Uma preciosa entrevista publicada no Inter Nos em 1972
Entre os documentos que conservam a memória do Servo de Deus Frei Egídio Maria Moscini, OSM, esta entrevista possui um valor muito especial. Publicada no boletim Inter Nos, nº 69, em 1972, nas páginas 22–23, ela nos permite ouvir Frei Egídio narrando, com suas próprias palavras, algumas recordações dos primeiros anos de sua vida missionária no Brasil.
Naquele momento, Frei Egídio vivia na comunidade do Seminário dos Servos de Maria, em Turvo, Santa Catarina. Já idoso, recordava com simplicidade e bom humor a longa viagem para o Brasil, a chegada à missão do Acre, o serviço como sacristão e cozinheiro e até as dificuldades dos primeiros dias, quando ainda não sabia falar português.
Um detalhe percebido pelo próprio entrevistador é particularmente significativo: Frei Egídio evitava dizer “eu”. Ao contar suas histórias, referia-se a si mesmo simplesmente como “o Frei Egídio”.
Reproduzimos abaixo a entrevista, conservando a linguagem característica do documento.
---
A ENTREVISTA DO MÊS:
“AS REVELAÇÕES DO FREI EGÍDIO”
Aproveitando da convivência com a comunidade do Seminário de Turvo, o redator deste boletim teve ocasião de entrevistar o nosso bondoso e simpático velhinho, Fr. Egídio.
1. Viagem de 3 meses e 14 dias de Bolonha para Rio Branco
Ao dizer isto, o Fr. Egídio chega a dar risada. Mas eles fizeram lá o seu turismo também. Assim nos conta o Fr. Egídio:
«“Saímos em 10 de Bolonha, no dia 14 de junho de 1921: Pe. Antônio Busi, Filipe Gallerani, Donato Gabrielli, o Fr. Egídio (êle nunca diz ‘eu’, mas sempre o ‘Fr. Egídio’) e 10 irmãs servas de Maria.
Viajamos de trem até Turim e aí paramos 1 semana, depois até à França e aí paramos mais 1 semana. Daí para Londres e lá também ficamos 1 semana.
Estava conosco o Provincial Pe. José Albarelli, que sabia o francês e o inglês.
Por fim partimos para o Brasil, de navio, e paramos em Fortaleza onde nós padres ficamos hospedados no Seminário diocesano e as irmãs num colégio de freiras.
Fomos em seguida para Belém e daí para Manaus (7 dias de viagem). Em Manaus um senhor português muito bondoso, amigo dos missionários servos de Maria, arranjou nossa viagem num navio pequeno para Rio Branco.
POR FIM, NO DIA 25 DE SETEMBRO CHEGAMOS EM RIO BRANCO, ONDE ESTAVA O FREI TIAGO SÒZINHO. ERA HORA DA JANTA E O FREI TIAGO ESTAVA COMENDO PIRÔ” (= pirão).»
2. Frei Egídio: Sacristão e Cozinheiro
À pergunta sobre o que fazia em Rio Branco, Frei Egídio respondeu:
«“Dunque, Pe. José, Frei Egídio cuidava da Igrejinha de São Sebastião e S. Filipe e fazia comidinha para o Fr. Tiago.”»
E continua:
«“Frei Tiago era muito bonzinho e fazia tudo de graça (casamentos, batizados etc.) e então sempre faltava dinheiro para a comida. E o ‘Fr. Egídio’ era obrigado a preparar só pirô, pirô!”»
Nesse ponto, Frei Egídio oferece uma pequena lição:
«“Olhe, Pe. José, é bom a gente ser bonzinho, mas não demais. Fazer tudo de graça não dá.
Por isso Fr. Tiago ficou doentinho e a notícia correu pela cidade. Um dia apareceu um fazendeiro muito bondoso e prometeu dar todos os dias um litro de leite e um quilo de carne para o Fr. Tiago e o irmãozinho.
E o ‘Fr. Egídio’ todos os dias passava o rio e ia lá na fazenda buscar.”»
3. Uma novena que durou trinta anos
Falando do Frei Filipe, Frei Egídio conta:
«“Depois de uma semana que chegamos em Rio Branco, recebemos carta do Bispo D. Próspero, pedindo para o Fr. Filipe ir a Xapuri para fazer a novena de N. Sra. da Conceição. Esta novena (diz o Fr. Egídio dando risada) durou 30 anos porque o Fr. Filipe não mais voltou de lá.”»
4. Frei Egídio: o mudinho
Perguntado sobre como fazia para se fazer entender em português nos primeiros tempos, respondeu:
«“Ih!, Pe. José! Nos primeiros tempos Fr. Egídio ficava mudinho, mudinho...
Logo nos primeiros dias, Fr. Tiago foi para Brasiléia e lá ficou 15 dias e o Fr. Egídio ficou sozinho, sozinho, sem saber falar nada, nada...
Mas Fr. Tiago colocou um grande aviso na parede da sacristia e quando chegava alguém pedindo qualquer coisa, Fr. Egídio apontava o aviso e a gente agradecia e ia embora contente. Não sei o que estava escrito naquele aviso.”»
---
A simplicidade de Frei Egídio em suas próprias palavras
A entrevista revela algo que uma simples cronologia dificilmente conseguiria transmitir. Frei Egídio recorda os sacrifícios da missão sem se colocar no centro da narrativa. Fala da pobreza, da alimentação escassa, das longas viagens e da dificuldade com a língua portuguesa com uma simplicidade quase desarmante.
Chama atenção também sua maneira de falar: “comidinha”, “bonzinho”, “irmãozinho”, “mudinho”. Até as dificuldades são recordadas com bom humor. Quando fala de Frei Filipe, por exemplo, brinca dizendo que a novena de Nossa Senhora da Conceição “durou 30 anos”, porque o frade permaneceu em Xapuri.
Mas talvez o detalhe mais belo seja aquele registrado entre parênteses pelo entrevistador:
“êle nunca diz ‘eu’, mas sempre o ‘Fr. Egídio’.”
É um pequeno testemunho que ajuda a perceber a personalidade daquele irmão religioso que passou a vida no serviço cotidiano: na sacristia, na cozinha, no trabalho e na oração.
Décadas depois, quando sua vida começou a ser estudada de maneira mais sistemática, muitos outros documentos permitiram precisar sua trajetória. Esta entrevista, porém, conserva algo insubstituível: a voz do próprio Frei Egídio, recordando os primeiros passos de sua missão no Brasil.
Fonte
Inter Nos, nº 69, 1972, pp. 22–23.
“A entrevista do mês: ‘As revelações do Frei Egídio’”.
Nota editorial: A transcrição procura conservar a linguagem e as características do texto publicado em 1972. Eventuais formas antigas de grafia, nomes ou informações cronológicas pertencem ao documento original e devem ser compreendidas em seu contexto histórico.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu comentário: sua colaboração edificará tantas almas sedentas de Deus e nos fará cada vez mais servos uns dos outros.