Uma vida entregue a Cristo na liberdade do amor
Pobreza, castidade e obediência.
Para quem observa a vida religiosa de fora, essas três palavras podem parecer indicar principalmente aquilo a que o consagrado renuncia.
Frei David M. Mejía Cisneros, OSM, propõe uma compreensão muito mais profunda.
Os conselhos evangélicos dizem respeito ao seguimento de Cristo, à santidade, à liberdade, à caridade, à missão e à realização da pessoa humana em Deus.
A pergunta fundamental, portanto, não é apenas:
“A que o religioso renuncia?”
Mas:
“A quem ele se entrega?”
E a resposta é uma Pessoa:
Jesus Cristo.
Os conselhos são para todos?
Frei David começa com uma afirmação provocadora: não é correto pensar que os conselhos evangélicos interessem somente aos religiosos.
Eles pertencem ao horizonte da vocação cristã à santidade.
O autor recorda a distinção tradicional entre mandamentos e conselhos. Os mandamentos exprimem exigências fundamentais da vida segundo Deus. Os conselhos apontam para uma radicalidade evangélica que procura conduzir o discípulo para além da mediocridade.
Na vida consagrada, porém, pobreza, castidade e obediência assumem uma forma específica, estável e pública.
São professadas mediante votos e vividas segundo o carisma e as Constituições do instituto.
A forma servita dos conselhos
As Constituições dos Servos de Maria apresentam os três conselhos dentro da vida fraterna.
O artigo 138 oferece uma síntese particularmente importante.
O frade compromete-se a viver a fraternidade segundo as exigências do celibato pelo Reino, da pobreza evangélica e da obediência religiosa, tendo como referência a vida casta, pobre e obediente de Cristo e da Virgem Mãe.
E qual é a finalidade?
Consagrar-se totalmente a Deus.
Desenvolver a responsabilidade diante da comunidade e da Ordem.
E crescer no serviço de Deus e do próximo.
Essa formulação já revela algo caracteristicamente servita:
os votos não são vividos isoladamente; são vividos dentro da fraternidade e orientados para o serviço.
Conselho e voto não são sinônimos
O estudo estabelece uma distinção importante.
O conselho evangélico possui fundamento no Evangelho e na forma de vida de Cristo.
O voto é o vínculo sagrado pelo qual a pessoa assume concretamente a obrigação de viver esse conselho segundo determinada forma de vida reconhecida pela Igreja.
O conselho é dom e caminho evangélico.
O voto é compromisso assumido.
Essa distinção ajuda a evitar que a vida religiosa seja reduzida ao aspecto jurídico.
O direito protege e determina a forma da consagração.
Mas sua fonte está no Evangelho.
Do Código de 1917 ao de 1983
Frei David mostra também uma evolução significativa na legislação da Igreja.
O Código de Direito Canônico de 1917 reconhecia o estado religioso e os votos, mas não desenvolvia amplamente o fundamento teológico de cada conselho.
O Código de 1983 incorpora a renovação conciliar.
A vida consagrada passa a ser apresentada como uma forma estável de vida, na qual os fiéis, movidos pelo Espírito, seguem Cristo mais de perto e se entregam a Deus e à edificação da Igreja.
A linguagem jurídica começa a expressar mais claramente uma teologia.
Uma realidade trinitária
Aqui encontramos uma das contribuições mais importantes do estudo.
Os conselhos possuem uma estrutura trinitária.
O Pai chama.
O Filho oferece sua própria forma de vida.
O Espírito move e sustenta a resposta.
Por isso, a consagração não é simplesmente decisão pessoal.
Nasce da iniciativa divina.
O consagrado responde a um chamado que o precede.
Primeiro o dom, depois a resposta
Essa perspectiva modifica profundamente a maneira de compreender os votos.
Podemos ser tentados a começar dizendo:
“eu prometi”;
“eu renunciei”;
“eu escolhi”.
A teologia conciliar começa antes:
Deus chamou.
Deus concedeu um dom.
Deus ofereceu uma graça.
Depois vem nossa resposta.
A consagração é resposta antes de ser conquista.
O dom é Cristo
Mas qual é, finalmente, o dom?
Frei David conduz a reflexão para seu centro:
o dom é Jesus Cristo.
Os conselhos possuem sentido porque foram vividos por Ele.
Cristo casto.
Cristo pobre.
Cristo obediente.
O consagrado não procura apaixonar-se pela pobreza em si mesma, pela castidade em si mesma ou pela obediência em si mesma.
Procura apaixonar-se por Cristo e assumir sua forma de vida.
Sem Ele, os votos correm o risco de tornar-se apenas disciplina.
Com Ele, tornam-se seguimento.
“Seguir Cristo mais de perto”
O Concílio Vaticano II recuperou uma expressão clássica:
seguir Cristo mais de perto.
É esse o horizonte da vida consagrada.
Não significa que o religioso seja automaticamente um cristão melhor do que os demais.
Significa que recebeu uma vocação particular para tornar visíveis determinados traços da vida de Jesus.
Os conselhos possuem, portanto, uma dimensão de sinal.
Apontam para Cristo.
Apontam para o Reino.
Apontam para os bens futuros.
Não desprezar aquilo que Deus criou
Uma correta teologia dos conselhos precisa evitar um erro.
Bens materiais, sexualidade, liberdade e relações humanas não são coisas más.
São dons de Deus.
A renúncia religiosa não nasce do desprezo pela criação.
Nasce da descoberta de um bem capaz de reorganizar todos os demais bens:
Deus e seu Reino.
Por isso, a vida consagrada não diz que as coisas criadas não possuem valor.
Diz que nenhuma delas pode ocupar o lugar de Deus.
Uma vida profética
Frei David dedica atenção particular à dimensão profética dos conselhos.
Profecia, aqui, não significa prever o futuro.
Significa tornar visível uma palavra de Deus para o presente.
A castidade questiona uma cultura que pode reduzir o amor ao prazer ou à posse do outro.
A pobreza questiona a idolatria do dinheiro, do consumo e da acumulação.
A obediência questiona a absolutização da autonomia individual e do poder.
Mas os votos só possuem força profética quando são vividos de maneira autêntica.
O perigo do contratestemunho
Essa observação é decisiva.
Um conselho professado pode deixar de ser sinal se a vida contradisser aquilo que ele anuncia.
A pobreza perde sua força se convivermos tranquilamente com privilégios e acumulação.
A castidade perde sua força se não produzir pessoas capazes de amar.
A obediência perde sua força se destruir responsabilidade e maturidade.
O voto não é automaticamente testemunho.
Precisa tornar-se vida.
Maria no caminho dos conselhos
Para os Servos de Maria, existe uma referência particularmente importante.
As próprias Constituições dizem que o frade olha para a vida casta, pobre e obediente que Cristo e a Virgem Mãe quiseram abraçar.
Maria aparece, portanto, não apenas como objeto da devoção do religioso, mas como testemunha de uma existência inteiramente aberta a Deus.
Seu “faça-se” revela disponibilidade.
Sua pobreza manifesta confiança.
Sua virgindade consagrada ao mistério de Deus revela um coração inteiramente disponível à missão recebida.
Para o Servo, contemplar Maria significa também aprender a entregar-se.
Castidade
Celibato pelo Reino
Frei David prefere situar a castidade religiosa no horizonte bíblico do celibato pelo Reino.
O Concílio a chama de “insigne dom da graça”.
Isso significa que não pode ser entendida simplesmente como privação.
É uma vocação.
E seu fundamento, sua causa e seu fruto precisam ser encontrados no amor.
Sexualidade e maturidade humana
O estudo não apresenta a sexualidade como inimiga da vida espiritual.
Ao contrário.
Recordando a visão cristã da pessoa, reconhece que o ser humano é relacional e não pode amadurecer isoladamente.
O celibato religioso precisa, portanto, ser vivido sem diminuir a capacidade de relacionamento.
Uma castidade autêntica não torna a pessoa menos capaz de amar.
Deveria torná-la mais disponível para amar.
Um coração não dividido
A castidade pelo Reino deseja expressar uma pertença especial a Cristo.
Mas essa pertença precisa irradiar-se.
Frei David insiste que o celibato deve manifestar-se numa vida cheia de amor, cordialidade e serviço.
Aqui encontramos um critério de discernimento muito concreto:
se a castidade não produz amor, alguma coisa precisa ser revista.
A fidelidade não pode ser medida apenas pela ausência de determinada conduta.
Precisa ser percebida também pela presença da caridade.
Pobreza
Nossa riqueza é Cristo
Ao tratar da pobreza, Frei David utiliza uma expressão fundamental:
nossa riqueza é Cristo.
Essa afirmação impede que a pobreza se transforme numa ideologia.
O religioso não escolhe a pobreza porque a privação seja boa em si mesma.
Escolhe uma forma de pobreza porque encontrou em Cristo um tesouro maior.
Sobriedade e alegria do essencial
A pobreza evangélica ensina a confiar na Providência.
Ensina solidariedade.
Partilha.
Caridade.
Sobriedade.
E a alegria do essencial.
Ela procura libertar a pessoa dos ídolos materiais que podem obscurecer o sentido da existência.
Não se trata simplesmente de possuir menos.
Trata-se de precisar de menos para poder partilhar mais e servir melhor.
Parte de uma fraternidade
No caso servita, há outra dimensão essencial.
A pobreza insere o frade na fraternidade.
As Constituições determinam que os bens provenientes do trabalho ou recebidos por outros títulos pertencem à Ordem, e seu uso é regulado segundo o voto e o espírito de pobreza.
Isso significa que aquilo que recebo não é simplesmente “meu”.
A pobreza educa para o nosso.
Parte dos pobres
Mas a fraternidade interna não basta.
A pobreza aproxima o consagrado dos pobres.
Uma vida religiosa excessivamente protegida das dificuldades reais das pessoas corre o risco de enfraquecer o sinal que deseja oferecer.
O religioso pobre procura reconhecer-se também como parte de uma humanidade vulnerável.
A pobreza torna-se solidariedade.
Obediência
Primeiro: escutar
A palavra obediência possui em sua própria tradição espiritual a ideia de escuta.
Frei David apresenta a obediência como escuta da vontade de Deus sob a ação do Espírito Santo, autenticada na Igreja e mediada também por relações humanas.
Isso significa que a obediência religiosa não é simplesmente executar ordens.
É discernir a vontade de Deus.
Cristo, Servo obediente
A referência fundamental é Cristo.
Ele é o Servo obediente.
Mas sua obediência ao Pai não destrói sua liberdade.
Ao contrário.
Revela a profundidade de uma liberdade inteiramente orientada pelo amor.
Por isso, a obediência religiosa precisa ser compreendida dentro da relação entre liberdade e entrega.
Uma obediência adulta
Frei David insiste particularmente nesse ponto.
A obediência religiosa deve ser:
adulta;
madura;
sustentada pela fé.
Não deve ser:
individualista;
egocêntrica;
infantil;
passiva.
Essa distinção é essencial.
Obedecer não significa renunciar à consciência, à inteligência ou à responsabilidade.
A pessoa madura oferece tudo isso ao discernimento.
A autoridade também precisa obedecer
O estudo formula uma consequência particularmente exigente.
Quem exerce autoridade também vive a obediência.
O superior precisa respeitar a liberdade e a dignidade do irmão.
Precisa escutar.
Discernir.
E exercer seu serviço dentro das Constituições e da missão recebida.
A relação autoridade-obediência não pode ser compreendida como oposição entre quem manda e quem executa.
Todos estão diante da mesma pergunta:
o que Deus nos pede?
Um peso que conduz a Deus
Frei David utiliza uma imagem muito bonita.
A obediência não deveria tornar-se um jugo opressivo, mas um pondus, um peso que repousa sobre o coração e conduz a pessoa para aquilo que é chamada a ser:
de Deus.
É uma imagem profundamente agostiniana.
O amor possui peso.
E esse peso nos conduz para onde verdadeiramente pertencemos.
Uma pedagogia do amor
Castidade, pobreza e obediência encontram sua unidade numa expressão empregada no estudo:
pedagogia do amor.
Os três conselhos educam dimensões fundamentais da pessoa.
A castidade educa nossa capacidade de amar.
A pobreza educa nossa relação com as coisas.
A obediência educa nossa liberdade.
Mas todos possuem a mesma finalidade:
a caridade.
Conselhos e missão
A consagração não termina na santificação individual.
Ela possui dimensão eclesial e missionária.
O religioso recebe o dom para a Igreja.
Os conselhos tornam-se parte de sua missão evangelizadora.
O testemunho de uma vida livre, simples, fraterna, disponível e entregue pode tornar o Evangelho visível antes mesmo das palavras.
Uma nova humanidade em Cristo
O estudo culmina numa perspectiva profundamente positiva.
Falar de consagração mediante os conselhos evangélicos significa falar do mistério da pessoa humana que encontra em Cristo o sentido da própria existência, identidade e vocação na história.
A consagração não pretende destruir a humanidade.
Procura levá-la à plenitude.
O consagrado é uma pessoa redimida por Cristo, transformada pelo Espírito e inserida no Corpo de Cristo.
Daí o título que Frei David utiliza na conclusão:
“Em Jesus Cristo, o novo humanismo.”
Não menos humanos, mas transformados em Cristo
Essa é talvez a síntese antropológica mais importante do estudo.
Os votos não deveriam tornar alguém menos humano.
A castidade não deveria eliminar a capacidade de amar.
A pobreza não deveria eliminar responsabilidade diante dos bens.
A obediência não deveria eliminar liberdade e maturidade.
O objetivo é integrar tudo isso numa existência transformada por Cristo.
O Evangelho não diminui o humano.
Conduz o humano à sua verdade mais profunda.
Para nós, Servos de Maria
As Constituições oferecem-nos uma síntese própria.
Vivemos os conselhos em fraternidade.
Olhamos para Cristo e para a Virgem Mãe.
Procuramos consagrar-nos inteiramente a Deus.
Assumimos responsabilidade pela comunidade e pela Ordem.
E crescemos no serviço de Deus e do próximo.
Aqui aparece a forma servita dos conselhos.
Não são três práticas isoladas.
Fazem parte de uma única existência:
fraterna, mariana e servidora.
Uma vida entregue
No final, talvez seja necessário mudar nossa linguagem.
Em vez de perguntarmos continuamente:
“O que deixamos?”
podemos perguntar:
“A quem entregamos nossa vida?”
Porque o centro não está na renúncia.
Está na entrega.
A pobreza diz:
Cristo é minha riqueza.
A castidade diz:
Cristo dilata meu coração para amar.
A obediência diz:
com Cristo, procuro a vontade do Pai.
E as três juntas dizem:
minha vida pertence a Deus e é oferecida ao serviço do Reino.
Essa é a radicalidade dos conselhos evangélicos.
Não amar menos o mundo.
Mas amá-lo com um coração cada vez mais livre porque encontrou, em Cristo, seu verdadeiro centro.
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Fonte: Frei David M. Mejía Cisneros, OSM, Conselhos Evangélicos, estudo integral.
Principais fontes utilizadas pelo autor: Constituições OSM; Sagrada Escritura; Código de Direito Canônico; Lumen gentium; Perfectae caritatis; Gaudium et spes; Evangelica testificatio; Redemptionis donum; Vita consecrata; Catecismo da Igreja Católica; documentos da CIVCSVA e estudos OSM sobre pobreza, autoridade e obediência.
Série: Fontes da Espiritualidade Servita — IX
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