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03/10/2026

Saúde dos enfermos, rogai por nós

Maria junto de quem sofre

Série: As Ladainhas de Nossa Senhora

A Ladainha Lauretana prossegue:

Saúde dos enfermos, rogai por nós.

Esta invocação toca uma experiência que, cedo ou tarde, visita todas as casas.

A enfermidade.

A fragilidade do corpo.

A espera por um diagnóstico.

O tratamento.

A internação.

A diminuição das forças.

O cuidado de alguém que amamos.

E, algumas vezes, a proximidade da morte.

Diante dessa realidade, a Igreja volta-se para Maria e reza:

Saúde dos enfermos, rogai por nós.

Cristo é quem salva

Precisamos começar pelo centro.

Nossa salvação não vem de Maria.

Vem de Jesus Cristo.

Os Evangelhos mostram Jesus aproximando-se continuamente dos enfermos.

Ele vê.

Escuta.

Toca.

Cura.

Perdoa.

Levanta.

Reintegra.

A doença não transforma uma pessoa em alguém menos digno de sua atenção.

Ao contrário.

Jesus aproxima-se.

“Quero, sê purificado”

Um leproso aproxima-se de Jesus e suplica:

“Se queres, tens o poder de purificar-me.”

Jesus estende a mão.

Toca nele.

E responde:

“Quero.”

É um gesto extraordinário.

Antes mesmo de falar da cura, precisamos perceber o toque.

Aquela pessoa que muitos evitavam é tocada por Cristo.

Deus não tem medo de nossa fragilidade.

A saúde que Cristo oferece

Quando o Evangelho fala de cura, existe algo maior que a simples recuperação física.

Jesus deseja a pessoa inteira.

Corpo.

Coração.

Relações.

Esperança.

Comunhão com Deus.

Por isso, nem toda oração pela cura terminará necessariamente com a recuperação que desejamos.

Mas nenhuma oração feita em Cristo é inútil.

Ele pode curar.

Pode fortalecer.

Pode consolar.

Pode reconciliar.

Pode conceder paz.

E, finalmente, pode conduzir-nos à vida eterna.

Por que Maria é Saúde dos enfermos?

Porque Maria está inteiramente unida à missão de seu Filho.

Ela não é a fonte da salvação.

Mas é Mãe do Salvador.

Não substitui Cristo.

Intercede e conduz a Ele.

Quando a Igreja diz:

Saúde dos enfermos, rogai por nós,

não está atribuindo a Maria um poder independente de Deus.

Está pedindo sua intercessão materna.

Maria conhece a fragilidade humana

Os Evangelhos não apresentam Maria vivendo protegida de toda dificuldade.

Ela conhece preocupação.

Pobreza.

Deslocamento.

Incerteza.

Perda.

E sobretudo conhece a dor de permanecer junto ao Filho que sofre.

Por isso, a imagem de Maria junto ao enfermo não é artificial.

Ela é a mulher que aprendeu a permanecer junto à dor.

Junto à Cruz

São João escreve:

“Junto à Cruz de Jesus estava sua mãe.”

Para nós, Servos de Maria, este versículo possui uma força especial.

Maria não consegue retirar Jesus da Cruz.

Não consegue impedir seu sofrimento.

Não consegue mudar imediatamente aquela realidade.

Mas permanece.

E há momentos em que permanecer é uma das maiores formas de amor.

Nem sempre podemos curar

Essa verdade é essencial para a pastoral dos enfermos.

Nem sempre conseguiremos mudar a situação.

Não somos capazes de eliminar toda doença.

Não possuímos resposta para todo sofrimento.

Mas podemos:

visitar,

escutar,

rezar,

segurar uma mão,

levar a Eucaristia,

oferecer os sacramentos,

ajudar uma família,

permanecer.

Maria ensina o ministério da presença.

Não explicar depressa demais o sofrimento

Diante de alguém que sofre, precisamos ter cuidado com as palavras.

Nem sempre é hora de explicar.

Às vezes, frases religiosas ditas rapidamente podem aumentar a dor.

Maria junto à Cruz não oferece uma teoria sobre o sofrimento.

Ela está presente.

Antes de falar sobre a dor, talvez precisemos aprender a estar diante dela.

A Visitação

Mas existe outra cena importante.

Depois da Anunciação, Maria descobre que Isabel está grávida em idade avançada.

Então:

“Maria levantou-se e foi às pressas.”

Bento XVI viu justamente nessa passagem uma imagem da solicitude da Igreja por toda vida que necessita de cuidado.

Maria não espera ser chamada.

Percebe uma necessidade.

E parte.

A espiritualidade do “ir”

Aqui encontramos uma dimensão muito concreta de Saúde dos enfermos.

A devoção mariana não pode limitar-se a rezar diante de uma imagem.

Precisa colocar-nos a caminho.

Quem reza:

“Saúde dos enfermos, rogai por nós”

deveria também perguntar:

“Existe algum enfermo que eu preciso visitar?”

“Estive doente e me visitastes”

Jesus coloca a visita aos enfermos entre as obras pelas quais reconhecemos sua própria presença:

“Estive doente e me visitastes.”

Isso transforma completamente nosso olhar.

No quarto do enfermo existe um encontro com Cristo.

No idoso fragilizado.

Na pessoa hospitalizada.

Naquele que perdeu autonomia.

Cristo espera nossa presença.

Uma palavra para nós, sacerdotes

Bento XVI chamou os sacerdotes de ministros dos enfermos e sinais da compaixão de Cristo.

Isso merece ser levado muito a sério.

O tempo dedicado ao enfermo nunca é tempo pastoral perdido.

Uma confissão.

A Unção dos Enfermos.

A comunhão.

Uma visita.

Uma oração junto ao leito.

Às vezes, poucos minutos podem permanecer na memória de uma família durante muitos anos.

A Unção dos Enfermos

Precisamos também ajudar nossas comunidades a redescobrir este sacramento.

A Unção não é simplesmente o sacramento dos últimos minutos de vida.

É sacramento de Cristo para quem atravessa seriamente a enfermidade ou a fragilidade.

A Igreja aproxima-se.

Reza.

Unge.

Entrega o enfermo ao Senhor.

Cristo continua tocando os doentes através de sua Igreja.

A Eucaristia levada ao enfermo

Existe algo profundamente belo em levar a comunhão a quem já não consegue participar da Missa.

A comunidade não esqueceu aquela pessoa.

Cristo vai ao seu encontro.

A Igreja entra em sua casa.

Maria, que levou Jesus à casa de Isabel, ajuda-nos a compreender a beleza desse gesto.

Uma palavra para as famílias

A doença raramente atinge apenas uma pessoa.

Toda a família é afetada.

Mudam horários.

Planos.

Despesas.

Responsabilidades.

Alguém precisa acompanhar.

Outro precisa trabalhar.

Outro passa noites sem dormir.

Por isso, cuidar do enfermo significa também cuidar de quem cuida.

Quem cuida também cansa

Precisamos dizer isso claramente.

O cuidador também necessita de cuidado.

Pode amar profundamente o enfermo e, ao mesmo tempo, sentir cansaço.

Pode experimentar impaciência.

Medo.

Exaustão.

Isso não significa ausência de amor.

Significa que também é humano.

Uma comunidade cristã precisa aprender a sustentar os cuidadores.

Uma palavra para nossas comunidades

Em nossas comunidades religiosas, a enfermidade de um irmão testa concretamente nossa fraternidade.

É fácil falar de fraternidade enquanto todos são independentes.

A questão muda quando alguém precisa:

de ajuda para caminhar,

de acompanhamento médico,

de medicamentos,

de cuidados diários,

de paciência.

Então descobrimos se somos apenas pessoas que moram na mesma casa ou verdadeiramente irmãos.

O irmão enfermo continua sendo irmão

A doença não retira sua dignidade.

A idade não diminui seu valor.

A falta de produtividade não torna ninguém menos importante.

Um religioso que já não consegue exercer atividades pastorais continua sendo membro da comunidade.

Sua presença.

Sua oração.

Sua história.

Sua própria fragilidade fazem parte da vida fraterna.

Uma comunidade que cuida evangeliza

Talvez poucas coisas sejam tão convincentes quanto ver uma comunidade cuidando bem de seus membros frágeis.

Não precisamos fazer discursos.

O cuidado fala.

Quando um jovem vê um irmão idoso tratado com respeito, aprende alguma coisa sobre a vida religiosa.

Percebe que fraternidade significa:

“Você continuará sendo nosso irmão também quando já não puder fazer aquilo que fazia.”

Uma palavra para os jovens em formação

É importante que os jovens convivam com os enfermos e idosos.

A formação não acontece apenas na sala de aula.

Acontece também:

levando um irmão ao médico,

sentando-se ao lado de um idoso,

escutando histórias repetidas,

ajudando numa dificuldade cotidiana.

Essas experiências formam o coração.

A enfermidade e a pergunta “por quê?”

Quando adoecemos, podem surgir perguntas profundas:

Por que comigo?

Por que agora?

Onde está Deus?

A Bíblia não censura essas perguntas.

Os Salmos estão cheios delas.

A fé não exige que finjamos não sentir medo ou angústia.

Podemos levar tudo isso para Deus.

Não transformar a doença em culpa

Também precisamos rejeitar uma compreensão cruel da enfermidade.

Jesus recusa a ideia simplista de que todo sofrimento seja consequência direta de um pecado pessoal.

A pessoa enferma não precisa de acusações.

Precisa de cuidado.

Compaixão.

Tratamento.

Presença.

Esperança.

Fé e medicina caminham juntas

Pedir a intercessão de Maria não significa desprezar os recursos da medicina.

Ao contrário.

O cuidado cristão valoriza:

médicos,

enfermeiros,

psicólogos,

fisioterapeutas,

cuidadores,

medicamentos,

pesquisa científica,

estruturas de saúde.

Tudo aquilo que serve responsavelmente à vida humana pode tornar-se expressão concreta do cuidado.

Rezar e tratar

Podemos rezar por uma cura e procurar tratamento.

Uma coisa não exclui a outra.

A oração não substitui a medicina.

E a medicina não torna desnecessária a oração.

O ser humano precisa ser cuidado integralmente.

Quando a cura física não chega

Esta talvez seja a parte mais difícil.

Rezamos.

Esperamos.

E algumas vezes a pessoa não melhora.

Como continuar acreditando?

O cristianismo não promete que todos os enfermos serão curados fisicamente nesta vida.

Promete algo ainda maior:

nem a doença nem a morte poderão separar-nos do amor de Cristo.

A última cura

Existe uma cura definitiva para a qual caminhamos.

A Ressurreição.

Chegará o dia em que a fragilidade não terá mais a última palavra.

Por isso a esperança cristã diante da enfermidade não depende apenas de um resultado médico.

Está fundada em Cristo morto e ressuscitado.

Maria e a esperança

Maria permanece junto à Cruz.

Mas sua história não termina no Calvário.

A Igreja a contempla na glória.

Nela vemos aquilo que esperamos:

a vitória da graça,

a comunhão plena com Deus,

a vida definitiva.

Por isso podemos invocá-la junto aos enfermos sem transformar nossa oração numa promessa de cura imediata.

Ela aponta para uma esperança maior.

Saúde dos enfermos e Nossa Senhora das Dores

Para nós, Servos de Maria, estas duas invocações quase se encontram.

A Mãe das Dores torna-se próxima de todos os que sofrem.

Quem contemplou o Filho ferido aprende a reconhecer as feridas dos filhos.

Por isso nossa espiritualidade deveria produzir uma particular sensibilidade para com:

enfermos,

idosos,

pessoas com deficiência,

enlutados,

solitários,

cuidadores.

O convento como casa de cuidado

Nossas casas precisam preparar-se também para a fragilidade.

Envelhecer faz parte da vida.

Adoecer faz parte da condição humana.

Isso exige organização.

Recursos.

Adaptações.

Responsabilidade administrativa.

Mas sobretudo exige uma cultura fraterna do cuidado.

Não terceirizar a fraternidade

Profissionais e cuidadores podem ser necessários e preciosos.

Mas existe algo que nenhum funcionário pode substituir:

a presença do irmão.

Podemos contratar cuidados.

Não podemos terceirizar a fraternidade.

Uma Igreja samaritana

Francisco insiste frequentemente na imagem do Bom Samaritano.

Ele vê.

Aproxima-se.

Toca as feridas.

Cuida.

Organiza a continuidade do cuidado.

Essa é também uma bela imagem da Igreja.

Uma Igreja que não passa ao largo da fragilidade humana.

Uma pergunta para o coração

Diante desta invocação podemos perguntar:

Quem está doente perto de mim?

E depois:

Quando foi a última vez que o visitei?

Talvez exista alguém esperando não uma solução extraordinária, mas simplesmente nossa presença.

Outra pergunta

Também podemos perguntar:

Como reajo à minha própria fragilidade?

Aceito precisar de ajuda?

Permito que outros cuidem de mim?

A enfermidade também pode ensinar-nos humildade.

Quem passou a vida servindo precisa, algumas vezes, aprender a ser servido.

Isso também pode ser graça.

Oração

Saúde dos enfermos,
Mãe de Jesus Cristo,
aquele que passou entre nós
curando, consolando e levantando,
rogai por todos os que sofrem.

Permaneça junto aos enfermos
em seus dias de medo,
de espera,
de tratamento
e de solidão.

Interceda por aqueles
que esperam um diagnóstico.

Por quem enfrenta uma doença longa.

Por quem sente dor.

Por quem perdeu autonomia.

Por quem se aproxima do fim da vida.

Conforte suas famílias.

Sustente aqueles que cuidam
dia após dia
e muitas vezes silenciosamente.

Abençoe médicos,
enfermeiros,
cuidadores
e todos os profissionais de saúde.

Aos sacerdotes,
dê disponibilidade para visitar,
escutar,
confessar,
ungir
e levar a Eucaristia aos enfermos.

Aos jovens em formação,
dê um coração capaz
de aproximar-se da fragilidade
sem medo e sem pressa.

Aos nossos irmãos idosos e enfermos,
conceda serenidade,
consolo
e a certeza de que continuam preciosos
para Deus e para a comunidade.

Faça de nossas casas
lugares onde ninguém seja abandonado
quando suas forças diminuírem.

A nós, Servos de Maria,
ensine a permanecer junto às dores
como você permaneceu junto à Cruz.

Quando pudermos ajudar,
faça-nos agir.

Quando pudermos aliviar,
faça-nos cuidar.

Quando não pudermos retirar a dor,
ensine-nos a permanecer.

E em toda enfermidade
mantenha nossos olhos voltados para Cristo,
médico dos corpos e das almas,
Senhor da vida
e esperança de nossa ressurreição.

Saúde dos enfermos, rogai por nós.


Para guardar no coração

Invocar Maria como Saúde dos enfermos não significa substituir Cristo nem os cuidados médicos. Significa pedir que aquela que permaneceu junto ao Filho sofredor nos conduza a Cristo e nos ensine a aproximar-nos de quem sofre com presença, cuidado e esperança.


Fontes

Sagrada Escritura, especialmente Mc 1,40-45; Mt 4,23-25; Mt 25,31-46; Lc 1,39-56; Jo 9,1-3; Jo 19,25-27.

Bento XVI, Angelus, 12 de fevereiro de 2006; Homilia no XVIII Dia Mundial do Doente, 11 de fevereiro de 2010.

Papa Francisco, Mensagens para o Dia Mundial do Doente, especialmente 2019 e 2022.

Ladainha de Nossa Senhora, formulário português publicado pela Santa Sé.

Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.

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