Parte IV — Um novo Prior Geral e uma Ordem chamada a continuar o caminho
Ariccia — novembro de 2025
O CCXV Capítulo Geral da Ordem dos Frades Servos de Maria chegava à sua conclusão depois de semanas de oração, convivência, relatórios, debates, discernimento e decisões.
Os capitulares haviam se reunido diante de uma realidade exigente.
O mundo estava marcado por divisões e polarizações.
A própria Ordem experimentava profundas transformações em sua distribuição geográfica, na formação, nas estruturas e nas relações entre suas diferentes jurisdições.
Por isso, o tema capitular havia colocado diante dos Servos uma tarefa precisa:
«Ser Servos em um mundo polarizado, edificando aquilo que nos une e valorizando as diferenças individuais, sociais e culturais.»
Ao terminar o Capítulo, essa proposta deveria deixar a sala capitular e chegar à vida concreta das comunidades.
O fim de um sexênio
O Capítulo marcava também o encerramento de uma etapa do governo de frei Gottfried M. Wolff, OSM.
Seu nome estava ligado de maneira especial aos dois Capítulos Gerais anteriores.
Em 2013, em Pietralba, assumira o serviço de Prior Geral.
Em 2019, em Ariccia, acompanhara a Ordem sob o grande chamado:
“Servos da esperança em um mundo que muda.”
Agora chegava o momento da passagem.
Na vida religiosa, os ministérios de governo são temporários.
O irmão recebe uma responsabilidade, exerce-a durante determinado período e depois a entrega.
Essa passagem possui profundo significado evangélico.
A Ordem não pertence ao Prior Geral.
Pertence a Deus e é confiada continuamente à responsabilidade dos irmãos.
Da esperança à comunhão
O percurso entre 2019 e 2025 pode ser lido através dos próprios temas capitulares.
Em 2019:
Servos da esperança em um mundo que muda.
Em 2025:
Servos chamados a edificar aquilo que une num mundo polarizado.
Existe uma continuidade.
A esperança precisa produzir comunhão.
Não basta esperar individualmente.
É necessário reconstruir relações.
Aproximar.
Escutar.
Reconciliar.
Criar pontes.
Num mundo fragmentado, a fraternidade torna-se missão.
Frei Sergio M. Ziliani, OSM
Nesse contexto, o Capítulo confiou a frei Sergio M. Ziliani, OSM, o serviço de Prior Geral da Ordem dos Servos de Maria.
Começava um novo período.
A mudança de Prior Geral não significava ruptura com aquilo que havia sido realizado.
Na tradição da Ordem, cada governo recebe um caminho iniciado por aqueles que o precederam.
Recebe também questões ainda abertas.
Projetos em andamento.
Dificuldades.
Esperanças.
E irmãos concretos para acompanhar.
Frei Sergio recebia, portanto, não uma instituição abstrata, mas uma fraternidade internacional com quase oito séculos de história.
Uma trajetória de serviço
A eleição não surgia sem uma experiência anterior de responsabilidade dentro da Ordem.
Frei Sergio já havia exercido diferentes serviços na vida servita, inclusive responsabilidades de governo e de colaboração com a Cúria Geral.
Essa experiência adquiria agora uma dimensão nova.
O horizonte deixava de ser uma única jurisdição ou determinado setor da Ordem.
Seu serviço deveria alcançar toda a família dos frades.
Prior Geral: primeiro no serviço
A expressão Prior Geral precisa ser compreendida segundo a tradição da vida religiosa.
“Prior” não significa simplesmente chefe.
É o irmão chamado a colocar-se a serviço da comunhão.
Precisa escutar.
Animar.
Visitar.
Discernir.
Corrigir quando necessário.
Encorajar.
Favorecer a unidade.
E ajudar os irmãos a permanecerem fiéis à vocação recebida.
Quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser o serviço.
Uma Ordem internacional
Uma das grandes realidades que o novo governo recebe é a crescente internacionalidade da Ordem.
Os Servos estão presentes em diferentes continentes, povos e culturas.
Essa diversidade é uma riqueza extraordinária.
Mas também apresenta desafios.
Como formar comunidades internacionais?
Como preparar os frades para viver fora de sua cultura?
Como promover verdadeira colaboração entre jurisdições?
Como distribuir melhor os recursos humanos?
Como permitir que as regiões mais jovens assumam progressivamente maior responsabilidade?
Essas perguntas não possuem respostas simples.
Precisarão acompanhar o caminho da Ordem.
Unidade sem uniformidade
O tema de 2025 oferece um critério precioso:
valorizar as diferenças.
A unidade servita não exige que todos pensem, rezem, trabalhem ou se expressem exatamente da mesma maneira.
O carisma pode assumir diferentes expressões culturais.
O importante é que essas diferenças permaneçam unidas pelo Evangelho, pela profissão religiosa, pelas Constituições e pela comum inspiração mariana.
Unidade não significa uniformidade.
Significa comunhão.
O desafio das vocações
Outra responsabilidade fundamental continua sendo a pastoral vocacional e a formação.
A existência de vocações em algumas regiões da Ordem constitui um sinal de esperança.
Mas o verdadeiro desafio não é simplesmente receber candidatos.
É formar Servos de Maria.
Homens de oração.
Homens de fraternidade.
Homens capazes de servir.
Homens afetivamente maduros.
Homens capazes de viver com outras culturas.
Homens próximos dos pobres e das dores humanas.
Homens que encontrem em Maria uma inspiração para seguir Cristo.
As jurisdições que diminuem
Ao mesmo tempo, outras partes da Ordem enfrentam uma realidade diferente.
Comunidades envelhecem.
O número de frades diminui.
Algumas presenças precisam ser repensadas.
Nesses lugares, esperança não pode significar fingir que nada mudou.
É necessário discernir com serenidade.
Algumas obras poderão ser entregues.
Algumas comunidades poderão ser reorganizadas.
Algumas estruturas poderão assumir formas novas.
Isso não significa necessariamente o desaparecimento do carisma.
O carisma é maior do que suas estruturas.
O futuro pertence à Ordem inteira
Uma das consequências dessa realidade é que nenhuma jurisdição pode pensar apenas em si mesma.
O futuro precisa ser pensado em conjunto.
Os frades de uma região podem ajudar outra.
Experiências podem ser compartilhadas.
Projetos de formação podem tornar-se interjurisdicionais.
Comunidades internacionais podem expressar concretamente a unidade da Ordem.
A pergunta deixa de ser:
“Como salvaremos nossa Província?”
e torna-se:
“Como serviremos juntos ao futuro da Ordem?”
A Família Servita
Existe ainda um horizonte maior.
A história dos Servos de Maria não pertence somente aos frades.
Monjas, religiosas, membros dos Institutos Seculares, irmãos e irmãs da Ordem Secular e outras expressões da Família Servita participam do mesmo patrimônio espiritual.
O caminho para o futuro precisa reconhecer essa riqueza.
O carisma é compartilhado.
Por isso, também a missão pode ser compartilhada.
Rumo a 2033
Sobre o novo governo pairava ainda uma data carregada de significado:
2033.
Segundo a tradição da Ordem, serão oitocentos anos desde 1233, ano associado às origens dos Servos de Maria.
O novo sexênio coloca a Ordem muito perto dessa celebração.
Mas preparar 2033 não pode significar apenas organizar congressos, publicações ou comemorações.
A verdadeira preparação precisa ser espiritual.
O que celebraremos?
Quando chegar 2033, os Servos poderão recordar oito séculos de história.
Mas haverá uma pergunta inevitável:
O carisma continua vivo?
Existem irmãos que procuram Deus juntos?
Existem comunidades capazes de reconciliar?
Existem Servos próximos das dores humanas?
Maria continua sendo inspiração de vida ou tornou-se apenas referência histórica?
Os jovens conseguem encontrar na Ordem uma proposta evangélica compreensível?
A fraternidade continua sendo um testemunho?
Essas perguntas são mais importantes do que qualquer celebração exterior.
Os Sete ainda falam
Oito séculos depois, os Sete Santos Fundadores continuam oferecendo uma imagem surpreendentemente atual.
Num mundo dividido, começaram uma fraternidade.
Num ambiente marcado por conflitos, procuraram reconciliação.
Possuindo diferentes histórias pessoais, decidiram caminhar juntos.
E colocaram sua experiência sob a inspiração de Santa Maria.
Talvez seja precisamente essa memória que a Ordem mais precisa recuperar ao aproximar-se de 2033.
Maria, Serva do Senhor
No final, tudo retorna ao nome:
Servos de Maria.
Maria não conduz os frades para si mesma.
Conduz a Cristo.
Ela escuta a Palavra.
Responde.
Coloca-se a caminho.
Serve Isabel.
Percebe a necessidade em Caná.
Permanece junto à cruz.
Reza com a Igreja.
Seu caminho continua sendo uma escola para a Ordem.
Servos junto às dores humanas
A tradição de contemplar Nossa Senhora das Dores coloca os Servos diante das dores concretas da humanidade.
A polarização produz feridas.
As guerras produzem feridas.
A pobreza produz feridas.
A solidão produz feridas.
A migração forçada produz feridas.
As divisões familiares produzem feridas.
A própria Igreja conhece feridas.
O Servo não pode simplesmente observar essas realidades de longe.
Como Maria no Calvário, é chamado a permanecer junto.
Edificar aquilo que une
Talvez essa seja uma das expressões mais fortes deixadas pelo horizonte capitular de 2025:
edificar aquilo que nos une.
Edificar exige trabalho.
Comunhão não aparece automaticamente.
Precisa ser construída.
Dentro dos conventos.
Entre as jurisdições.
Na Família Servita.
Na Igreja.
Na sociedade.
O mundo polarizado oferece aos Servos uma missão particularmente coerente com suas origens:
ser homens de comunhão, fraternidade e reconciliação.
A passagem
Ao concluir seu serviço, frei Gottfried entregava a responsabilidade do governo geral.
Frei Sergio a recebia.
Mas aquilo que realmente passava de uma geração para outra era muito maior do que um cargo.
Era uma herança.
A Regra.
As Constituições.
A memória dos Fundadores.
A fraternidade.
A inspiração mariana.
As comunidades.
As missões.
Os pobres encontrados pelo caminho.
As alegrias.
As dificuldades.
E quase oitocentos anos de história.
O Capítulo termina
As malas seriam novamente preparadas.
Os capitulares retornariam às suas comunidades.
Ariccia voltaria ao silêncio.
Mas o verdadeiro Capítulo começaria naquele momento.
Porque documentos precisam tornar-se vida.
Decisões precisam transformar-se em escolhas.
E temas capitulares precisam chegar às relações concretas entre os irmãos.
O futuro da Ordem não seria decidido somente naquela sala.
Seria construído diariamente em cada comunidade.
Uma história ainda aberta
De 1233 a 2025, muitas gerações de Servos passaram.
Muitos nomes foram esquecidos.
Muitos conventos desapareceram.
Outros nasceram.
Províncias foram criadas.
Missões foram abertas.
Estruturas foram modificadas.
Mas alguma coisa atravessou os séculos:
o desejo de servir a Cristo e aos irmãos sob a inspiração de Santa Maria.
Essa história não terminou.
O CCXV Capítulo Geral entregou-a novamente às mãos de uma nova geração.
Agora o caminho continua.
Rumo a 2033.
Rumo a novas culturas.
Rumo a novas formas de presença.
Rumo às dores dos homens e mulheres de nosso tempo.
Sempre como irmãos.
Sempre como servos.
Sempre sob o olhar daquela que disse:
«“Eis aqui a serva do Senhor.”»
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Fontes
ORDEM DOS SERVOS DE MARIA. Comunicações e documentação referentes ao CCXV Capítulo Geral, 2025.
ORDEM DOS SERVOS DE MARIA. Constituições e Diretório Geral da Ordem dos Frades Servos de Maria.
Documentação institucional e comunicações referentes ao governo geral e à vida da Ordem.
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Série — CCXV Capítulo Geral de 2025
Parte I — Ser Servos em um mundo polarizado
Parte II — De muitas nações, uma só fraternidade
Parte III — Um novo governo e uma Ordem a caminho de 2033
Parte IV — Um novo Prior Geral e uma Ordem chamada a continuar o caminho
Fim da série.
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