A colaboração entre comunidades, Províncias e toda a Ordem
1. Até onde chega a nossa fraternidade?
A fraternidade constitui uma das expressões fundamentais da identidade dos Servos de Maria. Não é apenas um aspecto de nossa vida religiosa ao lado de outros. É uma maneira de compreender a própria vocação, a comunidade, o serviço apostólico e também as estruturas da Ordem.
Por isso, quando falamos de colaboração entre comunidades, Províncias, Vicariatos e outras realidades da Ordem, não devemos começar simplesmente pelas necessidades práticas. A diminuição do número de frades em algumas regiões, o crescimento da Ordem em outras partes do mundo, as dificuldades econômicas, as exigências da formação ou a necessidade de reorganizar presenças apostólicas tornam a colaboração mais urgente. Mas não são sua razão mais profunda.
A colaboração nasce da fraternidade.
Se somos irmãos reunidos em nome do Senhor Jesus, a fraternidade não pode terminar nos limites de nosso convento, de nossa Província ou de nossa região. Ela tende naturalmente a ampliar-se.
Daí a pergunta que deve acompanhar nossa reflexão:
Até onde chega a minha fraternidade?
2. A fraternidade como vocação
A reflexão de Frei Peregrine M. Graffius ajuda a compreender a originalidade das Constituições dos Servos de Maria. Nelas, a fraternidade funciona como uma espécie de horizonte dentro do qual toda a vida do frade deve ser compreendida.
Somos comunidade. Essa comunidade procura testemunhar o Evangelho por meio da comunhão fraterna. E essa comunhão torna-se serviço, inspirado particularmente no exemplo de Maria.
Portanto, a fraternidade não pode ser reduzida à boa convivência entre os membros de uma comunidade local.
Ela alcança nossa maneira de exercer a autoridade, de obedecer, de administrar os bens, de realizar o apostolado, de formar os novos irmãos, de organizar nossas estruturas e de tomar decisões sobre o futuro da Ordem.
Também as estruturas jurídicas devem estar a serviço dessa fraternidade.
Províncias, Vicariatos, Delegações e comunidades não existem para criar fronteiras entre os frades. São instrumentos históricos e jurídicos pelos quais uma mesma fraternidade procura organizar-se para viver melhor sua vocação e cumprir sua missão.
3. Círculos de uma mesma fraternidade
A história dos Servos de Maria confirma essa compreensão.
Quando a Ordem cresceu e ultrapassou os limites de Florença e de Monte Senário, surgiram novas comunidades e, posteriormente, novas Províncias. Essas estruturas não nasceram para separar os irmãos, mas para tornar possível a vida e a missão de uma fraternidade que se expandia.
Por isso, comunidade conventual, comunidade provincial e comunidade da Ordem podem ser compreendidas como círculos cada vez mais amplos da mesma fraternidade.
O frade pertence à sua comunidade local, mas não somente a ela.
Pertence à sua Província, mas não somente a ela.
Pertence à Ordem.
A profissão religiosa cria, portanto, uma responsabilidade que ultrapassa os limites geográficos e administrativos nos quais cada frade vive.
Quando uma comunidade sofre, quando uma Província necessita de ajuda, quando uma presença importante para a Ordem precisa de pessoal ou quando uma nova fundação necessita ser consolidada, não estamos diante de um problema simplesmente “dos outros”.
Estamos diante de uma necessidade de nossa fraternidade.
4. Uma fraternidade mais vasta
O artigo 5 das Constituições oferece uma chave particularmente importante. A comunhão de vida e de intenções estabelece entre nossas comunidades relações que as unem numa fraternidade mais vasta.
Essa expressão merece atenção.
A fraternidade local não é abolida quando se abre à fraternidade maior. Ao contrário, encontra nela sua plenitude.
Também não se pretende eliminar as legítimas diferenças entre comunidades e jurisdições. As Constituições reconhecem a importância das pessoas e das autonomias locais.
Unidade não significa uniformidade.
Comunhão não significa centralização de tudo.
Colaboração não significa perda de identidade.
A fraternidade mais vasta nasce quando comunidades diferentes, movidas pela caridade e pelos vínculos que as unem, prestam ajuda umas às outras, colaboram na missão e procuram coordenar suas atividades.
A autonomia permanece, mas deixa de ser isolamento.
5. Colaborar não apenas porque precisamos
Existe uma diferença importante entre colaboração por necessidade e colaboração por fraternidade.
Podemos colaborar simplesmente porque não temos pessoal suficiente. Podemos compartilhar recursos porque os meios econômicos diminuíram. Podemos reunir casas de formação porque já não temos formandos ou formadores suficientes.
Tudo isso pode ser necessário e prudente.
Mas a fraternidade pede algo mais profundo.
Colaboramos porque pertencemos uns aos outros.
Assim, a necessidade pode ser ocasião para redescobrir uma verdade que sempre esteve presente em nosso carisma: ninguém vive a vocação servita isoladamente.
Uma Província que possui mais recursos pode ajudar outra. Uma jurisdição com maior número de frades pode disponibilizar irmãos para uma necessidade da Ordem. Uma casa de formação pode receber candidatos provenientes de diversas regiões. Projetos apostólicos podem ser assumidos conjuntamente.
Nesse horizonte, oferecer ajuda não é simplesmente fazer um favor.
E pedir ajuda não constitui necessariamente sinal de fracasso.
Ambos podem ser atos de fraternidade.
6. Colaboração em todos os níveis
As Constituições apresentam diversas formas concretas pelas quais essa comunhão pode tornar-se colaboração.
Ela aparece no trabalho cotidiano da comunidade, no apostolado, na relação entre jurisdições, na formação, nos estudos, na economia e na responsabilidade pelas obras que pertencem a toda a Ordem.
Também aparece na relação com os demais membros da Família Servita e na colaboração com os leigos.
A colaboração, portanto, não pode ser reduzida ao deslocamento de frades de uma Província para outra.
Podemos partilhar:
pessoas, formação, conhecimento, recursos econômicos, estruturas, experiências pastorais, projetos missionários e responsabilidades.
Podemos também aprender uns com os outros.
Uma parte da Ordem pode possuir recursos que outra não possui. Em outra região, porém, podem existir vitalidade vocacional, novas experiências missionárias e maneiras diferentes de expressar o carisma.
A colaboração verdadeira não acontece apenas numa direção.
Ela é intercâmbio.
7. Encontrar-se para conhecer-se
As Constituições recomendam reuniões entre Províncias e entre comunidades próximas ou empenhadas em atividades semelhantes.
O objetivo desses encontros não é simplesmente administrativo.
Eles devem favorecer uma mais profunda conhecimento e comunhão fraterna, uma colaboração mais intensa e uma renovação comum.
Existe aqui um princípio muito simples: dificilmente colaboramos verdadeiramente com quem não conhecemos.
Quando as relações entre as jurisdições acontecem apenas por meio de documentos, pedidos formais ou necessidades urgentes, cresce o risco de enxergarmos a outra comunidade somente a partir de seus problemas.
O encontro pessoal modifica essa perspectiva.
Conhecemos rostos.
Conhecemos histórias.
Conhecemos dificuldades e esperanças.
E aquilo que antes parecia problema de outra Província começa a ser percebido como preocupação de irmãos.
8. Coragem para criar novas formas
Um aspecto particularmente significativo da legislação servita encontra-se na possibilidade de duas ou mais jurisdições criarem formas novas de colaboração.
Não é necessário imaginar que as estruturas utilizadas no passado sejam as únicas possíveis para o futuro.
As circunstâncias históricas mudam.
A geografia da Ordem muda.
As vocações surgem em novos lugares.
Algumas presenças diminuem enquanto outras crescem.
Por isso, a fidelidade ao carisma pode exigir criatividade institucional.
O importante não é conservar uma estrutura simplesmente porque sempre existiu. O importante é perguntar se ela continua servindo à fraternidade, à missão e ao bem da Ordem.
Há aqui um verdadeiro convite à criatividade.
Podem surgir projetos interprovinciais, comunidades internacionais, casas comuns de formação, centros de estudo compartilhados, iniciativas pastorais conjuntas e outras formas que talvez ainda não tenhamos imaginado suficientemente.
A estrutura deve servir à vida, e não a vida à estrutura.
9. Um projeto comum
Os Capítulos Gerais mais recentes insistiram progressivamente nessa corresponsabilidade.
Diante das profundas transformações experimentadas pela Ordem, tornou-se cada vez mais evidente que não basta administrar separadamente cada jurisdição.
É necessário pensar juntos o futuro.
Isso exige disponibilidade.
Em determinadas circunstâncias, o bem comum poderá pedir que uma comunidade, uma Província ou mesmo um frade renuncie a um projeto próprio para participar de um projeto maior.
Essa renúncia somente poderá ser compreendida corretamente dentro da fraternidade.
Sem fraternidade, parecerá perda.
Na fraternidade, poderá tornar-se dom.
A questão fundamental deixa então de ser:
“O que é melhor para minha comunidade ou minha Província?”
e passa a incluir outra pergunta:
“O que serve melhor à vida e à missão da Ordem?”
10. Maria, mulher da disponibilidade
Também aqui Maria permanece diante de nós.
Sua vida não foi organizada em torno da defesa de um projeto pessoal. Na Anunciação, ela se colocou à disposição do projeto de Deus. Em Caná, percebeu a necessidade dos outros. Junto à Cruz, permaneceu em comunhão quando a esperança dos discípulos parecia desmoronar. No Cenáculo, estava entre eles enquanto nascia a comunidade missionária.
O Servo de Maria encontra nela uma escola de disponibilidade.
A espiritualidade mariana não pode fechar-nos em nós mesmos.
Maria conduz-nos ao outro.
Ensina-nos a perceber a necessidade.
Ensina-nos a permanecer.
Ensina-nos a oferecer aquilo que somos e aquilo que temos.
Por isso, uma Ordem que deseja servir como Maria é necessariamente chamada a ampliar continuamente os espaços de sua fraternidade.
11. Do “meu” ao “nosso”
Talvez um dos maiores desafios da colaboração seja justamente a passagem do meu para o nosso.
Minha comunidade.
Minha Província.
Meu apostolado.
Meu projeto.
Minha obra.
Tudo isso pode ser legítimo. O problema surge quando o possessivo se transforma em fronteira.
A profissão religiosa introduz-nos numa realidade maior.
Por isso, somos chamados a aprender novamente a dizer:
nossa comunidade, nossa Província, nossa Ordem, nossa missão.
E, num horizonte ainda maior:
nossa Igreja e nossos irmãos e irmãs aos quais somos enviados.
A fraternidade verdadeira sempre alarga o coração.
12. Para a revisão de vida
Este tema não deve permanecer apenas no nível institucional. Ele toca diretamente cada frade e cada comunidade.
Podemos perguntar:
- Conhecemos suficientemente a realidade das outras comunidades e jurisdições da Ordem?
- Interessamo-nos pelas dificuldades e esperanças dos irmãos que vivem em outras regiões?
- Estamos disponíveis para colaborar quando a Ordem necessita?
- Nossas estruturas favorecem a comunhão ou acabam protegendo excessivamente nossos espaços?
- Compartilhamos somente aquilo que nos sobra ou sabemos colocar nossos recursos a serviço do bem comum?
- Somos capazes de rever projetos próprios quando surge uma necessidade maior?
- Nossas comunidades educam os jovens frades para pertencerem à Ordem inteira?
- Estamos dispostos a imaginar novas formas de presença, formação e missão?
- A colaboração que praticamos nasce apenas da necessidade ou verdadeiramente da fraternidade?
E, sobretudo:
Reconhecemos as necessidades das outras comunidades e jurisdições como necessidades de nossa própria fraternidade?
Conclusão
Estender a fraternidade não significa simplesmente ampliar estruturas administrativas.
Significa ampliar o coração.
A colaboração será autenticamente servita quando nascer da consciência de que fomos chamados pelo Senhor para viver como irmãos e servir juntos.
As estruturas podem mudar.
As Províncias podem reorganizar-se.
As formas de presença podem assumir configurações novas.
Mas permanece aquilo que está na origem de nossa vocação: homens reunidos em nome do Senhor Jesus, chamados a testemunhar o Evangelho pela comunhão fraterna e pelo serviço, inspirados pela Virgem Maria.
Por isso, diante das transformações do presente, não somos chamados primeiramente a defender aquilo que possuímos.
Somos chamados a perguntar o que podemos partilhar.
E talvez seja justamente aí que se encontre um dos caminhos para o futuro da Ordem:
não conservar isoladamente o pouco que cada um possui, mas colocar juntos os dons que Deus confiou a todos.
Assim, a colaboração deixa de ser apenas uma estratégia para enfrentar dificuldades e volta a revelar aquilo que realmente é:
uma expressão concreta da fraternidade que somos chamados a viver.
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