A beleza de uma vida inteiramente voltada para Deus
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana prossegue:
Torre de marfim, rogai por nós.
Na invocação anterior contemplamos Maria como Torre de Davi.
Ali predominava a imagem da firmeza.
Agora a torre permanece, mas surge um novo elemento:
o marfim.
A linguagem torna-se poética.
Preciosidade.
Beleza.
Nobreza.
E, sobretudo, uma beleza que a tradição cristã reconheceu como imagem apropriada para falar daquela que foi inteiramente alcançada pela graça de Deus.
Uma imagem que vem da Bíblia
A expressão não nasceu simplesmente da imaginação dos autores da Ladainha.
No Cântico dos Cânticos, encontramos:
“Teu pescoço é como uma torre de marfim.”
O Cântico utiliza uma linguagem poética para celebrar a beleza da pessoa amada.
Olhos.
Cabelos.
Perfumes.
Jardins.
Flores.
Torres.
Tudo se transforma em poesia.
E entre essas imagens aparece a torre de marfim.
O Cântico dos Cânticos e Maria
É importante compreender corretamente essa relação.
O Cântico dos Cânticos, em seu sentido próprio, celebra o amor entre o amado e a amada.
Ao longo da tradição cristã, porém, suas imagens também foram lidas espiritualmente para falar do amor entre Deus e seu povo, de Cristo e da Igreja e, posteriormente, aplicadas à Virgem Maria.
Assim, quando a Ladainha chama Maria de Torre de marfim, entra nesse grande universo simbólico da tradição bíblica e cristã.
Uma beleza recebida
Como acontece com tantos títulos marianos, precisamos começar por Deus.
A beleza de Maria não existe separada dele.
Ela é obra da graça.
O anjo a saúda:
“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo.”
Antes de Maria fazer alguma coisa, Deus já está agindo nela.
Por isso, a verdadeira beleza de Maria é uma beleza recebida.
A beleza da graça
Nossa cultura fala muito de beleza.
Frequentemente pensa primeiro na aparência.
O Evangelho conduz nosso olhar para outra profundidade.
Existe a beleza de uma pessoa que sabe acolher.
A beleza de quem permanece fiel.
A beleza de quem serve sem procurar reconhecimento.
A beleza de quem sabe perdoar.
A beleza de quem envelhece sem deixar o coração tornar-se amargo.
A beleza de uma vida que deixa Deus agir.
Maria possui essa beleza.
“Faça-se em mim”
Na Anunciação, sua beleza interior torna-se visível numa resposta:
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”
Que beleza existe numa pessoa capaz de dizer isso!
Não a beleza da aparência.
Mas a beleza da liberdade entregue.
Da confiança.
Da fé.
Da disponibilidade.
O marfim e a preciosidade
No mundo bíblico antigo, o marfim era um material precioso.
A Escritura o associa inclusive a objetos e ambientes de grande valor.
Por isso, numa imagem poética, o marfim pode sugerir algo belo e precioso.
Aplicado espiritualmente a Maria, ajuda-nos a contemplar a preciosidade de uma existência inteiramente disponível à graça.
Mas é necessário fazer uma distinção.
Maria não é preciosa porque pertence aos poderosos.
É preciosa porque pertence a Deus.
A verdadeira nobreza
Isso modifica nossa compreensão da nobreza.
Para o Evangelho, a grandeza de uma pessoa não depende de riqueza, posição ou prestígio.
Maria é uma jovem de Nazaré.
Não pertence aos centros de poder.
Não possui títulos humanos extraordinários.
Mas Deus olha para ela.
E ela canta:
“Olhou para a humildade de sua serva.”
Essa é a nobreza do Evangelho.
Torre e beleza
Há uma combinação interessante nesta invocação.
Torre sugere firmeza.
Marfim sugere preciosidade e beleza.
Maria reúne as duas coisas.
É firme sem perder a delicadeza.
É forte sem tornar-se dura.
É bela sem procurar colocar-se no centro.
É humilde sem ser fraca.
Talvez essa união seja uma das grandes lições desta invocação.
Força sem dureza
Às vezes pensamos que, para sobreviver às dificuldades, precisamos endurecer.
Construímos defesas.
Deixamos de confiar.
Tornamo-nos frios.
Maria apresenta outra forma de fortaleza.
Ela atravessa dificuldades sem deixar de amar.
A profecia de Simeão.
A fuga.
A incompreensão.
A Cruz.
Nada disso transforma seu coração numa pedra.
A beleza que resiste à dor
Para nós, Servos de Maria, essa dimensão é particularmente preciosa.
Contemplamos frequentemente Maria nas dores.
Mas a dor não destrói sua beleza espiritual.
No Calvário ela continua sendo:
Mãe.
Discípula.
Mulher de fé.
Presença compassiva.
Sua beleza está justamente na capacidade de continuar amando quando amar custa.
A beleza da compaixão
Existe uma beleza que somente a compaixão produz.
Um irmão cuidando de outro irmão enfermo.
Alguém acompanhando silenciosamente uma pessoa enlutada.
Um jovem ajudando um idoso.
Uma comunidade acolhendo quem atravessa dificuldades.
Essas coisas talvez não apareçam nas grandes notícias.
Mas são belas.
Profundamente belas.
Uma comunidade bela
Também podemos perguntar:
O que torna bela uma comunidade religiosa?
Certamente é bom cuidar da igreja.
Do convento.
Dos jardins.
Da liturgia.
Dos ambientes.
Mas existe uma beleza ainda mais importante.
Uma comunidade é bela quando os irmãos se respeitam.
Quando rezam juntos.
Quando sabem pedir perdão.
Quando os idosos são cuidados.
Quando os jovens são acompanhados.
Quando ninguém precisa enfrentar sozinho uma dificuldade.
A beleza da fraternidade
As Constituições podem organizar uma comunidade.
Mas somente o amor fraterno pode torná-la verdadeiramente bela.
Podemos possuir uma casa impecável e relações deterioradas.
Ou uma casa simples onde alguém entra e percebe:
“Aqui existem irmãos.”
Essa segunda beleza vale muito.
Uma palavra para os jovens
Nossa sociedade exerce enorme pressão sobre a aparência.
Também os jovens podem acabar medindo o próprio valor pelo modo como são vistos.
Maria aponta para outra medida.
A pergunta fundamental não é:
“Como os outros me veem?”
Mas:
“Quem estou me tornando diante de Deus?”
Essa pergunta liberta.
Formação é também embelezamento interior
A formação religiosa deveria ajudar uma pessoa a tornar-se interiormente bela.
Mais verdadeira.
Mais livre.
Mais capaz de amar.
Mais responsável.
Mais disponível.
Mais misericordiosa.
Não basta aprender conteúdos.
Não basta adaptar-se exteriormente às regras.
É necessário permitir que a graça transforme o coração.
Uma palavra para os idosos
A velhice oferece uma grande lição sobre beleza.
O corpo muda.
As forças diminuem.
Mas a pessoa pode tornar-se espiritualmente mais bela.
Existem rostos idosos que contam uma história.
Olhos que aprenderam misericórdia.
Mãos que serviram durante décadas.
Uma voz que já não possui a mesma força, mas ainda sabe abençoar.
Essa beleza merece ser contemplada.
A beleza da fidelidade
Talvez uma das coisas mais belas numa comunidade religiosa seja encontrar alguém que permaneceu fiel durante cinquenta ou sessenta anos.
Não porque tenha sido perfeito.
Mas porque caiu e levantou.
Serviu.
Recomeçou.
Perdoou.
Aceitou mudanças.
E continua dizendo:
“Sou do Senhor.”
Essa é uma verdadeira torre de marfim.
Não construir uma torre para nos isolarmos
Mas existe uma advertência necessária.
Hoje a expressão “torre de marfim” pode significar isolamento da realidade.
Esse não é o sentido da invocação mariana.
Maria não vive afastada do mundo.
Ao contrário.
Vai à casa de Isabel.
Percebe a necessidade em Caná.
Está junto à Cruz.
Permanece com os discípulos.
A beleza de Maria não a isola.
Torna-a disponível.
Quanto mais de Deus, mais próxima das pessoas
Esse é um critério importante para nossa espiritualidade.
Quanto mais próximos de Deus, mais deveríamos tornar-nos próximos das pessoas.
A oração verdadeira não cria indiferença.
A contemplação verdadeira abre os olhos.
A devoção mariana verdadeira produz serviço.
Maria é inteiramente de Deus e, exatamente por isso, está disponível para os irmãos.
O marfim não é o centro
Também precisamos evitar transformar o símbolo em luxo.
O Evangelho não apresenta Maria vivendo cercada de riquezas.
A preciosidade que celebramos é interior.
É a graça.
A fé.
A santidade.
A disponibilidade.
A comunhão com Deus.
A Ladainha utiliza uma imagem preciosa para apontar para uma riqueza que o dinheiro não pode comprar.
Nossa riqueza
Então podemos perguntar:
O que considero realmente precioso?
Minhas coisas?
Minha função?
Meu prestígio?
Minha autonomia?
Ou minha relação com Deus?
A fraternidade?
A vocação?
A possibilidade de servir?
O Evangelho reorganiza continuamente nossa escala de valores.
Beleza e verdade
A beleza cristã não precisa esconder as fragilidades.
Maria não nos ensina uma espiritualidade de aparência.
Uma comunidade bela não é aquela que finge não possuir problemas.
É aquela que sabe enfrentá-los segundo o Evangelho.
Com verdade.
Caridade.
Justiça.
Perdão.
Esperança.
Para nós, Servos de Maria
Contemplar Maria como Torre de marfim pode tornar-se um convite para unir duas qualidades:
firmeza e beleza.
Firmeza na fé.
Beleza na caridade.
Firmeza diante da injustiça.
Beleza no modo de tratar as pessoas.
Firmeza na vocação.
Beleza na fraternidade.
Firmeza junto à Cruz.
Beleza na compaixão.
A santidade é bela
Talvez precisemos recuperar essa convicção.
A santidade não empobrece a humanidade.
Torna-a mais bela.
Não destrói nossa personalidade.
Purifica-a.
Não nos torna menos humanos.
Ajuda-nos a tornar-nos plenamente aquilo que fomos chamados a ser.
Em Maria contemplamos uma criatura inteiramente aberta à graça.
E por isso profundamente bela.
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação podemos perguntar:
Que beleza estou cultivando?
A beleza da aparência?
Do reconhecimento?
Da imagem que os outros possuem de mim?
Ou aquela beleza escondida que nasce:
da oração,
da fidelidade,
da misericórdia,
da verdade,
do serviço?
E podemos perguntar ainda:
Minhas dificuldades estão tornando meu coração mais profundo ou mais duro?
Oração
Torre de marfim,
em você contemplamos
a beleza de uma vida
inteiramente aberta à graça de Deus.
Ensine-nos a procurar
não a beleza das aparências,
mas a beleza da santidade.
Faça-nos firmes sem dureza,
fortes sem violência,
humildes sem medo
e delicados sem fragilidade.
Quando as dores da vida nos ferirem,
não permita que nosso coração
se transforme em pedra.
Ensine-nos a permanecer capazes
de amar, acolher e perdoar.
Aos nossos jovens,
mostre a beleza de uma vida entregue a Deus.
Aos formadores,
dê a sabedoria de cultivar
a beleza interior das pessoas
que lhes foram confiadas.
Aos nossos irmãos idosos,
conceda a alegria de reconhecer
que existe uma beleza
que os anos não diminuem:
a beleza da fidelidade.
Faça de nossas comunidades
lugares belos não apenas por seus edifícios,
mas sobretudo pela fraternidade,
pela oração,
pela misericórdia
e pelo cuidado dos mais frágeis.
A nós, Servos de Maria,
ensine a unir firmeza e compaixão.
Que junto às cruzes da humanidade
não nos tornemos indiferentes nem duros.
E que nossa vida revele
a verdadeira preciosidade
que recebemos de Deus:
Cristo habitando em nós.
Torre de marfim, rogai por nós.
Para guardar no coração
A verdadeira beleza não está na aparência, mas numa vida transformada pela graça. Maria, Torre de marfim, ensina-nos a unir firmeza e delicadeza: permanecer de pé sem deixar o coração endurecer.
Fontes
Sagrada Escritura, especialmente Ct 7,4; Lc 1,26-55; Lc 2,34-35; Jo 2,1-11; Jo 19,25-27.
Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, especialmente nn. 56, 58, 65 e 67.
Ladainha de Nossa Senhora, formulário português publicado pela Santa Sé.
Tradição espiritual cristã, que recebeu e aplicou à Virgem Maria imagens bíblicas do Cântico dos Cânticos.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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