As desobrigas revelam um missionário que fez da proximidade com o povo uma forma concreta de anunciar o Evangelho
Na primeira parte desta série, conhecemos um pouco da vida de Frei Paulino M. Baldassarri, OSM (1926–2016) e da origem do livro O prego e a medalha, escrito por Frei Franco M. Azzalli, OSM.
Agora entramos em um dos aspectos mais marcantes de sua missão: as viagens pelas estradas, florestas e, sobretudo, pelos rios da Amazônia.
Frei Franco deu a esse capítulo do livro um título muito sugestivo:
Um frade... “sem-teto”
A expressão é inspirada numa reflexão do Papa Francisco sobre Jesus, que percorria cidades e povoados e podia ser encontrado continuamente pelo caminho.
Essa imagem combina profundamente com Frei Paulino.
Durante décadas, ele fez da estrada e dos rios seu território missionário. Viajava de barco, a pé, de bicicleta e a cavalo para chegar às populações mais distantes.
Seu objetivo era simples e profundamente evangélico: chegar até onde o povo estava.
A missão das desobrigas
Na região amazônica, marcada pelas enormes distâncias e pelos grandes rios, consolidou-se uma forma particular de presença missionária conhecida como desobriga.
O missionário percorria periodicamente as comunidades mais afastadas para celebrar os sacramentos, ensinar a fé, visitar as famílias e fortalecer a vida cristã.
Frei Paulino assumiu essa missão de maneira extraordinária.
Quando as águas permitiam a navegação, partia seguindo um itinerário previamente organizado. As comunidades eram avisadas, inclusive pelo rádio, sobre o período de sua chegada.
E não se tratava de pequenas viagens.
Em uma carta de 30 de dezembro de 2009, Frei Paulino recordava ter realizado a longa desobriga do rio Iaco e percorrido grandes distâncias também a cavalo pelo interior da floresta.
Para ele, aquilo fazia parte da missão.
Mais de cento e vinte cadernos
Um dado impressionante conservado em O prego e a medalha ajuda a compreender a dimensão desse trabalho.
Frei Paulino registrava cuidadosamente suas viagens missionárias.
Segundo o livro, existiam mais de cento e vinte cadernos contendo registros das desobrigas realizadas ao longo dos rios Iaco, Purus, Caeté, Macauã, Antimari, Maloca e Itirano.
Não eram apenas lembranças pessoais.
Esses registros testemunham décadas de presença missionária entre comunidades que, muitas vezes, recebiam a visita de um sacerdote somente depois de longos intervalos.
Terminada a visita a uma comunidade, Frei Paulino partia imediatamente para outra.
Às vezes eram necessárias cinco, seis ou até nove horas a cavalo dentro da floresta.
A chegada do missionário
O livro conserva uma descrição particularmente bonita da chegada de Frei Paulino às comunidades.
Antes da viagem, as famílias eram avisadas.
Então começavam os preparativos.
Limpava-se a capela. O ambiente era enfeitado com flores e bandeirinhas. Preparavam-se os caminhos próximos às margens do rio. Ensaiavam-se os cantos.
Quando a embarcação finalmente aparecia, todos corriam para a margem.
Frei Paulino desembarcava, calçava suas botas e subia.
O povo cantava e batia palmas.
Ele parava, escutava e, com sua característica simplicidade, perguntava:
“Como vamos?”
Depois todos se dirigiam para a capela.
Era o começo de alguns dias intensos de evangelização e convivência.
Catequese que todos entendiam
Frei Paulino sabia falar de Deus de maneira simples.
Sua catequese partia das coisas que o povo conhecia.
Perguntava quem havia criado a floresta, o sol, os peixes, os animais e tudo aquilo que cercava aquelas comunidades.
E a resposta conduzia sempre para Deus.
Também utilizava cantos, brincadeiras, imagens e dramatizações de episódios bíblicos.
As crianças participavam.
Os adultos também.
A fé era ensinada dentro da própria experiência da vida.
O livro recorda inclusive a alegria das crianças durante esses encontros: havia violão, flauta, tambor, palmas e até panelas utilizadas para acompanhar os cantos.
Frei Paulino ria com elas.
Era uma catequese simples, mas profundamente encarnada.
Evangelizar a pessoa inteira
A desobriga, porém, não terminava com a catequese ou com os sacramentos.
Frei Paulino preocupava-se também com a saúde das pessoas.
Levava medicamentos recebidos em doação, orientava as famílias e procurava atender aqueles que viviam longe de qualquer assistência médica.
O livro resume bem sua maneira de agir: ele procurava oferecer formação humana e cristã e se preocupava com a saúde das pessoas, buscando sua promoção integral.
Evangelização e cuidado caminhavam juntos.
Era impossível anunciar Cristo e permanecer indiferente diante da doença, da pobreza, do abandono ou da falta de educação.
Permanecer no meio do povo
Talvez aqui esteja uma das características mais fortes da missão de Frei Paulino.
Ele não visitava as comunidades permanecendo à distância.
Vivia com elas.
Comia o que o povo comia.
Dormia numa rede.
Escutava.
Rezava.
Celebrava.
Ensinava.
Cuidava dos enfermos.
Aconselhava as famílias.
E depois colocava novamente sua pequena bagagem no barco e seguia para outra comunidade.
Era um Servo de Maria continuamente a caminho.
E sua própria experiência mariana ajudava-o a compreender essa missão. Em determinado momento, falando do compromisso em favor das pessoas, ele afirmava:
“É o amor à Nossa Senhora que nos ensina isso.”
Para um Servo de Maria, essa frase possui uma força particular.
Maria é a mulher que se põe a caminho. Vai apressadamente ao encontro de Isabel. Está presente nas necessidades concretas de Caná. Permanece junto à Cruz. Está com a comunidade reunida em oração.
Frei Paulino parece ter aprendido com ela essa espiritualidade da presença.
Ir.
Encontrar.
Escutar.
Permanecer.
Servir.
E depois partir novamente, levando Cristo a outros irmãos.
Assim, pelas águas dos rios amazônicos, o pequeno barco de Frei Paulino tornou-se também uma espécie de casa missionária itinerante.
Um frade “sem-teto”, talvez.
Mas um frade que encontrou sua casa no meio do povo.
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Fonte
AZZALLI, Frei Franco M., OSM. O prego e a medalha – Frei Paulino M. Baldassarri dos Servos de Maria (1926–2016). Traduzido do original italiano Il chiodo e la medaglia por Frei José M. Milanez, OSM. São José dos Campos, 2018.
Somos Servos — Memória e testemunho da Ordem dos Servos de Maria
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