Necrológio
Frei André M. Ficarelli, OSM, cujo nome de batismo era Nicodemos, pertenceu à geração de Servos de Maria italianos que dedicou grande parte da própria existência à missão no Brasil, particularmente à Igreja do Acre. Missionário, superior religioso, colaborador episcopal e homem dotado de grande capacidade prática, deixou marcas profundas na história da Ordem e da Igreja acreana.
Infância e vocação
Nicodemos Ficarelli nasceu em 12 de outubro de 1922, em San Donnino di Casalgrande, Reggio Emilia, Itália, filho de Armando Ficarelli e Lavinia Morini.
Ingressou ainda jovem na Ordem dos Servos de Maria e iniciou o noviciado em Montefano, no dia 29 de setembro de 1939.
Fez a primeira profissão religiosa em 6 de outubro de 1940 e, posteriormente, a profissão solene em 28 de fevereiro de 1944, em Reggio Emilia.
Realizou os estudos filosóficos entre 1941 e 1944 e prosseguiu sua formação teológica em Roma, entre 1945 e 1948.
Foi ordenado sacerdote em Roma, no dia 27 de março de 1948.
Missionário no Brasil
Em 1950, Frei André veio para o Brasil.
Sua primeira grande experiência missionária ficou ligada ao Acre, particularmente a Rio Branco, onde passou a participar daquela extraordinária experiência evangelizadora desenvolvida pelos Servos de Maria na Amazônia.
O Acre se tornaria uma das referências fundamentais de sua vida.
Ali conheceu de perto as enormes distâncias, as dificuldades materiais, a precariedade das estruturas e, ao mesmo tempo, o crescimento progressivo das comunidades cristãs.
Serviço à Província Brasileira
Entre 1967 e 1970, Frei André esteve em São Paulo.
Com a consolidação da Província Brasileira dos Servos de Maria, recebeu importantes responsabilidades de governo e tornou-se Prior Provincial.
Durante seu serviço à frente da Província, esteve também ligado ao nascimento do boletim Inter Nos, que se tornaria um dos principais instrumentos de comunicação e memória histórica dos Servos de Maria no Brasil.
Essa dimensão é particularmente significativa: Frei André não apenas participou da história da Província, mas contribuiu para que essa história fosse registrada e transmitida.
Serviço à Ordem
Em 1971, participou do Capítulo Geral da Ordem realizado em Opatija.
Naquela ocasião foi chamado a um serviço de âmbito mais amplo e tornou-se Conselheiro Geral da Ordem dos Servos de Maria.
Transferiu-se para Roma e exerceu essa responsabilidade até 1977, colaborando diretamente no governo geral da Ordem.
Terminada essa missão, regressou ao Brasil.
O retorno ao Acre
Em 1978, Frei André retornou a Rio Branco.
No ano seguinte assumiu outra importante responsabilidade: entre 1979 e 1984, exerceu o serviço de Vigário Provincial para o Acre.
Era um período de transformação da presença servita na região e de amadurecimento da Igreja local. Frei André participou intensamente desse processo.
Ao lado da Igreja acreana
Sua colaboração com a Igreja do Acre ultrapassou as responsabilidades internas da Ordem.
Durante mais de vinte anos, Frei André exerceu o serviço de Vigário Geral da Prelazia e, posteriormente, da Diocese, tornando-se um dos colaboradores próximos de Dom Moacyr M. Grechi, OSM.
Exerceu também o ministério de pároco da Catedral Nossa Senhora de Nazaré, em Rio Branco.
Sua experiência, prudência e profundo conhecimento da realidade acreana fizeram dele uma presença importante na organização pastoral daquela Igreja.
O missionário que sabia construir
Frei André possuía também grande habilidade prática.
A missão amazônica exigia religiosos capazes de fazer muito mais do que aquilo normalmente associado ao ministério sacerdotal. Era necessário organizar, construir, administrar e encontrar soluções concretas diante de recursos limitados.
Frei André colocou essa capacidade a serviço de diversas obras.
Seu nome ficou ligado a trabalhos relacionados à Catedral Nossa Senhora de Nazaré, à residência episcopal, ao Colégio Nossa Senhora das Dores, ao Hospital Santa Juliana, à Galeria Meta e ao Centro de Treinamento.
Por isso, sua memória está inscrita não somente nos documentos eclesiais, mas também em estruturas que acompanharam o desenvolvimento da Igreja acreana.
Uma vida entre a Ordem e a missão
A trajetória de Frei André reuniu dimensões muito diferentes da vocação servita.
Foi missionário na Amazônia, Prior Provincial, Conselheiro Geral da Ordem, Vigário Provincial, Vigário Geral da Igreja local, pároco e colaborador próximo de seus bispos.
Apesar das responsabilidades assumidas, sua história permaneceu profundamente vinculada à missão.
O Acre não foi simplesmente um lugar de trabalho. Tornou-se a terra à qual dedicou grande parte de sua vida religiosa e sacerdotal.
A última passagem
Frei André M. Ficarelli faleceu em Rio Branco, no dia 3 de setembro de 2015, aos 92 anos de idade, depois de aproximadamente 74 anos de profissão religiosa e mais de 67 anos de sacerdócio.
As exéquias foram celebradas no dia 4 de setembro de 2015.
A celebração foi presidida por Dom Moacyr M. Grechi, OSM, com a presença de Dom Joaquín Pertíñez Fernández, OAR, do Prior Provincial Frei Paulo M. Angeloni, OSM, de confrades Servos de Maria, sacerdotes, religiosos, religiosas e numerosos fiéis.
Seu corpo foi sepultado no Cemitério São João Batista, em Rio Branco.
Ali permaneceu, definitivamente, na terra à qual havia oferecido tantos anos de sua existência.
Memória
Recordar Frei André M. Ficarelli significa recordar uma parte importante da história dos Servos de Maria no Brasil e da Igreja no Acre.
Sua vida atravessou continentes, responsabilidades e profundas mudanças eclesiais. Da Itália ao Brasil, do Acre a Roma e novamente ao Acre, permaneceu fundamentalmente um Servo de Maria a serviço da Igreja.
Missionário, construtor, administrador e religioso, ajudou a edificar comunidades, instituições e estruturas. Mas sua herança mais profunda permanece na história das pessoas e das comunidades que acompanhou.
Frei André M. Ficarelli, OSM
12 de outubro de 1922 – 3 de setembro de 2015
Somos Servos — Memória histórica da Ordem dos Servos de Maria
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