A força de quem confia inteiramente em Deus
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana prossegue:
Virgem poderosa, rogai por nós.
Talvez esta seja uma das invocações que mais precisam ser compreendidas corretamente.
Quando chamamos Maria de poderosa, não afirmamos que ela possua um poder independente de Deus.
Somente Deus é onipotente.
Todo bem em Maria procede dele.
Toda graça que ela recebeu vem dele.
Toda a eficácia de sua intercessão depende de Cristo.
O poder que contemplamos em Maria é, portanto, o poder da graça de Deus agindo plenamente numa criatura que se entregou a Ele.
“O Poderoso fez em mim grandes coisas”
A própria Maria nos oferece a chave no Magnificat:
“O Poderoso fez em mim grandes coisas.”
Ela não diz:
“Eu sou poderosa.”
Diz:
Ele é poderoso.
Deus é o Poderoso.
Maria é a serva.
Mas justamente porque a serva se entrega inteiramente ao Poderoso, grandes coisas acontecem através de sua vida.
Esse é o paradoxo cristão:
a verdadeira força nasce da confiança em Deus.
A força de dizer “sim”
À primeira vista, a Anunciação parece uma cena delicada e silenciosa.
Mas existe ali uma coragem extraordinária.
Maria recebe um chamado que transforma sua vida.
Não conhece todas as consequências.
Não sabe exatamente como será o caminho.
Mesmo assim responde:
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”
Esse “sim” não é fraqueza.
É força.
É preciso coragem para colocar a própria vida nas mãos de Deus.
A força de partir
Depois da Anunciação, Maria parte apressadamente para visitar Isabel.
Aquela que acabou de receber um dom extraordinário não fica concentrada em si mesma.
Vai servir.
Aqui encontramos outra forma de poder:
a força de sair de si.
Talvez uma das maiores fraquezas humanas seja viver fechado nos próprios interesses.
Maria é forte porque o amor a coloca a caminho.
A força de permanecer
Mas talvez a maior manifestação da força de Maria apareça no Calvário.
O Evangelho diz simplesmente:
Maria estava junto à Cruz.
Ela não pode retirar Jesus da Cruz.
Não pode impedir sua morte.
Não possui uma solução humana.
Mas permanece.
Há uma força que vence batalhas.
E há outra força, talvez ainda mais profunda:
a força de permanecer quando não podemos mudar aquilo que está acontecendo.
Maria possui essa força.
Forte sem violência
Isso nos ajuda a compreender algo essencial.
O poder de Maria não se manifesta pela dominação.
Ela não comanda exércitos.
Não impõe sua vontade.
Não procura controlar.
Sua força aparece na fé.
Na perseverança.
Na oração.
Na compaixão.
No serviço.
É uma força sem violência.
Uma autoridade sem domínio.
Uma firmeza sem dureza.
Em Caná: a força da intercessão
Nas bodas de Caná, Maria percebe a necessidade:
“Eles não têm mais vinho.”
Ela leva a situação a Jesus.
Depois diz aos serventes:
“Fazei tudo o que Ele vos disser.”
Essa cena ajuda a compreender a tradição cristã quando fala da poderosa intercessão de Maria.
Maria não realiza o sinal.
Cristo realiza.
Maria apresenta a necessidade.
Confia.
E conduz os outros à obediência ao Filho.
Sua intercessão é sempre cristocêntrica.
A oração não é fraqueza
Vivemos numa cultura que facilmente considera poder apenas aquilo que produz resultados visíveis.
Dinheiro.
Influência.
Autoridade.
Controle.
Capacidade de decidir.
Maria apresenta outro poder:
a oração.
Quem reza reconhece que não controla tudo.
Mas isso não significa desistir.
Significa colocar a realidade diante daquele que pode agir onde nossas forças não alcançam.
Uma palavra para a vida religiosa
Esta invocação é particularmente necessária para nós, religiosos.
Também dentro da vida consagrada podemos confundir autoridade com poder.
Uma função pode transformar-se em domínio.
Uma responsabilidade pode tornar-se território pessoal.
Uma opinião pode tornar-se imposição.
Maria mostra outro caminho.
Quanto maior a graça recebida, maior o serviço.
Quanto maior a responsabilidade, maior a humildade.
Quanto maior a autoridade, maior deveria ser a disponibilidade para escutar.
Autoridade que faz crescer
A autoridade cristã não deveria diminuir os outros para afirmar-se.
Deveria ajudá-los a crescer.
O superior não é forte porque todos têm medo dele.
O formador não é forte porque controla cada detalhe.
O sacerdote não é forte porque sempre possui a última palavra.
A verdadeira autoridade aparece quando conseguimos colocar os dons recebidos a serviço da vida dos outros.
Maria é poderosa e continua dizendo:
“Fazei tudo o que Ele vos disser.”
Ela não conduz para si.
Conduz para Cristo.
A força dos pequenos
O Magnificat revela ainda uma inversão surpreendente.
Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes.
Maria pertence aos pequenos.
Não possui poder político.
Não possui riqueza.
Não possui prestígio social.
E, no entanto, todas as gerações a chamarão bem-aventurada.
Deus mostra nela que a história não pertence definitivamente aos que parecem mais fortes.
A última palavra pertence a Deus.
Força na fragilidade
Talvez esta invocação seja especialmente preciosa para quem atravessa uma experiência de fragilidade.
Envelhecimento.
Enfermidade.
Cansaço.
Perda.
Uma missão que terminou.
Limitações que aumentam.
Nossa sociedade costuma associar força à produtividade.
Maria nos ensina outra medida.
Uma pessoa pode já não conseguir fazer aquilo que fazia antes e continuar possuindo uma extraordinária força espiritual.
Pode rezar.
Oferecer.
Acolher.
Abençoar.
Encorajar.
Permanecer.
Os idosos de nossas comunidades
Isso merece atenção especial na vida religiosa.
Um irmão idoso não perde seu valor porque sua força física diminuiu.
Talvez agora sua missão seja outra.
Sua presença pode guardar a memória.
Sua oração pode sustentar a comunidade.
Sua experiência pode orientar os mais jovens.
Sua perseverança pode testemunhar:
é possível permanecer fiel até o fim.
Há uma força silenciosa na fidelidade.
A força necessária aos jovens
Também os jovens precisam aprender que a vocação exige força.
Não a força de parecer perfeito.
Mas a força de deixar-se formar.
Aceitar uma correção.
Reconhecer uma fragilidade.
Recomeçar.
Perseverar quando desaparece o entusiasmo inicial.
Aprender a viver com pessoas diferentes.
Continuar procurando Deus quando a oração se torna árida.
A vida religiosa necessita de homens fortes precisamente porque necessita de homens capazes de ser humildes.
Servos de Maria: fortes para servir
Para nós, Servos de Maria, Virgem poderosa pode tornar-se uma verdadeira escola.
Precisamos ser fortes:
para permanecer junto às cruzes;
para defender os frágeis;
para acompanhar os jovens;
para cuidar dos idosos;
para pedir perdão;
para recomeçar;
para assumir responsabilidades;
para entregar uma função quando chega a hora;
para servir sem precisar aparecer.
Essa é a força aprendida com Maria.
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação podemos perguntar:
Onde procuro minha força?
Na função?
No reconhecimento?
Na experiência?
Na capacidade intelectual?
Nos recursos?
Na influência?
Tudo isso pode desaparecer.
Maria aponta para uma força mais profunda:
“O Poderoso fez em mim grandes coisas.”
Nossa segurança última não está naquilo que conseguimos controlar.
Está naquele a quem pertencemos.
Oração
Virgem poderosa,
o Todo-poderoso fez em você grandes coisas
e sua força nasceu da confiança nele.
Ensine-nos a procurar nossa força em Deus.
Quando confundirmos autoridade com domínio,
devolva-nos a humildade do serviço.
Quando tivermos medo de responder ao chamado,
recorde-nos a coragem de seu “sim”.
Quando o sofrimento não puder ser retirado,
ensine-nos a permanecer junto à Cruz.
Quando nossas forças diminuírem,
mostre-nos que a fidelidade
continua sendo fecunda.
Sustente nossos irmãos idosos,
fortaleça os jovens em formação
e dê sabedoria aos que exercem autoridade.
Faça de nossas comunidades
lugares onde os fortes sustentem os frágeis
e ninguém utilize seus dons para dominar.
E a nós, Servos de Maria,
dê a força necessária para servir,
a coragem necessária para permanecer
e a humildade necessária para reconhecer:
“O Poderoso fez em mim grandes coisas.”
Virgem poderosa, rogai por nós.
Para guardar no coração
O poder de Maria não está em competir com o poder de Deus, mas em mostrar quanto a graça de Deus pode realizar numa criatura inteiramente entregue a Ele.
Fontes
Sagrada Escritura, especialmente Lc 1,26-55; Jo 2,1-11; Jo 19,25-27.
São João Paulo II, Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, n. 37.
São João Paulo II, Oração à Virgem Maria na Festa da Natividade da Bem-Aventurada Virgem Maria, Frascati, 8 de setembro de 1980.
Pietro Ansalone, SJ, Le Litanie Lauretane, segunda edição, Nápoles, 1858 — obra inspiradora da série.
Ladainha de Nossa Senhora — Ladainha Lauretana, formulário oficial em português da Santa Sé.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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