Maria, humilde Serva elevada pela graça de Deus
Série: As Ladainhas de Nossa Senhora
A Ladainha Lauretana entra agora numa nova sequência:
Rainha dos Anjos, rogai por nós.
Depois virão:
Rainha dos Patriarcas,
Rainha dos Profetas,
Rainha dos Apóstolos,
Rainha dos Mártires,
Rainha dos Confessores da fé,
Rainha das Virgens,
Rainha de todos os Santos.
Antes de contemplarmos cada um desses títulos, precisamos fazer uma pergunta fundamental:
Por que chamamos Maria de Rainha?
Cristo é Rei
Toda resposta começa em Jesus.
Maria é Rainha porque Cristo é Rei.
O anjo Gabriel anuncia a Maria:
“O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.”
Jesus é o Rei.
O Filho de Deus.
O Senhor.
O Redentor.
Toda dignidade de Maria depende dele.
Maria não é uma rainha ao lado de Cristo
Precisamos deixar isso muito claro.
A fé cristã não apresenta dois soberanos celestes.
Cristo de um lado.
Maria do outro.
Não.
Existe um único Senhor.
Jesus Cristo.
Maria pertence inteiramente a Ele.
Sua grandeza vem da graça.
A Rainha é a Serva
Aqui encontramos um dos paradoxos mais belos da espiritualidade mariana.
Aquela que a Igreja chama de Rainha do céu apresentou-se como:
“a serva do Senhor.”
Maria não procurou um trono.
Ofereceu disponibilidade.
Não pediu uma coroa.
Disse:
“Faça-se em mim segundo a tua palavra.”
O caminho para a glória passa pelo serviço
Isso é profundamente evangélico.
Jesus ensina:
“Quem quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que serve.”
Maria viveu essa lógica.
Serviu.
E Deus a exaltou.
O Magnificat já anuncia isso
Maria canta:
“Olhou para a humildade de sua serva.”
E depois:
“Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes.”
Sua própria história torna-se sinal daquilo que ela canta.
A humilde serva é elevada pela graça de Deus.
Rainha porque Mãe do Rei
A tradição cristã reconheceu uma razão fundamental para a realeza de Maria:
ela é a Mãe do Rei.
O Filho que recebeu dela a natureza humana é o Filho eterno do Pai.
O menino que ela carregou nos braços é aquele diante de quem toda criação se inclina.
E os anjos?
É aqui que compreendemos a primeira invocação:
Rainha dos Anjos.
Os anjos aparecem repetidamente na história de Maria.
Na Anunciação.
No nascimento de Cristo.
Na fuga para o Egito.
Na Ressurreição do Senhor.
Maria vive cercada pelo mistério da ação de Deus, da qual os anjos são servidores.
Gabriel entra em Nazaré
A cena é extraordinária.
Um anjo é enviado por Deus.
Gabriel.
Ele entra numa casa simples de Nazaré.
E saúda uma jovem:
“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo.”
A história parece inverter nossas expectativas.
O mensageiro celeste aproxima-se da humilde jovem para anunciar que Deus deseja realizar nela o mistério da Encarnação.
O anjo anuncia
Gabriel não vem exaltar Maria por si mesma.
Vem anunciar Jesus.
Toda a cena está orientada para Cristo.
“Conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus.”
Até a saudação angélica conduz ao Filho.
Maria escuta
Talvez seja importante observar isto.
O anjo fala.
Maria escuta.
Pergunta.
Discernindo, responde.
A grandeza de Maria não está em possuir todas as respostas.
Está em colocar sua liberdade diante de Deus.
“Faça-se”
Então pronuncia a palavra que muda a história:
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”
O anjo parte.
Mas começa algo incomparavelmente maior:
o Verbo se faz carne.
Os anjos contemplam um mistério
Aquele a quem os anjos servem torna-se homem.
O Criador entra na criação.
O eterno entra no tempo.
O invisível torna-se visível.
E tudo isso acontece no ventre de Maria.
Em Belém
Depois, os anjos reaparecem.
Desta vez aos pastores.
Anunciam:
“Hoje nasceu para vós um Salvador, que é Cristo Senhor.”
E uma multidão do exército celeste canta:
“Glória a Deus nas alturas.”
Maria contempla em silêncio
Os anjos cantam.
Os pastores contam.
Maria guarda.
O Evangelho diz:
“Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no coração.”
A Rainha dos Anjos é também a mulher do silêncio contemplativo.
Uma lição para nossa oração
Vivemos cercados por muitas palavras.
Notificações.
Mensagens.
Informações.
Opiniões.
Maria ensina que existe uma sabedoria que somente nasce quando conseguimos guardar alguma coisa no coração.
Rainha dos Anjos não significa deusa
Isso precisa ser dito com clareza catequética.
Maria é criatura.
Os anjos também são criaturas.
Somente Deus é Deus.
Maria não recebe adoração.
A adoração pertence exclusivamente à Santíssima Trindade.
Nós a veneramos porque contemplamos nela a obra extraordinária da graça.
Tudo é graça
Quanto mais contemplamos Maria, menos espaço deveria existir para atribuir-lhe uma grandeza independente de Deus.
Ela mesma canta:
“O Todo-Poderoso fez em mim grandes coisas.”
Não diz:
“Eu fiz grandes coisas.”
Diz:
Ele fez.
A santidade reconhece a origem do dom
Isso vale também para nós.
Nossos dons.
Nosso ministério.
Nossa inteligência.
Nossa capacidade pastoral.
Nossa vocação.
Tudo é graça.
Podemos cooperar.
Precisamos responder.
Mas a origem permanece em Deus.
A Rainha que não busca privilégios
Nosso conceito humano de realeza está frequentemente associado a privilégios.
No Evangelho, acontece o contrário.
Aquela que chamamos Rainha vive uma existência simples.
Nazaré.
Trabalho.
Viagens.
Preocupações.
Pobreza.
Cruz.
Sua coroa passa pelo Calvário
Não podemos compreender a Rainha dos Anjos sem Nossa Senhora das Dores.
A mulher exaltada no céu é a mesma que permaneceu:
junto à Cruz.
Para nós, Servos de Maria, isso é fundamental.
A glória de Maria não apaga suas dores.
Mostra que a fidelidade vivida na dor desemboca na vida.
Da espada à glória
Simeão havia anunciado:
“Uma espada traspassará tua alma.”
A tradição cristã contempla depois Maria na glória.
Há uma profunda esperança nessa passagem.
A dor não possui a última palavra.
A Assunção
Na Assunção contemplamos a plenitude dessa esperança.
Maria é recebida na glória de Deus.
Aquilo que esperamos para toda a Igreja já resplandece nela.
Não porque Maria deixe de ser criatura.
Mas porque a graça de Cristo realiza nela plenamente sua obra.
A Rainha é nossa irmã
Isso torna tudo ainda mais bonito.
Aquela que contemplamos entre os anjos pertence à nossa humanidade.
É uma de nós.
Uma filha de Adão.
Uma mulher de Nazaré.
Nela vemos aquilo que a graça deseja realizar na humanidade redimida.
Não fomos criados para a morte
Maria glorificada recorda-nos nossa vocação.
Fomos criados para Deus.
Para a comunhão.
Para a santidade.
Para a vida.
A morte não é o destino definitivo da criatura humana.
Uma palavra para os jovens
Talvez um jovem imagine a santidade como algo distante.
Reservado a pessoas extraordinárias.
Maria mostra outro caminho.
Tudo começa com uma pergunta muito concreta:
“O que Deus deseja de mim?”
E depois:
“Tenho coragem de responder?”
Gabriel ainda anuncia
Não veremos necessariamente um anjo.
Mas Deus continua chamando.
Através da Palavra.
Da Igreja.
De pessoas.
De acontecimentos.
De desejos profundos colocados no coração.
A vocação começa quando aprendemos a escutar.
Os anjos e a vocação
Na Bíblia, os anjos são mensageiros.
A palavra “anjo” significa justamente isso.
Mensageiro.
Talvez esta invocação nos faça perguntar:
Que mensagem de Deus preciso acolher neste momento?
Uma palavra para os formadores
Não somos donos da vocação de ninguém.
Somos servidores do discernimento.
Gabriel apresenta a mensagem de Deus.
Mas respeita a resposta de Maria.
Depois:
o anjo retira-se.
Há uma grande pedagogia nisso.
A liberdade precisa responder
O acompanhamento vocacional não substitui a liberdade.
Pode iluminar.
Ajudar.
Questionar.
Discernir.
Mas chega um momento em que o jovem precisa responder pessoalmente:
“Eis-me aqui.”
Uma palavra para nossas comunidades
Maria Rainha dos Anjos pode ajudar-nos também a redescobrir a dimensão contemplativa de nossa vida.
Não somos apenas trabalhadores pastorais.
Somos religiosos.
Homens chamados a buscar Deus.
A oração não é intervalo entre atividades.
É parte essencial de nossa identidade.
A liturgia nos une ao céu
Quando celebramos a Eucaristia, nossa oração não está isolada.
A liturgia une a Igreja peregrina à Igreja celeste.
Por isso rezamos:
“com os Anjos e todos os Santos, proclamamos vossa glória.”
Nossa pequena igreja abre-se para o céu.
Quando cantamos o Santo
“Santo, Santo, Santo.”
Não estamos inventando um canto comunitário.
Entramos na grande liturgia do céu.
Anjos.
Santos.
Igreja peregrina.
Todos voltados para Deus.
Maria está entre os adoradores
Isso é importante.
Maria não é o centro da liturgia celeste.
Deus é o centro.
Maria está entre aqueles que glorificam o Senhor.
Rainha, sim.
Mas criatura redimida.
Serva glorificada.
A verdadeira devoção leva à adoração
Este pode ser um critério simples.
Se nossa devoção mariana é saudável, ela nos conduz a:
amar mais Jesus,
escutar mais a Palavra,
participar melhor da Eucaristia,
servir mais os irmãos,
adorar mais profundamente a Deus.
Se termina apenas em Maria, algo está incompleto.
Os anjos servem
Existe ainda uma bela aproximação com nosso nome.
Os anjos são servidores de Deus.
Maria chama a si mesma serva do Senhor.
Nós somos Servos de Maria.
Tudo converge para o serviço.
Realeza e serviço
No Reino de Deus, essas duas palavras não são opostas.
Quem reina com Cristo aprende a servir.
Jesus, o Rei, lava os pés dos discípulos.
Maria, a Rainha, vai servir Isabel.
Depois da Anunciação, Maria parte
Esse detalhe é belíssimo.
O anjo anuncia que Isabel precisa de ajuda.
Maria recebe Jesus.
E imediatamente:
“levantou-se e foi às pressas.”
A contemplação transforma-se em serviço.
O encontro com Deus põe-nos em movimento
Esta deveria ser também nossa experiência.
Rezamos.
Celebramos.
Contemplamos.
E depois servimos.
Uma oração que nunca se transforma em caridade ainda não amadureceu completamente.
Para nós, Servos de Maria
A primeira das invocações de Maria como Rainha oferece quase um programa.
Humildade.
Escuta.
Disponibilidade.
Contemplação.
Serviço.
Fidelidade junto à Cruz.
Esperança na glória.
Tudo isso pertence profundamente à nossa vocação.
Nossa Senhora não nos afasta da terra
Quanto mais a contemplamos na glória, mais somos enviados aos irmãos.
Maria Rainha não nos convida a escapar do mundo.
Convida-nos a viver no mundo segundo a lógica do Reino de seu Filho.
Qual é essa lógica?
O maior serve.
O primeiro torna-se último.
O forte cuida do fraco.
Quem recebeu gratuitamente oferece gratuitamente.
Quem foi perdoado aprende a perdoar.
Quem encontrou Cristo leva Cristo aos outros.
Uma Rainha diferente
Talvez seja esta a maior beleza do título.
Maria é Rainha sem deixar de ser serva.
Glorificada sem deixar de ser humilde.
Elevada sem deixar de apontar para Deus.
Coroada sem deixar de conduzir-nos a Jesus.
Uma pergunta para o coração
Diante desta invocação podemos perguntar:
Que ideia de grandeza existe dentro de mim?
Ser reconhecido?
Possuir autoridade?
Ter razão?
Ocupar uma função?
Ou servir?
Maria oferece outro critério:
“Eis aqui a serva do Senhor.”
E uma segunda pergunta
O que Deus está me pedindo hoje?
Talvez não seja algo extraordinário.
Talvez seja:
escutar alguém,
perdoar,
rezar com mais fidelidade,
servir um irmão,
aceitar uma mudança,
cumprir bem uma responsabilidade.
A santidade começa em respostas concretas.
Oração
Rainha dos Anjos,
humilde Serva do Senhor,
você acolheu a mensagem de Gabriel
e entregou sua liberdade
ao projeto de Deus.
Ensine-nos a escutar.
No meio de tantas vozes,
ajude-nos a reconhecer
a Palavra que vem do Senhor.
Quando Deus nos chamar,
dê-nos coragem para responder:
“Eis-me aqui.”
Livre-nos de procurar grandeza
nos privilégios,
no reconhecimento
ou no poder.
Ensine-nos a compreender
que no Reino de seu Filho
a verdadeira grandeza é servir.
Aos jovens que procuram sua vocação,
dê silêncio interior
para escutar o chamado de Deus.
Aos formadores,
conceda respeito
pela liberdade daqueles
que lhes são confiados.
Aos nossos irmãos idosos,
dê a alegria de contemplar
cada vez mais de perto
a esperança da vida eterna.
Às nossas comunidades,
conceda espírito de oração,
amor à liturgia
e consciência de que nossa vida
está aberta para o céu.
A nós, Servos de Maria,
ensine a unir contemplação e serviço.
Que depois de encontrar Cristo
na oração e na Eucaristia,
nos levantemos como você
e partamos ao encontro
de quem necessita de nós.
Quando contemplarmos sua coroa,
recorde-nos sua palavra:
“Eis aqui a serva do Senhor.”
Quando a chamarmos Rainha,
faça-nos olhar para Jesus,
o Rei dos reis e Senhor dos senhores.
E quando cantarmos com os anjos,
ensine-nos a unir nossa voz
ao louvor de toda a criação:
Santo, Santo, Santo
é o Senhor Deus do universo.
Rainha dos Anjos, rogai por nós.
Para guardar no coração
Maria é Rainha porque pertence inteiramente a Cristo Rei. Sua coroa não contradiz sua humildade: revela aquilo que Deus realiza na serva que se entrega completamente a Ele. Rainha dos Anjos, ela continua dizendo à Igreja que a verdadeira grandeza do Reino é escutar, servir e conduzir tudo para Deus.
Fontes
Sagrada Escritura, especialmente Lc 1,26-55; Lc 2,8-20; Jo 19,25-27; Ap 5,11-14.
Pio XII, Carta Encíclica Ad Caeli Reginam, 11 de outubro de 1954, especialmente sobre a maternidade divina e a dignidade régia de Maria.
Pio XII, Radiomensagem aos fiéis portugueses por ocasião da coroação de Nossa Senhora de Fátima, 13 de maio de 1946.
Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, especialmente nn. 59, 62 e 66.
Ladainha Lauretana, formulário oficial da Santa Sé.
Texto preparado para a série “As Ladainhas de Nossa Senhora”, do Somos Servos.
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