Uma existência inteiramente entregue ao Senhor
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana prossegue:
Moradia consagrada a Deus, rogai por nós.
Na invocação anterior contemplamos Maria como Tabernáculo da eterna glória.
Agora damos mais um passo.
Uma moradia consagrada não é simplesmente um lugar onde Deus passa.
É um espaço que lhe pertence.
Por isso, esta invocação toca profundamente o mistério da vida de Maria.
Ela não ofereceu a Deus apenas um momento de sua existência.
Ofereceu-se inteira.
“Eis aqui a serva do Senhor”
Na Anunciação encontramos novamente a chave:
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”
Maria não entrega apenas uma parte de sua vida.
Não diz:
“Senhor, pode entrar até aqui.”
Seu fiat abre toda a existência.
Corpo.
Coração.
Projetos.
Futuro.
Maria torna-se espaço inteiramente disponível para Deus.
Consagrar significa pertencer
Talvez a palavra consagração tenha perdido um pouco de sua força para nós porque a utilizamos frequentemente.
Mas consagrar significa separar alguma coisa para Deus.
Reconhecer:
isto pertence ao Senhor.
Quando chamamos Maria de Moradia consagrada a Deus, reconhecemos uma existência que pertence inteiramente a Ele.
Maria poderia dizer com toda a sua vida:
“Eu sou do Senhor.”
Uma casa habitada por Deus
Uma casa revela muito sobre quem mora nela.
Há sinais.
Objetos.
Hábitos.
Uma atmosfera.
Também a vida de Maria revela quem habita nela.
Sua humildade revela Deus.
Sua disponibilidade revela Deus.
Sua compaixão revela Deus.
Sua fidelidade revela Deus.
Sua capacidade de permanecer junto à Cruz revela Deus.
Porque uma pessoa habitada por Deus começa, pouco a pouco, a adquirir os traços daquele que nela habita.
Não basta abrir a porta
Podemos utilizar outra imagem.
Às vezes recebemos uma visita em casa, mas existem lugares onde ela não entra.
Maria não recebe Deus dessa maneira.
Não reserva determinados cômodos para si.
Não diz:
“Senhor, aqui você pode entrar, mas nesta parte da minha vida não.”
Seu fiat abre todas as portas.
Essa é uma das grandes exigências da vida espiritual.
Os cômodos fechados do coração
Também nós podemos ter áreas que ainda não entregamos completamente a Deus.
Talvez nossa oração pertença a Ele.
Mas nossos projetos, não.
Talvez nossa missão pertença a Ele.
Mas nossa necessidade de reconhecimento, não.
Talvez tenhamos entregado nossa vocação.
Mas conservamos cuidadosamente algum ressentimento.
Há sempre o risco de dizer:
“Senhor, minha vida é sua — menos isto.”
Maria ensina uma entrega mais profunda.
“Faça-se em mim”
A consagração não significa apenas:
“Vou fazer alguma coisa para Deus.”
Significa:
“Permito que Deus faça alguma coisa em mim.”
Isso muda tudo.
Maria não começa apresentando ao anjo uma lista de projetos religiosos.
Ela simplesmente se oferece:
“Faça-se em mim.”
Antes do serviço vem a disponibilidade.
Antes da missão vem a pertença.
Antes do fazer vem o ser.
Uma palavra para a vida consagrada
Esta invocação toca diretamente nossa identidade de religiosos.
Um dia pronunciamos nossa profissão.
Oferecemos nossa vida.
Assumimos os conselhos evangélicos.
Dissemos publicamente que desejávamos pertencer a Deus numa forma particular de vida.
Mas a profissão não termina no dia em que foi pronunciada.
Precisa tornar-se existência.
Renovar a consagração no cotidiano
A consagração é renovada quando nos levantamos para rezar.
Quando assumimos um serviço que não escolheríamos.
Quando acolhemos um irmão.
Quando permanecemos fiéis à comunidade.
Quando utilizamos responsavelmente os bens.
Quando vivemos a castidade com coração indiviso.
Quando obedecemos não mecanicamente, mas procurando juntos a vontade de Deus.
A consagração torna-se concreta nas pequenas escolhas.
Não somos proprietários de nossa vocação
Existe aqui uma consequência exigente.
Se nossa vida é consagrada, não somos seus proprietários absolutos.
Não podemos tratar a missão como propriedade pessoal.
A comunidade como território.
Uma função como direito adquirido.
Uma obra como algo que nos pertence.
Recebemos.
Servimos.
E um dia entregamos.
Maria ensina a liberdade de quem pertence a Deus.
Para nós, Servos de Maria
Esta invocação possui uma ressonância ainda mais particular.
Somos Servos de Maria.
Maria diz:
“Eis aqui a serva do Senhor.”
Nós carregamos no próprio nome a palavra serviço.
Portanto, contemplá-la como Moradia consagrada a Deus significa reencontrar uma dimensão essencial de nossa identidade.
Somos servos porque pertencemos ao Senhor e colocamos nossa vida a serviço de seu Reino.
A consagração e a liberdade
Pode parecer paradoxal, mas pertencer a Deus não diminui a liberdade.
Purifica-a.
Quando não precisamos defender continuamente nossos próprios interesses, tornamo-nos mais livres para servir.
Quando não precisamos ocupar o centro, podemos alegrar-nos com os dons dos outros.
Quando uma função não define nossa identidade, podemos entregá-la quando chega a hora.
Maria é profundamente livre porque pertence inteiramente a Deus.
Uma palavra para os jovens em formação
Talvez uma das perguntas mais importantes do discernimento vocacional não seja simplesmente:
“Quero ser religioso?”
Mas:
“Quero pertencer a Deus?”
Porque a vida consagrada não é principalmente profissão, função ou estilo de vida.
É uma relação de pertença.
Sem essa relação, as estruturas tornam-se pesadas.
Com ela, até as exigências adquirem sentido.
Uma palavra para quem já percorreu muitos anos
Depois de décadas de vida religiosa, esta invocação pode tornar-se uma oração de renovação.
Talvez algumas coisas tenham mudado.
As forças diminuíram.
As responsabilidades mudaram.
Algumas missões terminaram.
Mas uma coisa permanece:
a pertença.
Antes de sermos párocos, professores, formadores, priores, missionários ou administradores, somos pessoas que disseram:
“Minha vida pertence a Deus.”
A consagração não termina com a aposentadoria
Essa verdade é especialmente importante para os irmãos idosos.
A missão pode mudar.
A atividade pastoral pode diminuir.
Mas a consagração não se aposenta.
Um religioso idoso continua oferecendo sua vida.
Sua oração.
Sua fragilidade.
Sua memória.
Sua perseverança.
Talvez sua última grande missão seja simplesmente mostrar:
é possível pertencer a Deus até o fim.
Uma comunidade consagrada
Também nossas casas deveriam revelar alguma coisa dessa pertença.
Um convento não é apenas residência compartilhada.
É uma casa consagrada à busca de Deus, à fraternidade e ao serviço.
Por isso podemos perguntar:
Nossa casa parece realmente uma casa de homens que pertencem a Deus?
Existe oração?
Silêncio?
Fraternidade?
Acolhida?
Simplicidade?
Cuidado?
Quando a casa se enche de outras coisas
Há um perigo.
Podemos encher nossas casas de atividades e esvaziá-las de presença.
Encher nossas agendas e esvaziar nossa interioridade.
Encher nossos espaços de objetos e perder a simplicidade.
Encher nossas conversas de assuntos e esquecer Deus.
Maria, Moradia consagrada a Deus, chama-nos novamente ao essencial.
O coração indiviso
Consagração significa também procurar um coração indiviso.
Isso não quer dizer um coração sem afetos.
Maria ama.
José.
Jesus.
Isabel.
Os discípulos.
A comunidade nascente.
Mas seus afetos estão ordenados a Deus.
O coração consagrado não é um coração vazio.
É um coração que aprende a amar em Deus.
Maria junto à Cruz
No Calvário percebemos até onde chega sua consagração.
Maria não pertence a Deus apenas quando recebe uma promessa luminosa em Nazaré.
Permanece pertencendo a Ele quando a promessa passa pela Cruz.
Isso é fidelidade madura.
É relativamente fácil dizer:
“Sou de Deus”
quando tudo vai bem.
A consagração revela sua profundidade quando continuamos dizendo:
“Sou do Senhor”
também no sofrimento.
Quando Deus não corresponde aos nossos planos
Talvez algumas crises espirituais nasçam justamente aqui.
Entregamos a vida a Deus, mas imaginamos como Ele deveria conduzi-la.
Esperávamos determinada missão.
Determinada comunidade.
Determinada trajetória.
Depois a vida seguiu outro caminho.
Maria ensina:
consagração não significa Deus pertencer ao nosso projeto.
Significa nós pertencermos ao projeto de Deus.
“Não sabeis que sois templo de Deus?”
A invocação também fala a todo cristão.
São Paulo recorda:
“Sois templo de Deus e o Espírito de Deus habita em vós.”
Pelo Batismo, toda existência cristã é chamada à santidade.
Todo discípulo pertence a Cristo.
A vida religiosa apenas torna visível, de uma maneira particular, essa pertença fundamental de todos os batizados.
Respeitar a morada de Deus no outro
Se cada pessoa é chamada a ser morada de Deus, nossa maneira de tratar os outros precisa mudar.
O irmão não é simplesmente alguém com quem dividimos uma casa.
É alguém em quem Deus está trabalhando.
O jovem em formação não é um projeto nosso.
Pertence ao Senhor.
O idoso não é um peso.
É uma vida consagrada.
O pobre não é um problema.
É uma pessoa de dignidade sagrada.
Nossa Senhora das Dores
Para nós, Servos de Maria, existe ainda uma ligação muito profunda.
Maria consagrada a Deus torna-se também mulher disponível para permanecer junto às dores.
Sua pertença a Deus não a afasta da humanidade.
Faz exatamente o contrário.
Quanto mais pertence a Deus, mais se torna disponível aos outros.
Essa é uma medida importante da verdadeira espiritualidade.
Quanto mais de Deus, mais dos irmãos
Se nossa oração nos torna indiferentes às pessoas, alguma coisa está errada.
Se nossa consagração nos torna superiores, alguma coisa está errada.
Se nossa espiritualidade nos fecha, alguma coisa está errada.
Maria pertence inteiramente a Deus e por isso:
visita Isabel,
percebe a falta de vinho,
permanece junto à Cruz,
acolhe o discípulo.
Pertencer a Deus torna Maria disponível para os irmãos.
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação podemos perguntar:
Existe alguma parte de minha vida que ainda não entreguei verdadeiramente a Deus?
Uma função?
Um projeto?
Uma mágoa?
Um medo?
Uma relação?
Meu futuro?
Talvez a oração de hoje possa ser muito simples:
“Senhor, esta parte também é sua.”
Oração
Moradia consagrada a Deus,
você abriu toda a sua existência
à vontade do Senhor.
Ensine-nos a pertencer inteiramente a Ele.
Entre nos cômodos de nosso coração
que ainda mantemos fechados.
Livre-nos da necessidade
de possuir funções, obras e projetos.
Ensine-nos a receber tudo como missão
e a entregar tudo quando chegar a hora.
Aos nossos jovens,
dê a alegria de descobrir
que a vocação é antes de tudo pertença.
Aos irmãos que percorrem
muitos anos de vida religiosa,
renove a graça do primeiro chamado.
Aos idosos,
conceda a certeza de que sua consagração
continua fecunda até o fim.
Faça de nossas comunidades
verdadeiras moradas de Deus,
onde a oração sustente a fraternidade
e a fraternidade se transforme em serviço.
A nós, Servos de Maria,
ensine a repetir com você:
“Eis aqui a serva do Senhor.”
Que nada em nós fique reservado
ao egoísmo, ao orgulho ou ao ressentimento.
Que nosso coração,
nossa inteligência,
nossas forças,
nossos dons
e nossa própria fragilidade
pertençam ao Senhor.
E que, pertencendo cada vez mais a Deus,
nos tornemos cada vez mais disponíveis
aos irmãos.
Moradia consagrada a Deus, rogai por nós.
Para guardar no coração
Consagrar-se não é apenas fazer coisas para Deus; é permitir que toda a existência lhe pertença. Maria nos ensina que quanto mais uma vida pertence a Deus, mais ela se torna disponível para servir aos irmãos.
Fontes
Sagrada Escritura, especialmente Lc 1,26-45; Jo 19,25-27; 1Cor 3,16.
Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, especialmente nn. 53, 56 e 63.
Concílio Vaticano II, Decreto Perfectae Caritatis, sobre a renovação da vida religiosa.
São João Paulo II, Exortação Apostólica Redemptionis Donum, sobre a consagração religiosa.
Ladainha de Nossa Senhora, formulário português publicado pela Santa Sé.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu comentário: sua colaboração edificará tantas almas sedentas de Deus e nos fará cada vez mais servos uns dos outros.