Parte I — A criação da Província e a década de 1960
Por frei José M. Milanez, OSM
Turvo, janeiro de 2012
Em 2012, por ocasião dos cinquenta anos da Província Brasileira dos Servos de Maria, frei José M. Milanez, OSM, reuniu este importante relato sobre a trajetória dos Servos de Maria no Brasil. O Somos Servos publica o documento em partes, preservando seu conteúdo histórico. Nesta primeira parte, acompanhamos a criação da Província e seu desenvolvimento durante a década de 1960.
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Introdução
Em 1957, quando o prior geral, frei Afonso Montà, e o prior provincial da Romanha, frei Luigi Barbieri, visitaram as fundações brasileiras, concluíram sua visita com estas palavras:
> “O Comissariado Provincial Brasileiro (assim se chamava então a jurisdição da Ordem no Brasil – NdR) alcançou metas de grande florescimento e é sério candidato a tornar-se província num futuro próximo”¹.
Foi o que aconteceu quatro anos depois.
A Província Brasileira foi criada por decreto da Sagrada Congregação dos Religiosos em 14 de outubro de 1961, desmembrada da província italiana da Romanha, e foi oficialmente instalada no primeiro capítulo provincial reunido em São José dos Campos de 20 a 23 de janeiro de 1962, sob a presidência do prior geral, frei Afonso Montà.
Estavam presentes também o prior provincial da Romanha, frei Afonso Baccarani, e frei Bernardo Cazzaro, da Província Vêneta, que redigiu a ata capitular em latim. Frei Giocondo Grotti foi então eleito prior provincial, tendo como vice-provincial frei Tiago Coccolini.
Quando a Província foi criada, a situação era bastante promissora: 12 conventos², 47 professos solenes, sendo 5 irmãos leigos, 18 professos temporários (7 na teologia em Roma e 11 na filosofia em São José dos Campos), 7 noviços em São José dos Campos e mais de 100 seminaristas menores.
A partir daí os Servos de Maria no Brasil passaram a caminhar por conta própria, embora a missão no Acre e Amazonas continuasse sob a responsabilidade conjunta das duas províncias: do Brasil e da Romanha. Esta, nos anos seguintes, ainda que em ritmo cada vez mais desacelerado, continuou enviando frades e ajuda financeira.
A Província na década de sessenta
Franco Progresso
A década de sessenta foi de franco progresso. À parte o fechamento do convento de André da Rocha, Rio Grande do Sul, ocorrido em 1966, a província manteve suas posições, recebeu reforços da província-mãe, e dezoito frades brasileiros fizeram a profissão solene e foram ordenados³. Nos anos anteriores já haviam sido ordenados cinco outros brasileiros⁴.
Governaram a província neste período os seguintes priores provinciais: freis Giocondo Grotti (1962), André Ficarelli (1963 a julho de 1967), Tarcísio Balthazar (julho de 1967 a fevereiro de 1970).
Em 1962, faleceu, vítima de cirrose hepática provocada por sucessivos ataques de malária, dom Júlio Mattioli, que estava à frente da Prelazia desde 1941. Para substituí-lo, foi nomeado o prior provincial, frei Giocondo Grotti, que tomou posse em 20 de janeiro de 1963 e foi sagrado bispo em 8 de julho de 1965.
Do grupo dos primeiros chegados ao Brasil, faleceram neste período os freis Gregório Dal Monte (†1963), Filipe Gallerani (†1965), Miguel Lorenzini (†1967) e Thiago Filipe Mattioli (†1970). Em 1963, faleceu também o jovem frei João Cardinale, vítima de leucemia.
Para preparar o capítulo eletivo de 1967 foi feita uma pesquisa em 1966, envolvendo todos os frades, que deram seu parecer e sugestões sobre vários aspectos da vida da província: vida comunitária, economia e administração, ação apostólica e missionária, vocações e formação. Vivia-se já o clima de colegialidade preconizada pelo Concílio Vaticano II e codificada depois nas novas Constituições da Ordem.
No Capítulo de 1967, presidido pelo prior geral, frei Joseph Loftus, foi eleito prior provincial frei Tarcísio Balthazar, o primeiro brasileiro a ocupar o cargo. Para este capítulo foi convidado o então frei André Dal Pino (na foto, o 2º sentado da direita para a esquerda), renomado historiador da Ordem, que proferiu palestras sobre nossa história e espiritualidade e sobre o anteprojeto das novas Constituições que seriam aprovadas pelo capítulo geral de Majadahonda (Madri), celebrado no ano seguinte.
[INSERIR FOTO AQUI]
São José dos Campos — Capítulo Provincial de 1967.
Frei André Dal Pino é o segundo sentado da direita para a esquerda.
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Na missão do Acre e Amazonas
Na missão do Acre e Amazonas consolidavam-se as posições nas três paróquias de Rio Branco (Catedral, Imaculada Conceição e Santa Inês) e nas paróquias de Sena Madureira, Brasiléia, Xapuri e Boca do Acre.
Mantinham-se dois estabelecimentos de ensino: Instituto Nossa Senhora das Dores, em Rio Branco, e Pensionato Nossa Senhora de Nazaré, em Boca do Acre. Organizava-se de forma mais articulada a administração da Prelazia (PTON). E chegou-se a dispor de pequenas aeronaves para transporte de mercadorias e para locomoção de missionários e doentes.
O bimotor “Dornier”, recebido em doação na Alemanha, por diversos anos prestou relevantes serviços à missão, sob o comando do aqui presente frei Dionísio Mandaio, brevetado piloto, qualificado para pilotar aeronaves multimotores.
Em São José dos Campos, no assim-denominado “Seminário das Missões”, desde 1956, sucediam-se grupos de noviços e professos-filósofos. Os professos que concluíam a filosofia eram enviados para Roma ou Monte Bérico. Em 1963, os professos-filósofos foram transferidos para o convento do Rio de Janeiro e se matricularam no curso de filosofia no seminário maior arquidiocesano; e em 1966, mudaram-se de novo, agora para o convento de São Paulo, onde passaram a estudar a filosofia no Centro de Estudos de Filosofia e Teologia (IFT), mantido por dez Institutos Religiosos.
Por isso, o “Seminário das Missões” de São José dos Campos passou a acolher estudantes do ensino médio, então chamado liceu clássico.
Enquanto isso, a Colônia Santo Antônio Maria Pucci passou a ser seminário menor.
Outros eventos importantes da década de sessenta
– Em Turvo, em 19 de março de 1961, Dom Jaime de Barros Câmara, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro e associado da Ordem Secular Servita, dava a bênção inaugural na nova ala do Seminário Menor Nossa Senhora das Dores. Ainda em 1961, iniciou-se uma experiência nova que durou poucos anos: os professos-fisófosos, antes de iniciar a teologia, passaram a fazer um ano de tirocínio no Seminário de Turvo.
– Em 1963, no primeiro piso e no pátio externo do convento Nossa Senhora das Dores, em São Paulo, foi montada uma sofisticada gráfica com máquinas modernas e automáticas. Com ela esperava-se conseguir a autonomia financeira da província, mas os resultados não corresponderam. Acabou encerrando suas atividades no final da década e as máquinas foram vendidas.
– Ainda em 1963, o prior provincial, frei André Ficarelli, substituiu a carta mensal, de circulação interna na Província, até então publicada pelos formandos de São José dos Campos, e fundou a publicação mensal do Inter Nos (expressão latina que significa “Entre Nós”) como boletim informativo oficial da província.
– Em 1968, em Rio Branco, foram inaugurados o Hospital Santa Juliana e o Leprosário Souza Araújo, financiados por verbas recebidas principalmente da Alemanha e da Itália, e foi instalado, equipado e posto a funcionar o Artesanato Frei Romeu que tinha como objetivo capacitar mão-de-obra local. Enquanto isso, em Sena Madureira, frei Paulino iniciava a construção de escolas ao longo dos rios e nos seringais da paróquia.
Notas
1. J. MILANEZ, Os Servos de Maria no Brasil. Setenta anos de História, in VINCENZO BENASSI – ODIR J. DIAS – FAUSTINO M. FAUSTINI, Breve História da Ordem dos Servos de Maria, p. 276.
2. Sena Madureira, Rio Branco (2 conventos: São Sebastião e Imaculada Conceição), Boca do Acre, Xapuri, Brasiléia, Rio de Janeiro, Turvo (2 conventos: Seminário Nossa Senhora das Dores e Convento Nossa Senhora da Oração), São Paulo, São José dos Campos e André da Rocha.
3. Jorge Macan e Asteróide Zilli, em 1960; Moacyr Grechi, João Rocha e Octávio Lucietti, em 1961; Nivaldo Machado, Mário Cardiga e Narciso Cechinel, em 1962; Otávio Destro, Pedro Martinello, Osvaldo Lima e Pio Bosello, em 1963; José Milanez, José Flesch e Rubens Milanez (diácono), em 1966; Valmor Bolan, Lauro Rosso e João Mezzari, em 1969.
4. Os irmãos José Carneiro de Lima e Peregrino Carneiro de Lima em 1938, Romeu Ribeiro Donato em 1948, Tarcísio Balthazar em 1955 e Antônio Anelli em 1957.
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Fonte
MILANEZ, José M., OSM. Texto comemorativo dos cinquenta anos da Província Brasileira dos Servos de Maria. Turvo, janeiro de 2012.
Transcrição do documento histórico original. Publicação em partes pelo Somos Servos.
Continua na Parte II: “A Província de 1970 a 1984 — Crise e Declínio”.
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