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01/10/2026

XXV — Os conselhos evangélicos na vida do Servo de Maria



Seguimento de Cristo, liberdade e plenitude humana

A partir do estudo de Frei David M. Mejía Cisneros, OSM

Quando falamos de pobreza, castidade e obediência, existe sempre o risco de começar pelo lugar errado.

Podemos começar pelas renúncias.

Pelo que não podemos possuir.

Pelas relações às quais renunciamos.

Pela vontade que submetemos.

Pelas normas que regulam a vida religiosa.

Frei David M. Mejía Cisneros propõe um horizonte muito mais amplo.

Antes de serem renúncias, os conselhos evangélicos pertencem à dinâmica do:

seguimento de Jesus Cristo.

Nascem de um chamado.

São acolhidos na liberdade.

Orientam toda a pessoa para Deus.

E procuram conduzir o consagrado à:

perfeição da caridade.

Por isso, pobreza, castidade e obediência não podem ser compreendidas isoladamente.

Juntas, expressam uma maneira de entregar a existência.

A pergunta fundamental não é:

“A que renunciei?”

Mas:

“A quem entreguei minha vida?”

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I. Conselhos, mandamentos e votos

1. Os mandamentos indicam o caminho fundamental

Frei David começa fazendo uma distinção necessária.

Os mandamentos pertencem ao caminho fundamental da vida cristã.

Expressam aquilo que corresponde à resposta do discípulo à aliança com Deus.

Não constituem uma espiritualidade reservada a alguns.

Pertencem à vocação cristã.

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2. Os conselhos nascem do Evangelho

Os conselhos evangélicos possuem outra função.

Eles não substituem os mandamentos.

Também não criam uma classe superior de cristãos.

Manifestam uma forma particular de radicalidade no seguimento de Cristo.

A tradição da Igreja reconheceu especialmente três:

castidade;
pobreza;
obediência.

Esses três conselhos tocam dimensões profundas da existência humana.

A castidade toca:

o amor e a afetividade.

A pobreza toca:

os bens e a segurança.

A obediência toca:

a liberdade e a própria vontade.

Por isso, professá-los significa permitir que o Evangelho alcance dimensões centrais da pessoa.

---

3. Conselho e voto não são exatamente a mesma coisa

Frei David distingue também:

conselho evangélico e voto religioso.

O conselho é uma proposta evangélica de seguimento.

O voto é o ato pelo qual a pessoa assume publicamente diante de Deus e da Igreja determinada obrigação correspondente ao conselho.

Assim, a vida religiosa não se reduz à observância jurídica dos votos.

O voto dá forma pública e estável a uma opção espiritual mais profunda.

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II. Todos são chamados à santidade

4. Os conselhos e a vocação cristã

O Concílio Vaticano II ajudou a superar uma compreensão segundo a qual a perfeição cristã estaria reservada aos religiosos.

A chamada à santidade é:

universal.

Todo batizado é chamado à plenitude da caridade.

Por isso, os valores expressos pelos conselhos evangélicos dizem algo a toda a Igreja.

Todo cristão é chamado:

à liberdade diante dos bens;

à maturidade do amor;

à escuta da vontade de Deus.

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5. A profissão religiosa possui, porém, forma própria

Embora os valores evangélicos interessem a todos, a vida consagrada assume-os de maneira:

pública;

estável;

eclesial.

O religioso professa os conselhos como forma de vida.

Não apenas pratica ocasionalmente pobreza, castidade e obediência.

Procura organizar toda a existência a partir deles.

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III. No centro está Cristo

6. Os conselhos são cristológicos

Não compreendemos os conselhos olhando primeiramente para nós mesmos.

Precisamos olhar para:

Cristo.

Jesus vive:

pobre;

casto;

obediente ao Pai.

Sua existência inteira é:

dom.

Por isso, a profissão religiosa procura conformar o discípulo à forma de vida de Cristo.

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7. Seguir Cristo mais de perto

A linguagem tradicional fala de:

seguir Cristo mais de perto.

Isso não significa afirmar que o religioso seja automaticamente melhor cristão.

Significa que sua forma de vida pretende tornar visíveis alguns traços da existência histórica de Jesus.

Ele procura entregar:

afetos;

bens;

liberdade

ao seguimento do Senhor.

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8. A forma de Cristo Servo

Para nós, Servos de Maria, essa conformação possui ressonância particular.

Cristo declara:

“Eu estou no meio de vós como aquele que serve.”

E ainda:

“O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir.”

Os conselhos evangélicos não podem produzir pessoas fechadas sobre a própria perfeição.

Devem formar:

servos.

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IV. Uma iniciativa de Deus

9. Antes de nossa resposta está o chamado

Frei David situa a vida consagrada dentro de uma perspectiva trinitária.

A consagração não começa simplesmente numa decisão humana.

Existe antes:

a iniciativa de Deus.

Deus chama.

O Espírito move.

A pessoa responde.

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10. O Pai chama

A vocação nasce do amor do Pai.

Não somos nós que criamos o chamado.

Recebemo-lo.

Isso impede que a consagração seja interpretada como projeto de autorrealização espiritual.

Ela é primeiramente:

resposta.

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11. O Filho é seguido

A resposta toma a forma do seguimento de Cristo.

Não seguimos uma teoria.

Não professamos simplesmente valores.

Seguimos:

uma pessoa.

Jesus Cristo.

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12. O Espírito consagra e transforma

É o Espírito quem torna possível a resposta.

Ele atua no interior da pessoa e conduz progressivamente à configuração com Cristo.

Assim, os conselhos possuem estrutura profundamente:

trinitária.

Do Pai vem o chamado.

No Filho encontramos a forma.

No Espírito recebemos a força para responder.

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V. Uma consagração para a caridade

13. A finalidade não é a renúncia

Se interpretarmos os conselhos apenas como renúncia, perderemos seu sentido.

A finalidade é:

amar.

A tradição da Igreja relaciona a vida consagrada à perfeição da caridade.

Por isso precisamos perguntar:

Minha pobreza está tornando-me mais disponível?

Minha castidade está ampliando minha capacidade de amar?

Minha obediência está tornando-me mais livre para Deus e para os irmãos?

Se não, alguma coisa precisa ser revista.

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14. Os conselhos libertam para o amor

Os três conselhos podem ser compreendidos como três caminhos de liberdade.

Castidade: liberdade para amar.

Pobreza: liberdade diante dos bens.

Obediência: liberdade para buscar a vontade de Deus.

A renúncia possui sentido porque abre espaço para:

uma entrega maior.

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VI. Um sinal eclesial

15. Os conselhos são professados na Igreja

A profissão religiosa não é ato puramente privado entre a pessoa e Deus.

Ela acontece:

na Igreja.

A Igreja recebe a profissão.

Reconhece o carisma.

Confia uma missão.

Por isso, a vida consagrada possui caráter público.

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16. Um dom para todo o Corpo

A consagração não existe apenas para santificação individual.

É dom concedido ao:

Corpo de Cristo.

O religioso é chamado a tornar visíveis determinados valores evangélicos para toda a comunidade cristã.

A vida consagrada possui, portanto, dimensão:

eclesial.

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VII. Um sinal profético

17. Os conselhos anunciam outra maneira de viver

Frei David destaca a dimensão profética da vida consagrada.

Pobreza, castidade e obediência podem questionar alguns absolutos de cada época.

Quando a sociedade absolutiza:

posse;

consumo;

prazer;

autossuficiência;

poder;

individualismo,

os conselhos anunciam que nenhuma dessas realidades pode ocupar o lugar de Deus.

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18. Profecia não é condenação do mundo

O sinal profético não significa desprezar:

bens;

amor humano;

liberdade.

Ao contrário.

Os conselhos procuram revelar o valor verdadeiro dessas realidades, libertando-as de sua absolutização.

Os bens são bons.

Mas não são Deus.

A sexualidade e o amor são bons.

Mas não são Deus.

A liberdade é boa.

Mas não significa fazer da própria vontade o absoluto.

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VIII. Uma antecipação do Reino

19. Dimensão escatológica

A vida consagrada possui também uma dimensão voltada para o futuro de Deus.

Os conselhos recordam que nossa realização definitiva não se encontra simplesmente:

naquilo que possuímos;

nas relações que construímos;

no poder que exercemos.

Nossa plenitude está:

em Deus.

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20. Um sinal do mundo futuro

A castidade pelo Reino recorda que toda relação humana tende à comunhão definitiva em Deus.

A pobreza recorda que os bens presentes não constituem nossa herança final.

A obediência recorda que a liberdade encontra plenitude na comunhão com a vontade divina.

A vida religiosa procura antecipar, de maneira frágil e humana:

algo do Reino futuro.

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IX. Castidade — liberdade para amar

21. A castidade não é ausência de amor

Talvez nenhum conselho tenha sido tão mal compreendido quanto a castidade.

Ela pode ser interpretada simplesmente como:

renúncia ao matrimônio;

abstinência sexual;

distância afetiva.

Mas isso é insuficiente.

A castidade consagrada deve abrir para:

uma capacidade maior de amar.

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22. Um coração não apropriador

A pessoa consagrada não renuncia ao amor.

Renuncia a determinada forma exclusiva de relação para colocar-se, de modo particular, a serviço de Deus e dos irmãos.

Isso exige:

maturidade;

integração afetiva;

liberdade interior.

Não significa tornar-se frio.

Ao contrário.

Deveria tornar-nos:

mais capazes de ternura, amizade e proximidade.

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23. A castidade precisa amadurecer

A profissão não elimina automaticamente:

necessidades afetivas;

fragilidades;

solidão;

sexualidade;

desejo de reconhecimento.

Tudo isso precisa ser integrado.

Por isso, a castidade é também:

caminho permanente de formação.

---

24. Castidade e fraternidade

A comunidade constitui lugar concreto de verificação.

Sou capaz de:

amizade sem posse?

proximidade sem dependência?

afeto sem exclusividade?

cuidado sem controle?

A castidade encontra sua verdade quando ajuda a construir:

relações livres e fraternas.

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X. Pobreza — liberdade para partilhar

25. Cristo pobre

A pobreza religiosa nasce da contemplação de Cristo.

Ele assume a condição humana.

Vive em disponibilidade.

Não constrói sua existência sobre a segurança dos bens.

Confia no Pai.

Compartilha a vida dos pequenos.

---

26. A pobreza não é miséria

Pobreza evangélica não significa romantizar a miséria.

A miséria desumaniza e deve ser combatida.

A pobreza religiosa é escolha de:

sobriedade;

partilha;

dependência fraterna;

liberdade diante dos bens.

Ela deveria aproximar-nos daqueles para quem a pobreza não é escolha.

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XI. A pobreza na tradição servita

27. Um tema particularmente ligado às origens

É precisamente na pobreza que Frei David dedica atenção especial à tradição dos Servos de Maria.

As origens da Ordem mostram homens que procuraram deixar uma maneira anterior de organizar a existência para assumir uma vida comum orientada pelo Evangelho.

A pobreza não aparece separada da:

fraternidade.

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28. Pobreza e comunhão

Para o Servo de Maria, não basta dizer:

“não possuo”.

A pergunta é também:

“partilho?”

A pobreza encontra expressão concreta na:

comunhão dos bens;

responsabilidade;

transparência;

sobriedade;

solidariedade.

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29. O Ato de Pobreza

Frei David recorda também a tradição do chamado:

“Ato de Pobreza”.

Essa memória das origens manifesta a vontade de não construir a segurança da fraternidade sobre a posse individual.

A pobreza assume, portanto, uma dimensão:

comunitária.

---

30. Pobreza que aproxima dos pobres

A pobreza professada seria contraditória se nos tornasse indiferentes aos pobres reais.

O Servo de Maria precisa perguntar:

Nossa maneira de viver permite compreender melhor quem possui pouco?

Estamos próximos dos necessitados?

Nossas estruturas testemunham sobriedade?

Partilhamos?

---

31. Uma pergunta necessária

Não basta perguntar:

“Cumpro juridicamente o voto de pobreza?”

É preciso perguntar:

“Minha maneira de viver parece pobre?”

A pobreza precisa possuir alguma:

visibilidade evangélica.

---

XII. Obediência — liberdade para buscar a vontade de Deus

32. Cristo obediente

A obediência encontra sua forma em Jesus.

Toda sua existência é orientada para a vontade do Pai.

Sua obediência não é servil.

É:

filial.

Nasce do amor.

---

33. Obediência não é infantilização

Uma compreensão imatura da obediência pode transformar o religioso em alguém incapaz de:

pensar;

discernir;

assumir responsabilidade.

Essa não é a finalidade do conselho.

A verdadeira obediência exige uma pessoa:

madura e livre.

---

34. Procurar juntos

Na vida religiosa, a vontade de Deus é discernida por mediações concretas.

Entre elas estão:

a Palavra;

a Igreja;

as Constituições;

a autoridade;

a comunidade;

os sinais dos tempos.

Obedecer não significa simplesmente executar.

Significa entrar num processo de:

escuta e discernimento.

---

35. Autoridade também obedece

Existe aqui uma consequência decisiva.

Se todos procuram a vontade de Deus, também quem exerce autoridade deve:

escutar;

discernir;

dialogar;

rezar;

buscar.

A autoridade não é dona da vontade de Deus.

Está a seu serviço.

---

36. Liberdade e obediência

Pode parecer paradoxal.

Mas a obediência evangélica pretende formar:

liberdade.

Liberdade diante do ego.

Liberdade diante da necessidade de vencer.

Liberdade para acolher uma decisão comum.

Liberdade para reconhecer que Deus pode falar também por meio de outros.

---

XIII. Os três conselhos formam uma unidade

37. Não existem separadamente

Na prática, castidade, pobreza e obediência estão profundamente relacionadas.

Apego afetivo pode tornar-se posse.

Apego aos bens pode limitar a disponibilidade.

A vontade de controlar pode atingir relações e recursos.

Por isso, os três conselhos precisam ser vividos:

juntos.

---

38. Amor, bens e liberdade entregues a Deus

Podemos sintetizar:

Na castidade entregamos nossa maneira de:

amar.

Na pobreza entregamos nossa relação com:

os bens.

Na obediência entregamos nossa:

liberdade.

Não para destruí-los.

Mas para recebê-los novamente dentro do seguimento de Cristo.

---

XIV. Os conselhos e a fraternidade

39. A comunidade é o lugar da verdade

É relativamente fácil possuir uma compreensão ideal dos votos.

A fraternidade mostra como realmente os vivemos.

Na comunidade descobrimos:

se amamos livremente;

se partilhamos;

se escutamos;

se aceitamos limites;

se sabemos renunciar;

se sabemos receber.

Por isso, a vida comum é lugar privilegiado de verificação dos conselhos.

---

40. A castidade constrói fraternidade

Quando vivida com maturidade, ela permite relações:

livres;

gratuitas;

fraternas.

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41. A pobreza constrói fraternidade

Quando vivida evangelicamente, conduz à:

partilha;

comunhão dos bens;

sobriedade;

solidariedade.

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42. A obediência constrói fraternidade

Quando vivida responsavelmente, conduz ao:

diálogo;

discernimento;

corresponsabilidade;

busca do bem comum.

Assim, os votos não são apenas compromissos individuais.

Eles dão forma à:

comunidade.

---

XV. Em Jesus Cristo, um novo humanismo

43. Os conselhos e a realização humana

Frei David encerra seu estudo com um tema especialmente importante:

“Em Jesus Cristo, o novo humanismo.”

A questão é decisiva.

Os conselhos evangélicos tornam a pessoa:

menos humana?

menos livre?

menos realizada?

A resposta do autor é:

não.

---

44. Cristo revela a plenitude do humano

A referência é Cristo.

Nele encontramos não apenas o Filho de Deus, mas também a revelação da humanidade realizada segundo o projeto de Deus.

Segui-lo não significa diminuir nossa humanidade.

Significa permitir que ela seja:

transformada.

---

45. Renunciar para receber de outra maneira

A lógica evangélica possui um paradoxo.

Perder para encontrar.

Dar para receber.

Morrer para viver.

Os conselhos entram nessa dinâmica.

Renunciamos não porque:

o amor seja mau;

os bens sejam maus;

a liberdade seja má.

Renunciamos a determinadas formas de apropriação para aprender uma relação nova com:

amor;

bens;

liberdade.

---

46. A castidade deve humanizar

Se a castidade torna alguém:

frio;

isolado;

incapaz de amizade;

duro;

afetivamente imaturo,

precisamos perguntar como está sendo vivida.

A castidade madura deveria produzir:

um coração mais amplo.

---

47. A pobreza deve humanizar

Se a pobreza produz:

irresponsabilidade;

descuido;

dependência infantil;

indiferença à necessidade alheia,

algo está errado.

A pobreza madura deveria produzir:

sobriedade;

gratidão;

partilha;

solidariedade.

---

48. A obediência deve humanizar

Se a obediência produz:

medo;

passividade;

incapacidade de decidir;

irresponsabilidade,

ela perdeu seu sentido evangélico.

A obediência madura deveria produzir:

discernimento;

responsabilidade;

liberdade interior;

disponibilidade.

---

XVI. Conselhos evangélicos e missão

49. O mundo precisa ver aquilo que professamos

A profissão religiosa possui dimensão de testemunho.

Não basta dizer:

“sou pobre”;

“sou casto”;

“sou obediente”.

A pergunta é:

o que essas escolhas tornam visível?

---

50. A castidade anuncia

Ela anuncia que:

Deus pode preencher profundamente o coração humano e que toda pessoa deve ser amada sem ser possuída.

---

51. A pobreza anuncia

Ela anuncia que:

o valor da pessoa não depende do que possui e que os bens existem também para ser partilhados.

---

52. A obediência anuncia

Ela anuncia que:

a liberdade humana encontra plenitude não no isolamento, mas na relação e na busca do bem.

---

XVII. Uma pergunta para cada conselho

Depois de toda a reflexão teológica, podemos chegar a três perguntas muito simples.

Castidade

Minha maneira de amar torna os outros mais livres?

Pobreza

Minha maneira de usar os bens torna-me mais disponível para partilhar?

Obediência

Minha maneira de exercer a liberdade ajuda-me a buscar verdadeiramente a vontade de Deus?

Essas perguntas talvez revelem mais do que muitas verificações puramente jurídicas.

---

XVIII. A pergunta do Servo

Mas existe uma quarta pergunta.

Somos:

Servos de Maria.

Portanto:

Meus votos estão tornando-me mais servo?

Mais disponível?

Mais fraterno?

Mais simples?

Mais livre?

Mais capaz de amar?

Mais próximo dos pequenos?

Mais aberto à vontade de Deus?

Se os anos de profissão não estiverem produzindo esses frutos, precisamos voltar à fonte.

---

XIX. Maria, mulher consagrada ao projeto de Deus

A identidade servita convida-nos finalmente a olhar para Maria.

Frei David desenvolve os conselhos dentro da teologia da vida consagrada; para o Servo, essa reflexão encontra espontaneamente sua referência carismática naquela que se definiu:

“Serva do Senhor.”

Maria não viveu os votos religiosos na forma canônica que conhecemos.

Mas sua existência manifesta uma radical:

disponibilidade;

pobreza de coração;

inteireza no amor;

obediência da fé.

---

53. “Eis aqui a Serva”

Seu fiat oferece uma síntese espiritual.

Maria não entrega a Deus apenas:

alguma coisa.

Entrega:

a si mesma.

Por isso, diante dela, o Servo pode compreender novamente que os conselhos evangélicos não são três compartimentos da vida.

São expressão de uma única atitude:

“Eis-me aqui.”

---

Conclusão — Uma vida entregue

Depois de percorrer o estudo de Frei David M. Mejía Cisneros, podemos voltar à pergunta inicial.

O que professamos quando professamos:

castidade;

pobreza;

obediência?

Não professamos simplesmente três renúncias.

Professamos uma:

vida entregue.

Entregamos nossa maneira de amar.

Entregamos nossa relação com os bens.

Entregamos nossa liberdade.

E fazemos isso porque antes:

fomos alcançados por Cristo.

O Pai chamou.

O Filho mostrou o caminho.

O Espírito tornou possível a resposta.

A Igreja recebeu nossa profissão.

A comunidade tornou-se o lugar cotidiano de sua verificação.

A missão tornou-se o espaço de seu testemunho.

E Maria, Mãe e Serva do Senhor, permanece diante de nós como mulher inteiramente disponível ao projeto de Deus.

Por isso, a pergunta definitiva não é:

“O que deixei para tornar-me religioso?”

Mas:

“Em quem estou me tornando porque entreguei minha vida a Cristo?”

Se a resposta for:

mais livre;

mais humano;

mais fraterno;

mais disponível;

mais capaz de amar;

mais pobre de coração;

mais atento à vontade de Deus;

mais servidor,

então os conselhos estão cumprindo sua finalidade.

Estão conduzindo-nos não para uma humanidade diminuída,

mas para aquilo que Frei David contempla em Cristo:

uma humanidade renovada.

---

Para guardar

Os conselhos evangélicos pertencem à dinâmica do seguimento de Cristo.

O voto é a forma pública e eclesial de assumir o conselho.

Toda a Igreja é chamada à santidade e à plenitude da caridade.

A vida consagrada torna visíveis, de modo próprio, valores do Evangelho.

O Pai chama, o Filho é seguido e o Espírito transforma.

Os conselhos possuem dimensão cristológica, trinitária, eclesial, profética e escatológica.

Castidade é liberdade para amar.

Pobreza é liberdade diante dos bens para partilhar.

Obediência é liberdade madura para buscar a vontade de Deus.

Na tradição servita, a pobreza possui profunda relação com fraternidade e comunhão dos bens.

A comunidade é o lugar cotidiano de verificação dos votos.

Os conselhos não deveriam diminuir nossa humanidade, mas amadurecê-la em Cristo.

E a pergunta que atravessa todo o XXV:

Meus votos estão tornando-me mais livre para amar, partilhar e servir?

---

Fonte principal: Frei David M. Mejía Cisneros, OSM, Consigli Evangelici.

Percurso do estudo: natureza dos conselhos e dos votos; evolução eclesial e canônica; Vaticano II; dimensões cristológica, trinitária, eclesial, escatológica e profética; castidade, pobreza e obediência; tradição servita da pobreza; e realização integral da pessoa em Jesus Cristo.

XXV — Os conselhos evangélicos na vida do Servo de Maria
Seguimento de Cristo, liberdade e plenitude humana

SOMOS SERVOS DA VIRGEM GLORIOSA

Livres para amar.
Livres para partilhar.
Livres para escutar.
Livres para servir.
Livres para dizer com Maria: “Eis-me aqui”.

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