Reunidos em Cristo para discernir, viver a fraternidade e servir
O Capítulo ocupa um lugar fundamental na vida dos Servos de Maria. Não é simplesmente uma reunião destinada a resolver questões práticas, organizar atividades ou tomar decisões administrativas. Antes de tudo, é uma expressão da própria vida da comunidade reunida diante do Senhor.
As Constituições afirmam que o Capítulo, constituído pela presença dos frades, realiza a presença do Senhor, segundo a promessa de Cristo aos discípulos reunidos em seu nome (cf. Mt 18,20).
Esta afirmação revela imediatamente a natureza profunda do Capítulo. Antes de ser jurídico, administrativo ou organizativo, ele é um acontecimento espiritual e eclesial.
Frei Clodovis M. Boff identifica três grandes dimensões que ajudam a compreender a reunião capitular: a dimensão voltada para Deus, a dimensão voltada para os irmãos e a dimensão voltada para o mundo.
Podemos exprimi-las de maneira simples:
Deus → irmãos → mundo
ou ainda:
Palavra → comunhão → serviço.
Esses três movimentos não estão separados. Nascem uns dos outros. A comunidade escuta o Senhor, cresce na comunhão fraterna e, fortalecida por essa comunhão, coloca-se novamente a serviço da Igreja e do mundo.
1. Reunidos diante de Deus
A primeira dimensão do Capítulo é espiritual.
Os frades não se reúnem apenas porque possuem assuntos a resolver. Reúnem-se porque são homens consagrados, chamados a viver juntos uma vida evangélico-apostólica.
Por isso, quem verdadeiramente preside a reunião da comunidade é o próprio Senhor.
Sua Palavra permanece a primeira referência do discernimento.
As Constituições recordam que a obediência à Palavra de Deus anima a vida da comunidade. Consequentemente, antes de perguntar simplesmente:
“O que queremos fazer?”
a comunidade deveria perguntar:
“O que o Senhor está pedindo de nós?”
Essa mudança de perspectiva é decisiva.
O Capítulo deixa então de ser somente um espaço de opiniões individuais e torna-se lugar de escuta e discernimento.
A própria origem da palavra “Capítulo” recorda o antigo costume de iniciar a reunião comunitária com a leitura orante de um capítulo da Sagrada Escritura. A Palavra precedia a discussão dos assuntos porque era sob sua luz que os irmãos desejavam discernir.
Esse princípio permanece profundamente atual.
A Palavra de Deus ilumina as decisões, purifica interesses particulares, relativiza preferências pessoais e ajuda a comunidade a procurar aquilo que corresponde melhor ao Evangelho.
Por isso, a oração inicial de um Capítulo não deveria ser considerada simples formalidade.
Ela manifesta uma convicção:
o Senhor está no meio de nós.
A comunidade se reúne em seu nome e deseja discernir sua vontade.
2. Avaliar nossa fidelidade ao Evangelho
As Constituições apresentam entre as funções do Capítulo a avaliação da fidelidade da comunidade ao Evangelho e da autenticidade de seu testemunho.
Esse aspecto talvez seja um dos mais importantes.
Uma comunidade religiosa pode possuir uma boa organização, cumprir horários, administrar corretamente seus bens e desenvolver muitas atividades apostólicas e, apesar disso, necessitar de renovação espiritual.
Por isso, periodicamente, os irmãos precisam perguntar:
Como estamos vivendo nossa vocação?
Não apenas:
O que estamos fazendo?
mas:
Como estamos seguindo Cristo?
O Capítulo torna-se, desse modo, um verdadeiro exercício comunitário de conversão.
Nele podem ser examinadas a vida de oração, a pobreza, a fraternidade, a missão, o testemunho comunitário e a fidelidade às Constituições.
Também nesse contexto encontra seu lugar a correção fraterna.
Não como acusação ou julgamento, mas como serviço recíproco realizado por irmãos que desejam ajudar-se mutuamente a permanecer fiéis ao Evangelho.
3. Reunidos como irmãos
Depois da comunhão com Deus vem a comunhão entre os irmãos.
As Constituições afirmam que o Capítulo manifesta a comunhão de vida dos frades.
Não basta, portanto, morar na mesma casa.
A fraternidade religiosa exige relações verdadeiramente fraternas.
As Constituições falam de amizade fraterna, que implica doar-se aos outros e acolher cada irmão com suas qualidades e limitações.
A tradição dos Servos de Maria oferece aqui um testemunho particularmente significativo.
A Legenda de origine apresenta os Sete primeiros Pais unidos por profunda amizade e por vínculos de amor antes mesmo de constituírem sua primeira comunidade religiosa.
A amizade, porém, não permaneceu fechada em si mesma.
Conduziu-os a Deus.
E sua busca comum de Deus aprofundou ainda mais a comunhão existente entre eles.
Esse movimento continua sendo essencial para compreender a fraternidade servita.
Quanto mais os irmãos se aproximam de Cristo, mais encontram nele a possibilidade de aproximar-se uns dos outros.
Cristo permanece, portanto, o fundamento da comunidade.
A fraternidade não substitui Deus.
Ela nasce de Deus e conduz a Deus.
4. Uma fraternidade em que todos participam
Cada frade é filho de Deus e irmão dos demais.
Por isso, não deveria ser mero espectador da vida comunitária.
As Constituições reconhecem sua participação ativa: o irmão pode pedir a convocação do Capítulo e propor assuntos para sua pauta.
Esse princípio revela uma característica importante da tradição servita.
A vida da comunidade é responsabilidade de todos.
Cada irmão possui algo a oferecer.
Experiência, sensibilidade, conhecimento, percepção pastoral, capacidade de escuta ou simplesmente uma pergunta que ninguém ainda formulou.
A tradição monástica já reconhecia que Deus pode manifestar sua vontade inclusive por meio do membro mais jovem da comunidade.
Por isso, o diálogo capitular exige liberdade para falar e humildade para escutar.
Quem fala precisa fazê-lo buscando o bem comum.
Quem escuta precisa admitir que a verdade não pertence exclusivamente à própria opinião.
Assim, o Capítulo torna-se uma escola de discernimento comunitário.
5. Capítulo e autoridade
Na tradição constitucional dos Servos de Maria, o Capítulo possui também uma importante função de governo.
As Constituições afirmam que, na Ordem, a autoridade à qual os frades devem obediência encontra-se nos Capítulos.
Isso significa que a autoridade entre os Servos possui uma forte dimensão comunitária e colegial.
O Prior possui responsabilidades próprias, mas não governa isoladamente da fraternidade.
Do mesmo modo, cada frade não pode considerar-se independente das decisões tomadas legitimamente pela comunidade.
O discernimento comunitário conduz à decisão.
E a decisão pede responsabilidade e obediência.
Não se trata simplesmente de aplicar à vida religiosa categorias políticas.
A participação capitular possui uma natureza própria porque acontece em Cristo e sob Cristo.
O objetivo último não é simplesmente determinar a vontade da maioria.
É procurar juntos a vontade de Deus.
6. O Capítulo precisa ser periódico
As Constituições determinam que os Capítulos sejam realizados periodicamente.
Essa periodicidade possui grande importância.
Uma comunidade que deixa de se reunir para rezar, dialogar, avaliar sua caminhada e tomar decisões corre o risco de transformar-se gradualmente em simples convivência funcional.
Cada irmão passa a administrar sua própria vida.
As informações circulam de maneira informal.
Os problemas acumulam-se.
As decisões deixam de ser verdadeiramente comunitárias.
Por isso, o Capítulo não deveria acontecer apenas quando surge uma crise.
Ele pertence ao ritmo normal da fraternidade.
É um momento de renovação da vida comum.
7. Uma comunidade aberta ao mundo
A terceira dimensão do Capítulo é apostólica.
Depois de olhar para Deus e para a própria fraternidade, a comunidade olha para fora.
As Constituições convidam os frades a considerar as necessidades dos seres humanos, da Igreja e da Ordem e a discernir a resposta que podem oferecer.
O Capítulo torna-se, portanto, uma janela aberta para o mundo.
A comunidade pergunta:
Quem necessita de nosso serviço?
Que necessidades existem ao nosso redor?
O que a Igreja espera de nós?
O que a Ordem nos pede neste momento?
Como nosso carisma pode responder às situações concretas que encontramos?
Essa abertura impede que a comunidade se feche sobre seus próprios problemas.
A fraternidade existe também para a missão.
8. A fraternidade já é missão
Entretanto, o serviço apostólico dos Servos não começa somente quando os frades saem do convento para exercer alguma atividade pastoral.
A própria vida fraterna possui força evangelizadora.
As Constituições apresentam o apostolado dos Servos como uma extensão da fraternidade vivida na comunidade.
Isso significa que aquilo que anunciamos fora precisa possuir alguma correspondência com aquilo que procuramos viver dentro de casa.
Uma comunidade reconciliada anuncia reconciliação.
Uma comunidade acolhedora anuncia acolhimento.
Uma comunidade que sabe partilhar anuncia comunhão.
Uma comunidade marcada por divisões permanentes terá dificuldade para tornar crível sua mensagem de fraternidade.
Por isso, a vida comum não é apenas condição prática para a missão.
Ela própria possui valor apostólico.
9. Servir como Maria
Para os Servos de Maria, a missão possui inevitavelmente uma dimensão mariana.
As Constituições compreendem nosso serviço apostólico como prolongamento, na história, da presença atuante da Mãe de Jesus.
Maria é a Serva do Senhor.
Seu serviço manifesta-se em Nazaré, na visita a Isabel, em Caná, junto à Cruz e no Cenáculo.
Ela serve a Cristo e serve aos irmãos.
Seu Fiat torna-se disponibilidade.
Seu Stabat torna-se fidelidade.
Por isso, quando a comunidade discerne sua missão, Maria permanece diante dos Servos como imagem daquela disponibilidade que não procura a própria realização, mas se coloca inteiramente a serviço do projeto de Deus.
10. Maria no Capítulo
Embora os artigos constitucionais dedicados diretamente ao Capítulo não desenvolvam explicitamente sua dimensão mariana, Frei Clodovis propõe uma bela leitura espiritual.
Maria pode ser contemplada como presença discreta no meio da assembleia capitular.
Sua imagem mais significativa é aquela do Cenáculo.
Maria está entre os discípulos reunidos em oração, esperando com eles o Espírito Santo.
Assim também pode ser contemplada entre seus Servos reunidos em Capítulo.
Ela ensina a escutar.
Ensina a guardar a Palavra.
Ensina a discernir.
Ensina a servir.
Ensina a permanecer junto aos irmãos mesmo nos momentos difíceis.
Sua presença não necessita de grandes formalizações.
É uma presença discreta, materna e profundamente evangélica.
Podemos contemplá-la espiritualmente como aquela que já se encontra na sala quando seus Servos chegam para o Capítulo.
Não ocupa o lugar de Cristo.
Conduz os Servos a ele.
Como no Cenáculo, permanece com a comunidade em oração para que o Espírito Santo abra os corações e conduza o discernimento.
11. Um caminho de conversão comunitária
Celebrar um Capítulo significa aceitar que a comunidade ainda está a caminho.
Há sempre algo a agradecer.
Há sempre algo a corrigir.
Há sempre algo a discernir.
Há sempre alguém a escutar.
Há sempre uma necessidade à qual responder.
Por isso, o Capítulo não deveria terminar simplesmente com uma ata.
Deveria produzir frutos na vida.
A decisão escrita precisa tornar-se decisão vivida.
A correção precisa conduzir à reconciliação.
A programação precisa transformar-se em compromisso.
O discernimento precisa tornar-se missão.
E a Palavra escutada precisa continuar ressoando na vida cotidiana da fraternidade.
PARA O EXAME PESSOAL E COMUNITÁRIO
1. Nossos Capítulos começam verdadeiramente pela escuta de Deus ou entramos imediatamente nos problemas e assuntos administrativos?
2. A Palavra de Deus possui espaço real em nosso discernimento comunitário?
3. Nossos Capítulos ajudam a avaliar nossa fidelidade ao Evangelho e às Constituições?
4. Conseguimos falar com liberdade e escutar os irmãos com respeito?
5. Os irmãos participam efetivamente das decisões ou apenas alguns conduzem habitualmente toda a vida da comunidade?
6. As decisões capitulares são posteriormente assumidas por todos?
7. Temos coragem de praticar uma verdadeira revisão de vida e uma correção fraterna evangélica?
8. Nosso Capítulo ajuda a fortalecer a amizade fraterna?
9. As necessidades da Igreja, da Ordem e das pessoas ao nosso redor entram realmente em nosso discernimento?
10. Nossa fraternidade, por sua maneira de viver, constitui um testemunho evangelizador?
11. Maria, Mãe e Serva do Senhor, inspira nosso modo de escutar, discernir e servir?
12. Depois de nossos Capítulos, alguma coisa efetivamente muda em nossa vida?
PARA A PARTILHA
Cada irmão pode completar pessoalmente estas três frases:
Diante de Deus, nossa comunidade precisa...
Em nossa vida fraterna, precisamos...
Em nosso serviço à Igreja e ao mundo, precisamos...
Depois de um tempo de silêncio, as respostas podem ser partilhadas sem discussão imediata. Primeiro, cada irmão escuta o outro. Somente depois a comunidade procura reconhecer quais apelos aparecem com maior clareza.
SÍNTESE
O Capítulo pode ser compreendido por três movimentos:
DEUS
Escutamos a Palavra e procuramos sua vontade.
↓
IRMÃOS
Partilhamos a vida, avaliamos nossa caminhada e discernimos juntos.
↓
MUNDO
Reconhecemos as necessidades da Igreja e da humanidade e procuramos responder com nosso serviço.
Assim:
escuta → discernimento → comunhão → decisão → serviço.
ORAÇÃO
Senhor Jesus Cristo,
que prometestes permanecer
no meio dos discípulos reunidos em vosso nome,
fazei de nossos Capítulos
verdadeiros lugares de vossa presença.
Dai-nos um coração disponível
para escutar vossa Palavra,
humildade para acolher a palavra dos irmãos
e liberdade interior para procurar
não nossos próprios interesses,
mas aquilo que corresponde à vossa vontade.
Livrai-nos do individualismo,
da indiferença e da resistência ao diálogo.
Ensinai-nos a corrigir sem ferir,
a escutar sem julgar,
a decidir sem dominar
e a obedecer sem perder
a responsabilidade pessoal.
Fazei de nossas fraternidades
lugares de comunhão,
reconciliação e serviço.
Santa Maria,
Mãe e Serva do Senhor,
que permanecestes em oração
no meio dos discípulos reunidos no Cenáculo,
permanecei também entre nós.
Ensinai-nos vosso Fiat,
para acolher a vontade de Deus;
ensinai-nos vosso Stabat,
para permanecer fiéis nas dificuldades;
e ensinai-nos vosso serviço,
para levar Cristo aos irmãos.
Que cada Capítulo renove nossa fraternidade
e nos torne mais disponíveis
às necessidades da Igreja,
da Ordem e do mundo.
Amém.
Para guardar
O Capítulo não é apenas o lugar onde os Servos decidem o que fazer. É o lugar onde, reunidos em Cristo, procuram juntos compreender como viver o Evangelho.
Deus → irmãos → mundo.
Palavra → comunhão → serviço.
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