Sete características da comunidade dos Servos de Maria
As Constituições dos Servos de Maria começam com uma afirmação que contém, em poucas palavras, todo um projeto de vida:
“A Ordem dos Frades Servos de Maria, surgida como expressão de vida evangélico-apostólica, é uma comunidade de homens reunidos no nome do Senhor Jesus.”
Não é por acaso que a palavra comunidade aparece já na primeira linha.
Frei Luigi M. De Candido, OSM, em seu estudo A comunidade: necessária novidade, mostra que essa palavra funciona como verdadeira chave para compreender a identidade e o serviço da Ordem.
Não basta morar juntos.
Não basta pertencer juridicamente à mesma instituição.
É preciso tornar-se comunidade.
Uma palavra relativamente nova
Há aqui um dado histórico surpreendente.
Nas antigas Constituições da Ordem, a palavra communitas praticamente não aparecia.
Isso não significa que os primeiros Servos desconhecessem a vida comum. Pelo contrário. Desde as origens encontramos irmãos reunidos, oração comum, partilha e organização conventual.
Mas predominavam outras categorias: convento, casa, família, vida comum, claustro.
Ao longo dos séculos também se desenvolveu uma crescente distinção entre frades sacerdotes e frades leigos, acompanhada por estruturas e privilégios que favoreceram certa clericalização.
A renovação constitucional contemporânea realizou uma mudança significativa.
A comunidade voltou a ocupar o centro.
Frei Luigi chega a empregar um neologismo expressivo: “adelfocracia” — poderíamos dizer, literalmente, “governo dos irmãos”.
Não significa democracia aplicada mecanicamente à vida religiosa. Expressa a convicção de que aqueles que vivem juntos possuem a mesma dignidade fundamental de irmãos.
A concha e a pérola
O autor utiliza uma imagem particularmente feliz.
A comunidade é como uma concha que contém a pérola da fraternidade.
A concha representa as estruturas necessárias.
A casa.
Os horários.
O governo.
As normas.
Os serviços.
A organização.
Mas a pérola são as pessoas e os valores vividos entre elas.
Uma estrutura perfeita sem fraternidade permanece vazia.
E uma fraternidade que desprezasse qualquer estrutura dificilmente conseguiria sustentar-se.
Comunidade e fraternidade precisam uma da outra.
É uma realidade preciosa.
E, ao mesmo tempo, frágil.
Uma comunidade reunida por Cristo
A comunidade não nasce simplesmente porque determinadas pessoas decidiram compartilhar uma residência.
Ela é convocada.
O primeiro artigo das Constituições diz que somos reunidos “no nome do Senhor Jesus”.
Essa é a raiz.
Antes das afinidades humanas está uma convocação.
Antes de escolhermos uns aos outros, fomos chamados pelo mesmo Senhor.
Isso significa que a comunidade religiosa possui sempre uma dimensão de fé.
O irmão não está comigo apenas porque combina com minha personalidade.
Ele também foi chamado.
E a comunidade torna-se o lugar onde diferentes chamados aprendem a formar uma comunhão.
O lugar também fala
Frei Luigi dedica uma reflexão interessante ao espaço físico da comunidade.
Os antigos conventos possuíam lugares carregados de significado:
a igreja e o coro;
o refeitório;
a sala capitular;
as celas;
a enfermaria;
a biblioteca;
o claustro;
o jardim;
a portaria.
Cada espaço ajudava a organizar e simbolizar determinado aspecto da vida.
O claustro, por exemplo, reunia terra, ar, luz, água e caminho.
Hoje nossas comunidades podem viver em grandes conventos, casas médias ou pequenos apartamentos.
Mas permanece uma pergunta:
o lugar onde vivemos ajuda-nos a ser comunidade?
A casa religiosa não deveria ser apenas alojamento.
Deveria tornar-se espaço de oração, fraternidade, acolhida e missão.
Uma comunidade aberta ao mundo
As antigas estruturas podiam favorecer certo isolamento.
As Constituições atuais ampliam o horizonte.
A comunidade olha para perto e para longe.
Seu horizonte é o mundo.
A casa permanece necessária, mas suas portas não podem tornar-se fronteiras espirituais.
Frei Luigi oferece outra imagem sugestiva: a comunidade deve possuir um coração semelhante a um oásis, onde o hóspede possa encontrar repouso porque nele reconhecemos a figura do Filho do Homem.
A comunidade servita não é uma ilha.
Mas também não é um arquipélago de indivíduos isolados.
É uma casa comum.
Sete características
Para descrever a identidade dessa comunidade, Frei Luigi escolhe sete qualificações.
O número evoca intencionalmente os Sete Santos Fundadores.
A comunidade servita é:
pneumática, evangélica, mariana, peregrinante, contemplativa, diaconal e acolhedora.
Essas características não existem abstratamente.
Uma comunidade só pode possuí-las se cada irmão procurar vivê-las pessoalmente.
1. Uma comunidade pneumática
A primeira característica remete ao Espírito Santo.
As Constituições afirmam:
“Para nós, que vivemos numa comunidade de fé, toda atividade realizada no Espírito aumenta a comunhão com Deus no amor.”
A comunidade não vive apenas de planejamento humano.
Precisa discernir o impulso do Espírito.
E cada frade possui responsabilidade nesse discernimento.
Por sua maneira de viver, ele pode ajudar a comunidade a reconhecer para onde o Espírito a conduz.
Ser comunidade pneumática significa permanecer discípulos do Espírito.
Escutá-lo.
Discernir.
Deixar-se conduzir.
E permitir que seus dons produzam frutos na vida comum.
2. Uma comunidade evangélica
As Constituições apresentam o seguimento de Cristo como suprema regra de vida proposta no Evangelho.
Cristo e Evangelho tornam-se inseparáveis.
A comunidade existe para seguir Jesus.
Por isso, nossas estruturas, decisões, ministérios e costumes precisam continuamente ser confrontados com o Evangelho.
Uma tradição pode ser antiga e ainda assim precisar de conversão.
Uma atividade pode ser eficiente e ainda assim não expressar suficientemente o Evangelho.
A pergunta fundamental permanece:
isso nos ajuda a seguir Cristo?
A comunidade servita encontra sua identidade quando o Evangelho deixa de ser apenas texto proclamado e começa a tornar-se forma de vida.
3. Uma comunidade mariana
As Constituições dizem que vivemos “inspirando-nos constantemente em Maria”.
Essa expressão resume algo profundamente servita.
Desde as origens, os Servos dedicaram-se à Mãe de Deus.
Por isso, Maria não aparece somente nos atos de culto.
Ela inspira um modo de viver.
Frei Luigi reúne uma verdadeira pequena “litania” da imagem de Maria presente nas Constituições.
Ela é Mãe de Deus.
Humilde Serva do Senhor.
Filha de Sião.
Mulher da escuta.
Modelo de oração.
Guia no caminho para Cristo.
Pobre, casta e obediente.
Mãe que acolhe.
Misericordiosa e compassiva junto às cruzes.
Dolorosa e gloriosa.
Cada uma dessas imagens possui consequências para a comunidade.
Não basta chamar-nos Servos de Maria.
Precisamos permitir que o modo de Maria transforme nosso modo de viver.
4. Uma comunidade peregrinante
O Servo encontra-se a caminho da santidade.
E a comunidade acompanha esse caminho.
Não somos uma comunidade de pessoas que já chegaram.
Somos peregrinos.
Por isso existem conversão, formação permanente, correção, crescimento e recomeço.
A santidade não é simplesmente um prêmio reservado ao final da vida.
Precisa amadurecer no cotidiano.
Na fidelidade.
Na oração.
Na penitência.
Na conversão.
Na maneira como usamos os bens.
Na castidade vivida como dom.
Na obediência.
Na caridade.
A comunidade é chamada a ser, ao mesmo tempo, santa e santificadora.
Caminhar sem permanecer imóveis
Peregrinar significa também não transformar fidelidade em imobilidade.
O patrimônio recebido precisa ser conservado, mas também encarnado no presente.
A verdadeira fidelidade respeita o passado, vive responsavelmente o hoje e permanece aberta ao futuro.
Essa é uma questão importante para qualquer família religiosa antiga.
Uma tradição de quase oito séculos não pode simplesmente repetir formas.
Precisa continuamente redescobrir o espírito que deu origem às formas.
5. Uma comunidade contemplativa
A oração ocupa um espaço central nas Constituições.
Não poderia ser diferente.
A comunidade existe porque foi reunida por Deus e precisa permanecer diante dele para compreender sua vocação.
A oração não é atividade particular colocada ao lado de outras atividades.
Ela ajuda a unificar a vida.
Na oração, a comunidade escuta.
Agradece.
Intercede.
Discernе.
Celebra.
E aprende a reconhecer Deus presente nos acontecimentos.
A dimensão contemplativa impede que a comunidade seja reduzida a uma equipe de trabalho pastoral.
Antes de fazer, somos chamados a estar com o Senhor.
6. Uma comunidade diaconal
Somos chamados Servos.
Nosso próprio nome contém uma missão.
Jesus veio não para ser servido, mas para servir.
Maria apresenta-se como Serva do Senhor.
Por isso, serviço não é atividade complementar para os Servos de Maria.
Pertence à identidade.
Primeiro, serviço a Deus.
Depois, serviço mútuo entre os irmãos.
E esse serviço necessariamente se expande.
Para a Igreja.
Para os pobres.
Para os doentes.
Para quem sofre.
Para as pessoas marginalizadas.
Para aqueles que necessitam de solidariedade.
As Constituições afirmam que, comunitária e individualmente, somos chamados a oferecer um serviço concreto no ambiente em que vivemos.
A comunidade não existe para conservar-se.
Existe para servir.
Um serviço sem fronteiras
Frei Luigi observa que os espaços do serviço são tão amplos quanto os quatro pontos cardeais.
É uma imagem bonita.
A comunidade começa servindo dentro de casa.
Cuida do irmão idoso.
Acompanha o enfermo.
Sustenta quem enfrenta dificuldades.
Valoriza os dons de cada um.
Mas não pode parar aí.
A comunhão precisa transformar-se em diaconia.
O amor fraterno torna-se solidariedade.
E a solidariedade abre a comunidade às necessidades da humanidade.
7. Uma comunidade acolhedora
A última característica é a acolhida.
As Constituições dizem que o Servo, vivendo intensamente a vida comunitária, forma-se para o diálogo fraterno e aberto e torna-se cada vez mais acolhedor.
Primeiramente acolhemos a Palavra de Deus.
Depois acolhemos os irmãos.
Com suas qualidades.
E também com seus limites.
Acolhemos a nós mesmos, reconhecendo com verdade nossa própria história.
E a comunidade amplia progressivamente sua hospitalidade:
familiares;
hóspedes;
colaboradores;
jovens em formação;
pessoas necessitadas;
aqueles que procuram nossas casas.
O Prior recebe uma orientação particularmente significativa: deve estar pronto a acolher e escutar todos os frades, prestando especial atenção aos que precisam de cuidado.
Acolher e escutar aparecem juntos.
Não existe verdadeira hospitalidade sem escuta.
O irmão constrói a comunidade
As sete características poderiam parecer um ideal muito elevado.
E realmente são.
Mas Frei Luigi insiste: elas precisam começar em cada frade.
Não existe comunidade pneumática sem irmãos abertos ao Espírito.
Não existe comunidade evangélica sem irmãos que procuram viver o Evangelho.
Não existe comunidade mariana sem irmãos que aprendem com Maria.
Não existe comunidade contemplativa sem irmãos que rezam.
Não existe comunidade servidora sem irmãos disponíveis ao serviço.
Não existe comunidade acolhedora sem irmãos capazes de abrir espaço para o outro.
A comunidade não é uma abstração que existe acima das pessoas.
Ela é construída pelo dom que cada irmão oferece aos demais.
Uma comunidade que forma
Ao mesmo tempo, existe reciprocidade.
O irmão constrói a comunidade.
E a comunidade constrói o irmão.
Ela deve ajudá-lo a desenvolver seus dons e capacidades e acompanhá-lo em direção à maturidade humana e religiosa.
Aquilo que cada um recebeu de Deus não lhe pertence exclusivamente.
É dom destinado também aos outros.
Por isso, a vida comunitária pede uma dupla atitude:
receber e devolver.
Receber aquilo que os irmãos oferecem.
E devolver à comunidade os dons que Deus colocou em nossas mãos.
Nem ilha nem arquipélago
Entre as imagens empregadas pelo autor, esta talvez seja uma das mais provocadoras:
a comunidade não é uma ilha, mas também não pode ser um arquipélago.
Uma ilha estaria fechada ao mundo.
Um arquipélago seria apenas um conjunto de individualidades próximas geograficamente, mas separadas entre si.
Nenhuma dessas imagens corresponde ao ideal.
A comunidade é casa comum.
Aberta para fora.
Unida por dentro.
A necessária novidade
Compreendemos então o título escolhido por Frei Luigi:
“A comunidade: necessária novidade.”
Novidade não significa desprezar a história.
Ao contrário.
Significa permitir que aquilo que existia como intuição profunda nas origens — a experiência dos Sete como irmãos — encontre formas cada vez mais coerentes de expressão.
As Constituições contemporâneas fizeram da comunidade uma das palavras fundamentais para compreender a Ordem.
Mas nenhum texto constitucional pode criar sozinho uma comunidade.
Ele pode indicar o caminho.
Quem precisa percorrê-lo somos nós.
Cada dia.
Cada irmão.
Cada fraternidade.
Cada Província.
Toda a Ordem.
Uma casa de irmãos reunidos no nome do Senhor
No final, voltamos à primeira frase:
somos uma comunidade de homens reunidos no nome do Senhor Jesus.
Nela está nossa origem e também nosso programa.
Reunidos por Cristo.
Movidos pelo Espírito.
Inspirados por Maria.
A caminho da santidade.
Homens de contemplação.
Servos dos irmãos.
Acolhedores diante de quem chega.
Tal comunidade não existe apenas para proporcionar um ambiente agradável aos religiosos.
Ela possui valor evangélico.
Num mundo frequentemente fragmentado e individualista, uma comunidade que consegue viver verdadeiramente como comunidade torna-se sinal.
Sinal de que a comunhão é possível.
Sinal de que diferentes pessoas podem caminhar juntas.
Sinal de que ninguém precisa viver somente para si.
E sinal daquele Reino no qual todos somos chamados a encontrar nossa casa em Deus.
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Fonte principal: Frei Luigi M. De Candido, OSM, La comunità: necessaria novità [A comunidade: necessária novidade], estudo sobre a comunidade nas Constituições da Ordem dos Frades Servos de Maria, 36 p.
Série: Fontes da Espiritualidade Servita — VI
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