Da experiência de Deus à fraternidade que se torna missão
A evangelização não é uma atividade acrescentada exteriormente à vida do Servo de Maria. Ela nasce da própria vocação e da experiência de Deus vivida na fraternidade. Evangelizar significa permitir que o Evangelho transforme primeiramente a vida daquele que é enviado, para que sua presença, suas palavras, suas escolhas e seu serviço se tornem anúncio da Boa-Nova.
Por isso, falar de nova evangelização significa falar de uma espiritualidade para a ação no mundo de hoje. Não existe missão em abstrato. Toda evangelização acontece dentro de uma realidade histórica, cultural e humana concreta. O Servo de Maria é chamado a conhecer essa realidade, escutá-la e discerni-la à luz do Evangelho.
1. Das origens à missão
A experiência dos primeiros Padres da Ordem continua oferecendo uma chave para compreender a missão servita. Eles deixaram a agitação da cidade de Florença e encontraram no Monte Senário um lugar de silêncio, solidão, contemplação e fraternidade.
Ali aparecem três realidades fundamentais: a criação de Deus, o silêncio que favorece o encontro com Ele e a beleza da vida comunitária orientada por um mesmo ideal.
O afastamento do mundo, entretanto, não significava rejeição do mundo. A experiência contemplativa deveria amadurecer em serviço. O mesmo dinamismo permanece válido para o Servo de Maria: ele se recolhe para encontrar Deus e volta aos irmãos fortalecido para servi-los.
Assim, contemplação e ação não constituem dois caminhos opostos. A ação apostólica encontra sua verdade na contemplação, enquanto a contemplação autêntica abre os olhos para as necessidades dos irmãos.
2. A comunidade como sujeito da evangelização
As Constituições apresentam a missão fundamentalmente como responsabilidade da comunidade.
O Servo de Maria não é enviado como indivíduo isolado. Mesmo quando exerce pessoalmente determinado ministério, permanece membro de uma fraternidade que o sustenta, discerne com ele e participa de sua missão.
A própria comunidade torna-se anúncio.
Quando os irmãos conseguem viver relações marcadas pela comunhão, pelo perdão, pela responsabilidade partilhada e pelo serviço recíproco, tornam visível uma possibilidade evangélica de convivência humana.
Num mundo marcado por divisões de nacionalidade, cultura, religião, condição social e modos de pensar, a fraternidade servita possui, portanto, força evangelizadora.
A Ordem é chamada a estender sua fraternidade a todos.
Não se trata de apagar diferenças, mas de reconhecer os valores presentes nas pessoas e nas culturas e trabalhar para que diversidade, unidade e harmonia possam coexistir.
3. Maria no caminho da evangelização
Maria ocupa um lugar decisivo nessa compreensão da missão.
Ela aparece como mulher da fé, discípula, Mãe, intercessora e presença que acompanha a comunidade dos discípulos. Sua presença no Cenáculo oferece uma imagem particularmente significativa para a vida servita.
Depois da Páscoa, os discípulos encontram-se reunidos em oração. Maria permanece entre eles. Sua presença ajuda a compreender a comunidade como lugar no qual a esperança é conservada, a fé é fortalecida e os discípulos se preparam para receber o Espírito e partir em missão.
Assim também deveriam ser nossas comunidades: cenáculos nos quais se reza, se partilha a fé, se recupera a esperança e se recebe força para a missão.
Maria ensina ainda a perseverança.
Na Anunciação, na fuga para o Egito, durante o ministério de Jesus, aos pés da Cruz e na espera do Espírito Santo, sua fé permanece firme.
O Servo de Maria encontra nela uma escola de fidelidade apostólica.
Evangelizar exige a mesma confiança: permanecer quando surgem dificuldades, conservar a esperança diante da aparente esterilidade e continuar acreditando que Deus conduz sua obra.
4. Estar junto às cruzes do mundo
Seguir Cristo significa tomar diariamente a própria cruz.
Para o Servo de Maria, essa palavra adquire uma ressonância particular por causa de sua relação espiritual com Maria aos pés da Cruz.
Contemplar a Virgem junto ao Crucificado não pode permanecer somente um exercício devocional. Essa contemplação conduz o Servo a reconhecer as cruzes presentes na história.
Por isso, somos chamados a permanecer junto daqueles que experimentam sofrimento, abandono, injustiça, pobreza, solidão e exclusão.
A compaixão torna-se missão.
Não basta falar sobre o sofrimento humano à distância. O Evangelho pede proximidade.
A espiritualidade servita encontra aqui uma de suas expressões mais profundas: estar com Maria junto às inúmeras cruzes onde Cristo continua sofrendo em seus irmãos e irmãs.
5. Evangelizar o homem e a criação
A missão não se limita às necessidades explicitamente religiosas.
A criação inteira pertence ao projeto de Deus.
O cuidado da casa comum integra, portanto, a responsabilidade do evangelizador. O Servo de Maria é chamado a contemplar a criação como dom e a ajudar as comunidades a desenvolver responsabilidade diante da destruição ambiental.
A própria tradição da Ordem oferece uma imagem sugestiva: o Monte Senário.
A montanha, a floresta, o silêncio e a simplicidade recordam que a experiência espiritual dos primeiros Padres aconteceu também em profunda relação com a criação.
Essa sensibilidade precisa encontrar novas formas no presente.
Evangelizar significa também formar consciências capazes de cuidar da terra, dos pobres e das gerações futuras.
6. Conhecer aqueles a quem somos enviados
A missão exige preparação.
As Constituições insistem na necessidade de o frade conhecer a língua, a cultura e os costumes do lugar onde exerce seu ministério.
Esse princípio continua extremamente atual.
Não podemos anunciar o Evangelho ignorando a história das pessoas. Antes de falar, é necessário escutar.
O Servo enviado a uma comunidade precisa perguntar:
Quem são estas pessoas?
Quais são suas alegrias?
Quais são suas feridas?
Que valores existem em sua cultura?
Quais são suas perguntas?
Onde Deus já está agindo entre elas?
A evangelização começa com essa atitude de respeito e proximidade.
O missionário não leva Deus para um lugar onde Deus não estava. Ele procura reconhecer a presença de Deus que já precede sua chegada e coloca-se a serviço dessa ação.
7. Formação permanente para uma realidade que muda
Uma sociedade em transformação exige evangelizadores dispostos a aprender continuamente.
A formação recebida nos primeiros anos da vida religiosa não é suficiente para toda a existência.
Cada Servo precisa atualizar sua preparação humana, bíblica, teológica, pastoral e cultural.
Essa atualização não deve ser entendida apenas como aquisição de conhecimentos. Trata-se também de desenvolver capacidade de escuta, discernimento e diálogo.
É necessário aprender a falar a linguagem dos contemporâneos sem perder a identidade do Evangelho.
A fidelidade ao carisma não significa repetir mecanicamente métodos utilizados no passado. A fidelidade verdadeira procura descobrir como o mesmo espírito pode produzir respostas novas diante de situações novas.
8. Evangelizar com alegria
A missão cristã nasce da alegria de ter encontrado Cristo.
Por isso, a evangelização não pode transformar-se em imposição ou peso.
Os sacramentos, a pregação, o acompanhamento espiritual e toda atividade pastoral deveriam ajudar as pessoas a experimentar a misericórdia de Deus.
A comunidade servita deve tornar-se lugar de acolhida.
Ao longo da história, igrejas, conventos e santuários confiados aos Servos de Maria acolheram homens e mulheres que buscavam consolo, oração, reconciliação e esperança.
Essa tradição permanece profundamente atual.
Nossas casas deveriam permitir que quem chega encontre não somente estruturas, mas irmãos disponíveis para escutar e servir.
9. A Família Servita participa da missão
A evangelização não pertence exclusivamente aos frades.
As Constituições reconhecem a realidade mais ampla que cresceu em torno do carisma: religiosas, institutos, associações, movimentos e grupos leigos ligados à espiritualidade servita.
Essa realidade manifesta que o carisma de servir com Maria pertence à Igreja.
Por isso, a missão deve favorecer verdadeira colaboração.
Os leigos não são simplesmente auxiliares das atividades dos religiosos. Pelo Batismo, participam plenamente da missão evangelizadora da Igreja e podem expressar o carisma servita nos ambientes onde vivem: família, trabalho, educação, cultura, sociedade e serviço aos pobres.
A Família Servita torna-se assim uma rede de fraternidade e missão.
10. Um método servita de missão
A reflexão sobre a nova evangelização pode ser traduzida em alguns critérios concretos para nossas comunidades.
Primeiro: preparar-se.
Nenhuma missão deveria ser assumida superficialmente. É necessário conhecer a realidade e adquirir preparação adequada.
Segundo: planejar comunitariamente.
A missão deve ser discernida com os irmãos. A comunidade pergunta o que Deus espera dela naquele lugar e naquele momento.
Terceiro: reconhecer as necessidades reais.
Não devemos simplesmente repetir atividades porque sempre foram realizadas. É preciso perguntar quais são hoje as necessidades espirituais, humanas e sociais das pessoas.
Quarto: trabalhar com os leigos.
A missão cresce quando responsabilidades são compartilhadas e diferentes vocações colocam seus dons a serviço do Evangelho.
Quinto: evangelizar também através das famílias.
A família permanece espaço fundamental de transmissão da fé, de formação humana e de solidariedade.
Sexto: avaliar.
Toda atividade pastoral precisa ser periodicamente examinada. Devemos perguntar se aquilo que fazemos realmente serve ao Evangelho e às pessoas.
Sétimo: colaborar.
Nenhuma comunidade possui todos os dons. A cooperação com outras comunidades religiosas e outras instituições eclesiais amplia as possibilidades da missão.
Oitavo: caminhar com a Igreja local.
A missão servita não acontece paralelamente à Igreja. O carisma é um dom colocado a serviço da comunhão e da missão eclesial.
Conclusão
A nova evangelização começa antes das palavras.
Começa quando um homem se deixa encontrar por Deus.
Continua quando esse homem aceita viver com irmãos.
Amadurece quando a fraternidade aprende a olhar para além de si mesma.
E torna-se missão quando os Servos deixam suas seguranças e caminham para onde o sofrimento, a esperança e a busca de Deus os chamam.
O movimento é semelhante ao experimentado pelos primeiros Padres:
da cidade ao Monte;
do ruído ao silêncio;
do silêncio à comunhão;
da comunhão novamente ao mundo.
Maria acompanha todo esse caminho.
Ela reúne os discípulos, conserva a esperança, permanece junto à Cruz e espera com eles o Espírito.
Por isso, a comunidade servita pode contemplar no Cenáculo uma imagem de sua própria vocação: irmãos reunidos com Maria, fortalecidos pelo Espírito e enviados ao mundo para prolongar a fraternidade, servir os que sofrem e anunciar, com a vida, a esperança do Evangelho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu comentário: sua colaboração edificará tantas almas sedentas de Deus e nos fará cada vez mais servos uns dos outros.