Uma vocação que nasce nas próprias origens da Ordem
Em 17 de fevereiro de 2025, solenidade dos Sete Santos Fundadores, o Prior Geral da Ordem dos Servos de Maria, Frei Gottfried M. Wolff, OSM, dirigiu à Família dos Servos e Servas de Maria a carta “Presença leiga dos Servos de Maria — Um propósito renovado para viver a consagração batismal”.
O documento foi escrito ao término das comemorações dos 600 anos da bula Sedis Apostolicae Providentia, promulgada pelo Papa Martinho V em 16 de março de 1424.
A comemoração oferece uma oportunidade para redescobrir uma verdade profundamente ligada à identidade servita: a presença dos leigos não é um acréscimo posterior à história dos Servos de Maria. Ela pertence às próprias origens da Ordem.
Os Sete Fundadores eram leigos
A Legenda de Origine Ordinis testemunha que os Sete primeiros Pais viveram inicialmente sua vocação cristã como leigos.
Eram homens inseridos na sociedade florentina. Exerciam atividades comerciais, participavam de uma associação mariana e encontravam-se em diferentes estados de vida: alguns eram casados, outros viúvos e outros viviam a castidade pelo Reino.
Antes de formarem uma comunidade religiosa, já procuravam viver seriamente sua consagração batismal.
Essa memória é importante.
A Família Servita não nasceu primeiramente de uma iniciativa clerical, mas da experiência evangélica de homens leigos que procuravam oração, penitência, fraternidade e serviço sob a inspiração de Santa Maria.
A atual Regra de Vida da Ordem Secular reconhece justamente nos irmãos e irmãs leigos testemunhas autênticas dessa origem laical.
Uma casa aberta aos diversos estados de vida
A antiga tradição da Ordem apresenta uma imagem particularmente significativa.
Os primeiros Pais, mesmo vivendo em diferentes condições, escolheram um caminho que pudesse ser percorrido tanto pelos casados quanto pelos solteiros.
Já aparece aqui uma característica que atravessará os séculos: o carisma dos Servos de Maria possui uma capacidade de alcançar pessoas chamadas a viver a santidade em diferentes estados de vida.
A espiritualidade servita não pertence exclusivamente aos frades.
Ela pode ser vivida no matrimônio, na família, no trabalho, na vida profissional e nas inúmeras situações da existência cotidiana.
1424: o reconhecimento de um caminho já existente
Os grupos de leigos ligados às comunidades dos Servos de Maria foram se desenvolvendo progressivamente.
Em 16 de março de 1424, a pedido do Prior Geral Frei Stefano de Borgo San Sepolcro e dos irmãos e irmãs conhecidos como Consórcio dos Servos de Santa Maria, o Papa Martinho V confirmou uma Regra ou forma de vida para esses homens e mulheres.
A bula Sedis Apostolicae Providentia concedeu reconhecimento eclesial a uma experiência que já existia ao redor de numerosas comunidades servitas.
Seguiu-se um período de grande fecundidade. Em poucos anos surgiram cerca de vinte novas fraternidades, muitas delas femininas.
A história demonstra, portanto, que religiosos e leigos cresceram juntos na experiência do carisma.
Da Ordem Terceira à Ordem Secular Servita
Ao longo dos séculos surgiram diferentes maneiras de viver essa pertença.
Algumas fraternidades desenvolveram-se como Ordem Terceira, conjugando a devoção mariana com as obras de misericórdia.
Outras acentuaram particularmente a dimensão espiritual e devocional, sobretudo a contemplação das dores da Virgem. Desse ambiente desenvolveram-se também as Confrarias das Sete Dores de Nossa Senhora.
A Regra de 1424 permaneceu como referência fundamental durante séculos.
Depois de diferentes revisões e do caminho de renovação promovido pelo Concílio Vaticano II, chegou-se à aprovação, pela Santa Sé, em 29 de abril de 1995, da atual Regra de Vida.
A denominação Ordem Secular Servita expressa uma compreensão renovada: religiosos e leigos participam, segundo suas diferentes formas de vida, de uma mesma Família espiritual.
Uma única Família
A carta do Prior Geral insiste numa compreensão essencial para o presente da Ordem.
Frades, monjas, religiosas, membros da Ordem Secular, institutos seculares e outras expressões laicais não constituem realidades simplesmente colocadas umas ao lado das outras.
Existe entre elas uma verdadeira comunhão carismática.
A diversidade não elimina a unidade.
O elemento que une essa Família é o ideal de fraternidade e serviço inspirado por Maria.
O documento chega a uma afirmação particularmente exigente: o encontro entre a dimensão religiosa e a dimensão secular da Família Servita é necessário. Uma precisa da outra.
Maria, riqueza da Família Servita
Qual é a grande riqueza que a Ordem pode compartilhar?
Antes de qualquer estrutura ou atividade, a carta aponta para Santa Maria.
Ela é a humilde Serva do Senhor, a Mulher que deposita sua esperança em Deus e permanece unida à missão redentora do Filho.
Maria inspirou os primeiros Pais em seu projeto comunitário.
E continua indicando aos Servos e Servas o caminho para Cristo.
Por isso, a presença de Maria não constitui simplesmente uma devoção acrescentada à espiritualidade servita. Sua vida torna-se referência para a existência cristã.
Consagrados e leigos aprendem com ela a servir.
Uma escola de espiritualidade
A carta apresenta uma indicação especialmente importante para o futuro da presença leiga servita.
A Ordem Secular não deve ser entendida simplesmente como movimento vocacional ou associação devocional.
Ela é chamada a tornar-se uma verdadeira escola de espiritualidade.
Uma escola na qual os cristãos recebam auxílio para viver a vocação universal à santidade e aprendam, juntos, a colaborar na construção de um mundo iluminado pelos valores do Evangelho.
Isso significa levar a espiritualidade servita para dentro da vida cotidiana.
Para a família.
Para o trabalho.
Para as relações sociais.
Para o cuidado dos pobres.
Para as responsabilidades civis.
Para os ambientes nos quais somente o leigo pode estar presente dessa maneira.
Simplicidade, serviço e compromisso
A Regra de Vida apresenta uma espiritualidade concreta.
A vida do Servo de Maria leigo deve ser simples, marcada pelo serviço e orientada para Deus.
Essa opção manifesta-se no trabalho responsável, na austeridade, na sensibilidade às necessidades dos outros e no serviço aos mais necessitados.
Diante de uma sociedade frequentemente marcada pela busca do dinheiro, do poder e do prazer, o Servo de Maria procura testemunhar que Deus é o bem capaz de saciar profundamente o coração humano.
Não significa fugir do mundo.
Significa estar plenamente nele sem permitir que seus ídolos determinem nossa existência.
O que os leigos oferecem aos religiosos
A relação é recíproca.
Os religiosos possuem responsabilidade na formação e no acompanhamento das fraternidades leigas. Mas os leigos também oferecem uma contribuição indispensável à vida da Ordem.
Eles trazem consigo o conhecimento direto da realidade familiar, profissional e social.
Recordam aos religiosos as preocupações concretas das pessoas.
Ajudam a compreender as dificuldades de quem precisa enfrentar diariamente insegurança, trabalho, família e tantas outras exigências.
Sua presença pode também tornar a própria oração comunitária mais encarnada, fazendo chegar à liturgia as esperanças, dores e necessidades da humanidade.
A história mostra ainda que a devoção dos grupos leigos contribuiu significativamente para o desenvolvimento da piedade mariana servita, particularmente da devoção a Nossa Senhora das Dores.
A videira do Monte Senário
Na conclusão, Frei Gottfried utiliza uma imagem muito bela.
Da única videira do Monte Senário, o Espírito Santo fez germinar, através dos séculos, novas formas de viver o carisma.
A Ordem Secular Servita, os institutos seculares, as diaconias leigas, associações e outros grupos da Família Servita são apresentados como frutos dessa mesma videira.
A raiz é comum.
A inspiração é comum.
O chamado ao serviço é comum.
As formas de vivê-lo são diversas.
Essa imagem ajuda a compreender a Família Servita não como uma coleção de instituições, mas como uma realidade viva que continua produzindo novos frutos.
Um propósito renovado
Celebrar seis séculos da bula de Martinho V não significa apenas recordar um documento antigo.
Significa perguntar pelo presente.
Como transmitir hoje o carisma servita às novas gerações?
Como tornar nossas comunidades verdadeiras escolas de espiritualidade?
Como aproximar mais religiosos e leigos?
Como ajudar homens e mulheres a viver sua consagração batismal inspirados por Santa Maria?
Os Sete primeiros Pais começaram sua caminhada como leigos.
Quase oito séculos depois, sua experiência continua recordando que o chamado à santidade não está reservado a alguns.
Na Família dos Servos de Maria há lugar para diferentes vocações, ministérios e estados de vida.
Todos, porém, podem aprender com a mesma Mãe a repetir a mesma atitude:
servir por amor.
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Fonte: Frei Gottfried M. Wolff, OSM, Prior Geral, Presença leiga dos Servos de Maria — Um propósito renovado para viver a consagração batismal. Carta à Família dos Servos e Servas de Maria no final do 600º aniversário da bula Sedis Apostolicae Providentia (1424). Convento Sant’Alessio Falconieri, Roma, 17 de fevereiro de 2025.
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