Parte V — A morte de Frei Egídio e o nascimento de uma fama de santidade
Era 25 de agosto de 1976.
Depois de uma longa existência de 92 anos, Frei Egídio M. Moscini chegava ao fim de sua caminhada terrena.
Estava em Turvo, Santa Catarina, onde vivera desde 1952.
A biografia preparada para sua Causa recorda que Frei Egídio foi assistido pelos confrades da comunidade de Nossa Senhora das Dores e recebeu os santos Sacramentos.
Sua saúde estava profundamente debilitada.
Faleceu em consequência de insuficiência renal e complicações hepáticas.
Terminava silenciosamente uma vida que havia começado em Valentano, na Itália, em 4 de fevereiro de 1884.
O último dos missionários daquele grupo
Com a morte de Frei Egídio desaparecia também o último sobrevivente do segundo grupo de religiosos Servos de Maria que havia participado dos primeiros tempos da missão do Acre.
Mais de meio século havia transcorrido desde sua chegada ao Brasil.
Frei Egídio tinha servido no Acre.
No Rio de Janeiro.
Em Araranguá.
Em Turvo.
Nunca retornara à Itália.
A terra para a qual viera como missionário havia se tornado definitivamente sua terra.
O funeral
A documentação da Causa registra que muitas pessoas de Turvo e de localidades vizinhas participaram de seu funeral.
Eram pessoas que haviam conhecido Frei Egídio.
Tinham visto aquele irmão trabalhar.
Tinham convivido com sua simplicidade.
Conheciam sua humildade.
Recordavam sua vida de oração.
A presença numerosa no funeral tornou-se uma manifestação do carinho e da estima que o velho frade havia conquistado durante seus anos de serviço.
Não através de cargos.
Não através de títulos.
Mas através da vida.
A sepultura
O corpo de Frei Egídio foi sepultado na capela dos Servos de Maria no cemitério de Turvo.
Ali permanece.
Com o passar dos anos, sua sepultura continuou sendo visitada.
Pessoas passaram a dirigir-se ao local para recordar Frei Egídio e rezar.
A morte não apagou sua presença da memória popular.
Ao contrário.
Aquilo que durante sua vida talvez permanecesse escondido começou a ser percebido de outra maneira.
“Era um santo”
A biografia preparada para a Causa conserva uma afirmação particularmente importante:
desde sua morte, o povo de Turvo considerava Frei Egídio um santo.
É preciso compreender corretamente essa expressão.
Não se tratava de uma declaração oficial da Igreja.
Era uma convicção popular.
A santidade que as pessoas julgavam reconhecer em Frei Egídio estava associada àquilo que haviam visto durante sua vida:
sua oração;
sua humildade;
sua simplicidade;
seu trabalho;
sua disponibilidade;
seu serviço aos irmãos.
A fama de santidade não nasceu de uma imagem construída depois.
Nasceu da memória de uma vida compartilhada.
O frade da enxada e da oração
Uma imagem permaneceu especialmente ligada à memória de Frei Egídio:
o irmão que trabalhava a terra e rezava.
Décadas mais tarde, ao falar publicamente sobre ele, Frei Franco M. Azzalli, OSM, recordaria justamente o irmão “de enxada na mão”, cuja vida fazia as pessoas perceberem a presença de Deus.
É uma imagem que resume admiravelmente sua existência.
Frei Egídio não separava trabalho e oração.
A terra que cultivava.
O alimento que produzia.
O pão que preparava.
A oração que oferecia.
O serviço aos confrades.
A atenção aos seminaristas.
Tudo fazia parte de uma única consagração.
A memória permaneceu
Durante muitos anos, entretanto, essa fama permaneceu principalmente no âmbito da memória popular.
A própria biografia da Causa reconhece que, inicialmente, não foi tomada uma iniciativa formal para que a Igreja examinasse essa fama de santidade.
O povo recordava Frei Egídio.
Os antigos seminaristas falavam dele.
Os confrades conservavam sua memória.
Sua sepultura continuava sendo visitada.
E foram também transmitidos testemunhos de graças que pessoas atribuíam à sua intercessão.
Mas ainda faltava transformar essa memória em uma investigação eclesial organizada.
Dom Moacyr Grechi, OSM
Uma figura teria papel importante nessa passagem da memória para a iniciativa eclesial:
Dom Moacyr M. Grechi, OSM.
O antigo menino de Turvo, que conhecera Frei Egídio e recebera sua catequese em Araranguá, havia percorrido um longo caminho.
Tornara-se Servo de Maria.
Sacerdote.
Bispo de Rio Branco.
Mais tarde, arcebispo de Porto Velho.
Segundo a documentação preparatória da Causa, Dom Moacyr estava convencido da santidade de Frei Egídio.
Por isso, incentivou a comunidade dos Servos de Maria e o povo de Turvo a trabalhar para que aquela fama de santidade pudesse um dia ser oficialmente examinada pela Igreja.
A memória começava a transformar-se em iniciativa.
OSMeninos de Turvo e ADIT
Nesse ambiente surgiram iniciativas destinadas a preservar e divulgar a memória de Frei Egídio.
Entre elas aparecem o grupo OSMeninos de Turvo e a ADIT — Associação dos Descendentes de Italianos.
A documentação da Causa registra que essas organizações tiveram, entre seus objetivos, apoiar através de diferentes iniciativas a possibilidade de abertura da Causa de Beatificação.
A memória do velho irmão deixava de pertencer somente às recordações individuais.
Começava a ser organizada.
Documentos seriam procurados.
Testemunhos seriam preservados.
Sua história seria novamente contada.
A primeira biografia
Outro passo importante aconteceu em 2016.
Frei José M. Milanez, OSM, publicou o pequeno livro:
“Frei Egídio Maria Moscini dos Servos de Maria”.
A obra, com 42 páginas e ilustrações, recebeu prefácio de Frei Clodovis M. Boff, OSM.
Na documentação preparatória da Causa, esse trabalho é apresentado como a primeira biografia dedicada especificamente a Frei Egídio.
Era mais um passo para impedir que sua memória desaparecesse.
Uma fama que atravessou décadas
O aspecto talvez mais impressionante seja a duração dessa memória.
Frei Egídio morreu em 1976.
Passaram-se dez anos.
Vinte.
Trinta.
Quarenta.
E continuava sendo lembrado.
A documentação preparatória da Causa fala expressamente da permanência da “fama de santidade e de sinais”, inclusive entre os frades da Província São Peregrino dos Servos de Maria.
Essa perseverança da memória é importante numa Causa de Beatificação.
A Igreja não se limita a perguntar se uma pessoa foi admirada.
Procura investigar se existe verdadeira e consistente fama de santidade e se ela possui fundamento na maneira como aquela pessoa viveu as virtudes cristãs.
Era exatamente isso que começaria a ser investigado no caso de Frei Egídio.
Do povo para a Igreja
Durante décadas, a afirmação era simples:
“Frei Egídio era um santo.”
Era a linguagem do povo.
Depois começaria outro caminho.
Mais lento.
Mais rigoroso.
Documental.
Canônico.
A Igreja precisaria estudar sua vida.
Examinar documentos.
Ouvir testemunhas.
Investigar sua fama de santidade.
Avaliar suas virtudes.
Aquilo que havia começado como memória de confrades, seminaristas, agricultores e famílias de Turvo começava a caminhar em direção a uma pergunta formal dirigida à Igreja:
Como viveu Frei Egídio M. Moscini?
E, principalmente:
viveu de maneira heroica as virtudes cristãs?
A resposta não poderia nascer apenas da devoção.
Precisaria nascer de uma investigação.
Começava, assim, o longo caminho que conduziria à Causa de Beatificação e Canonização de Frei Egídio M. Moscini, OSM.
Continua — Parte VI: Frei Egídio M. Moscini, OSM — Da fama de santidade à abertura da Causa de Beatificação.
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