A Catedral de Rio Branco: uma obra de Frei André Ficarelli, OSM
Entre as muitas marcas deixadas pelos Servos de Maria no Acre, a Catedral Nossa Senhora de Nazaré, em Rio Branco, ocupa um lugar especial. Sua história está profundamente ligada à presença missionária de Frei André M. Ficarelli, OSM, frade italiano que dedicou grande parte de sua longa vida religiosa e sacerdotal ao povo acreano.
Um jovem Servita que fez do Acre sua terra
Frei André M. Ficarelli nasceu em San Donnino di Casalgrande, Reggio Emilia, Itália, em 12 de outubro de 1922, filho de Armando Ficarelli e Lavinia Morini. No batismo recebeu o nome de Nicodemos.
Ainda jovem ingressou na Ordem dos Servos de Maria. Realizou o noviciado em Montefano e fez sua primeira profissão religiosa em 6 de outubro de 1940. Professou solenemente em Reggio Emilia, em 28 de fevereiro de 1944, e foi ordenado presbítero em Roma, em 27 de março de 1948.
Dois anos depois, em 1950, chegou ao Brasil e estabeleceu-se em Rio Branco. Começava uma ligação com o Acre que atravessaria décadas e somente terminaria com sua morte.
A Catedral Nossa Senhora de Nazaré
O Inter Nos On Line nº 146, publicado pela Província São Peregrino do Brasil e Moçambique em 5 de setembro de 2015, ao recordar a vida de Frei André, inclui a Catedral Nossa Senhora de Nazaré entre as principais obras que ele deixou no Acre.
O boletim recorda que Frei André possuía grande habilidade para a construção, chegando a defini-lo como um “arquiteto prático”. Além da Catedral, são mencionadas entre suas realizações a casa episcopal, o Colégio Nossa Senhora das Dores, o Hospital Santa Juliana, a Galeria Meta, o Centro de Treinamento e outras obras.
A relação entre Frei André e a Catedral, entretanto, não se limitou à construção material.
Enquanto a Catedral esteve confiada aos Servos de Maria, ele exerceu também ali o ministério de pároco, fazendo daquele templo não apenas uma obra arquitetônica, mas um lugar de evangelização e serviço pastoral.
Uma igreja construída com os olhos da fé
Por ocasião da morte de Frei André, em setembro de 2015, os jornais do Acre recordaram particularmente sua ligação com a Catedral.
A Gazeta do Acre, em matéria reproduzida pelo Inter Nos, apresentou-o como idealizador da Catedral Nossa Senhora de Nazaré e recordou que o missionário italiano havia chegado ao Acre em 1950.
Outra notícia, também recolhida pelo boletim provincial, recordava que a Catedral foi inaugurada em 1958 e atribuía a Frei André papel decisivo em sua realização.
Talvez um dos testemunhos mais expressivos tenha sido dado pelo Pe. Massimo Lombardi durante as homenagens após sua morte:
«“Esta catedral foi construída com os olhos da fé do frei André.”»
A frase ajuda a compreender o significado mais profundo da obra. A Catedral não foi simplesmente um edifício erguido por um religioso com habilidade para construções. Ela nasceu no contexto da missão, como expressão concreta da presença da Igreja e do serviço dos Servos de Maria ao povo acreano.
Cinquenta anos de uma história
A ligação de Frei André com a Catedral permaneceu viva durante toda a sua existência.
Em 14 de agosto de 2009, ele lançou o livro 50 anos de Catedral Nossa Senhora de Nazaré: Você faz parte dessa história!, conservando e transmitindo a memória de uma obra da qual havia participado desde seus primeiros tempos.
O título é significativo: a Catedral não pertencia apenas à memória dos religiosos ou dos responsáveis por sua construção. Era uma história construída juntamente com o povo.
Uma vida entregue à Igreja do Acre
A contribuição de Frei André ultrapassou amplamente os limites da Catedral.
Depois de alguns períodos fora do Acre — inclusive em São Paulo, Rio de Janeiro e Roma — retornou definitivamente a Rio Branco em 1978.
Entre 1979 e 1984, foi Vigário Provincial do então Vicariato Provincial OSM do Acre. Durante mais de vinte anos, pelo menos entre 1978 e 1998, exerceu também o serviço de Vigário Geral da Prelazia e posteriormente Diocese de Rio Branco.
O Inter Nos recorda o testemunho de Dom Moacyr Grechi, para quem Frei André foi um colaborador fundamental na missão da Igreja acreana.
Mesmo na velhice, enquanto teve forças, continuou celebrando a Eucaristia e atendendo confissões. Nos últimos anos, já debilitado, permaneceu no convento São Filipe, assistido pelos confrades, formandos e profissionais da saúde.
O último encontro com sua Catedral
Frei André faleceu em 3 de setembro de 2015, depois de 92 anos de vida e 74 anos de vida religiosa na Ordem dos Servos de Maria.
Seu corpo foi levado justamente para a Catedral Nossa Senhora de Nazaré.
Ali, diante da obra à qual sua vida estava tão intimamente ligada, o povo pôde despedir-se daquele missionário que havia feito do Acre sua própria terra.
As exéquias foram celebradas em 4 de setembro, presididas por Dom Moacyr Grechi e concelebradas pelo bispo diocesano Dom Joaquim Pertíñez, pelo Prior Provincial Frei Paulo M. Angeloni, pelos Servos de Maria de Rio Branco e Sena Madureira e por sacerdotes diocesanos.
Também estavam presentes religiosas Servas de Maria, membros da Fraternidade Secular, formandos e numerosos fiéis.
Depois das exéquias, Frei André foi sepultado no Cemitério São João Batista.
Uma Catedral como memória da missão servita
Hoje, contemplar a Catedral Nossa Senhora de Nazaré significa também recordar uma página importante da presença dos Servos de Maria no Acre.
Pedras, paredes e torres permanecem, mas o verdadeiro monumento deixado por Frei André Ficarelli encontra-se na comunidade cristã que ajudou a servir e edificar.
Sua história recorda algo profundamente ligado à vocação servita: estar onde a Igreja necessita, permanecer junto ao povo e transformar a fé em serviço concreto.
A Catedral de Rio Branco tornou-se, assim, mais do que uma construção associada ao talento de Frei André. Tornou-se testemunho de uma vida missionária.
E talvez a melhor síntese continue sendo aquela pronunciada no momento de sua despedida:
«“Esta catedral foi construída com os olhos da fé do frei André.”»
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Fonte principal
INTER NOS ON LINE, nº 146, Província São Peregrino do Brasil e Moçambique, Rio de Janeiro, 5 de setembro de 2015, pp. 26–29. Necrológio de Frei André M. Ficarelli, OSM.
O boletim reproduz ainda notícias publicadas pela Gazeta do Acre em 3 e 4 de setembro de 2015 e pelo jornal O Rio Branco em 4 de setembro de 2015.
Arquivo: correspondência da Província São Peregrino do Brasil / Servos de Maria.
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