16/09/2026

Santuário São Peregrino de Rio Branco: uma obra de muitas mãos



No bairro Floresta, em Rio Branco, Acre, encontra-se um dos lugares mais significativos da presença dos Servos de Maria na Amazônia: o Santuário São Peregrino. Sua história atravessa diferentes gerações de missionários, religiosos e leigos e encontrou um momento decisivo entre 2003 e 2005, quando foi construído o atual templo.

A história dessa construção foi registrada pelo próprio Frei Charlie M. Leitão de Souza, OSM, então pároco de São Peregrino, num artigo escrito em abril de 2010 para uma revista paroquial, por ocasião do quinto aniversário da dedicação do Santuário.

Uma devoção antiga no Acre

A devoção a São Peregrino está profundamente ligada à história dos Servos de Maria no Acre.

Frei Charlie recorda que, já em 1935, existia em Rio Branco uma pequena igreja de madeira dedicada a São Peregrino, situada às margens do Rio Acre. Posteriormente, ela foi trasladada para a região que corresponde ao atual bairro Floresta.

Ali, entre mangueiras que ofereciam sombra e frutos aos moradores, consolidou-se a comunidade cristã de São Peregrino.

Na década de 1960, a antiga capela recebeu uma construção em alvenaria. Com diversas reformas ao longo dos anos, aquele templo continuou servindo à comunidade até o início da construção da igreja atual.

Frei Charlie recorda também nomes que permaneceram ligados à memória da comunidade, entre eles Ana Rosa, Mariquinha, Frei Gregório Dal Monte e Frei André Ficarelli, OSM.

O sonho de uma igreja maior

O desejo de construir uma igreja maior não nasceu de uma única pessoa.

Durante anos, a comunidade desejava um templo capaz de responder ao crescimento da paróquia e às novas necessidades pastorais. Segundo o testemunho de Frei Charlie, pelo menos três projetos diferentes chegaram a ser elaborados em épocas distintas. Houve inclusive iniciativas acompanhadas do lançamento de pedra inaugural, mas circunstâncias humanas e econômicas impediram que fossem levadas adiante.

Quando Frei Charlie assumiu a Paróquia São Peregrino, em 2002, o projeto de uma nova igreja já vinha sendo encaminhado pela comunidade sob a liderança de seu predecessor, Frei Nivaldo M. Machado, OSM.

Frei Nivaldo havia também solicitado à Ordem dos Servos de Maria auxílio econômico para a futura construção.

19 de março de 2003: o projeto começa a tomar forma

Frei Charlie conservou na memória até mesmo o dia em que a futura igreja começou a ganhar contornos concretos.

Em 19 de março de 2003, solenidade de São José, reuniu-se no escritório paroquial com José Roberto, João Braga e o engenheiro paroquiano Gérson.

Foram estudadas as alternativas existentes e definida a planta que seria apresentada à comunidade.

O projeto previa três grandes etapas: a construção do templo, do anexo pastoral, com salas de catequese, salão paroquial e outras dependências, e do anexo administrativo, destinado à secretaria, sala do pároco e demais serviços.

Somente o templo teria mais de 500 metros quadrados de edificação.

Pouco antes, havia sido construída a Gruta de São Peregrino, idealizada por Frei Gilson de Lima Freitas, OSM, então coadjutor da paróquia.

Começa a construção

O artigo de 2010 estabelece com precisão o período da obra: de 1º de julho de 2003 a 5 de maio de 2005.

Os trabalhos foram confiados ao paroquiano e mestre de obras Idalécio.

Havia algum recurso inicial proveniente da ajuda dos Servos de Maria e das iniciativas paroquiais, particularmente do Encontro de Casais com Cristo (ECC) e dos tradicionais arraiais da comunidade. Entretanto, aquele valor permitiria apenas iniciar a construção.

Era necessário levantar praticamente todo o restante enquanto a obra avançava.

Começou então uma verdadeira mobilização comunitária.

Uma comunidade constrói seu Santuário

A construção do Santuário tornou-se um projeto assumido pelos paroquianos.

Foram realizadas campanhas nas casas, nas celebrações e por meio do dízimo. Em dezembro de 2003, Dona Rita Souza liderou o primeiro bingo no Colégio Meta. Os casais promoveram o Réveillon da Família, no Clube Juventus.

Em 2004, a festa de São Peregrino adquiriu proporções ainda maiores.

A novena foi celebrada dentro do próprio canteiro de obras, pois a antiga igreja era gradualmente demolida enquanto a nova construção a envolvia.

Uma grande quermesse realizada no Parque das Acácias reuniu mais de três mil pessoas, com almoço, bingos e a escolha da Rainha da Quermesse. Houve ainda procissão pelas ruas do bairro, bazar de São Peregrino, Festival do Sorvete e um segundo Réveillon da Família.

As ofertas assumiam as mais diversas formas.

Chegavam garrotes, carneiros, sacos de cimento, areia, barro e outros materiais. O dinheiro arrecadado era convertido em crédito nos estabelecimentos comerciais de Rio Branco. Paroquianos acompanhavam Frei Charlie nas negociações com comerciantes, gerentes e proprietários, conseguindo descontos e condições favoráveis.

Assim foram adquiridos materiais fundamentais para a cobertura, o forro, o piso e a pintura da igreja.

A Albuquerque Engenharia colaborou doando todo o projeto da construção.

“Inaugurar na festa de São Peregrino”

Frei Charlie alimentava um desejo: que a nova igreja pudesse ser inaugurada durante a festa de São Peregrino de 2005, quando se recordavam os setenta anos da devoção ao santo naquele local.

À medida que a construção avançava, porém, aumentavam também os desafios.

Em seu relato, Frei Charlie reconhece que, diante das dimensões da obra e das dificuldades econômicas, muitas vezes lhe parecia que o projeto ultrapassava as possibilidades da paróquia.

Foi então que se revelou ainda mais claramente a força da comunidade.

Famílias e grupos participaram das campanhas para aquisição das janelas e dos bancos. Buscaram-se também recursos públicos por meio de emendas e outras formas de colaboração.

O que inicialmente parecia uma aventura foi tomando a forma do novo templo.

De igreja paroquial a Santuário

Na Páscoa de 2005, a inauguração já estava próxima.

Foi nesse contexto que Frei Charlie pediu ao bispo diocesano que concedesse à nova igreja paroquial o título de Santuário de São Peregrino.

Enquanto isso, Frei Gilson, juntamente com um grupo de colaboradores, procurava os materiais litúrgicos necessários e trabalhava na organização da celebração solene da dedicação.

Dona Terezinha Mascarenhas assumiu a organização do cerimonial da inauguração e o relacionamento com as autoridades civis.

Um grande crucifixo, esculpido em madeira de cerejeira, foi encomendado em Minas Gerais. Os bancos de mogno foram confeccionados pelo artesanato de São Peregrino, em Sena Madureira.

Pastorais, jovens, casais e idosos trabalhavam para que tudo estivesse pronto.

O ECC, a Confraria Nossa Senhora das Dores, a Ordem Secular dos Servos de Maria e a Pastoral da Comunicação estiveram entre os grupos que contribuíram significativamente durante o processo.

3 de maio de 2005

Finalmente chegou o dia esperado.

Na noite de 3 de maio de 2005, uma multidão ocupou a nova igreja para a celebração eucarística da dedicação.

Presidida pelo bispo diocesano, a celebração marcou a consagração do novo templo dedicado a São Peregrino.

Diante dos fiéis e das autoridades civis e religiosas presentes, foi descerrada a placa de inauguração colocada ao lado direito da porta principal.

Nela estava gravada uma oração escolhida pelas lideranças da própria paróquia:

“Que Deus confirme a obra de nossas mãos!”

Poucas palavras poderiam resumir melhor aquela história.

“Uma obra de muitas mãos”

Cinco anos depois, ao recordar os acontecimentos, Frei Charlie evitou atribuir a construção a si mesmo.

Embora tenha conduzido o projeto como pároco durante os anos decisivos da obra, preferiu registrar:

“O Santuário é obra de muitas mãos, algumas conhecidas e outras anônimas.”

É justamente nessa frase que se encontra uma chave para compreender a história do Santuário São Peregrino.

Houve o trabalho do pároco, dos demais Servos de Maria, dos engenheiros e trabalhadores. Houve a colaboração das pastorais e movimentos. Houve pessoas que ofereceram dinheiro e outras que ofereceram materiais. Algumas organizaram festas; outras venderam rifas, prepararam alimentos ou procuraram comerciantes e autoridades. Muitas rezaram e sustentaram espiritualmente a obra.

Por isso, o Santuário não é somente um edifício.

É a memória concreta de uma comunidade que acreditou que poderia construir sua igreja e transformou essa esperança em realidade.

A súplica gravada na entrada permanece, assim, como testemunho para as gerações futuras:

“Que Deus confirme a obra de nossas mãos!”

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Fonte principal:
Frei Charlie M. Leitão de Souza, OSM, Revista São Peregrino 2010, texto escrito em abril de 2010 para o quinto aniversário da dedicação do Santuário São Peregrino, Rio Branco–AC. Documento conservado na correspondência com Ernani Brunoro.

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