Parte II — Doze anos de serviço no coração da Amazônia
Em 25 de setembro de 1921, Frei Egídio M. Moscini chegou a Rio Branco, no Acre.
Tinha 37 anos.
Havia deixado definitivamente a Itália e atravessado o oceano movido por um desejo simples: ser missionário.
Sua missão, porém, não seria exercida através da pregação sacerdotal.
Frei Egídio era irmão religioso.
Sua evangelização aconteceria sobretudo através do serviço cotidiano.
A missão dos Servos de Maria
A região do Alto Acre e Alto Purus constituía um imenso território missionário confiado aos Servos de Maria.
As distâncias eram enormes.
Os rios constituíam as grandes vias de comunicação.
As condições de viagem eram difíceis.
Foi nesse ambiente que Frei Egídio começou sua vida missionária no Brasil.
Não chegou sozinho. Integrava o segundo grupo de Servos de Maria destinado à missão, juntamente com os frades sacerdotes Bonagiunta M. Busi, Filippo M. Gallerani e Donato M. Gabrielli.
Depois da longa viagem, Frei Egídio e Frei Filippo chegaram a Rio Branco em 25 de setembro de 1921.
Começavam os doze anos amazônicos daquele irmão italiano.
Rio Branco — 1921–1927
Sua primeira etapa foi Rio Branco, onde permaneceu de 1921 a 1927.
Ali exerceu principalmente duas funções:
sacristão e cozinheiro.
Como sacristão, cuidava da igreja de São Sebastião e São Filipe.
Como cozinheiro, cuidava dos missionários.
À primeira vista, podem parecer tarefas secundárias diante dos grandes desafios da evangelização amazônica.
Mas uma missão também depende dessas pequenas fidelidades.
Alguém precisava preparar a igreja.
Alguém precisava cuidar dos objetos utilizados na celebração.
Alguém precisava preparar a alimentação.
Alguém precisava assegurar silenciosamente que a comunidade missionária pudesse continuar seu trabalho.
Esse alguém era muitas vezes Frei Egídio.
A missão escondida
Não encontramos em sua vida grandes discursos missionários.
Encontramos trabalho.
Enquanto outros frades percorriam comunidades, celebravam os sacramentos e exerciam o ministério sacerdotal, Frei Egídio sustentava a vida cotidiana da fraternidade.
Sua missão acontecia dentro da casa.
Na sacristia.
Na cozinha.
No trabalho realizado sem chamar atenção.
Essa forma de servir acompanharia Frei Egídio durante toda a vida.
Mais tarde, no Seminário de Turvo, a mesma disponibilidade faria com que fosse lembrado como uma das colunas daquela comunidade.
No Acre, porém, essa história estava apenas começando.
Sena Madureira — 1928–1933
Em 1928, Frei Egídio foi destinado a Sena Madureira.
Ali permaneceu até 1933.
Seu serviço continuou simples e indispensável.
Preparava a comida dos confrades.
E fazia o pão.
A imagem do pão atravessa silenciosamente sua biografia.
Décadas mais tarde, em Santa Catarina, Frei Egídio continuaria sendo lembrado por preparar alimentos e trabalhar para sustentar a comunidade.
No Acre, fazer o pão fazia parte da própria missão.
Era uma maneira concreta de cuidar dos irmãos.
A fraternidade também se constrói à mesa.
O irmão que sustentava a missão
A vida de Frei Egídio ajuda a compreender uma dimensão importante da missão da Igreja.
Nem todos são enviados para fazer as mesmas coisas.
Alguns anunciam pela palavra.
Outros administram os sacramentos.
Outros ensinam.
Outros percorrem grandes distâncias.
E alguns tornam possível a missão através de serviços quase invisíveis.
Frei Egídio pertencia a estes últimos.
Era o irmão que trabalhava para que outros pudessem trabalhar.
Servia aos missionários para que os missionários pudessem servir ao povo.
Xapuri — 1933
A última etapa de sua presença no Acre foi Xapuri.
Em 1933, permaneceu ali durante aproximadamente cinco meses.
Mais uma vez, seu serviço principal foi a cozinha.
Era o mesmo Frei Egídio.
Outra casa.
Outra cidade.
Outros confrades.
Mas a mesma disposição:
servir.
Doze anos no Acre
Quando deixou o Acre, em 1933, Frei Egídio havia passado aproximadamente doze anos na Amazônia.
Rio Branco.
Sena Madureira.
Xapuri.
Foram os primeiros lugares brasileiros de uma vida que nunca mais retornaria definitivamente à terra natal.
A documentação posterior recordaria Frei Egídio como o último sobrevivente do segundo grupo de religiosos que participou dos primeiros tempos da missão servita no Acre.
Aquele capítulo missionário marcaria para sempre sua história.
Uma espiritualidade feita serviço
Há algo profundamente servita na maneira como Frei Egídio viveu aqueles anos.
A tradição dos Servos de Maria coloca diante dos frades a figura de Maria como mulher disponível à vontade de Deus.
Frei Egídio não precisou realizar coisas extraordinárias para viver essa espiritualidade.
Sua resposta aconteceu na fidelidade cotidiana.
Preparar uma refeição.
Fazer o pão.
Cuidar da igreja.
Servir aos confrades.
Recomeçar numa nova comunidade quando os superiores pediam.
Sua missão era feita dessas pequenas disponibilidades.
Um irmão missionário
Frei Egídio também nos ajuda a ampliar nossa compreensão da palavra missionário.
Missionário não é somente aquele que prega.
A missão pertence a toda a comunidade.
Frei Egídio não era sacerdote.
Era irmão religioso.
Mesmo assim, foi enviado à missão e participou concretamente da implantação e sustentação da presença dos Servos de Maria no Acre.
Seu testemunho recorda que a vocação missionária nasce antes de tudo da disponibilidade:
“Eis-me aqui.”
Depois, Deus determina o lugar e a forma do serviço.
Para Frei Egídio, muitas vezes esse lugar foi a cozinha.
E justamente ali ele viveu sua consagração.
Uma nova missão
Em 1933, terminou o período amazônico.
Depois de doze anos no Acre, Frei Egídio recebeu uma nova destinação.
Deixaria a Amazônia e seguiria para a então capital do Brasil:
Rio de Janeiro.
Começava outro capítulo de sua longa vida brasileira.
Mais tarde chegariam Araranguá e, finalmente, Turvo.
Mas Frei Egídio levaria consigo aquilo que aprendera desde Valentano e confirmara no Acre:
trabalhar sem procurar reconhecimento;
rezar sem fazer ruído;
servir sem perguntar se o serviço era importante.
Era um Servo de Maria.
E isso lhe bastava.
Continua — Parte III: Frei Egídio M. Moscini, OSM — Do Rio de Janeiro às terras de Santa Catarina.
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