Contemplando a Virgem Dolorosa, os consagrados aprendem a permanecer fiéis a Cristo e solidários com os crucificados de nosso tempo.
Série: Com Maria, no caminho da Vida Religiosa Consagrada — 7/8
Referências bíblicas: Jo 19,25-27; Lc 2,22-35; Mc 8,34-35; Rm 12,15.
A Mãe que permanece junto à cruz
Entre as imagens evangélicas da Virgem Maria, uma das mais significativas para a espiritualidade da Ordem dos Servos de Maria é sua presença junto à cruz de Jesus.
O evangelista João registra que, junto à cruz, estavam a Mãe de Jesus e outras mulheres, acompanhadas pelo discípulo amado (cf. Jo 19,25-27).
A presença de Maria nesse momento revela uma fidelidade que atravessa a experiência do sofrimento.
Aquela que acolheu o anúncio da Encarnação e acompanhou o crescimento do Filho encontra-se agora diante do mistério de sua entrega.
A cruz parece contradizer as expectativas humanas de vitória e realização.
Entretanto, é precisamente nesse acontecimento que se manifesta a profundidade do amor de Cristo.
Maria permanece.
Sua presença silenciosa torna-se expressão de comunhão, coragem e fidelidade.
Para a Vida Religiosa Consagrada, essa atitude possui um significado particular: seguir Jesus não significa apenas participar dos momentos de entusiasmo e fecundidade apostólica, mas também permanecer com ele nas horas de provação.
A profecia de Simeão
No relato da apresentação de Jesus no Templo, Simeão anuncia a Maria que uma espada atravessará sua alma (cf. Lc 2,35).
A tradição cristã reconheceu nessa profecia uma referência ao sofrimento que acompanharia a missão de Jesus e atingiria profundamente o coração de sua Mãe.
A imagem da espada tornou-se especialmente significativa na devoção à Virgem Dolorosa.
Entretanto, a contemplação das dores de Maria não deve reduzir-se à exaltação do sofrimento.
O centro da fé cristã não é a dor considerada isoladamente, mas o amor que permanece fiel e a esperança que nasce da Ressurreição.
Maria não é apresentada como alguém que procura o sofrimento. Ela participa, com fé e amor, das consequências dolorosas da missão redentora de seu Filho.
Sua compaixão é expressão de solidariedade.
Permanecer nas horas difíceis
A vida religiosa conhece momentos de alegria, crescimento e fecundidade. Entretanto, também atravessa dificuldades.
Existem comunidades marcadas pelo envelhecimento de seus membros, pela diminuição das vocações, por limitações econômicas ou pelo encerramento de obras apostólicas.
Há religiosos que enfrentam enfermidades, incompreensões, conflitos e experiências de solidão.
Nessas circunstâncias, a contemplação de Maria junto à cruz pode oferecer uma importante inspiração espiritual.
A perseverança cristã não consiste em negar a dor ou fingir que tudo está bem.
Ela exige reconhecer a realidade, procurar os meios adequados para enfrentar as dificuldades e conservar a confiança no Senhor.
Permanecer fiel não significa conservar indefinidamente todas as estruturas ou resistir a qualquer mudança.
Às vezes, a fidelidade ao Evangelho exige abandonar formas de atuação que já não correspondem às necessidades da missão.
A cruz de Cristo não legitima a resignação diante da injustiça, da violência ou dos abusos.
A compaixão cristã deve promover a proteção das pessoas, a busca da verdade e a responsabilidade diante do sofrimento.
A compaixão como presença
A palavra compaixão expressa a disposição de participar do sofrimento alheio com amor e solidariedade.
Maria, junto à cruz, manifesta essa proximidade.
Ela não pode impedir a Paixão de Jesus, mas permanece junto dele.
Também nós encontramos situações nas quais não conseguimos eliminar imediatamente a dor dos outros.
Uma enfermidade grave, a perda de uma pessoa querida, a solidão de um idoso ou o sofrimento de uma família podem ultrapassar nossa capacidade de oferecer soluções.
Nesses momentos, a presença respeitosa e perseverante possui grande valor.
A caridade não se mede apenas pela eficácia das respostas, mas também pela capacidade de acompanhar.
O apóstolo Paulo recomenda aos cristãos que se alegrem com os que estão alegres e chorem com os que choram (cf. Rm 12,15).
Essa solidariedade pertence ao coração do Evangelho.
A Virgem Dolorosa na espiritualidade servita
A contemplação de Maria junto à cruz constitui uma dimensão característica da tradição espiritual dos Servos de Maria.
A Ordem conserva uma profunda veneração à Bem-aventurada Virgem Maria das Dores, reconhecendo nela um modelo de união com Cristo e de solicitude pelos que sofrem.
A celebração de Nossa Senhora das Dores, em 15 de setembro, ocupa lugar especial na vida espiritual da Família Servita.
A tradição das Sete Dores convida os fiéis a contemplar diferentes acontecimentos da vida de Maria relacionados ao sofrimento de Jesus e à sua missão.
Essa devoção possui uma finalidade profundamente evangélica.
Contemplar as dores de Maria deve conduzir à solidariedade com os crucificados de nosso tempo.
Os enfermos, os pobres, as vítimas da violência, os migrantes, os abandonados e aqueles que experimentam diferentes formas de sofrimento precisam encontrar nos discípulos de Cristo uma presença fraterna.
A espiritualidade servita torna-se autêntica quando a contemplação da Virgem Dolorosa se transforma em compaixão ativa.
A esperança que nasce da Páscoa
A cruz não constitui a última palavra da história de Jesus.
O mistério pascal conduz à Ressurreição.
Por isso, a contemplação de Maria junto à cruz deve permanecer iluminada pela esperança cristã.
A vida consagrada é chamada a testemunhar essa esperança mesmo diante de situações aparentemente sem solução.
A confiança na Ressurreição não elimina a responsabilidade de enfrentar os problemas concretos. Pelo contrário, oferece força para continuar trabalhando pela dignidade humana e pela transformação das realidades injustas.
O religioso que permanece próximo dos que sofrem anuncia que nenhuma pessoa deve ser abandonada à própria dor.
Para nossa reflexão
Como reajo diante do sofrimento dos irmãos? Sou capaz de acompanhar aqueles que atravessam dificuldades sem oferecer julgamentos precipitados? Nossa comunidade mantém proximidade com os pobres e enfermos? A devoção à Virgem Dolorosa transforma concretamente nossas atitudes?
Maria nos ensina que a fidelidade ao Senhor se manifesta também na coragem de permanecer junto àqueles que sofrem.
Oração
Virgem Maria, Mãe das Dores, vós que permanecestes fielmente junto à cruz de Jesus, ensinai-nos a amar com perseverança.
Dai-nos um coração sensível ao sofrimento humano e coragem para permanecer próximos dos que necessitam de cuidado e esperança.
Consolai os enfermos, fortalecei os desanimados e acompanhai os religiosos que atravessam momentos de provação.
Que a contemplação de vossas dores nos conduza a uma caridade mais generosa e à confiança na vitória pascal de Cristo.
Amém.
Somos Servos — Formação e Espiritualidade Mariana e Servita.
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