Parte I — Das raízes camponesas à partida para a missão no Brasil
Antes de ser conhecido no Brasil como Frei Egídio, seu nome era Vincenzo Moscini.
Nasceu em 4 de fevereiro de 1884, em Valentano, na então Diocese de Montefiascone, província de Viterbo, Itália. Era filho de Angelo Moscini e Annunziata Ortolani, casados na igreja paroquial de São João Evangelista, em Valentano, em 24 de setembro de 1882.
Seis dias depois de seu nascimento, em 10 de fevereiro de 1884, Vincenzo foi batizado pelo pároco, Pe. Giuseppe Peppinielli, na igreja paroquial de São João Evangelista.
Recebeu o sacramento da Confirmação em 20 de setembro de 1891.
Sua história começa profundamente ligada à terra. Desde a infância, Vincenzo trabalhou como agricultor junto de sua família.
Muito antes de ser reconhecido no Brasil como Patrono do Agricultor Familiar Brasileiro, portanto, ele conheceu pessoalmente o trabalho de quem cultiva a terra e dela retira o sustento.
O desejo da vida religiosa
No coração daquele jovem agricultor nasceu o desejo de consagrar inteiramente sua vida a Deus.
Com a ajuda de um cônego, Vincenzo procurou inicialmente os Dominicanos. Tinha particular veneração por São Vicente Ferrer, cujo nome de batismo carregava.
Naquele momento, porém, o superior dos Dominicanos respondeu que não havia lugar disponível para recebê-lo.
O caminho parecia fechado.
Mas outra porta se abriu.
O cônego entrou em contato com Frei Giuseppe M. Lucchesi, prior da antiga Província Romana dos Servos de Maria.
Depois do habitual discernimento para sua admissão, realizado em 2 de novembro de 1904, Vincenzo foi recebido no dia seguinte, 3 de novembro, pela comunidade dos Servos de Maria de Orvieto como postulante leigo.
Começava uma história que uniria para sempre aquele jovem agricultor italiano à família dos Servos de Santa Maria.
Nos conventos dos Servos de Maria
A formação de Vincenzo passou por diferentes comunidades.
Depois de Orvieto, esteve no convento de São Marcelo, em Roma. Em 17 de março de 1906, foi transferido para Senigallia.
Aqueles anos foram preparando lentamente sua entrada definitiva na vida religiosa.
Finalmente, em 8 de dezembro de 1908, no convento de São Filipe, em Montefano, iniciou o noviciado.
Recebeu o hábito religioso.
E recebeu também um novo nome:
Frei Egídio.
A partir daquele momento, Vincenzo Moscini começava uma nova etapa de sua existência como Frei Egídio Maria.
“Assíduo e constante no trabalho”
Seu mestre de formação, Frei Amadio M. Tinti, deixou um testemunho precioso sobre o jovem noviço.
Observava que Frei Egídio era muito silencioso. Mas não interpretava esse silêncio negativamente: atribuía-o ao seu amor pela paz e pelo recolhimento.
E acrescentava algo que acabaria caracterizando toda a vida do futuro missionário:
era assíduo e constante no trabalho e nunca era encontrado ocioso.
É um retrato surpreendentemente simples.
Silêncio.
Paz.
Trabalho.
Constância.
Décadas depois, seriam justamente essas características que antigos seminaristas, confrades e moradores de Turvo recordariam.
A profissão religiosa
Em 10 de dezembro de 1909, Frei Egídio emitiu seus primeiros votos religiosos na Ordem dos Servos de Maria.
Depois foi destinado à comunidade de Pesaro, onde sua presença aparece documentada nos capítulos provinciais dos anos seguintes.
Vieram também os difíceis anos da Primeira Guerra Mundial.
Em julho de 1916, Frei Egídio foi declarado dispensado do serviço militar.
Terminada a guerra, aproximou-se outro momento decisivo de sua vida.
Em 26 de janeiro de 1920, no convento de Santa Maria in Via, em Roma, Frei Egídio emitiu sua profissão solene como irmão converso, consagrando definitivamente sua vida a Deus na Ordem dos Servos de Maria.
Não seria sacerdote.
Sua vocação seria a de irmão religioso.
Essa característica possui grande importância para compreender sua vida e, posteriormente, sua própria Causa de Beatificação.
Frei Egídio testemunharia que a santidade da vida religiosa não depende da ordenação sacerdotal. Sua raiz encontra-se no Batismo e na entrega da própria existência a Deus.
“Quero ser missionário”
No mesmo período ocorreu um encontro que mudaria completamente o rumo de sua vida.
Em 1920, Frei Egídio conheceu Dom Próspero M. Bernardi, OSM, primeiro bispo da Prelazia do Alto Acre e Alto Purus.
A missão daquela extensa região amazônica havia sido confiada pela Santa Sé aos Servos de Maria.
Diante do bispo missionário, Frei Egídio manifestou um desejo:
queria partir para as missões.
Um irmão religioso já havia sido escolhido para integrar o primeiro grupo destinado ao Acre. Frei Egídio, portanto, não partiu imediatamente.
Mas sua disponibilidade foi acolhida.
Foi incluído no segundo grupo missionário, juntamente com Frei Bonagiunta M. Busi, Frei Filippo M. Gallerani e Frei Donato M. Gabrielli.
A partida
Em 12 de julho de 1921, Frei Egídio deixou a Europa.
O grupo partiu de Newport, na Inglaterra. Com os frades viajavam também seis religiosas Servas de Maria Reparadoras.
Começava uma viagem que mudaria definitivamente sua existência.
Em 25 de julho de 1921, chegaram a Belém do Pará.
A viagem, entretanto, estava longe de terminar.
As condições do Rio Acre, então afetado pelo período de seca, dificultaram a continuação do percurso.
Depois de semanas de viagem e espera, Frei Egídio e Frei Filippo M. Gallerani finalmente chegaram a Rio Branco, em 25 de setembro de 1921.
Frei Egídio tinha 37 anos.
O agricultor de Valentano havia se tornado missionário na Amazônia.
Um Servo de Maria no Brasil
Frei Egídio não sabia naquele momento que jamais voltaria à Itália.
O Brasil se tornaria sua nova terra.
Durante os cinquenta e cinco anos seguintes, sua vida passaria pelo Acre, Rio de Janeiro e Santa Catarina.
Mas algo permaneceria sempre igual.
O jovem agricultor que aprendera desde cedo a trabalhar com as próprias mãos continuaria trabalhando.
O religioso silencioso continuaria rezando.
O irmão continuaria servindo.
Cozinharia para os missionários.
Faria pão.
Cuidaria de sacristias.
Ensinaria catequese.
Cultivaria hortas.
Acompanharia seminaristas.
Rezaria pelas vocações.
Não chegava ao Brasil para ocupar lugares importantes.
Chegava para servir.
Talvez esteja justamente aí uma das chaves para compreender toda a sua existência.
Frei Egídio havia entrado numa Ordem que traz no próprio nome uma vocação:
Servos de Maria.
E faria desse nome um programa de vida.
Em 25 de setembro de 1921, Rio Branco acolhia um irmão religioso italiano quase desconhecido.
Começava ali uma história missionária que atravessaria mais de meio século.
Continua — Parte II: Frei Egídio M. Moscini, OSM — Doze anos de serviço no coração da Amazônia.
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