9/30/2026
XIII Exame ecológico da comunidade servita
XIII Laudato si’ e o carisma dos Servos de Maria
Da contemplação da criação à conversão ecológica
O que a crise ecológica tem a ver com a vocação dos Servos de Maria?
Seria o cuidado da criação apenas mais uma causa contemporânea que a Ordem deveria acrescentar às suas atividades?
Ou existe algo em nosso próprio carisma capaz de nos ajudar a compreender e viver a ecologia integral?
O estudo Laudato si’ e as Constituições e o carisma dos Frades Servos de Maria conduz-nos precisamente a essa segunda perspectiva.
A responsabilidade ecológica não aparece como elemento estranho acrescentado à espiritualidade servita.
Ela pode ser compreendida a partir de realidades que já conhecemos profundamente:
criação, contemplação, fraternidade, pobreza, serviço, justiça, compaixão e comunhão.
E as Constituições oferecem uma expressão particularmente bela para orientar esse caminho:
“Teremos para com as criaturas somente relações de paz, misericórdia, justiça e amor construtivo” (Const. OSM, 299).
Uma crise que exige conversão
A Laudato si’ representa um momento decisivo na compreensão católica da responsabilidade pela criação.
Seu chamado não se limita à adoção de algumas práticas ambientalmente corretas.
A questão é mais profunda.
É necessária uma conversão ecológica.
Isso significa mudar nossa maneira de compreender:
a humanidade;
a criação;
os pobres;
o consumo;
o desenvolvimento;
e nossa relação com Deus.
A crise ambiental revela também uma crise espiritual.
“Tudo está interligado”
Uma das convicções fundamentais da Laudato si’ aparece repetidamente:
tudo está interligado.
Não podemos pensar a humanidade separadamente da natureza.
Não podemos pensar economia sem consequências ambientais.
Não podemos falar dos pobres sem considerar as mudanças climáticas.
Não podemos falar da criação sem falar da responsabilidade humana.
Essa interligação possui uma ressonância particularmente significativa para uma Ordem cuja espiritualidade insiste tanto na comunhão.
Uma antiga acusação ao cristianismo
O estudo reconstrói também um importante debate histórico.
Em 1967, o historiador Lynn White Jr. acusou a tradição bíblica, particularmente determinadas interpretações do Gênesis, de ter contribuído para a crise ecológica ao favorecer uma compreensão de “domínio” humano sobre a natureza.
Sua tese exerceu grande influência.
O problema não pode ser simplesmente ignorado.
Houve, de fato, interpretações cristãs que trataram a criação quase exclusivamente como recurso colocado à disposição da humanidade.
Mas seria essa realmente a visão bíblica?
Cultivar e guardar
Diversos estudiosos da Escritura responderam negativamente.
O Gênesis não entrega a criação à humanidade para uma exploração ilimitada.
O ser humano recebe a responsabilidade de cultivar e guardar.
Esses dois verbos precisam permanecer juntos.
Cultivar sem guardar transforma-se em exploração.
Guardar sem reconhecer a responsabilidade humana pela terra também seria insuficiente.
O ser humano recebe uma missão.
A criação é dom e responsabilidade.
Não dominadores, mas responsáveis
O estudo destaca ainda a interpretação do verbo bíblico frequentemente traduzido como “dominar”.
Ele não justifica um domínio arbitrário sobre uma criação passiva.
Deve ser compreendido dentro da responsabilidade confiada pelo Criador.
Não somos proprietários absolutos.
Somos responsáveis.
Essa diferença modifica profundamente nossa relação com a terra.
Deus também se deixa encontrar na criação
A tradição bíblica não coloca Deus simplesmente fora do mundo natural.
Israel celebra festas ligadas à terra.
Reconhece a fecundidade como dom.
Contempla os céus.
Canta as criaturas.
Percebe a presença do Criador em suas obras.
A natureza não é Deus.
Mas fala de Deus.
Assim, cuidar da criação não é desviar a atenção do Criador.
Pode tornar-se uma maneira de honrá-lo.
Da questão social à questão socioambiental
A doutrina social da Igreja levou tempo para colocar a responsabilidade ecológica no centro de sua reflexão.
O estudo identifica um longo desenvolvimento que passa por Leão XIII, Vaticano II, Paulo VI, João Paulo II e chega ao Papa Francisco.
Progressivamente tornou-se mais evidente que a questão ecológica não pode ser separada da questão social.
E aqui está uma das grandes contribuições da Laudato si’:
o clamor da terra e o clamor dos pobres pertencem à mesma crise.
Os pobres sofrem primeiro
As consequências da degradação ambiental não são distribuídas igualmente.
As populações mais vulneráveis frequentemente sofrem primeiro e possuem menos recursos para proteger-se.
Mudanças climáticas, escassez de água, destruição de ecossistemas, poluição e alterações na produção de alimentos possuem consequências sociais.
Por isso, a ecologia integral não pode ser reduzida à proteção de paisagens.
É também questão de justiça.
Uma Ordem mundial diante de uma crise mundial
Esse ponto toca diretamente os Servos de Maria.
Nossa Ordem está presente em diferentes partes do planeta.
Algumas comunidades vivem em países historicamente responsáveis por grande parte da pressão ambiental.
Outras vivem em regiões que experimentam mais diretamente suas consequências.
Isso significa que a crise ecológica atravessa a própria fraternidade internacional.
O estudo chega a uma conclusão forte:
formamos uma comunidade de solidariedade que nos chama a enfrentar juntos a crise climática.
Fraternidade humana e fraternidade com a criação
A Fratelli tutti aprofunda a consciência da fraternidade humana.
A Laudato si’ amplia nossa percepção da interdependência de toda a criação.
Para os Servos de Maria, essas duas perspectivas podem dialogar de maneira particularmente fecunda.
A fraternidade que cultivamos entre nós não deveria fechar-se nos limites da comunidade humana.
A criação inteira é recebida do mesmo Deus.
O valor próprio das criaturas
A Laudato si’ pede que deixemos de olhar para as diferentes espécies apenas como “recursos” disponíveis para exploração.
Cada criatura possui um valor diante de Deus.
Sua existência glorifica o Criador.
Isso exige uma profunda mudança de olhar.
Uma árvore não vale apenas pela madeira.
Um rio não vale apenas pela água que podemos retirar.
Um animal não vale apenas por sua utilidade.
A criação possui uma dignidade que precede nosso uso dela.
Biodiversidade
O estudo dedica especial atenção à biodiversidade.
A extinção de espécies não representa simplesmente a perda de possíveis recursos futuros.
Significa o desaparecimento irreversível de formas de vida que possuem valor em si mesmas.
Quando uma espécie desaparece por causa da ação humana, algo da riqueza da criação deixa de existir.
Não temos o direito de tratar essa perda com indiferença.
A teia da vida
Tudo isso conduz a uma imagem central:
a teia da vida.
A existência humana depende de sistemas físicos, químicos e biológicos profundamente interdependentes.
Não possuímos vida isoladamente.
Respiramos.
Bebemos.
Comemos.
Dependemos do solo.
Dependemos dos oceanos.
Dependemos das florestas.
Dependemos de incontáveis organismos.
Reconhecer isso não diminui a dignidade humana.
Coloca-a dentro de uma responsabilidade maior.
Quando o ser humano se coloca no lugar de Deus
A crise começa quando nos consideramos absolutamente autônomos diante da realidade.
Quando deixamos de ser colaboradores de Deus e pretendemos ocupar seu lugar.
A criação transforma-se então em objeto.
E o objeto pode ser explorado.
A conversão ecológica exige abandonar essa ilusão de soberania absoluta.
Somos criaturas entre criaturas, ainda que dotadas de uma responsabilidade particular.
E os animais?
O estudo entra depois numa questão menos habitual na reflexão servita:
nossa relação com os animais.
Aqui aparece uma contribuição significativa de Frei Martin M. Lintner, OSM, estudioso de ética animal.
A pergunta fundamental é consequência da própria Laudato si’:
se cada criatura possui valor próprio diante de Deus, como devemos tratar os animais?
De utilidade para responsabilidade
Durante muito tempo, a reflexão moral cristã concentrou-se principalmente na utilidade dos animais para os seres humanos.
Alimento.
Trabalho.
Vestuário.
Pesquisa.
Lazer.
A perspectiva ecológica contemporânea pede uma consideração mais ampla.
Os animais fazem parte da biodiversidade.
Muitos possuem capacidade de sentir dor e outras experiências.
Por isso, nossa relação com eles também pertence à responsabilidade moral.
Uma pequena história de conversão
O autor do estudo conta uma experiência pessoal.
Caminhando em Chicago, encontrou um formigueiro na calçada.
Sua reação instintiva foi pensar em destruí-lo.
Mas parou.
Observou a complexidade daquilo que pequenas criaturas haviam construído.
E perguntou:
por que destruir?
Tinha poder para fazê-lo.
Mas possuir poder não significa possuir direito.
Ele contorna o formigueiro.
Um gesto minúsculo tornou-se momento de conversão ecológica.
Do poder ao cuidado
Talvez essa pequena história resuma uma grande mudança espiritual.
Nossa primeira pergunta diante da criação não deveria ser:
“O que posso fazer com isto?”
Mas:
“Como devo relacionar-me com isto?”
O poder precisa ser convertido em responsabilidade.
O domínio, em cuidado.
A exploração, em proteção.
Alimentação e responsabilidade
O estudo aborda também uma questão delicada: o uso de animais na alimentação.
Não apresenta simplesmente o vegetarianismo ou o veganismo como obrigação universal.
Mas pede reflexão séria sobre:
as condições de criação;
o sofrimento animal;
o consumo crescente de carne;
os impactos climáticos;
o uso da terra;
e a sustentabilidade dos sistemas alimentares.
A conversão ecológica chega, portanto, também à mesa.
Uma questão especialmente próxima do Brasil
O documento menciona explicitamente o Brasil ao tratar da produção de ração animal associada ao desmatamento das florestas tropicais.
Isso mostra como escolhas de consumo realizadas muito longe podem produzir consequências ambientais em outros lugares.
A ecologia integral obriga-nos a enxergar essas cadeias de relações.
Aquilo que compramos possui uma história.
Das ideias às ações
O estudo não termina na reflexão teológica.
Pergunta diretamente:
o que os Servos de Maria podem fazer?
E apresenta propostas concretas.
Esse passo é fundamental.
O amor pela criação precisa tornar-se ação.
Como diz a conclusão do documento:
“amar” é verbo que exige atos concretos.
Ler a Laudato si’
A primeira proposta é simples:
cada Servo de Maria deveria ler pessoalmente a Laudato si’.
Não apenas resumos.
Não apenas comentários.
O próprio texto.
O estudo recomenda também sua leitura em relação com Fratelli tutti e Querida Amazonia.
A conversão começa também pela formação da consciência.
Evangelizar para a conversão ecológica
Nossos ministérios podem contribuir para formar essa consciência.
Paróquias.
Escolas.
Casas de formação.
Grupos juvenis.
Ordem Secular.
Família Servita.
A ecologia integral pode aparecer na catequese, na formação e na pregação.
Não como moda.
Mas como consequência da fé no Deus Criador.
Tempo da Criação
O estudo recomenda atenção particular ao Tempo da Criação, celebrado anualmente entre 1º de setembro e 4 de outubro.
Esse período pode favorecer:
oração;
catequese;
formação;
ações comunitárias;
iniciativas ecológicas.
A liturgia pode ajudar a recuperar uma espiritualidade capaz de contemplar Deus na criação.
Envolver os jovens
Há uma atenção especial aos jovens e estudantes.
Eles podem ser envolvidos em iniciativas concretas de restauração ambiental.
Isso une formação e ação.
A juventude não é chamada apenas a ouvir discursos sobre a crise ecológica.
Pode participar diretamente de sua resposta.
Comunidades servitas “verdes”
O estudo faz uma proposta particularmente concreta:
as próprias comunidades servitas deveriam procurar assumir um estilo de vida ambientalmente responsável.
Isso pode incluir:
eficiência energética;
energias renováveis;
redução de combustíveis fósseis;
meios de transporte menos poluentes;
mudanças no consumo;
revisão das práticas alimentares.
A comunidade torna-se então testemunho.
Nossas casas também evangelizam
Existe aqui uma ligação direta com o artigo XI sobre Nova Evangelização.
Se desejamos convidar outras pessoas à conversão ecológica, nossas próprias casas precisam mostrar sinais dessa conversão.
O edifício.
A energia.
A água.
Os resíduos.
A alimentação.
As compras.
O jardim.
Tudo pode tornar-se parte do testemunho.
Água
O documento destaca particularmente a preservação dos recursos hídricos.
Sem água não existe vida.
Nem produção de alimentos.
Nem dignidade humana.
Cuidar da água torna-se uma expressão concreta do cuidado pela Casa Comum.
Jardins Laudato si’
Outra proposta é a criação de Jardins Laudato si’.
Podem ser jardins de flores.
Hortas.
Espaços de biodiversidade.
Lugares de contemplação.
A ideia possui uma beleza especial para a tradição servita.
O jardim pode unir:
trabalho;
silêncio;
comunidade;
alimentação;
beleza;
oração.
Menos plástico
O estudo oferece ainda um exemplo muito concreto de penitência cristã aplicada à ecologia.
Um grupo de estudantes decidiu viver o jejum quaresmal evitando plásticos.
Essa experiência sugere uma possibilidade interessante.
Nossas práticas penitenciais tradicionais podem ganhar também uma dimensão ecológica.
Renunciar pode significar reduzir aquilo que destrói.
Pobreza e conversão ecológica
Aqui encontramos uma ligação muito forte com o carisma religioso.
A pobreza evangélica não deveria significar apenas uma determinada relação jurídica com os bens.
Pode tornar-se escola de:
sobriedade;
simplicidade;
partilha;
redução do consumo;
liberdade diante das coisas.
Uma vida religiosa incapaz de questionar o consumismo perderia uma oportunidade importante de testemunho.
Ecologia e penitência
A penitência também pode ser relida.
Diminuir desperdícios.
Evitar consumo desnecessário.
Reutilizar.
Reparar.
Compartilhar.
Escolher produtos menos prejudiciais.
Tudo isso pode tornar-se exercício espiritual quando realizado por amor a Deus, aos pobres e à criação.
Colaboração ecumênica e inter-religiosa
A crise ecológica ultrapassa fronteiras confessionais.
Por isso, o estudo recomenda colaboração com outras Igrejas e religiões.
O cuidado da Casa Comum pode tornar-se lugar de encontro.
O autor recorda inclusive Santo Antônio Maria Pucci como inspiração para uma abertura que ultrapassa fronteiras confessionais.
Uma espiritualidade ecológica servita
Chegamos então à pergunta inicial.
Existe algo especificamente servita nessa conversão?
Sim.
Nossa tradição oferece vários caminhos.
Monte Senário recorda criação e contemplação.
A fraternidade ensina interdependência.
A pobreza ensina sobriedade.
O serviço impede uma espiritualidade fechada em si mesma.
A compaixão aproxima-nos dos pobres que sofrem primeiro os efeitos da crise ambiental.
Maria ensina acolhida e cuidado da vida.
E nossas Constituições oferecem uma linguagem extraordinariamente atual.
O artigo 299
Talvez nenhuma formulação resuma melhor esse caminho:
“Teremos para com as criaturas somente relações de paz, misericórdia, justiça e amor construtivo.”
Paz.
Misericórdia.
Justiça.
Amor construtivo.
Essas quatro palavras poderiam constituir quase um programa servita de ecologia integral.
Paz
Não tratar a criação com violência.
Misericórdia
Reconhecer sua vulnerabilidade.
Justiça
Assumir responsabilidade pelas consequências de nossas escolhas.
Amor construtivo
Não apenas evitar destruir.
Cuidar, reparar e fazer crescer.
Da fraternidade à criação
No artigo XII desta série refletimos sobre estender a fraternidade.
Agora percebemos que esse movimento pode alcançar ainda mais longe.
Não somos seres isolados.
Pertencemos a uma comunidade humana.
E a comunidade humana pertence à comunidade da criação.
A fraternidade servita pode educar-nos para essa consciência.
O grito da terra e o grito dos pobres
Para um Servo de Maria existe ainda uma imagem particularmente poderosa.
Nossa espiritualidade ensina-nos a permanecer com Maria junto às cruzes.
Hoje algumas dessas cruzes possuem também uma dimensão ecológica.
Povos expulsos de suas terras.
Comunidades atingidas por enchentes e secas.
Fome provocada pela degradação ambiental.
Povos indígenas ameaçados.
Florestas destruídas.
Água contaminada.
Espécies desaparecendo.
Ouvir o grito da terra é também aproximar-se de muitas cruzes humanas.
Contemplar, converter-se, agir
Podemos resumir o caminho proposto pelo estudo em três movimentos:
Contemplar.
Reconhecer a criação como dom e lugar da presença do Criador.
Converter-se.
Rever mentalidades, hábitos, consumo e estilos de vida.
Agir.
Transformar a conversão em escolhas concretas pessoais, comunitárias e pastorais.
Sem contemplação, a ecologia pode perder sua profundidade espiritual.
Sem conversão, permanece discurso.
Sem ação, permanece intenção.
Uma casa verdadeiramente comum
Os Servos de Maria nasceram como fraternidade.
Aprenderam a viver juntos.
A partilhar.
A servir.
A procurar Deus na oração e na realidade.
A ecologia integral amplia nosso horizonte e pergunta:
podemos aprender também a habitar fraternalmente a Terra?
Não como donos absolutos.
Não como consumidores insaciáveis.
Mas como criaturas responsáveis dentro da criação de Deus.
“O que devemos fazer?”
O estudo termina justamente com essa pergunta.
E sua resposta não é única.
Nenhum de nós pode fazer tudo.
Mas cada um pode fazer alguma coisa.
Cada comunidade pode rever alguma prática.
Cada Província pode assumir algum compromisso.
Cada ministério pode formar alguma consciência.
Cada Servo pode converter alguma escolha.
Porque oportunidade significa também responsabilidade.
E porque, no fim, a questão ecológica toca o próprio significado do amor.
Se dizemos amar o Criador, não podemos permanecer indiferentes àquilo que Ele criou.
Se dizemos amar nossos irmãos e irmãs, não podemos ignorar as condições do planeta que partilhamos.
E se desejamos ser verdadeiramente Servos, também a criação precisa encontrar em nós não dominadores, mas cuidadores.
Servos que cultivam.
Servos que guardam.
Servos que contemplam.
Servos que protegem.
Servos que, com todas as criaturas, aprendem novamente a louvar o Deus da Vida.
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Fonte principal: Laudato si’ e as Constituições e o carisma dos Frades Servos de Maria, estudo servita sobre ecologia integral e responsabilidade pela criação.
Autores servitas particularmente considerados no estudo: Frei John T. Pawlikowski, OSM, da Província dos Estados Unidos, e Frei Martin M. Lintner, OSM, da Província do Tirol.
Fontes principais: Constituições OSM, especialmente nn. 115, 116 e 299; Laudato si’; Fratelli tutti; Querida Amazonia; Compêndio da Doutrina Social da Igreja; documentos de São João Paulo II e Bento XVI; estudos bíblicos e éticos sobre responsabilidade ecológica e ética animal.
Segundo Ciclo — O Servo de Maria no mundo
XIII — Laudato si’ e o carisma dos Servos de Maria
XII Estender a fraternidade
A colaboração entre os Servos de Maria
Quando uma Província ajuda outra, quando duas comunidades unem forças para uma missão, quando frades são enviados para servir fora de sua própria jurisdição ou quando recursos são colocados em comum, o que está acontecendo?
Seria apenas uma resposta à diminuição do número de frades?
Uma solução administrativa?
Uma estratégia para conservar obras?
No estudo “Estender a fraternidade: a colaboração”, Frei Franco M. Azzalli, OSM, oferece uma resposta muito mais profunda.
Para os Servos de Maria, a colaboração nasce da própria identidade da Ordem.
Colaborar é estender a fraternidade.
Antes da estrutura está a fraternidade
Províncias, vicariatos, delegações e outras estruturas são necessárias.
Organizam responsabilidades.
Facilitam o governo.
Permitem coordenar a missão.
Mas não constituem a realidade mais profunda da Ordem.
As estruturas podem mudar.
A fraternidade permanece.
Frei Franco mostra que as Constituições falam da comunidade conventual, provincial e da própria Ordem como diferentes maneiras de expressar uma mesma realidade.
Podemos imaginá-las como círculos concêntricos de fraternidade.
A comunidade local não existe isoladamente.
A Província não existe isoladamente.
Nenhuma jurisdição constitui uma pequena Ordem independente.
Todos pertencemos à mesma fraternidade.
A colaboração não nasce da crise
Essa distinção é particularmente importante em períodos de dificuldade.
Quando diminui o número de religiosos, envelhecem as comunidades ou determinadas obras se tornam difíceis de sustentar, podemos começar a falar de colaboração apenas porque precisamos de ajuda.
Mas isso seria insuficiente.
Mesmo que todas as Províncias fossem numerosas e possuíssem recursos abundantes, a colaboração continuaria pertencendo ao carisma.
Porque sua fonte não é a necessidade.
É a comunhão.
O artigo 5 das Constituições
Frei Franco encontra uma síntese extraordinária já no início das Constituições.
O artigo 5 afirma que a comunhão de vida e de intenções cria entre nossas comunidades relações que as unem numa fraternidade mais ampla.
E quais são os frutos?
As comunidades:
prestam ajuda recíproca;
colaboram na atividade apostólica;
coordenam sua ação;
e cumprem lealmente aquilo que estabeleceram em comum.
A ordem das ideias é importante.
Primeiro:
comunhão de vida e de intenções.
Depois:
colaboração.
A colaboração servita não nasce simplesmente de um contrato.
Nasce da fraternidade.
Uma fraternidade mais ampla
Essa expressão merece ser guardada:
“uma fraternidade mais ampla”.
Ela ajuda a compreender a Ordem para além da comunidade em que moramos ou da Província à qual juridicamente pertencemos.
Existe sempre uma fraternidade maior.
A comunidade abre-se à Província.
A Província abre-se à Ordem.
A Ordem abre-se à Família Servita.
E a Família Servita abre-se à Igreja e à humanidade.
A fraternidade possui uma dinâmica expansiva.
Respeitar pessoas e autonomias
Ampliar a fraternidade não significa eliminar diferenças.
O mesmo artigo 5 fala explicitamente do respeito pelas pessoas e pelas autonomias locais.
Isso é muito importante.
Comunhão não significa uniformidade.
Colaboração não significa centralização de tudo.
Unidade não significa que cada realidade precise perder sua história, cultura ou legítima autonomia.
A verdadeira fraternidade permite simultaneamente:
unidade e diversidade.
Sair do isolamento
Frei Franco recupera uma reflexão muito forte de Frei Graffius.
Diante das dificuldades enfrentadas pelas Províncias, ele advertia contra a tentação de cada realidade fechar-se em si mesma.
O isolamento é incompatível com a fraternidade.
Uma comunidade que acredita não precisar das demais pode esquecer que pertence a um corpo maior.
E uma comunidade que precisa de ajuda, mas se recusa a pedi-la, também corre o risco de transformar autonomia em isolamento.
Fraternidade significa reconhecer:
precisamos uns dos outros.
Os problemas de uma Província pertencem à Ordem
Essa mudança de mentalidade é decisiva.
É fácil preocupar-nos apenas com:
nossa comunidade;
nossa obra;
nossa Província;
nossos recursos;
nossos projetos.
A fraternidade mais ampla pede outro olhar.
Os problemas de uma parte da Ordem dizem respeito, de alguma maneira, a todos.
Assim como suas riquezas também pertencem ao bem comum.
Uma Província que possui vocações, recursos ou competências não os recebeu apenas para si.
O dom pode tornar-se serviço.
Colaborar custa
As Constituições são realistas.
O artigo 23 recorda que, nas relações entre comunidades, Vicariatos, Províncias e Ordem, deve existir compreensão das respectivas necessidades, aceitação das inevitáveis insuficiências e generosidade nos sacrifícios que a colaboração comporta.
Essa última expressão é essencial.
Colaboração verdadeira custa alguma coisa.
Tempo.
Pessoas.
Dinheiro.
Projetos.
Disponibilidade.
Às vezes exige renunciar a algo que desejaríamos conservar.
Se colaborar nunca nos custa nada, talvez estejamos apenas utilizando aquilo que nos convém.
Todos possuem a mesma dignidade
O mesmo artigo 23 afirma que todas as comunidades são chamadas a colaborar para solucionar os problemas comuns.
Frei Franco recorda que a intenção das Constituições não é simplesmente definir juridicamente Província e Ordem.
Quer apresentar um estilo de relação.
A realidade jurídica existe.
Mas dentro dela deve existir uma realidade espiritual:
comunhão.
O Capítulo como escola de colaboração
O autor dedica atenção especial ao artigo 42 e à tradição capitular.
Isso é muito significativo.
O Capítulo não existe apenas para resolver assuntos administrativos.
É reunião de irmãos.
Ali a comunidade aprofunda temas que fortalecem a fraternidade e a colaboração apostólica.
Programa.
Avalia.
Decide.
Verifica sua fidelidade ao Evangelho.
Examina sua resposta às necessidades da Igreja, da Ordem e da humanidade.
Por isso, o método servita de colaboração passa necessariamente pelo encontro.
Encontrar-se antes de organizar
As Constituições recomendam reuniões:
interprovinciais;
provinciais;
entre comunidades próximas;
entre comunidades comprometidas em atividades semelhantes.
E indicam três frutos:
conhecimento e comunhão fraterna mais profundos;
colaboração mais intensa;
renovação comum.
A ordem novamente é reveladora.
Antes de colaborar melhor, precisamos conhecer-nos melhor.
A colaboração que nasce apenas de organogramas pode permanecer fria.
A colaboração que nasce do encontro entre irmãos possui raízes.
Não confundir método com finalidade
Frei Franco oferece aqui um princípio muito útil.
Os métodos podem mudar.
As estruturas podem mudar.
As conferências regionais podem funcionar de uma maneira numa época e de outra posteriormente.
Podem surgir novos instrumentos jurídicos.
Mas a finalidade permanece:
comunhão, fraternidade, colaboração e renovação.
Isso permite liberdade criativa.
Não precisamos eternizar uma estrutura apenas porque funcionou no passado.
“Um apelo à fantasia”
Ao comentar o artigo 163 das Constituições, Frei Franco utiliza uma expressão deliciosa:
um “apelo à fantasia”.
O artigo permite que duas ou mais Províncias ou Vicariatos que desejem colaborar utilizem novos institutos jurídicos aprovados pelo Conselho Geral.
A legislação não determina antecipadamente todas as formas possíveis.
Deixa espaço para criatividade.
Isso revela uma atitude muito importante:
a estrutura deve servir à fraternidade, e não a fraternidade servir à estrutura.
Novos problemas pedem novas formas
O mundo muda.
A geografia da Ordem muda.
As vocações mudam.
As necessidades pastorais mudam.
As capacidades econômicas mudam.
Por isso, as formas de colaboração também podem precisar mudar.
Fidelidade não significa conservar indefinidamente toda estrutura.
Às vezes, a fidelidade ao carisma exige justamente coragem para criar uma forma nova.
Formação compartilhada
Um campo privilegiado de colaboração é a formação.
O Diretório Geral recomenda colaboração entre Províncias e prevê centros internacionais, interprovinciais ou intercomunitários.
Qual a finalidade?
Favorecer o encontro pessoal entre frades de diferentes jurisdições e realizar uma verdadeira comunhão de energias, capacidades e recursos.
Formar juntos pode ajudar-nos também a sentir-nos membros de uma Ordem, e não apenas de uma Província.
O Marianum: responsabilidade comum
Dentro desse horizonte, o estudo recorda a Pontifícia Faculdade Teológica Marianum.
O Diretório Geral apresenta-a como prioridade da Ordem e pede colaboração eficaz de toda a Ordem e da Família Servita.
Isso mostra concretamente que existem instituições cujo significado ultrapassa uma jurisdição.
Pertencem ao patrimônio e à missão comuns.
Colaboração apostólica
As Constituições ampliam ainda mais o horizonte.
Pedem comunhão com os demais membros da Família Servita, religiosos e leigos.
Recomendam colaboração com famílias religiosas associadas ao nosso apostolado.
E pedem que procuremos e aceitemos a colaboração fraterna dos leigos.
A fraternidade mais ampla não termina, portanto, nos limites jurídicos da Ordem.
Colaboração econômica
Também os bens entram nessa lógica.
Os recursos das comunidades, Províncias e da Ordem devem servir aos irmãos e podem socorrer necessidades particulares de outras jurisdições.
A economia revela nossa compreensão de fraternidade.
É relativamente fácil dizer que somos irmãos.
A partilha dos recursos mostra até onde essa convicção alcança.
Colaborar com pessoas
As Constituições pedem às Províncias e Vicariatos colaboração também por meio da disponibilidade de frades.
Isso toca diretamente a vida.
Um irmão pode ser chamado a servir em outra realidade.
Outra cultura.
Outra língua.
Outro continente.
Nesse momento, a fraternidade universal deixa de ser teoria.
Ganha rosto.
Nome.
Passaporte.
Casa.
Missão.
Profissão para a Ordem
O Capítulo Geral de 2019 recordou um princípio fundamental das Constituições:
com a profissão solene, o frade é acolhido definitivamente na Ordem dos Servos de Maria, assumindo plenamente sua vida e responsabilidade.
Isso merece atenção.
A profissão não é simplesmente para uma comunidade local.
Nem apenas para uma Província.
É para a Ordem.
A pertença provincial é real e importante.
Mas existe dentro de uma pertença maior.
2007: as comunidades da Ordem
O Capítulo Geral de 2007 insistiu particularmente na responsabilidade de todas as Províncias e Vicariatos pelas comunidades diretamente dependentes do Prior Geral.
Essas comunidades estão a serviço de toda a Ordem.
Por isso, toda a Ordem deve colaborar para sustentá-las:
com pessoas;
recursos financeiros;
e outros meios.
O princípio permanece o mesmo:
aquilo que serve a todos precisa ser responsabilidade de todos.
2013: coragem para um projeto comum
O Capítulo Geral de 2013 contemplou uma Ordem vivendo situações muito diferentes.
Em algumas regiões, crescimento.
Em outras, dificuldades.
Diante disso, pediu coragem para requalificar as comunidades e disponibilidade para abraçar um projeto comum, ainda que isso exigisse renunciar a projetos pessoais.
Essa passagem toca o coração da colaboração.
Não existe verdadeiro projeto comum se cada um estiver disposto a participar apenas enquanto seus próprios projetos permanecerem intocados.
2019: corresponsabilidade pelo futuro
O Capítulo Geral de 2019 avançou ainda mais.
Diante da situação da Ordem, pediu maior colaboração entre todas as jurisdições.
Falou explicitamente de ajuda mútua:
humana;
espiritual;
econômica.
E relacionou essa colaboração ao futuro da Ordem.
Não se trata, porém, apenas de sobrevivência institucional.
É consequência da corresponsabilidade assumida na profissão.
Uma geografia que mudou
A Ordem já não possui exatamente a mesma configuração de outras épocas.
Frei Franco recorda o crescimento de determinadas regiões, particularmente na Ásia e na África, enquanto outras enfrentam envelhecimento e diminuição numérica.
Essa realidade pode ser interpretada apenas como problema.
Ou pode tornar-se oportunidade de redescobrir que a Ordem é realmente internacional.
Os dons circulam.
Os centros mudam.
Novas vozes aparecem.
A fraternidade aprende novamente a ultrapassar fronteiras.
Colaboração não é colonização
Da lógica do estudo decorre também uma cautela importante.
Se a colaboração respeita pessoas e autonomias locais, ajudar outra jurisdição não significa dominá-la.
O irmão enviado não leva uma cultura superior.
Leva seus dons e recebe os dons daqueles que encontra.
A colaboração autêntica é reciprocidade.
Quem ajuda também aprende.
Quem oferece também recebe.
Fraternidade global
Talvez possamos resumir todo o estudo nessa expressão:
fraternidade global.
Não no sentido de apagar comunidades locais.
Mas de perceber que cada comunidade pertence a círculos cada vez maiores de comunhão.
Frade.
Comunidade.
Província.
Ordem.
Família Servita.
Igreja.
Humanidade.
Quanto mais amadurece a identidade servita, mais amplo deveria tornar-se o horizonte da fraternidade.
Da necessidade à oportunidade
Diminuição de pessoal, envelhecimento, novas missões e dificuldades econômicas podem obrigar-nos a colaborar.
Mas seria uma pena parar aí.
Aquilo que começa como necessidade pode revelar uma oportunidade espiritual.
Conhecer outros irmãos.
Partilhar dons.
Criar comunidades internacionais.
Repensar estruturas.
Formar juntos.
Servir juntos.
Descobrir que pertencemos a algo maior do que aquilo que víamos a partir de nossa própria casa.
Colaborar é converter-se
Toda colaboração exige conversão.
Converter o “meu” em “nosso”.
Converter isolamento em comunhão.
Converter autossuficiência em interdependência.
Converter medo em confiança.
Converter estruturas intocáveis em instrumentos disponíveis para a missão.
Converter projetos particulares em discernimento comum.
Talvez por isso colaborar seja tão exigente.
Porque não muda apenas organogramas.
Muda pessoas.
Estender a fraternidade
Chegamos então à conclusão de Frei Franco.
A colaboração entre as entidades jurídicas da Ordem é extensão da fraternidade.
Por isso, pertence ao carisma.
Não é mero aspecto jurídico.
Não é apenas resposta às dificuldades históricas.
Não é estratégia empresarial.
É uma forma concreta de dizer:
somos irmãos.
E, se somos irmãos, aquilo que acontece com uma comunidade, uma Província ou uma região da Ordem não pode ser completamente indiferente às demais.
O futuro da Ordem não será simplesmente a soma dos futuros particulares de cada jurisdição.
Será cada vez mais um futuro construído juntos.
Com criatividade.
Com sacrifício.
Com respeito pelas diferenças.
Com coragem.
Com confiança.
E com aquela comunhão de vida e de intenções que, segundo nossas Constituições, transforma muitas comunidades numa única e cada vez mais ampla fraternidade.
---
Fonte: Frei Franco M. Azzalli, OSM, Estender a fraternidade: a colaboração. Província Piemonte-Romanha.
Fontes fundamentais do estudo: Constituições OSM, especialmente arts. 5, 23, 42, 74–75, 101–103, 111, 138, 163, 173, 224, 251, 254, 272, 274 e 285; Diretório Geral; documentação dos Capítulos Gerais de 1968, 1971, 1974, 1977, 1989, 2007, 2013 e 2019; documentação da Comissão para o estudo das Constituições.
Segundo Ciclo — O Servo de Maria no mundo
XII — Estender a fraternidade: a colaboração
XI Os Servos de Maria e a Nova Evangelização
Formar uma espiritualidade para a ação hoje
Depois de percorrermos as fontes da identidade, da fraternidade, da oração, da consagração e da formação servita, surge uma pergunta inevitável:
como o Servo de Maria anuncia o Evangelho no mundo de hoje?
Frei John Roncalli, OSM, começa seu estudo sobre os Servos de Maria e a Nova Evangelização com uma definição particularmente significativa:
evangelizar significa formar uma espiritualidade para a ação hoje.
Não existe evangelização em abstrato.
Toda ação acontece dentro de uma realidade histórica, cultural e humana concreta.
Por isso, a fidelidade ao carisma não consiste simplesmente em repetir aquilo que os Servos fizeram no passado.
É necessário conservar a inspiração recebida e perguntar novamente:
de que maneira somos chamados a servir hoje?
Contemplar o mundo criado por Deus
O estudo começa de maneira surpreendente: pela criação.
Deus cria mediante sua Palavra.
Forma o ser humano e comunica-lhe seu sopro de vida.
Entrega-lhe o mundo.
Por isso, a missão não pode ignorar a relação entre humanidade, criação e Criador.
Frei John aproxima essa perspectiva da Laudato si’ e afirma que os Servos são chamados não somente a contribuir para a restauração de um mundo ferido, mas também a ser protetores da natureza.
A evangelização possui, portanto, também uma dimensão de cuidado da Casa Comum.
Monte Senário: criação, silêncio e comunidade
Essa preocupação não é estranha às nossas origens.
Frei John contempla a experiência dos primeiros Pais em Monte Senário e identifica três realidades:
a criação de Deus;
a solidão e o silêncio;
a beleza da comunidade.
A montanha oferecia aos primeiros irmãos a possibilidade de experimentar a grandeza do Criador.
O silêncio permitia escutar.
E a fraternidade possibilitava descobrir a presença de Deus também no irmão.
Assim, criação, contemplação e comunidade aparecem unidas desde as origens.
Evangelizar a partir daquilo que somos
Um princípio percorre todo o estudo:
o frade evangeliza a partir de sua própria experiência de vida e maturidade.
Isso significa que evangelização não começa primeiramente com técnicas.
Começa com a pessoa.
Com sua relação com Cristo.
Com sua vida fraterna.
Com sua capacidade de escuta.
Com sua formação.
Com sua disponibilidade.
Com a coerência entre aquilo que anuncia e aquilo que vive.
Antes de perguntar quais métodos devemos utilizar, precisamos perguntar:
que testemunho nossa vida oferece?
Não podemos simplesmente repetir o passado
O mundo mudou.
Por isso, Frei John afirma claramente que não podemos evangelizar hoje utilizando simplesmente os mesmos tipos de atividades e atitudes empregados por nossos antepassados.
É preciso discernir.
Criar novas abordagens.
Planejar.
Preparar-se.
Conhecer as situações concretas.
A fidelidade à tradição não dispensa criatividade.
Ao contrário.
Uma tradição viva oferece critérios para responder a situações novas.
As Constituições como fonte para a missão
Frei John encontra nas Constituições OSM aquilo que chama de verdadeiras “pérolas de valor” para compreender nossa missão.
Os primeiros sete artigos já apresentam os elementos fundamentais:
nossa identidade;
nossa inspiração;
nosso modo de viver;
nossa relação com Maria;
nossa fraternidade;
nossa disponibilidade para servir.
O artigo 3 oferece uma imagem particularmente missionária:
somos peregrinos na insegurança deste mundo e colocamo-nos à disposição para ir aonde nosso serviço nos impulsione.
O Servo não deveria estar excessivamente preso a lugares, estruturas ou formas de apostolado.
O serviço pode chamá-lo para outro lugar.
Disponibilidade
Essa palavra torna-se central:
disponibilidade.
Evangelizar exige perguntar não somente:
“o que sempre fizemos?”
mas:
“onde somos necessários agora?”
A missão pode exigir deslocamento.
Mudança.
Aprendizagem.
Novos ministérios.
Contato com culturas diferentes.
Abandono de determinadas seguranças.
A inspiração mendicante da Ordem mantém viva essa liberdade.
Preparar-se para servir
Disponibilidade não significa improvisação.
O estudo insiste repetidamente na necessidade de preparação.
O frade enviado para determinado contexto precisa conhecer:
a língua;
a cultura;
os costumes;
o estilo de vida;
as necessidades das pessoas.
Evangelizar exige respeito.
Antes de falar, precisamos aprender.
Antes de ensinar, precisamos escutar.
Antes de propor, precisamos conhecer.
As diferenças são valores
Frei John utiliza a imagem paulina do corpo de Cristo.
Um corpo possui muitos membros.
Assim também a Ordem.
Existem professores.
Pregadores.
Contemplativos.
Conselheiros.
Assistentes sociais.
Promotores da justiça e da paz.
Pessoas com diferentes culturas, línguas e capacidades.
Essa diversidade não deveria ser tratada como fraqueza.
O autor afirma explicitamente:
as diferenças culturais, sociais e linguísticas são valores.
A missão torna-se mais rica quando os dons são colocados em comunhão.
Evangelizar como comunidade
Aqui aparece um elemento profundamente servita.
A responsabilidade pela evangelização não pertence apenas ao indivíduo.
Pertence à comunidade.
Os talentos pessoais devem ser reconhecidos e desenvolvidos, mas o serviço precisa estar integrado à fraternidade e à missão da Ordem.
Planejamento.
Discernimento.
Execução.
Avaliação.
Tudo isso possui dimensão comunitária.
A evangelização servita não deveria depender apenas de iniciativas individuais.
Estender a fraternidade
O estudo retoma uma das formulações mais importantes das Constituições:
a Ordem é uma comunidade de irmãos em Cristo enviada ao mundo para estender sua fraternidade.
E a humanidade encontra-se dividida por muitas razões:
idade;
nacionalidade;
raça;
religião;
cultura;
costumes;
condições sociais.
O Servo entra nessas realidades não para eliminar diferenças, mas para reconhecer riquezas e ajudar a construir unidade e harmonia.
Aqui está uma forma profundamente servita de evangelização:
transformar a fraternidade vivida em fraternidade oferecida.
Maria no Cenáculo
A presença de Maria oferece outro eixo da missão.
Frei John contempla-a no Cenáculo, em oração com a Igreja que espera o Espírito Santo.
Sua peregrinação de fé acompanha a peregrinação da Igreja.
Maria não aparece simplesmente como personagem do passado.
Sua presença materna continua inspirando.
Ela é apresentada como:
crente;
discípula;
modelo da Igreja;
intercessora;
protetora;
Mãe.
E o autor vê nela um fator de unidade entre os fiéis.
Evangelizar com a coragem de Maria
A nova evangelização exige também coragem.
Frei John percorre diferentes momentos da vida de Maria.
A Anunciação.
A fuga para o Egito.
O ministério público de Jesus.
A Cruz.
A espera da Ressurreição.
O Cenáculo.
Em cada etapa, Maria permanece firme.
Por isso, o Servo aprende dela a não abandonar a missão diante das dificuldades.
A evangelização não depende apenas de estratégias.
Precisa de fé, integridade, perseverança e coragem.
Evangelização e compaixão
Maria conduz também à compaixão.
Porque é Mãe de Jesus, inspira seus Servos a tornarem-se construtores de paz e participantes da compaixão de Cristo.
A missão não pode ser reduzida à transmissão de conteúdos.
Evangelizar significa também aproximar-se das feridas humanas.
Escutar.
Acompanhar.
Cuidar.
Servir.
Palavra e Eucaristia
O estudo recorda que o cristianismo sempre cresceu em comunidade.
A Palavra é partilhada.
A Eucaristia é celebrada.
Os necessitados são atendidos.
Essas realidades não podem ser separadas.
Uma comunidade evangelizadora escuta e proclama a Palavra, celebra o mistério de Cristo e transforma aquilo que celebra em serviço.
O testemunho precede a palavra
No mundo contemporâneo, a credibilidade da evangelização depende profundamente do testemunho.
Para o Servo de Maria, isso começa dentro da própria comunidade.
Não podemos anunciar fraternidade sem procurar vivê-la.
Não podemos anunciar reconciliação cultivando divisões.
Não podemos anunciar serviço procurando privilégios.
Não podemos anunciar confiança em Deus vivendo dominados pela segurança.
A nova evangelização começa dentro da comunidade.
Depois, sai para perto
Frei John propõe quase um movimento concêntrico.
Primeiro, a comunidade.
Depois, aqueles que estão próximos.
Finalmente, o mundo mais amplo.
O testemunho começa em casa e progressivamente se expande.
Isso impede que a missão se torne fuga das responsabilidades comunitárias.
Aquele que deseja evangelizar longe precisa também aprender a viver o Evangelho perto.
Leigos: colaboradores da missão
O estudo insiste fortemente na participação dos leigos.
Em paróquias, escolas e outros ministérios, homens e mulheres preparados oferecem contribuições fundamentais.
Conselhos pastorais.
Conselhos econômicos.
Pastoral juvenil.
Liturgia.
Pregação e formação bíblica.
Aconselhamento familiar.
Cuidado dos enfermos e idosos.
Diálogo inter-religioso.
Encontro intercultural.
A missão torna-se mais fecunda quando deixamos de pensar que tudo precisa ser realizado pelos frades.
Confiar nas pessoas
Frei John identifica uma exigência fundamental para a colaboração:
confiança.
Não existe verdadeira corresponsabilidade quando os outros são chamados apenas para executar aquilo que já decidimos.
Colaboração significa reconhecer dons.
Partilhar responsabilidades.
Escutar.
Aprender.
Confiar.
A Família Servita inteira evangeliza
A missão não pertence apenas ao ramo dos frades.
As Constituições incentivam a colaboração com toda a Família Servita.
Religiosas.
Monjas.
Ordem Secular.
Grupos leigos.
Associados.
Outras expressões do carisma.
Cada uma possui riquezas próprias.
Quando essas riquezas se encontram, o testemunho torna-se mais completo.
A Ordem Secular
Frei John chama atenção especial para a determinação constitucional de promover a Ordem Secular dos Servos de Maria e outros grupos leigos nos lugares onde estamos presentes.
Isso possui uma consequência missionária muito importante.
Uma presença servita não deveria limitar-se a administrar determinada obra.
Deveria ser capaz de gerar Família Servita.
O carisma torna-se fecundo quando outras pessoas descobrem que também podem vivê-lo segundo seu próprio estado de vida.
A família como lugar de evangelização
O estudo incorpora ainda a perspectiva de Amoris laetitia.
A evangelização precisa alcançar as famílias.
Não apenas quando enfrentam problemas, mas ajudando-as a descobrir a alegria do Evangelho.
Isso exige ministros preparados para compreender questões humanas complexas e acompanhar com maturidade.
O cuidado pastoral das famílias torna-se um campo privilegiado da nova evangelização.
Missão e inculturação
Ao tratar das missões, o estudo insiste no conhecimento da língua, cultura e estilo de vida do povo.
Isso significa que evangelizar não é simplesmente transportar uma forma cultural de cristianismo de um lugar para outro.
O missionário precisa entrar respeitosamente na realidade que encontra.
Aprender.
Escutar.
Inculturar-se.
E ajudar a comunidade local a assumir responsabilidade por sua própria caminhada de fé.
Uma Igreja e uma Ordem sem isolamento
O mundo tornou-se, nas palavras retomadas pelo estudo, uma aldeia global.
Nenhuma comunidade pode viver inteiramente isolada.
Também a missão exige colaboração com:
outras entidades da Ordem;
outras congregações religiosas;
Igrejas locais;
leigos;
instituições e grupos que trabalham pelo bem das pessoas.
Partilhar forças e reconhecer nossas limitações pode tornar a evangelização mais fecunda.
Planejar
Frei John dedica grande atenção a uma palavra que talvez pareça pouco espiritual:
planejamento.
Mas ela possui profundo significado comunitário.
As iniciativas deveriam ser discernidas no Capítulo.
Planejadas em comunidade.
Executadas com responsabilidade.
Acompanhadas.
Avaliadas.
Comunicadas.
Isso protege a missão contra improvisação, individualismo e abandono de projetos.
Avaliar também é servir
Outro ponto insistente é a avaliação.
Não basta começar uma atividade.
Precisamos perguntar:
Está cumprindo sua finalidade?
Responde às necessidades reais?
Continua coerente com nosso carisma?
Precisa mudar?
Deve continuar?
A avaliação não significa desconfiança.
É instrumento de responsabilidade.
Uma comunidade que nunca avalia corre o risco de repetir indefinidamente atividades que já perderam sua finalidade.
Sabedoria dos idosos e energia dos jovens
Na conclusão, Frei John oferece uma imagem muito bonita para a Ordem.
A missão precisa unir:
a sabedoria dos idosos;
a energia dos jovens;
e a colaboração de toda a Família Servita.
Nenhuma geração possui tudo.
Os mais velhos carregam memória e experiência.
Os jovens trazem perguntas, energia e novas possibilidades.
A fraternidade permite que essas riquezas não concorram entre si, mas se completem.
Oito orientações concretas
O estudo termina praticamente com um programa para a nova evangelização.
É necessário:
preparar adequadamente as pessoas para os ministérios;
planejar comunitariamente;
identificar as necessidades reais da sociedade;
servir juntamente com os leigos e as demais entidades da Ordem;
evangelizar e catequizar também dentro das famílias;
avaliar regularmente os serviços realizados;
colaborar com outras famílias religiosas e grupos;
trabalhar sempre em comunhão com a Igreja local.
Não são simplesmente técnicas administrativas.
Expressam uma espiritualidade de responsabilidade.
Nova evangelização: um estilo servita
Depois de percorrer o estudo, podemos compreender melhor a definição inicial.
Evangelizar é realmente formar uma espiritualidade para a ação hoje.
Para o Servo de Maria, essa espiritualidade possui alguns traços claros.
Nasce da contemplação.
Cresce na fraternidade.
Inspira-se em Maria.
Escuta a realidade.
Respeita culturas.
Reconhece dons.
Confia nos leigos.
Cuida da criação.
Planeja comunitariamente.
Avalia.
Colabora.
E permanece disponível para ir onde o serviço chama.
Servos enviados a servir
A nova evangelização não exige que abandonemos nossa identidade.
Exige justamente o contrário:
que vivamos nossa identidade com profundidade suficiente para encontrar novas formas de expressá-la.
Não precisamos deixar de ser Servos para responder ao mundo contemporâneo.
Precisamos tornar-nos cada vez mais Servos.
Servos de Cristo.
Servos com Maria.
Servos uns dos outros.
Servos dos pobres.
Servos da criação.
Servos da comunhão.
E, como peregrinos, disponíveis para ir aonde quer que nosso serviço nos impulsione.
---
Fonte principal: Frei John Roncalli, OSM, Os Servos de Maria e a Nova Evangelização — Comentário às Constituições OSM. Priorado Jeya Matha, Bangalore, Índia; Província Aikiya Annai.
Fontes utilizadas pelo autor: Constituições OSM (2015); documentos do Concílio Vaticano II; Redemptoris Mater; Redemptoris Missio; Vita consecrata; Lumen fidei; Evangelii gaudium; Amoris laetitia; Laudato si’; documentos sobre vida fraterna; documentos e estudos OSM, especialmente textos de Frei Hubert M. Moons.
Segundo Ciclo — O Servo de Maria no mundo
XI — Os Servos de Maria e a Nova Evangelização
X A formação do Servo de Maria
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