15/09/2026

Servo de Deus Frei Egídio Maria Moscini, OSM

 

Religioso professo da Ordem dos Servos de Maria

Patrono do Agricultor Familiar Brasileiro


Valentano, Itália, 4 de fevereiro de 1884 — Turvo, SC, 25 de agosto de 1976


Um irmão que fez da vida um serviço


Frei Egídio Maria Moscini foi um irmão religioso da Ordem dos Servos de Maria (OSM) cuja longa existência foi marcada pela oração, pelo trabalho, pela simplicidade e pelo serviço.


Seu nome de batismo era Vincenzo Moscini.


Nasceu em 4 de fevereiro de 1884, em Valentano, Itália, filho de Angelo Moscini e Annunziata Ortolani.


Foi batizado em 10 de fevereiro de 1884, na igreja paroquial de São João Evangelista, em Valentano, pelo Pe. Giuseppe Peppinielli.


Desde menino conheceu o trabalho agrícola junto de sua família. A ligação com a terra permaneceria como uma das marcas de toda a sua existência.


Servo de Santa Maria


Desejando consagrar sua vida a Deus, Vincenzo procurou inicialmente os Dominicanos. Não tendo sido possível sua admissão naquele momento, abriu-se para ele outro caminho.


Em 3 de novembro de 1904, foi recebido como postulante leigo pelos Servos de Maria na comunidade de Orvieto.


Depois de passar por diferentes comunidades, iniciou o noviciado em 8 de dezembro de 1908, no convento de São Filipe, em Montefano.


Recebeu o hábito dos Servos de Maria e um novo nome:


Frei Egídio.


Emitiu os primeiros votos em 10 de dezembro de 1909.


Seu mestre de formação, Frei Amadio M. Tinti, deixou dele um retrato que parece antecipar toda a sua vida: um homem silencioso, amante da paz, assíduo e constante no trabalho.


Em 26 de janeiro de 1920, no convento de Santa Maria in Via, em Roma, Frei Egídio realizou sua profissão solene como irmão converso, consagrando definitivamente sua vida a Deus na Ordem dos Servos de Maria.


Missionário no Brasil


Em 1920, Frei Egídio conheceu Dom Próspero M. Bernardi, OSM, primeiro bispo da Prelazia do Alto Acre e Alto Purus.


Manifestou então o desejo de partir para as missões.


Foi incluído no segundo grupo de Servos de Maria destinado ao Acre.


Partiu de Newport, Inglaterra, em 12 de julho de 1921. Chegou a Belém em 25 de julho e, depois de uma longa viagem, alcançou Rio Branco em 25 de setembro de 1921.


Nunca mais retornaria à Itália.


O Brasil se tornaria sua nova terra.


Doze anos no Acre


Frei Egídio viveu aproximadamente doze anos na missão amazônica.


Entre 1921 e 1927, esteve em Rio Branco, servindo principalmente como sacristão e cozinheiro.


De 1928 a 1933, viveu em Sena Madureira, onde, entre outros serviços, preparava a alimentação e fazia o pão para os confrades.


Em 1933, permaneceu aproximadamente cinco meses em Xapuri, novamente exercendo o humilde serviço da cozinha.


Sua missão não se realizava através do ministério sacerdotal.


Frei Egídio não era sacerdote.


Era irmão religioso.


Evangelizava através da fidelidade, do trabalho, da oração e do serviço à comunidade.


Rio de Janeiro e Araranguá


Em 1933, deixou o Acre e foi destinado ao Rio de Janeiro.


Permaneceu ali até 1947, servindo a comunidade dos Servos de Maria principalmente como cozinheiro.


Naquele ano foi transferido para Araranguá, Santa Catarina.


Ali foi catequista, sacristão e cozinheiro.


Entre os jovens que receberam sua catequese estava Moacyr Grechi, que posteriormente ingressaria nos Servos de Maria, seria ordenado sacerdote e se tornaria bispo de Rio Branco e arcebispo de Porto Velho.


Turvo


Em 1952, Frei Egídio foi enviado para o Seminário dos Servos de Maria de Turvo.


Tinha 68 anos.


Ali começou a etapa de sua vida que ficaria mais profundamente gravada na memória do povo.


Voltava, de certo modo, às próprias raízes.


Cuidava da terra.


Trabalhava na horta.


Cultivava alimentos.


Cuidava dos animais.


Preparava o pão.


Ajudava a sustentar a vida cotidiana do Seminário.


E rezava.


Rezava especialmente pela perseverança dos sacerdotes e pelas novas vocações.


Seu trabalho era tão importante para a vida da casa que chegou a ser recordado como a:


“espinha dorsal do Seminário”.


Trabalho e oração


Essas duas palavras talvez resumam sua espiritualidade:


trabalho e oração.


Frei Egídio não realizou sua vocação através de grandes cargos ou obras que levassem seu nome.


Serviu.


A cozinha tornou-se lugar de serviço.


A horta tornou-se lugar de serviço.


A sacristia tornou-se lugar de serviço.


O pão tornou-se serviço.


A oração tornou-se serviço.


Sua vida mostra a dignidade própria da vocação do irmão religioso.


Sua consagração não dependia do sacerdócio ministerial. Estava enraizada no Batismo e levada à plenitude através da profissão religiosa.


Um Servo de Maria


Há também uma profunda dimensão mariana em sua existência.


Frei Egídio pertencia a uma família religiosa que desde suas origens deseja viver como Servos de Santa Maria.


Sua espiritualidade não precisou de gestos espetaculares.


A exemplo da Virgem, procurou estar disponível.


Servir.


Guardar.


Permanecer.


Trabalhar silenciosamente.


A tradição conservada em torno de sua memória associa sua oração também à espiritualidade de Nossa Senhora das Dores, tão querida à Ordem dos Servos de Maria.


25 de agosto de 1976


Frei Egídio permaneceu em Turvo até o fim da vida.


Assistido pelos confrades e depois de receber os santos Sacramentos, faleceu em 25 de agosto de 1976, aos 92 anos.


Seu corpo foi sepultado na capela dos Servos de Maria no cemitério de Turvo.


Muitas pessoas de Turvo e das localidades vizinhas participaram de seu funeral.


Mas sua morte não significou o desaparecimento de sua memória.


“O povo o considerava um santo”


Depois de sua morte permaneceu entre aqueles que o haviam conhecido uma forte fama de santidade.


O povo recordava o irmão humilde.


O homem da oração.


O trabalhador.


O religioso simples.


O amigo das vocações.


Durante décadas essa memória foi transmitida entre confrades, antigos seminaristas e famílias da região.


Dom Moacyr M. Grechi, OSM, tornou-se posteriormente um dos grandes incentivadores para que essa fama de santidade fosse apresentada formalmente à Igreja.


Aos poucos, a memória começou a transformar-se em pesquisa.


Documentos foram procurados.


Testemunhos começaram a ser considerados.


A biografia foi reconstruída.


A Causa de Beatificação e Canonização


O trabalho de preparação desenvolveu-se durante vários anos.


Em 5 de setembro de 2023, a Santa Sé concedeu o Nihil Obstat, registrado sob o Protocolo nº 3691.


Em 7 de julho de 2024, em Turvo, realizou-se a sessão pública de abertura da fase diocesana da Causa de Beatificação e Canonização.


A partir desse processo eclesial, Frei Egídio é apresentado como:


Servo de Deus Frei Egídio Maria Moscini, OSM.


A Causa encontra-se na fase diocesana, dedicada à investigação histórica e testemunhal de sua vida, virtudes e fama de santidade.


O título de Servo de Deus não constitui uma declaração antecipada de santidade.


A Igreja investiga.


Reúne documentos.


Ouve testemunhas.


Examina sua vida.


E procura chegar à verdade sobre a maneira como Frei Egídio viveu sua vocação cristã e religiosa.


Patrono do Agricultor Familiar Brasileiro


Outro reconhecimento importante ocorreu no âmbito civil.


A Lei Federal nº 14.732, de 23 de novembro de 2023, declarou:


Frei Egídio Maria Moscini — Patrono do Agricultor Familiar Brasileiro.


É um reconhecimento particularmente significativo.


Frei Egídio nasceu agricultor.


Trabalhou a terra com sua família na Itália.


E terminou seus dias novamente ligado à terra, cultivando alimentos para ajudar a sustentar os jovens seminaristas em Turvo.


Da terra de Valentano à terra catarinense, suas mãos permaneceram mãos de trabalhador.


Cronologia essencial


1884 — 4 de fevereiro: nascimento em Valentano, Itália.


1884 — 10 de fevereiro: Batismo na igreja de São João Evangelista, em Valentano.


1891 — 20 de setembro: recebe a Confirmação.


1904 — 3 de novembro: recebido como postulante leigo dos Servos de Maria em Orvieto.


1908 — 8 de dezembro: início do noviciado, hábito religioso e nome Frei Egídio.


1909 — 10 de dezembro: primeiros votos religiosos.


1920 — 26 de janeiro: profissão solene como irmão converso, em Santa Maria in Via, Roma.


1921 — 12 de julho: partida da Europa para a missão brasileira.


1921 — 25 de setembro: chegada a Rio Branco.


1921–1927: Rio Branco.


1928–1933: Sena Madureira.


1933: Xapuri.


1933–1947: Rio de Janeiro.


1947–1952: Araranguá.


1952: transferência para o Seminário dos Servos de Maria de Turvo.


1976 — 25 de agosto: morte em Turvo, aos 92 anos.


2016: publicação da primeira biografia dedicada a Frei Egídio, de autoria de Frei José M. Milanez, OSM.


2023 — 5 de setembro: Nihil Obstat da Santa Sé — Prot. nº 3691.


2023 — 23 de novembro: declarado Patrono do Agricultor Familiar Brasileiro pela Lei Federal nº 14.732.


2024 — 7 de julho: abertura pública da fase diocesana da Causa de Beatificação e Canonização, em Turvo.


Série histórica — Frei Egídio M. Moscini, OSM


No Somos Servos, sua trajetória é apresentada também numa série histórica em seis partes:


Parte I — Da terra de Valentano à vocação de Servo de Maria

Das raízes familiares e camponesas à profissão religiosa e à partida para o Brasil.


Parte II — Doze anos de serviço no coração da Amazônia

Rio Branco, Sena Madureira e Xapuri: a experiência missionária no Acre.


Parte III — Do Rio de Janeiro às terras de Santa Catarina

O serviço no Rio de Janeiro, Araranguá e a chegada ao sul catarinense.


Parte IV — A “espinha dorsal” do Seminário de Turvo

Trabalho, oração, agricultura e dedicação às vocações.


Parte V — “O povo o considerava um santo”

A morte, a sepultura, a memória e a permanência da fama de santidade.


Parte VI — Da fama de santidade à abertura da Causa de Beatificação

Da devoção popular à investigação formal da Igreja.


Nota documental


A pesquisa histórica realizada para esta página permitiu corrigir algumas informações reproduzidas em versões anteriores da biografia de Frei Egídio.


Os registros paroquiais de Valentano identificam corretamente seus pais como Angelo Moscini e Annunziata Ortolani.


O registro de Batismo estabelece a data de 10 de fevereiro de 1884, seis dias depois de seu nascimento.


Quanto à profissão solene, a documentação mais recente preparada para a Causa registra 26 de janeiro de 1920, no convento de Santa Maria in Via, em Roma. Um rascunho biográfico anterior registrava outra data ainda acompanhada de indicação de pesquisa. Por essa razão, nesta página adotamos a data presente na documentação posterior da Causa.


A pesquisa histórica permanece aberta a novos documentos que possam aprofundar ainda mais o conhecimento sobre sua vida.


Oração e memória


Frei Egídio não deixou grandes obras escritas.


Deixou uma vida.


Uma vida feita de pequenas fidelidades.


Da enxada.


Do pão.


Da cozinha.


Da sacristia.


Da catequese.


Da oração.


Do cuidado com os irmãos.


Da dedicação às vocações.


Talvez seja justamente essa simplicidade que continue falando às novas gerações.


Enquanto a Igreja prossegue no discernimento de sua Causa, conservamos sua memória e pedimos que seu testemunho nos ensine aquilo que ele viveu durante tantos anos:


servir com humildade, trabalhar com fidelidade e permanecer diante de Deus em oração.


Servo de Deus Frei Egídio Maria Moscini, OSM, rogai por nós.

Frei Egídio M. Moscini, OSM — Da fama de santidade à abertura da Causa de Beatificação



Parte VI — Da memória do povo ao reconhecimento como Servo de Deus

Quando Frei Egídio M. Moscini morreu em Turvo, em 25 de agosto de 1976, não existia ainda uma Causa de Beatificação.

Existia, porém, algo que precede qualquer processo canônico:

a memória de uma vida considerada santa.

Confrades, antigos seminaristas, agricultores e famílias continuaram recordando o velho irmão dos Servos de Maria.

Com o passar dos anos, essa memória não desapareceu.

Transformou-se em fama de santidade.

Da memória à iniciativa

Durante muito tempo, não houve uma iniciativa formal para apresentar à Igreja a vida de Frei Egídio.

A documentação preparatória da Causa atribui particular importância a Dom Moacyr M. Grechi, OSM, antigo bispo de Rio Branco e posteriormente arcebispo de Porto Velho.

Dom Moacyr havia conhecido Frei Egídio desde jovem e estava convencido do valor de seu testemunho.

Por isso, incentivou os Servos de Maria e o povo de Turvo a trabalharem para que aquela fama de santidade pudesse ser examinada pela Igreja.

Começava lentamente um novo capítulo.

Já não bastava recordar Frei Egídio.

Era necessário documentar sua vida.

Preservar uma memória

Nesse processo tiveram importância iniciativas surgidas em Turvo, entre elas o grupo OSMeninos de Turvo e a ADIT — Associação dos Descendentes de Italianos.

A documentação preparatória da Causa registra essas iniciativas entre os esforços destinados a conservar e divulgar a memória de Frei Egídio e favorecer o caminho que poderia conduzir à abertura de sua Causa.

Era necessário recolher lembranças.

Localizar documentos.

Identificar testemunhas.

Reconstruir datas.

Investigar sua vida religiosa e missionária.

Uma Causa de Beatificação não pode apoiar-se somente na devoção.

Ela precisa de provas documentais e testemunhais.

A primeira biografia

Um passo importante aconteceu em 2016, quando Frei José M. Milanez, OSM, publicou a obra:

“Frei Egídio Maria Moscini dos Servos de Maria”.

O pequeno volume, com prefácio de Frei Clodovis M. Boff, OSM, procurou reunir e preservar elementos fundamentais da trajetória do religioso.

A história daquele irmão silencioso começava a ser organizada para que as novas gerações também pudessem conhecê-lo.

O trabalho preparatório da Causa

Nos anos seguintes, o trabalho tornou-se progressivamente mais sistemático.

Foram preparados documentos destinados a apresentar sua biografia, sua fama de santidade e os fundamentos para a eventual abertura da Causa.

A documentação conservada da Postulação mostra que, em 2022, já existiam textos preparatórios, entre eles uma biografia, um pré-Libelo e documentação relacionada à consulta eclesial.

Esse detalhe é importante.

A abertura pública de 2024 não surgiu de maneira repentina.

Foi precedida por anos de pesquisa, consulta e preparação.

O objetivo era permitir que a autoridade eclesiástica pudesse avaliar se existiam fundamentos suficientes para iniciar formalmente a investigação.

O Nihil Obstat da Santa Sé

Outro passo decisivo ocorreu em 5 de setembro de 2023.

A Santa Sé concedeu o Nihil Obstat para a Causa de Frei Egídio.

O documento está registrado sob o Protocolo nº 3691.

Nihil Obstat significa literalmente:

“nada obsta”.

Não é uma declaração de santidade.

Também não significa que a Igreja já tenha reconhecido as virtudes heroicas de Frei Egídio.

Significa que, por parte da Santa Sé, não existe impedimento para que a Causa prossiga segundo as normas da Igreja.

Era um passo fundamental para a investigação.

Patrono do Agricultor Familiar Brasileiro

Enquanto a Causa percorria seu caminho eclesial, aconteceu também um reconhecimento de caráter civil.

Em 23 de novembro de 2023, foi sancionada a Lei nº 14.732.

Por essa lei, Frei Egídio Maria Moscini foi declarado:

Patrono do Agricultor Familiar Brasileiro.

O reconhecimento possui particular significado quando colocado ao lado de sua história.

Frei Egídio nasceu numa família de agricultores.

Trabalhou a terra desde criança.

E, já idoso, no Seminário de Turvo, voltou a cultivar a terra para ajudar a alimentar os jovens em formação.

A homenagem civil não constitui, evidentemente, reconhecimento eclesial de santidade.

Mas recorda uma dimensão concreta de sua vida: sua profunda ligação com o trabalho rural.

7 de julho de 2024

Chegou então o momento esperado.

No domingo, 7 de julho de 2024, em Turvo, realizou-se a sessão pública de abertura do processo diocesano da Causa de Beatificação e Canonização de Frei Egídio Maria Moscini.

A solenidade aconteceu no Centro de Eventos de Turvo.

A sessão pública foi seguida pela celebração da Santa Missa.

O Bispo de Criciúma, Dom Jacinto Inacio Flach, presidiu a abertura.

Na ocasião foram apresentados os responsáveis pelos trabalhos da Causa, entre eles o postulador, Frei Franco M. Azzalli, OSM.

Também entravam em funcionamento os organismos encarregados de colaborar na investigação documental e testemunhal.

A partir daquele momento, aquilo que durante décadas vivera na memória do povo passava a ser objeto de uma investigação formal da Igreja.

Servo de Deus Frei Egídio

No âmbito da Causa, Frei Egídio é apresentado como:

Servo de Deus Frei Egídio Maria Moscini, OSM.

O título não significa que a Igreja já o tenha declarado beato ou santo.

Indica que existe uma Causa oficialmente acolhida e em investigação.

A pergunta agora é muito mais exigente do que a admiração popular:

Como Frei Egídio viveu as virtudes cristãs?

Para responder, não basta dizer que era uma pessoa boa.

É necessário investigar sua fé.

Sua esperança.

Sua caridade.

Sua humildade.

Sua obediência.

Sua pobreza.

Sua castidade.

Sua vida de oração.

Seu serviço aos irmãos.

Sua perseverança na consagração religiosa.

A fase diocesana

A Causa encontra-se na fase diocesana.

É uma etapa fundamentalmente investigativa.

Nela são reunidos e examinados documentos relacionados à vida do Servo de Deus.

Testemunhas podem ser interrogadas.

A documentação histórica é pesquisada.

Os escritos e demais materiais pertinentes são avaliados segundo as normas da Causa.

O objetivo não é produzir uma homenagem.

É buscar a verdade histórica sobre a vida de Frei Egídio e fornecer à Igreja os elementos necessários para o posterior discernimento da Causa.

Por isso, o trabalho exige paciência.

Precisão.

Rigor documental.

E oração.

Uma memória que continua viva

Passaram-se décadas desde aquela manhã de 25 de agosto de 1976 em que Frei Egídio encerrou sua vida terrena.

Mas sua memória continua presente.

Isso pôde ser visto de maneira especial em 25 de agosto de 2026, quando quase cem pessoas participaram em Turvo de um encontro de oração em ação de graças pelos cinquenta anos de sua morte.

Estavam presentes antigos seminaristas vindos de diferentes lugares, moradores de Turvo e representantes da comunidade local.

A celebração incluiu a Coroa de Nossa Senhora das Dores e a Santa Missa.

É uma imagem profundamente ligada à espiritualidade dos Servos de Maria.

Cinquenta anos depois da morte daquele humilde irmão, as pessoas continuavam reunindo-se para rezar e recordar sua vida.

Da enxada à Causa de Beatificação

A história de Frei Egídio parece marcada por coisas pequenas.

Uma enxada.

Uma horta.

Uma cozinha.

Uma sacristia.

Um forno onde se fazia pão.

Um hábito religioso.

Um terço entre as mãos.

Uma oração pelas vocações.

Nada disso parecia destinado a entrar para a história.

Mas foi justamente através dessas pequenas fidelidades que Frei Egídio construiu sua vida.

Nasceu agricultor em Valentano.

Tornou-se Servo de Maria.

Partiu como missionário para o Brasil.

Serviu no Acre.

Cozinhou no Rio de Janeiro.

Foi catequista em Araranguá.

Trabalhou e rezou pelos seminaristas em Turvo.

Morreu sem retornar à Itália.

E permaneceu na memória daqueles que o conheceram.

Hoje, a Igreja investiga essa vida.

Não para antecipar uma resposta.

Mas para discernir, com liberdade e rigor, aquilo que o povo começou a dizer há muitos anos:

“Frei Egídio era um santo.”

A palavra definitiva pertence à Igreja.

A nós cabe conservar a memória, colaborar com a busca da verdade e rezar.

Servo de Deus Frei Egídio Maria Moscini, OSM, rogai por nós.

---

Fim da primeira série histórica dedicada ao Servo de Deus Frei Egídio M. Moscini, OSM.

Frei Egídio M. Moscini, OSM — “O povo o considerava um santo”



Parte V — A morte de Frei Egídio e o nascimento de uma fama de santidade

Era 25 de agosto de 1976.

Depois de uma longa existência de 92 anos, Frei Egídio M. Moscini chegava ao fim de sua caminhada terrena.

Estava em Turvo, Santa Catarina, onde vivera desde 1952.

A biografia preparada para sua Causa recorda que Frei Egídio foi assistido pelos confrades da comunidade de Nossa Senhora das Dores e recebeu os santos Sacramentos.

Sua saúde estava profundamente debilitada.

Faleceu em consequência de insuficiência renal e complicações hepáticas.

Terminava silenciosamente uma vida que havia começado em Valentano, na Itália, em 4 de fevereiro de 1884.

O último dos missionários daquele grupo

Com a morte de Frei Egídio desaparecia também o último sobrevivente do segundo grupo de religiosos Servos de Maria que havia participado dos primeiros tempos da missão do Acre.

Mais de meio século havia transcorrido desde sua chegada ao Brasil.

Frei Egídio tinha servido no Acre.

No Rio de Janeiro.

Em Araranguá.

Em Turvo.

Nunca retornara à Itália.

A terra para a qual viera como missionário havia se tornado definitivamente sua terra.

O funeral

A documentação da Causa registra que muitas pessoas de Turvo e de localidades vizinhas participaram de seu funeral.

Eram pessoas que haviam conhecido Frei Egídio.

Tinham visto aquele irmão trabalhar.

Tinham convivido com sua simplicidade.

Conheciam sua humildade.

Recordavam sua vida de oração.

A presença numerosa no funeral tornou-se uma manifestação do carinho e da estima que o velho frade havia conquistado durante seus anos de serviço.

Não através de cargos.

Não através de títulos.

Mas através da vida.

A sepultura

O corpo de Frei Egídio foi sepultado na capela dos Servos de Maria no cemitério de Turvo.

Ali permanece.

Com o passar dos anos, sua sepultura continuou sendo visitada.

Pessoas passaram a dirigir-se ao local para recordar Frei Egídio e rezar.

A morte não apagou sua presença da memória popular.

Ao contrário.

Aquilo que durante sua vida talvez permanecesse escondido começou a ser percebido de outra maneira.

“Era um santo”

A biografia preparada para a Causa conserva uma afirmação particularmente importante:

desde sua morte, o povo de Turvo considerava Frei Egídio um santo.

É preciso compreender corretamente essa expressão.

Não se tratava de uma declaração oficial da Igreja.

Era uma convicção popular.

A santidade que as pessoas julgavam reconhecer em Frei Egídio estava associada àquilo que haviam visto durante sua vida:

sua oração;

sua humildade;

sua simplicidade;

seu trabalho;

sua disponibilidade;

seu serviço aos irmãos.

A fama de santidade não nasceu de uma imagem construída depois.

Nasceu da memória de uma vida compartilhada.

O frade da enxada e da oração

Uma imagem permaneceu especialmente ligada à memória de Frei Egídio:

o irmão que trabalhava a terra e rezava.

Décadas mais tarde, ao falar publicamente sobre ele, Frei Franco M. Azzalli, OSM, recordaria justamente o irmão “de enxada na mão”, cuja vida fazia as pessoas perceberem a presença de Deus.

É uma imagem que resume admiravelmente sua existência.

Frei Egídio não separava trabalho e oração.

A terra que cultivava.

O alimento que produzia.

O pão que preparava.

A oração que oferecia.

O serviço aos confrades.

A atenção aos seminaristas.

Tudo fazia parte de uma única consagração.

A memória permaneceu

Durante muitos anos, entretanto, essa fama permaneceu principalmente no âmbito da memória popular.

A própria biografia da Causa reconhece que, inicialmente, não foi tomada uma iniciativa formal para que a Igreja examinasse essa fama de santidade.

O povo recordava Frei Egídio.

Os antigos seminaristas falavam dele.

Os confrades conservavam sua memória.

Sua sepultura continuava sendo visitada.

E foram também transmitidos testemunhos de graças que pessoas atribuíam à sua intercessão.

Mas ainda faltava transformar essa memória em uma investigação eclesial organizada.

Dom Moacyr Grechi, OSM

Uma figura teria papel importante nessa passagem da memória para a iniciativa eclesial:

Dom Moacyr M. Grechi, OSM.

O antigo menino de Turvo, que conhecera Frei Egídio e recebera sua catequese em Araranguá, havia percorrido um longo caminho.

Tornara-se Servo de Maria.

Sacerdote.

Bispo de Rio Branco.

Mais tarde, arcebispo de Porto Velho.

Segundo a documentação preparatória da Causa, Dom Moacyr estava convencido da santidade de Frei Egídio.

Por isso, incentivou a comunidade dos Servos de Maria e o povo de Turvo a trabalhar para que aquela fama de santidade pudesse um dia ser oficialmente examinada pela Igreja.

A memória começava a transformar-se em iniciativa.

OSMeninos de Turvo e ADIT

Nesse ambiente surgiram iniciativas destinadas a preservar e divulgar a memória de Frei Egídio.

Entre elas aparecem o grupo OSMeninos de Turvo e a ADIT — Associação dos Descendentes de Italianos.

A documentação da Causa registra que essas organizações tiveram, entre seus objetivos, apoiar através de diferentes iniciativas a possibilidade de abertura da Causa de Beatificação.

A memória do velho irmão deixava de pertencer somente às recordações individuais.

Começava a ser organizada.

Documentos seriam procurados.

Testemunhos seriam preservados.

Sua história seria novamente contada.

A primeira biografia

Outro passo importante aconteceu em 2016.

Frei José M. Milanez, OSM, publicou o pequeno livro:

“Frei Egídio Maria Moscini dos Servos de Maria”.

A obra, com 42 páginas e ilustrações, recebeu prefácio de Frei Clodovis M. Boff, OSM.

Na documentação preparatória da Causa, esse trabalho é apresentado como a primeira biografia dedicada especificamente a Frei Egídio.

Era mais um passo para impedir que sua memória desaparecesse.

Uma fama que atravessou décadas

O aspecto talvez mais impressionante seja a duração dessa memória.

Frei Egídio morreu em 1976.

Passaram-se dez anos.

Vinte.

Trinta.

Quarenta.

E continuava sendo lembrado.

A documentação preparatória da Causa fala expressamente da permanência da “fama de santidade e de sinais”, inclusive entre os frades da Província São Peregrino dos Servos de Maria.

Essa perseverança da memória é importante numa Causa de Beatificação.

A Igreja não se limita a perguntar se uma pessoa foi admirada.

Procura investigar se existe verdadeira e consistente fama de santidade e se ela possui fundamento na maneira como aquela pessoa viveu as virtudes cristãs.

Era exatamente isso que começaria a ser investigado no caso de Frei Egídio.

Do povo para a Igreja

Durante décadas, a afirmação era simples:

“Frei Egídio era um santo.”

Era a linguagem do povo.

Depois começaria outro caminho.

Mais lento.

Mais rigoroso.

Documental.

Canônico.

A Igreja precisaria estudar sua vida.

Examinar documentos.

Ouvir testemunhas.

Investigar sua fama de santidade.

Avaliar suas virtudes.

Aquilo que havia começado como memória de confrades, seminaristas, agricultores e famílias de Turvo começava a caminhar em direção a uma pergunta formal dirigida à Igreja:

Como viveu Frei Egídio M. Moscini?

E, principalmente:

viveu de maneira heroica as virtudes cristãs?

A resposta não poderia nascer apenas da devoção.

Precisaria nascer de uma investigação.

Começava, assim, o longo caminho que conduziria à Causa de Beatificação e Canonização de Frei Egídio M. Moscini, OSM.

Continua — Parte VI: Frei Egídio M. Moscini, OSM — Da fama de santidade à abertura da Causa de Beatificação.

Frei Egídio M. Moscini, OSM — A “espinha dorsal” do Seminário de Turvo

Frei Egídio M. Moscini, OSM — A “espinha dorsal” do Seminário de Turvo

Parte IV — Trabalho, oração e serviço às vocações

Em 1952, Frei Egídio M. Moscini chegou a Turvo, no sul de Santa Catarina.

Tinha 68 anos.

Depois de uma longa caminhada que começara em Valentano, na Itália, passara pela missão amazônica do Acre, pelo Rio de Janeiro e por Araranguá, o irmão religioso iniciava a última etapa de sua vida.

Seriam ainda vinte e quatro anos de serviço.

Seu novo lugar seria o Seminário dos Servos de Maria de Turvo.

E ali Frei Egídio voltaria, de maneira surpreendente, às suas primeiras raízes.

De volta à terra

Frei Egídio havia crescido trabalhando como agricultor com sua família em Valentano.

Agora, já idoso e do outro lado do oceano, encontrava novamente a terra.

No Seminário de Turvo, cuidava da horta, do bananal e das árvores frutíferas. Também trabalhava no cuidado dos porcos e de algumas cabeças de gado.

Não era simplesmente uma ocupação para preencher o tempo.

A produção ajudava a sustentar os jovens que viviam no Seminário.

Muitos deles provinham de famílias humildes e não tinham condições de contribuir financeiramente para sua formação.

Assim, aquilo que Frei Egídio retirava da terra chegava à mesa dos seminaristas.

Suas mãos de agricultor participavam diretamente da formação das futuras gerações dos Servos de Maria.

O pão cotidiano

Frei Egídio também fazia pão.

Era um trabalho que já realizara durante sua permanência no Acre e que reaparecia em sua vida no Seminário.

Há uma beleza particular nessa imagem.

O irmão que não era sacerdote e, portanto, não presidia a Eucaristia, preparava diariamente o pão que alimentava a comunidade.

Seu altar cotidiano podia ser a mesa de trabalho.

Sua oferta, o serviço.

Sua linguagem, a fidelidade.

E o pão preparado por suas mãos alimentava jovens que discerniam se Deus os chamava a entregar a própria vida ao serviço da Igreja.

A “espinha dorsal do Seminário”

A biografia preparada para a Causa conserva uma expressão particularmente significativa.

Por causa de seu trabalho humilde e incansável, Frei Egídio chegou a ser chamado de:

“a espinha dorsal do Seminário”.

A expressão diz muito.

A espinha dorsal não é aquilo que normalmente se vê.

Mas sustenta o corpo.

Assim também acontecia com Frei Egídio.

Não ocupava o centro da vida do Seminário.

Não era o reitor.

Não era professor.

Não era sacerdote.

Era irmão.

Mas estava presente nas coisas indispensáveis da vida cotidiana.

Na cozinha.

Na horta.

No pão.

No cuidado dos animais.

Na oração.

No acompanhamento silencioso dos jovens.

Trabalho e oração

Seria incompleto, porém, apresentar Frei Egídio apenas como um grande trabalhador.

Sua jornada era dividida entre trabalho e oração.

A mesma documentação que recorda sua dedicação às tarefas materiais destaca sua vida espiritual.

Frei Egídio trabalhava muito.

Mas rezava muito.

E sua oração possuía uma intenção particularmente querida:

os sacerdotes e as vocações.

Rezava pela perseverança dos sacerdotes e pelo surgimento de novas vocações na Província dos Servos de Maria.

O homem que cultivava a terra cultivava também vocações através da oração.

Quando um seminarista partia

Há um detalhe transmitido pela memória sobre Frei Egídio que revela quanto os seminaristas lhe eram queridos.

Ele era conhecido como homem alegre e de bom humor.

Mas havia uma circunstância que o entristecia:

quando algum seminarista deixava o Seminário.

Frei Egídio desejava ver aqueles jovens perseverarem no caminho vocacional.

Não porque desconhecesse a liberdade necessária ao discernimento, mas porque as vocações ocupavam um lugar especial em sua oração e em seu coração.

A vida dos jovens não lhe era indiferente.

Ele trabalhava por eles.

Preparava alimentos para eles.

Rezava por eles.

Alegrava-se com sua perseverança.

O apostolado do exemplo

A biografia da Causa faz uma afirmação significativa: não poucas vocações dos Servos de Maria foram consideradas fruto também do apostolado, do zelo e do bom exemplo de Frei Egídio.

A palavra “apostolado” merece atenção.

Seu apostolado não era constituído principalmente por discursos.

Era o apostolado do exemplo.

Os seminaristas viam um homem idoso levantar-se e trabalhar.

Viam-no rezar.

Viam-no servir.

Viam um religioso que havia deixado a própria pátria, atravessado o oceano, vivido na Amazônia e envelhecido no Brasil sem abandonar a simplicidade de sua vocação.

A própria vida de Frei Egídio se tornava uma catequese.

O irmão religioso

Turvo também ajuda a compreender melhor a importância eclesial de Frei Egídio.

Ele não foi sacerdote.

Foi irmão religioso.

E justamente essa condição constitui uma das características importantes de sua trajetória.

Sua vida recorda que a consagração religiosa possui valor em si mesma e nasce da graça do Batismo.

Frei Egídio não precisava do ministério ordenado para entregar inteiramente sua vida a Deus.

Sua santificação acontecia no modo como vivia a própria vocação de irmão.

Era Servo de Maria.

Isso bastava para preencher uma existência inteira.

Agricultor novamente

Existe ainda uma espécie de círculo que se completa em Turvo.

Frei Egídio começou sua vida trabalhando a terra em Valentano.

Terminou sua vida trabalhando a terra em Turvo.

Entre uma terra e outra houve um oceano.

Houve a profissão religiosa.

Houve a missão no Acre.

Houve Rio Branco, Sena Madureira e Xapuri.

Houve o Rio de Janeiro.

Houve Araranguá.

Mas, no fim, suas mãos voltaram à terra.

Décadas depois, o Brasil reconheceria oficialmente essa dimensão de sua história ao declará-lo Patrono do Agricultor Familiar Brasileiro.

A homenagem civil parece encontrar uma imagem particularmente adequada naquele velho frade que, mesmo com idade avançada, continuava cuidando da horta e das plantações para ajudar a alimentar jovens seminaristas.

Servir até o fim

Frei Egídio permaneceu no Seminário e na comunidade dos Servos de Maria de Turvo até os últimos anos de sua longa existência.

Seu ritmo naturalmente diminuiria com a idade.

Mas o sentido de sua vida permaneceu.

Trabalho e oração.

Terra e fraternidade.

Pão e vocações.

Silêncio e serviço.

Tudo aquilo que havia começado em Valentano parecia encontrar em Turvo sua síntese.

Frei Egídio não construiu sua vida procurando realizar coisas extraordinárias.

Fez extraordinariamente bem aquilo que lhe era confiado todos os dias.

E talvez seja justamente por isso que sua memória permaneceu tão profundamente ligada ao povo.

Quando sua vida se aproximou do fim, Frei Egídio já não era apenas o velho irmão italiano que trabalhava no Seminário.

Para muita gente de Turvo, ele era simplesmente:

o Frei Egídio.

E, quando morreu, em 25 de agosto de 1976, algo muito significativo aconteceu.

A memória do irmão humilde não desapareceu.

Ao contrário.

Começou a nascer entre o povo uma convicção que atravessaria as décadas:

“Frei Egídio era um santo.”

Continua — Parte V: Frei Egídio M. Moscini, OSM — “O povo o considerava um santo”.

Ave Maria, cheia de graça!

Seja bem-vindo(a)ao Web blog "Somos Servos"! ... criado em 4 de junho de 2007 para a maior glória de Deus, agradece sua visita amiga e fraterna!

Feed Vatican News

Feed CNBB

Feed CRB Nacional

Pesquisar este blog

Postagens mais visitadas

Seguidores