A memória de um missionário conservada no coração daqueles que caminharam com ele
Há vidas que podem ser contadas através de datas, lugares e acontecimentos. Outras precisam ser conhecidas também através da memória daqueles que foram tocados por elas.
É assim com Frei Paulino M. Baldassarri, OSM (1926–2016).
Ao preparar O prego e a medalha, Frei Franco M. Azzalli, OSM, encontrou-se com dezenas de pessoas que haviam conhecido Frei Paulino. Aproximadamente um ano depois de sua morte, as lembranças continuavam muito vivas.
Não eram apenas recordações de um sacerdote que havia passado por suas comunidades.
Falavam de alguém que tinha entrado em suas casas e em suas histórias.
“Ele viveu, viveu, viveu!”
Entre os testemunhos recolhidos no livro, uma expressão chama particularmente a atenção.
Ao recordar Frei Paulino, uma mulher resumiu sua existência de maneira espontânea:
“Sua vida foi vida de verdade: ele viveu, viveu, viveu!”
Talvez nenhuma longa descrição pudesse dizer tanto.
Frei Paulino viveu intensamente porque sua vida não permaneceu fechada em si mesma.
Viveu para Deus.
Viveu para a missão.
Viveu para o povo.
Um missionário que conhecia as pessoas
Durante décadas de presença no Acre, especialmente em Sena Madureira e nas comunidades espalhadas ao longo dos rios, Frei Paulino tornou-se parte da vida cotidiana das famílias.
As pessoas não o conheciam apenas da igreja.
Conheciam-no chegando de barco.
Encontravam-no nas casas.
Viam-no visitando os enfermos.
As crianças lembravam-se de sua catequese.
Os adultos procuravam seus conselhos.
As comunidades esperavam sua chegada durante as desobrigas.
O missionário entrava na realidade das pessoas e permanecia próximo delas.
Por isso, sua memória não ficou restrita aos arquivos de uma paróquia ou de uma comunidade religiosa.
Ficou guardada no coração do povo.
Um pai para muitas famílias
Os testemunhos recolhidos por Frei Franco mostram que Frei Paulino não se limitava à assistência sacramental.
Quando encontrava uma família em dificuldade, procurava ajudar.
Quando percebia uma doença, buscava medicamentos.
Quando uma comunidade necessitava de educação, procurava colaborar para que houvesse escola.
Quando os pequenos produtores precisavam se organizar, incentivava associações e cooperativas.
Quando alguém precisava ser escutado, encontrava tempo.
Por isso, algumas pessoas o recordavam não somente como padre, mas com uma proximidade quase familiar.
Para muitos, Frei Paulino havia se tornado verdadeiramente um pai.
O povo era sua riqueza
A simplicidade pessoal de Frei Paulino contrastava com a riqueza das relações que construiu.
Possuía pouco.
Mas conhecia muita gente.
E muita gente o conhecia.
Sua verdadeira riqueza parecia estar espalhada pelas margens dos rios, pelas pequenas comunidades, pelas casas simples e pelas famílias que visitara durante tantos anos.
Talvez por isso sua morte tenha revelado de maneira tão forte a dimensão de sua presença.
Quando o pastor morreu
Frei Paulino faleceu em Rio Branco, no dia 8 de abril de 2016, aos noventa anos.
A notícia de sua morte espalhou-se rapidamente.
E o povo começou a chegar.
Vieram pessoas de diferentes lugares e condições sociais.
Gente simples.
Ribeirinhos.
Pessoas das comunidades do interior.
Autoridades.
Cristãos que haviam convivido com ele ao longo de décadas.
A despedida tornou-se uma manifestação espontânea de gratidão.
Aquele frade que durante tantos anos havia ido ao encontro das pessoas agora era procurado por elas pela última vez.
Era como se cada pessoa trouxesse consigo uma pequena parte da história daquele missionário.
Uma memória que ultrapassa fronteiras
Um aspecto significativo da despedida foi a diversidade das pessoas que se fizeram presentes.
A memória de Frei Paulino não estava limitada apenas aos católicos.
Sua maneira de servir havia criado vínculos que ultrapassavam diferenças religiosas e sociais.
Quando alguém tem fome, está enfermo, precisa aprender ou necessita simplesmente de uma presença amiga, a pergunta primeira do Evangelho não é a qual grupo pertence.
É:
“De que você precisa?”
Frei Paulino parece ter compreendido profundamente essa linguagem.
Talvez por isso tantas pessoas tenham reconhecido nele alguma coisa que falava de Deus mesmo antes das palavras.
O missionário visto pelo povo
Frei Franco Azzalli fez uma escolha importante ao preparar O prego e a medalha.
Ele próprio esclarece que sua intenção não era escrever uma biografia completa de Frei Paulino.
Queria deixar o povo falar.
Essa decisão é significativa.
Porque existe uma diferença entre perguntar:
“O que Frei Paulino realizou?”
e perguntar:
“O que aconteceu na vida das pessoas porque Frei Paulino passou por ela?”
A primeira pergunta produz uma lista de obras.
A segunda revela um testemunho.
E o que emerge das recordações reunidas no livro é justamente uma vida que deixou marcas.
O pastor permanece em seu povo
O Evangelho apresenta Jesus como o Bom Pastor, aquele que conhece suas ovelhas e dá a vida por elas.
Frei Paulino procurou seguir esse caminho.
Conheceu seu povo.
Caminhou com ele.
Sofreu com ele.
Celebrou com ele.
Defendeu-o.
Ensinou-o.
Cuidou dele.
E recebeu também desse povo amizade, acolhida e amor.
Por isso, quando morreu, sua missão não desapareceu.
Continuou na memória.
Nos relatos.
Nas famílias.
Nas comunidades.
Nos antigos alunos.
Nos ribeirinhos.
Nas pessoas que ainda conseguiam recordar sua voz, seu modo simples de falar, suas viagens e sua presença.
Há uma fecundidade própria das vidas verdadeiramente entregues: depois que a pessoa parte, começamos a perceber que aquilo que ela semeou continua crescendo.
“Ele viveu”
Talvez por isso a expressão daquela mulher seja tão bela:
“Ele viveu, viveu, viveu!”
Frei Paulino viveu noventa anos.
Mas a medida de uma existência cristã não está somente na quantidade dos anos.
Está na capacidade de transformar o tempo recebido em dom.
Durante aproximadamente seis décadas de missão no Acre, Frei Paulino ofereceu seu tempo.
E, oferecendo o tempo, ofereceu a própria vida.
Hoje, quando recordamos esse Servo de Maria, podemos compreender melhor por que o povo conservou sua memória com tanto carinho.
O missionário que passou a vida indo ao encontro das pessoas acabou encontrando sua última morada justamente ali:
no coração de seu povo.
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Fonte principal
AZZALLI, Frei Franco M., OSM. O prego e a medalha – Frei Paulino M. Baldassarri dos Servos de Maria (1926–2016). Traduzido do original italiano Il chiodo e la medaglia por Frei José M. Milanez, OSM. São José dos Campos, 2018.
Somos Servos — Memória, espiritualidade e testemunho da Ordem dos Servos de Maria
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