A criatura que acolheu o Criador
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana prossegue com uma invocação que parece conter um paradoxo:
Mãe do Criador, rogai por nós.
Como pode uma criatura ser chamada Mãe do Criador?
A resposta está no coração do mistério cristão.
Maria não é anterior a Deus.
Não é origem da divindade.
Ela mesma é criatura, chamada à existência pelo amor de Deus.
Mas aquele que nasceu verdadeiramente dela segundo a humanidade é o Filho eterno do Pai, o Verbo por quem todas as coisas foram criadas.
Por isso, a Igreja pode contemplar maravilhada:
a criatura tornou-se Mãe do Criador.
O Criador entrou em sua criação
No princípio, Deus criou todas as coisas.
O céu.
A terra.
A luz.
As águas.
Os seres vivos.
O homem e a mulher.
Tudo existe porque Deus chamou à existência.
Mas chega um momento extraordinário na história da salvação.
O Criador não permanece distante da criação.
Entra nela.
O Verbo se faz carne.
O eterno entra no tempo.
O invisível assume um rosto.
Aquele que sustenta o universo aceita ser sustentado nos braços de uma mãe.
E essa mãe é Maria.
O Deus que se fez pequeno
Belém nos coloca diante de uma imagem desconcertante.
Uma criança.
Frágil.
Dependente.
Precisando ser alimentada, aquecida e protegida.
Mas a fé reconhece naquela criança o Filho de Deus.
Maria segura nos braços aquele por quem ela própria foi criada.
Que mistério!
O Criador aceita depender de uma criatura.
Não porque tenha perdido sua divindade, mas porque assumiu verdadeiramente nossa humanidade.
Deus não salvou o mundo de longe.
Veio habitar entre nós.
Maria permanece criatura
É importante conservar essa verdade.
A grandeza de Maria nunca a coloca no lugar de Deus.
Maria não é deusa.
Não é fonte da criação.
Não é origem da graça.
Tudo aquilo que possui, recebeu.
Ela mesma canta:
“O Todo-poderoso fez em mim grandes coisas.”
Sua grandeza consiste justamente nisso:
deixar Deus realizar grandes coisas nela.
Quanto mais contemplamos corretamente Maria, mais claramente encontramos a ação de Deus.
A humildade do Criador
Esta invocação revela também alguma coisa surpreendente sobre Deus.
Deus é poderoso.
Mas seu poder não se manifesta somente na grandeza.
Manifesta-se também na humildade.
O Criador aceita nascer.
Aceita uma família.
Aceita uma casa.
Aceita aprender os gestos da vida humana.
Aceita o trabalho.
Aceita caminhar entre nós.
A Encarnação revela um Deus que não tem medo de aproximar-se de sua criação.
Nazaré: Deus no cotidiano
Depois de Belém, encontramos Nazaré.
Durante muitos anos, o Filho de Deus vive uma existência escondida.
Aquele por quem o universo foi criado vive numa pequena casa.
Trabalha.
Come.
Descansa.
Reza.
Convive.
Maria vive ao lado desse mistério todos os dias.
Talvez isso nos ensine uma coisa importante:
Deus gosta de habitar o cotidiano.
Nem sempre precisamos procurar Deus em acontecimentos extraordinários.
Ele também está na mesa.
No trabalho.
Na oração comunitária.
No cuidado de um irmão.
Na acolhida de alguém.
Na fidelidade aos pequenos deveres.
Mãe do Criador e cuidado da criação
Esta invocação pode ainda educar nosso olhar sobre o mundo criado.
Se tudo procede das mãos de Deus, a criação não é simplesmente matéria disponível para nosso uso.
É dom.
A terra.
A água.
Os animais.
As florestas.
Os alimentos.
Tudo nos foi confiado.
Maria, Mãe do Criador, pode ensinar-nos a receber a criação com gratidão e responsabilidade.
Cuidar da casa comum também é reconhecer:
a criação pertence primeiro a Deus, não a nós.
Uma espiritualidade do cuidado
Existe aqui uma profunda ligação com o serviço.
Maria recebe o Filho de Deus e cuida dele.
Alimenta.
Protege.
Acompanha.
O Criador quis experimentar o cuidado humano.
Isso confere uma dignidade extraordinária aos pequenos gestos de cuidado.
Preparar uma refeição.
Cuidar de um idoso.
Organizar uma casa.
Acompanhar um enfermo.
Cultivar uma horta.
Preservar aquilo que pertence à comunidade.
Evitar desperdícios.
Cuidar de um jardim.
Tudo isso pode tornar-se espiritualidade.
Para nossas comunidades religiosas
Às vezes podemos imaginar que somente as grandes atividades pastorais possuem valor espiritual.
Maria nos recorda Nazaré.
Uma comunidade também glorifica Deus quando cuida bem daquilo que recebeu.
Da casa.
Dos recursos.
Dos alimentos.
Dos idosos.
Dos jovens.
Dos funcionários.
Dos objetos de uso comum.
Da natureza ao redor.
O descuido dificilmente combina com a espiritualidade do serviço.
Quem recebe um dom aprende a cuidar dele.
A criação não é propriedade absoluta
Existe ainda uma conversão necessária.
Gostamos de dizer:
“minha casa”,
“meu dinheiro”,
“minha obra”,
“minha comunidade”,
“meu projeto”.
A fé nos ensina a acrescentar silenciosamente:
“recebido de Deus e confiado aos meus cuidados.”
Somos administradores.
Não proprietários absolutos.
Isso vale para os bens.
Vale para a natureza.
Vale para as funções.
E vale até para a própria vida.
Maria e a beleza da criação
A tradição cristã gosta de contemplar Maria utilizando imagens da criação.
Rosa.
Estrela.
Jardim.
Aurora.
Fonte.
Todas essas imagens procuram expressar algo da beleza da graça.
Mas Maria nunca substitui o Criador.
Ela é a criatura na qual a obra de Deus resplandece de maneira singular.
Por isso sua beleza aponta para além de si mesma.
Aponta para Deus.
Uma palavra para os Servos de Maria
Para nós, Servos de Maria, esta invocação pode tornar-se uma verdadeira espiritualidade do cuidado.
Servir significa também cuidar daquilo que Deus nos confia.
Cuidar das pessoas.
Cuidar das vocações.
Cuidar dos idosos.
Cuidar dos pobres.
Cuidar das casas.
Cuidar dos bens.
Cuidar da criação.
Cuidar da memória da Ordem.
Cuidar da liturgia.
Cuidar da fraternidade.
Nada disso é pequeno quando é realizado por amor.
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação podemos perguntar:
Como estou cuidando daquilo que Deus colocou em minhas mãos?
Talvez tenhamos recebido muito.
Uma vocação.
Uma comunidade.
Uma missão.
Uma casa.
Uma história.
Pessoas.
Tempo.
Recursos.
A pergunta cristã não é apenas:
“O que possuo?”
Mas:
“Como estou cuidando daquilo que me foi confiado?”
Oração
Mãe do Criador,
você recebeu em seus braços
aquele por quem todas as coisas foram criadas.
Ensine-nos a contemplar
com gratidão as obras de Deus.
Dê-nos respeito pela criação,
sobriedade no uso dos bens
e responsabilidade por tudo aquilo
que nos foi confiado.
Ensine-nos a reconhecer Deus
também nas pequenas coisas de Nazaré:
na casa, no trabalho, na mesa,
na oração e no cuidado cotidiano.
Faça de nossas comunidades
lugares onde as pessoas sejam cuidadas,
os bens sejam usados com responsabilidade
e a criação seja respeitada.
A nós, Servos de Maria,
ensine que servir significa cuidar.
E quando estivermos tentados
a considerar alguma coisa nossa propriedade,
recorde-nos que tudo é dom
recebido das mãos do Criador.
Mãe do Criador, rogai por nós.
Para guardar no coração
Maria, criatura do Criador, recebeu o próprio Criador em seus braços; com ela aprendemos que tudo o que recebemos de Deus deve ser acolhido com gratidão e cuidado.
Fontes
São João Paulo II, Audiência Geral, 7 de janeiro de 2004.
São João Paulo II, Audiência Geral, 21 de março de 2001.
Pietro Ansalone, SJ, Le Litanie Lauretane, segunda edição, Nápoles, 1858 — obra inspiradora da série.
Ladainha de Nossa Senhora — Ladainha Lauretana, formulário oficial em português da Santa Sé.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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