9/30/2026

I Chamados a servir por amor com Santa Maria



Identidade e formação do Servo de Maria

Em 2025, a Ordem dos Frades Servos de Maria apresentou a atualização da sua Ratio institutionis, intitulada Chamados a servir por amor com Santa Maria. Mais do que um documento destinado aos responsáveis pela formação, a Ratio propõe um caminho para toda a vida do Servo de Maria.

O próprio documento recorda que a formação não termina com o noviciado ou com a profissão religiosa. Ela acompanha o frade desde a primeira resposta ao chamado de Deus até o fim da vida. Por isso, a Ratio institutionis é também um instrumento de formação permanente para todos os frades Servos de Maria.

Voltar às nossas origens

Logo no início, a Ratio recupera uma passagem fundamental da Legenda de Origine Ordinis. Somos convidados a voltar o olhar para as palavras e os exemplos daqueles que nos precederam, particularmente os primeiros Pais da Ordem.

Não se trata simplesmente de conhecer acontecimentos do século XIII. Conhecer as origens significa perguntar continuamente:

O que Deus quis suscitar na Igreja através dos primeiros Servos de Maria? E como podemos viver hoje a mesma inspiração?

A formação servita nasce também dessa memória. Os primeiros Pais tornam-se referência não porque devamos reproduzir exteriormente sua maneira medieval de viver, mas porque encontramos neles atitudes evangélicas que continuam essenciais: busca de Deus, fraternidade, conversão, serviço, comunhão e particular relação com Santa Maria.

Deus é quem primeiro nos procura

Uma das imagens mais bonitas empregadas pelo documento provém da manhã da Ressurreição. Jesus pergunta a Maria Madalena:

“Quem procuras?” (Jo 20,15).

A vida cristã e religiosa é apresentada como uma busca. Procuramos Deus, procuramos compreender sua vontade e procuramos descobrir o sentido da nossa própria existência.

Entretanto, a Ratio introduz uma verdade ainda mais profunda: antes de procurarmos Deus, somos procurados por Ele.

Foi Deus quem chamou os discípulos. É Deus quem continua chamando homens e mulheres. E foi também por iniciativa divina que os primeiros Pais foram conduzidos a viver juntos.

A tradição conservada na Legenda de Origine recorda, através do testemunho de Santo Aleixo, que os primeiros companheiros não começaram sua caminhada pretendendo fundar uma nova Ordem. Desejavam viver juntos para realizar mais facilmente e dignamente a vontade de Deus.

A vocação servita nasce, portanto, antes de tudo, da iniciativa de Deus.

Um “sim” que envolve toda a vida

Responder à vocação não significa apenas escolher uma atividade ou assumir determinada função na Igreja.

A Ratio apresenta a vocação servita como um “sim”:

um sim Àquele que chama, Deus;

um sim aos irmãos com quem somos chamados a viver;

um sim ao serviço que nos é confiado;

e um sim vivido à luz daquele pronunciado pela Virgem de Nazaré.

Aqui encontramos uma das características mais profundas da espiritualidade dos Servos de Maria.

Maria não ocupa o lugar de Cristo. Pelo contrário: ela conduz o Servo ao seguimento de Cristo.

O objetivo fundamental da formação é conformar a vida ao Senhor Jesus, assumir seus sentimentos e permitir que Ele viva em nós.

É esse o caminho que Santa Maria indica.

É esse o caminho percorrido pelos Sete Primeiros Pais.

É esse o caminho testemunhado por São Filipe Benizi, São Peregrino e tantos Servos e Servas de Maria ao longo dos séculos.

“Vai aos meus irmãos”

Depois de reconhecer o Ressuscitado, Maria Madalena recebe uma missão:

“Vai aos meus irmãos” (Jo 20,17).

A Ratio utiliza essa palavra para apresentar outra dimensão fundamental da vocação servita: a fraternidade.

Quem entra na Ordem não entra simplesmente numa instituição. É enviado para uma comunidade de irmãos.

Essa comunidade encontra inspiração na primeira comunidade cristã descrita nos Atos dos Apóstolos e na experiência dos primeiros Pais da Ordem.

Mas tornar-se irmão exige muito mais do que morar na mesma casa ou vestir o mesmo hábito.

É um caminho de transformação.

A própria tradição servita insiste que a comunidade é lugar privilegiado de formação. Os irmãos formam uns aos outros pelo testemunho, pela oração, pelo trabalho, pelo diálogo, pelo perdão e pela vida cotidiana.

Por isso, as Constituições recordam uma característica preciosa da nossa identidade:

todos somos Servos e todos somos irmãos.

Ministérios, funções e responsabilidades podem ser diferentes. A dignidade fraterna é a mesma.

Aprender a dialogar e a perdoar

A fraternidade precisa ser construída.

A Ratio destaca a importância do diálogo fraterno e aberto: aprender a falar daquilo que trazemos no coração e, ao mesmo tempo, aprender verdadeiramente a escutar.

Isso exige respeito, confiança e humildade.

Também exige perdão.

Não existe crescimento autêntico na comunhão sem misericórdia. A fragilidade humana acompanha todas as comunidades. Por isso, o Servo de Maria é chamado a tornar concreta a palavra de Jesus:

“Sede misericordiosos, como é misericordioso o vosso Pai.”

A misericórdia aparece, assim, não como aspecto secundário, mas como característica da vida dos Servos que procuram prolongar em sua existência o exemplo da Mãe de Deus.

“Vi o Senhor”

Maria Madalena volta aos discípulos e anuncia:

“Vi o Senhor” (Jo 20,18).

A formação cristã nasce desse encontro.

Por isso, a Ratio chama atenção para a lectio divina. No encontro cotidiano com a Palavra, o frade escuta o Mestre, deixa-se formar por Ele, reza e aprende a reconhecer sua presença na própria história.

Antes de anunciar uma Palavra aos outros, o Servo precisa deixar que essa Palavra transforme sua própria vida.

A formação não consiste apenas em adquirir conhecimentos. Significa tornar-se progressivamente discípulo.

Uma formação para o nosso tempo

A atualização de 2025 também reconhece novos desafios.

Entre eles aparecem o cuidado da casa comum, a administração responsável dos bens, a cultura digital, a proteção dos menores e das pessoas vulneráveis, a interculturalidade e a necessidade de enfrentar com seriedade as diferentes formas de abuso.

Esses temas mostram que a fidelidade ao carisma não significa permanecer preso ao passado.

A tradição permanece viva quando é capaz de dialogar com as perguntas do presente.

O Servo de Maria é chamado a conservar suas raízes e, ao mesmo tempo, discernir os sinais dos tempos.

Formados durante toda a vida

Talvez uma das afirmações mais importantes da nova Ratio seja precisamente esta: a formação é permanente.

O documento não pertence somente aos jovens que começam a caminhada nem somente aos formadores.

Pertence a todos.

Depois de muitos anos de profissão religiosa, continuamos discípulos.

Continuamos aprendendo a rezar.

Continuamos aprendendo a viver como irmãos.

Continuamos aprendendo a servir.

Continuamos aprendendo com Maria a permanecer junto à cruz e a acolher a esperança da Ressurreição.

A alegria de ser Servos

A carta de promulgação da Ratio termina voltando novamente à manhã da Páscoa.

Maria Madalena encontrou o Senhor.

Os discípulos alegraram-se ao vê-lo.

Também a vida do Servo de Maria deve conservar essa dimensão pascal.

Uma comunidade verdadeiramente evangélica deve permitir que quem dela se aproxima encontre algo dessa alegria: a alegria de estar com Cristo, de viver como irmãos, de servir, de perdoar e de caminhar juntos.

É uma bela medida para examinarmos nossa própria vida:

quem se aproxima de nossas comunidades consegue perceber a alegria de homens que encontraram o Senhor?

A formação servita, afinal, conduz-nos novamente ao essencial.

Cristo nos chama.

Santa Maria nos acompanha.

Os primeiros Pais nos mostram um caminho.

Os irmãos caminham conosco.

E somos enviados ao mundo para servir.

Chamados a servir por amor com Santa Maria.

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Fonte: Ordem dos Frades Servos de Maria, Chamados a servir por amor com Santa Maria – Ratio institutionis da Ordem dos Frades Servos de Maria, Cúria Geral OSM, Roma, edição atualizada, 2025.

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