a cavalo pela floresta?
As crianças que aprenderam o catecismo?
Os enfermos atendidos?
As Missas celebradas?
Os batizados?
As famílias visitadas?
As noites dormidas numa rede?
Os quilômetros percorridos?
As pessoas escutadas?
As lágrimas enxugadas?
Isso não cabe numa estatística.
Cabe somente na memória de Deus e daqueles que receberam um pouco desse amor.
O povo veio despedir-se
Durante muitos anos, Frei Paulino foi ao encontro do povo.
Agora aconteceu o contrário.
O povo foi ao encontro de Frei Paulino.
Vieram pessoas de diferentes lugares para sua despedida.
Algumas haviam conhecido o missionário nas comunidades ribeirinhas. Outras haviam recebido dele medicamentos, conselhos, catequese ou os sacramentos.
Muitos simplesmente queriam estar perto daquele que estivera perto deles durante tantos anos.
A morte revelou aquilo que talvez a vida cotidiana nem sempre permitisse perceber:
Frei Paulino havia se tornado parte da história daquele povo.
O Bom Pastor
Frei Franco Azzalli apresenta como uma das chaves para compreender Frei Paulino a imagem evangélica do Bom Pastor:
«“O bom pastor dá a vida por suas ovelhas.”
(cf. Jo 10,11)»
Frei Paulino não entregou sua vida num único gesto extraordinário.
Entregou-a pouco a pouco.
Uma viagem depois da outra.
Uma desobriga depois da outra.
Uma comunidade depois da outra.
Um enfermo depois do outro.
Uma Missa depois da outra.
Uma conversa depois da outra.
É assim que muitas vidas se tornam verdadeiramente grandes diante de Deus: pela fidelidade cotidiana.
O prego e a medalha
O próprio título escolhido por Frei Franco — O prego e a medalha — provoca uma reflexão.
A vida cristã conhece a cruz e conhece a esperança.
Conhece o sofrimento, mas também a graça.
Conhece a entrega, mas também a fecundidade da entrega.
Frei Paulino não procurou construir um monumento para si.
Seu monumento tornou-se a memória daqueles que o conheceram.
Não procurou acumular riquezas.
Sua riqueza tornou-se o povo.
Não procurou uma vida confortável.
Encontrou sua casa entre os pobres e nas comunidades da Amazônia.
Um Servo de Maria até o fim
Para nós, Servos de Maria, sua história adquire uma tonalidade ainda mais familiar.
Nossa tradição nos coloca junto de Maria aos pés da Cruz.
Ali aprendemos a permanecer.
Frei Paulino permaneceu.
Permaneceu ao lado dos pobres.
Permaneceu junto aos enfermos.
Permaneceu próximo das comunidades isoladas.
Permaneceu fiel à missão recebida.
E aquela frase que encontramos anteriormente volta agora com toda a sua força:
“É o amor à Nossa Senhora que nos ensina isso.”
Maria lhe ensinou o caminho do serviço.
E ele procurou percorrê-lo até o fim.
Um fim... ou um começo?
Quando Frei Paulino morreu, terminou sua presença física entre o povo do Acre.
Mas sua memória não terminou.
As histórias continuaram sendo contadas.
As pessoas continuaram visitando seu túmulo.
Seus antigos companheiros de missão continuaram recordando seus gestos.
Os testemunhos começaram a ser recolhidos.
E Frei Franco Azzalli percebeu que aquela memória precisava ser preservada.
Assim nasceu O prego e a medalha.
Não como uma biografia definitiva.
Mas como uma homenagem.
Uma maneira de permitir que o povo continuasse contando aquilo que havia visto e vivido.
Anos depois, o próprio título do livro continuaria associado à memória de Frei Paulino.
Sua história continuaria sendo contada.
A última palavra pertence a Deus
A Igreja possui seus próprios caminhos e critérios para discernir oficialmente a santidade de seus filhos.
Por isso, não nos cabe antecipar qualquer julgamento.
Podemos, porém, conservar a memória.
Podemos agradecer.
Podemos conhecer os frutos de uma existência.
E podemos deixar que o testemunho de Frei Paulino nos faça uma pergunta muito simples:
O que estamos fazendo com a vida que Deus nos confiou?
Talvez esteja aí a maior homenagem que podemos prestar a ele.
Não apenas recordar Frei Paulino.
Mas permitir que sua vida nos provoque a servir.
Ir ao encontro.
Escutar.
Cuidar.
Permanecer.
Amar Nossa Senhora.
E, com ela, permanecer junto às cruzes dos irmãos.
Porque algumas vidas terminam.
Mas o amor que elas semearam continua caminhando.
Frei Paulino M. Baldassarri, OSM (1926–2016).
Servo de Maria. Missionário. Irmão dos pobres. Homem do povo.
Sua missão tornou-se memória.
E sua memória continua sendo convite ao serviço.
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Fonte principal
AZZALLI, Frei Franco M., OSM. O prego e a medalha – Frei Paulino M. Baldassarri dos Servos de Maria (1926–2016). Traduzido do original italiano Il chiodo e la medaglia por Frei José M. Milanez, OSM. São José dos Campos, 2018.
Somos Servos — Memória, espiritualidade e testemunho da Ordem dos Servos de Maria
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