A sabedoria de discernir antes de agir
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
Depois de contemplar Maria sob seus diversos títulos maternos, a Ladainha Lauretana inicia uma nova sequência:
Virgem prudentíssima, rogai por nós.
A primeira virtude destacada é a prudência.
Talvez essa palavra seja facilmente mal compreendida.
Ser prudente não significa ser medroso.
Não significa evitar toda decisão difícil.
Não significa permanecer imóvel para não correr riscos.
Na tradição cristã, prudência é a capacidade de discernir o bem e escolher os meios adequados para realizá-lo.
E Maria aparece diante de nós como mulher profundamente prudente.
Maria não responde precipitadamente
Na Anunciação acontece algo muito significativo.
O anjo a saúda.
Maria se perturba.
E o Evangelho diz que ela procurava compreender o significado daquela saudação.
Maria não reage impulsivamente.
Ela pensa.
Depois pergunta:
“Como acontecerá isso?”
Somente depois de escutar a resposta do anjo pronuncia seu “sim”:
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”
Podemos reconhecer aqui um verdadeiro itinerário espiritual:
escutar,
refletir,
perguntar,
discernir,
responder.
Prudência não é falta de coragem
Maria é prudente, mas não é tímida.
Depois da Anunciação, parte apressadamente para a região montanhosa a fim de visitar Isabel.
Quando compreende aquilo que deve fazer, age.
Essa é uma característica importante da verdadeira prudência.
A pessoa prudente não fica eternamente analisando.
Discerniu?
Reconheceu o bem?
Então é hora de agir.
A prudência cristã une duas coisas:
reflexão antes da decisão e coragem depois do discernimento.
Guardava tudo no coração
O Evangelho volta a mostrar essa atitude de Maria quando afirma que ela guardava e meditava os acontecimentos em seu coração.
Maria não compreende imediatamente tudo aquilo que acontece com Jesus.
Mas não descarta aquilo que ainda não compreende.
Guarda.
Existe uma grande sabedoria nisso.
Nem todas as respostas chegam imediatamente.
Algumas coisas precisam amadurecer.
Algumas palavras precisam ser rezadas.
Alguns acontecimentos só revelam seu significado depois de muito tempo.
A prudência sabe esperar.
Prudência e silêncio
Vivemos em um tempo de respostas rápidas.
Recebemos uma mensagem e sentimos necessidade de responder imediatamente.
Ouvimos alguma coisa e logo formamos uma opinião.
Somos contrariados e reagimos.
Maria nos ensina o valor de um pequeno espaço entre aquilo que acontece e nossa resposta.
Esse espaço chama-se:
discernimento.
Às vezes, a decisão mais prudente é não responder imediatamente.
Rezar.
Esperar.
Escutar outra pessoa.
Dormir uma noite.
Voltar ao assunto com o coração mais sereno.
Em Caná
Nas bodas de Caná, a prudência de Maria aparece de outra maneira.
Ela percebe:
“Eles não têm mais vinho.”
Mas não transforma a situação em espetáculo.
Não expõe os noivos.
Não anuncia publicamente o problema.
Dirige-se discretamente a Jesus.
Que bela forma de prudência!
Existem problemas que precisam ser tratados.
Mas nem todos precisam ser expostos.
A caridade também exige discrição.
Saber quando falar
Maria sabe silenciar.
Mas sabe também quando falar.
Em Caná, fala.
Na Anunciação, pergunta.
No Magnificat, proclama.
A prudência não significa silêncio permanente.
Significa saber:
quando falar,
como falar,
a quem falar
e por que falar.
Há palavras verdadeiras que podem ser pronunciadas no momento errado.
Há correções necessárias que podem ser feitas de maneira inadequada.
A prudência coloca a verdade a serviço da caridade.
Uma virtude necessária à vida comunitária
Para nós, religiosos, esta invocação é extremamente concreta.
Quantos problemas comunitários poderiam ser evitados com um pouco mais de prudência!
Uma informação recebida confidencialmente não precisa circular.
Uma dificuldade de um irmão não precisa tornar-se assunto de mesa.
Uma irritação momentânea não precisa transformar-se imediatamente em confronto.
Uma decisão importante não deveria ser tomada apenas porque estamos cansados ou aborrecidos.
A fraternidade necessita de homens capazes de pensar antes de falar.
Prudência e governo
Essa virtude é ainda mais necessária para quem exerce autoridade.
O prior precisa ouvir.
O superior precisa consultar.
O formador precisa observar.
O pároco precisa considerar as consequências de suas decisões.
Quem governa pessoas não pode agir somente por impulso.
Mas também não pode usar a prudência como desculpa para nunca decidir.
A verdadeira prudência procura:
ver com clareza,
julgar com sabedoria
e agir com decisão.
Prudência na formação
A formação religiosa exige especialmente essa virtude.
Um jovem não pode ser definido por um único episódio.
Uma dificuldade não determina imediatamente uma vocação.
Um entusiasmo inicial também não prova tudo.
É preciso tempo.
Observar.
Escutar.
Acompanhar.
Conhecer a pessoa em diferentes situações.
Permitir que os processos amadureçam.
Formar exige prudência porque estamos diante do mistério de uma pessoa chamada por Deus.
Não confundir prudência com medo
Existe, porém, um perigo.
Podemos chamar de prudência aquilo que na verdade é medo.
“Melhor não mudar nada.”
“Melhor não começar.”
“Melhor não arriscar.”
“Melhor continuar como sempre foi.”
Maria não vive assim.
Quando Deus chama, ela responde.
Quando Isabel precisa, ela parte.
Quando falta vinho, ela intervém.
A prudência cristã não impede a novidade de Deus.
Ajuda-nos a reconhecê-la.
Prudência e liberdade interior
Para discernir bem, precisamos estar livres.
Se já decidimos antecipadamente aquilo que queremos, dificilmente conseguiremos ouvir.
Se queremos determinada função a qualquer preço, encontraremos argumentos para justificá-la.
Se não gostamos de alguém, interpretaremos facilmente suas ações de maneira negativa.
A prudência exige purificação das intenções.
Por isso, antes de decidir, precisamos perguntar:
Estou realmente livre para acolher uma resposta diferente daquela que desejo?
Maria e os Servos
Para nós, Servos de Maria, Virgem prudentíssima pode tornar-se uma invocação particularmente preciosa.
Antes de uma reunião:
Virgem prudentíssima, rogai por nós.
Antes de um Capítulo:
Virgem prudentíssima, rogai por nós.
Antes de uma decisão formativa:
Virgem prudentíssima, rogai por nós.
Antes de responder numa situação de conflito:
Virgem prudentíssima, rogai por nós.
Antes de uma escolha pastoral importante:
Virgem prudentíssima, rogai por nós.
Não pedimos que Maria decida em nosso lugar.
Pedimos que nos ajude a adquirir aquela liberdade interior que permite reconhecer a vontade de Deus.
Uma pergunta para o coração
Esta invocação pode tornar-se hoje um exame de consciência muito simples:
Eu penso antes de falar e rezo antes de decidir?
Talvez algumas de nossas palavras precisassem de mais silêncio.
Algumas decisões, de mais oração.
Alguns julgamentos, de mais informação.
Algumas certezas, de mais humildade.
E algumas hesitações, de mais coragem.
Maria nos ensina o equilíbrio.
Oração
Virgem prudentíssima,
mulher da escuta e do discernimento,
ensine-nos a procurar a vontade de Deus
antes de procurar nossa própria vontade.
Dê-nos sabedoria para escutar,
paciência para refletir
e coragem para decidir.
Guarde nossa língua
das palavras precipitadas.
Livre-nos dos julgamentos apressados
e ensine-nos a respeitar
a história e a dignidade de cada irmão.
Aos superiores, conceda sabedoria.
Aos formadores, discernimento.
Aos jovens, liberdade interior.
Às nossas comunidades reunidas em Capítulo,
dê capacidade de escutar umas às outras
e de procurar juntas a vontade do Senhor.
Quando chamarmos de prudência o nosso medo,
dê-nos coragem.
Quando chamarmos de coragem nossa impulsividade,
dê-nos sabedoria.
E a nós, Servos de Maria,
ensine a guardar os acontecimentos no coração,
como você os guardava,
até reconhecermos neles
a passagem silenciosa de Deus.
Virgem prudentíssima, rogai por nós.
Para guardar no coração
A prudência cristã sabe esperar antes de decidir, mas, quando reconhece a vontade de Deus, encontra coragem para agir.
Fontes
Sagrada Escritura, especialmente Lc 1,26-45; Lc 2,19.51; Jo 2,1-11.
Pietro Ansalone, SJ, Le Litanie Lauretane, segunda edição, organizada pelo Pe. Raffaele Nicolella, Nápoles, 1858 — obra inspiradora da série.
Ladainha de Nossa Senhora — Ladainha Lauretana, formulário oficial em português da Santa Sé.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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