Maria, a mulher alcançada pela graça
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana nos convida agora a rezar:
Mãe da Divina Graça, rogai por nós.
É uma invocação belíssima, mas que precisa ser compreendida a partir de Cristo.
Maria não é a origem da graça.
Deus é a fonte de toda graça.
Maria é chamada Mãe da Divina Graça porque é Mãe de Jesus Cristo, aquele em quem Deus veio ao nosso encontro e nos ofereceu a salvação.
Pietro Ansalone inicia justamente por essa relação: se Maria é Mãe de Cristo, fonte da graça, compreende-se por que a tradição cristã a contempla como Mater Divinae Gratiae.
“Encontraste graça diante de Deus”
Na Anunciação, o anjo diz a Maria:
“Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus.”
Antes de Maria oferecer alguma coisa, ela recebe.
Antes de servir, é alcançada pela graça.
Antes de pronunciar seu “sim”, Deus já tomou a iniciativa.
Esse detalhe é fundamental para nossa vida espiritual.
A vida cristã não começa com aquilo que fazemos para Deus.
Começa com aquilo que Deus faz por nós.
Tudo é graça.
A vocação é graça.
A fé é graça.
O chamado é graça.
A possibilidade de recomeçar é graça.
O perdão é graça.
A perseverança é graça.
Maria: cheia de graça
A saudação do anjo revela aquilo que Deus realizou em Maria:
“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo.”
Maria é a mulher visitada por Deus.
Sua grandeza não consiste em possuir algo independentemente dele, mas em deixar-se preencher por sua presença.
Quanto mais cheia de Deus, mais disponível ela se torna.
Esse é um paradoxo muito bonito da vida espiritual:
quanto mais pertencemos a Deus, mais disponíveis nos tornamos para os irmãos.
Maria recebe a graça e parte para servir Isabel.
Recebe Cristo e o oferece ao mundo.
Recebe a Palavra e a guarda no coração.
Recebe uma missão e transforma a existência inteira em resposta.
Eva e Maria
Ansalone desenvolve longamente uma comparação muito antiga da tradição cristã: Eva e Maria.
Eva aparece ligada à desobediência; Maria, à resposta da fé.
Onde houve fechamento, Maria responde com abertura.
Onde entrou a desobediência, aparece a disponibilidade:
“Eis aqui a serva do Senhor.”
O autor recorda inclusive o antigo jogo de palavras da tradição cristã:
Eva → Ave.
Não se trata apenas de uma semelhança entre palavras.
É uma maneira espiritual de dizer que, em Maria, contemplamos a humanidade novamente aberta à ação de Deus.
O “não” transforma-se em “sim”.
A fuga transforma-se em encontro.
O medo dá lugar à confiança.
A graça recebida torna-se serviço
Aqui encontramos novamente algo muito importante para a espiritualidade dos Servos de Maria.
Maria não recebe os dons de Deus para guardá-los.
A graça recebida torna-se imediatamente serviço.
Esse é também um critério para nossa vida.
Se a graça de Deus realmente nos alcança, alguma coisa começa a mudar na maneira como tratamos os irmãos.
A oração deve gerar fraternidade.
A Eucaristia deve gerar serviço.
O perdão recebido deve tornar-nos capazes de perdoar.
A misericórdia experimentada deve tornar-nos misericordiosos.
A vocação recebida deve tornar-se disponibilidade.
A graça nunca termina em nós.
Gratuidade
Talvez uma das palavras mais necessárias para compreender esta invocação seja:
gratuidade.
Vivemos facilmente fazendo cálculos.
Quanto fiz.
Quanto recebi.
Quanto reconheceram meu trabalho.
Quanto o outro colaborou.
Quanto me devem.
A lógica da graça é diferente.
Deus ama primeiro.
Deus chama primeiro.
Deus perdoa.
Deus oferece novamente uma possibilidade.
Maria vive dentro dessa lógica.
Ela sabe que recebeu.
Por isso pode cantar:
“O Todo-poderoso fez em mim grandes coisas.”
O Magnificat não é o cântico de alguém que enumera suas próprias realizações.
É o cântico de quem reconhece aquilo que Deus realizou.
Para a vida religiosa
Esta invocação pode tornar-se também um exame de consciência para nós, religiosos.
Depois de muitos anos de vida consagrada, podemos começar a pensar que determinadas coisas nos pertencem.
Uma função.
Uma comunidade.
Uma obra.
Uma responsabilidade.
Uma posição.
Até a própria vocação pode começar a ser tratada como posse.
Maria nos recorda:
tudo é graça.
A vocação não é propriedade.
É dom.
A comunidade não é propriedade.
É dom.
Os irmãos não nos pertencem.
São dom.
O ministério não nos pertence.
É serviço confiado.
Quando recuperamos a consciência da graça, recuperamos também a gratidão.
“Rogai por nós”
E novamente a Ladainha acrescenta:
rogai por nós.
Pedimos a Maria que interceda para que não desperdicemos a graça recebida.
Que saibamos reconhecê-la.
Acolhê-la.
Agradecê-la.
E fazê-la frutificar.
Porque uma graça recebida pede uma resposta.
Maria recebeu e respondeu:
“Faça-se em mim segundo a tua palavra.”
Essa talvez seja uma das orações mais profundas que podemos aprender dela.
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação, podemos perguntar:
Ainda consigo reconhecer minha vida como graça?
Ou me acostumei aos dons de Deus?
Ainda agradeço minha vocação?
Ainda agradeço os irmãos?
Ainda me surpreendo com a Eucaristia?
Ainda reconheço a misericórdia que recebi?
Ainda percebo que cada novo dia é dom?
A vida espiritual começa a envelhecer quando deixamos de nos maravilhar com a graça.
Maria permanece jovem na fé porque permanece aberta ao dom de Deus.
Oração
Mãe da Divina Graça,
você foi alcançada pelo amor de Deus
e respondeu com toda a sua vida.
Ensine-nos a reconhecer
que tudo começa pela graça.
Quando pensarmos que somos donos
daquilo que recebemos,
devolva-nos a gratidão.
Quando nossa vocação se tornar rotina,
recorde-nos a alegria do primeiro chamado.
Quando o serviço se tornar pesado,
ensine-nos novamente a dizer:
“Eis aqui a serva do Senhor.”
Faça com que a graça recebida
se transforme em fraternidade,
acolhida, misericórdia e serviço.
E que também nossa vida possa cantar:
“O Todo-poderoso fez em mim grandes coisas.”
Mãe da Divina Graça, rogai por nós.
Para guardar no coração
Maria nos ensina que a graça não é uma riqueza para guardar, mas um dom recebido para transformar-se em serviço.
Fonte da série
Pietro Ansalone, SJ, Le Litanie Lauretane, segunda edição, organizada pelo Pe. Raffaele Nicolella, Nápoles: Tipografia de F. Ferrante, 1858.
Adaptação pastoral e espiritual para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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