Maria, mulher da escuta e do discernimento
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana prossegue:
Mãe do bom conselho, rogai por nós.
Todos precisamos tomar decisões.
Algumas são simples. Outras podem mudar profundamente nossa vida.
Há momentos em que conhecemos claramente o caminho. Em outros, perguntamos:
Senhor, o que devo fazer?
É justamente nesses momentos que esta invocação se torna uma oração preciosa.
Maria não substitui nossa responsabilidade de decidir.
Ela nos ensina algo mais profundo:
como colocar nossas decisões diante de Deus.
Tudo começa pela escuta
Na Anunciação, Maria recebe uma palavra que modifica completamente seus projetos.
Ela não responde precipitadamente.
O Evangelho mostra que se perturba, procura compreender, pergunta e escuta.
Somente depois responde:
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”
Há aqui uma verdadeira escola de discernimento.
Escutar.
Interrogar.
Discernir.
Responder.
Maria não toma a decisão simplesmente porque alguma coisa lhe agrada.
Procura compreender aquilo que Deus está realizando.
Discernir não é escolher o mais fácil
Às vezes imaginamos que uma decisão correta produzirá imediatamente tranquilidade.
A vida de Maria mostra outra coisa.
Seu “sim” conduz a caminhos exigentes.
Belém.
A fuga para o Egito.
Nazaré.
A incompreensão.
O Calvário.
O bom conselho nem sempre indica o caminho mais confortável.
Indica o caminho mais fiel.
Por isso, diante de uma decisão cristã, a pergunta não pode ser somente:
“O que será mais fácil para mim?”
Precisamos perguntar:
“O que mais corresponde ao Evangelho e à vontade de Deus?”
“Fazei tudo o que Ele vos disser”
Em Caná encontramos talvez o conselho mais importante que Maria oferece no Evangelho.
Diante da necessidade dos noivos, ela aponta para Jesus:
“Fazei tudo o que Ele vos disser.”
Aqui está o coração desta invocação.
Maria é Mãe do bom conselho porque seu conselho fundamental é sempre:
escutem Cristo.
Ela não conduz para si mesma.
Não apresenta sua própria vontade como centro.
Indica o Filho.
Toda autêntica espiritualidade mariana conserva esse movimento:
Maria → Cristo.
O conselho é dom do Espírito
A tradição cristã reconhece o Conselho entre os dons do Espírito Santo.
Isso significa que discernir cristãmente não depende apenas de inteligência, experiência ou capacidade administrativa.
Tudo isso é importante.
Mas há decisões diante das quais nossa prudência humana percebe seus próprios limites.
Precisamos da luz do Espírito.
Por isso, antes de grandes decisões, a Igreja reza.
Antes de discernir, escuta a Palavra.
Antes de escolher, pede luz.
Uma palavra para os Capítulos
Esta invocação possui uma aplicação muito concreta para a vida religiosa.
Quando uma comunidade se reúne em Capítulo, não deveria reunir-se simplesmente para defender opiniões individuais.
O Capítulo é espaço de discernimento comunitário.
Cada irmão chega com sua experiência.
Com sua visão.
Com suas preocupações.
Talvez também com preferências pessoais.
Mas todos deveriam procurar juntos uma coisa maior:
o que Deus está pedindo de nossa comunidade neste momento?
Por isso precisamos da Mãe do bom conselho.
Escutar antes de responder
Muitos conflitos comunitários poderiam ser diferentes se aprendêssemos uma disciplina muito simples:
escutar até o fim.
Às vezes, enquanto o irmão ainda está falando, já estamos preparando nossa resposta.
Não escutamos para compreender.
Escutamos para rebater.
Maria nos ensina outra atitude.
Ela guarda.
Medita.
Escuta.
O discernimento necessita de silêncio interior.
Conselho e autoridade
Esta invocação é também particularmente importante para quem exerce alguma responsabilidade.
Prior.
Superior.
Formador.
Pároco.
Coordenador.
Conselheiro.
Quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser a consciência de que ninguém possui sozinho todas as respostas.
Autoridade cristã não significa:
“Eu sei tudo.”
Significa também saber perguntar:
“O que você pensa?”
Saber consultar.
Saber ouvir.
Saber mudar de opinião quando aparecem razões melhores.
E, depois de discernir, saber assumir responsavelmente uma decisão.
Conselho e formação
A Mãe do bom conselho possui também algo importante a ensinar no acompanhamento vocacional.
Acompanhar um jovem não significa decidir por ele.
O formador pode oferecer critérios.
Pode mostrar aspectos que o jovem ainda não consegue perceber.
Pode corrigir.
Pode advertir.
Pode encorajar.
Mas precisa ajudá-lo a chegar diante de Deus e perguntar:
“Senhor, o que você quer de mim?”
Um bom acompanhamento não cria dependência.
Ajuda a pessoa a amadurecer sua liberdade diante de Deus.
Nem todo conselho é bom conselho
Vivemos cercados de vozes.
Todos opinam.
Redes sociais opinam.
Amigos opinam.
Grupos opinam.
Nós mesmos mudamos de opinião muitas vezes.
Por isso, discernir significa também perguntar:
De onde vem esta voz?
Ela me aproxima do Evangelho?
Torna-me mais verdadeiro?
Mais humilde?
Mais disponível ao serviço?
Mais fraterno?
Ou alimenta orgulho, ressentimento, medo e divisão?
Nem toda voz merece governar nossas decisões.
Não decidir no calor do momento
Maria também nos ensina a guardar no coração.
Existem decisões que não deveriam ser tomadas quando estamos dominados pela raiva, pelo medo ou pela euforia.
Às vezes precisamos esperar.
Rezar.
Dormir.
Conversar.
Escutar.
Voltar ao assunto.
A pressa pode produzir decisões que depois lamentamos.
Discernimento exige tempo interior.
Mãe do bom conselho e Servos de Maria
Para nós, Servos de Maria, esta invocação deveria acompanhar particularmente os momentos de decisão.
Antes de um Capítulo.
Antes de uma nomeação.
Antes de receber um jovem.
Antes de iniciar ou encerrar uma obra.
Antes de uma transferência.
Antes de uma decisão pastoral importante.
Poderíamos rezar simplesmente:
Mãe do bom conselho, rogai por nós.
Não para que Maria confirme aquilo que já decidimos.
Mas para que nos ajude a permanecer verdadeiramente disponíveis àquilo que Deus deseja.
Quando dois caminhos parecem bons
Talvez os discernimentos mais difíceis não aconteçam entre uma coisa claramente boa e outra claramente má.
Às vezes existem dois bens possíveis.
Permanecer ou partir.
Começar uma obra ou fortalecer aquela que já existe.
Aceitar uma missão ou reconhecer honestamente nossos limites.
Nessas situações, precisamos de liberdade interior.
Quem já decidiu antecipadamente aquilo que quer dificilmente consegue discernir.
Maria ensina:
“Faça-se em mim segundo a tua palavra.”
A verdadeira pergunta é:
“Senhor, qual caminho permite que sua vontade produza mais fruto?”
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação podemos perguntar:
Quando preciso decidir, procuro realmente a vontade de Deus ou apenas peço que Deus confirme aquilo que eu já quero?
É uma pergunta exigente.
O discernimento começa quando aceitamos a possibilidade de que Deus nos conduza por um caminho diferente daquele que inicialmente imaginávamos.
Oração
Mãe do bom conselho,
mulher da escuta e do discernimento,
ensine-nos a procurar em tudo
a vontade de Deus.
Quando estivermos confusos,
ajude-nos a não decidir pela ansiedade.
Quando estivermos presos
às nossas próprias opiniões,
dê-nos liberdade para escutar.
Aos que exercem autoridade,
conceda humildade para consultar
e sabedoria para decidir.
Aos formadores,
dê delicadeza para acompanhar
sem ocupar o lugar de Deus.
Aos jovens em discernimento,
conceda coragem para perguntar:
“Senhor, o que você quer de mim?”
A nossas comunidades reunidas em Capítulo,
dê espírito de verdadeira fraternidade,
para que não procuremos vencer discussões,
mas reconhecer juntos a vontade do Senhor.
E a nós, Servos de Maria,
recorde continuamente seu conselho em Caná:
“Fazei tudo o que Ele vos disser.”
Mãe do bom conselho, rogai por nós.
Para guardar no coração
Discernir não é pedir que Deus confirme nossa vontade; é tornar-nos suficientemente livres para acolher a vontade dele.
Fontes
São João Paulo II, reflexão sobre o dom do Conselho, 7 de maio de 1989.
Papa Francisco, discurso à Fundação Centesimus Annus Pro Pontifice, 10 de maio de 2014.
Pietro Ansalone, SJ, Le Litanie Lauretane, segunda edição, Nápoles, 1858 — obra inspiradora da série.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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