No dia 27 de setembro de 2026, a Igreja celebra o 112º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. Para esta ocasião, o Papa Leão XIV escolheu o tema:
«“Mesmo uma só destas crianças”
(cf. Mt 18,10)»
A mensagem dirige nosso olhar especialmente para as crianças e os adolescentes envolvidos na experiência da migração: menores refugiados, deslocados, separados de suas famílias ou obrigados a abandonar sua terra por causa da guerra, da pobreza, da violência, das catástrofes ambientais e da falta de perspectivas.
Não estamos diante apenas de números ou estatísticas. Cada criança possui um rosto, um nome, uma história, medos e esperanças. Cada uma carrega a dignidade de ser imagem e semelhança de Deus.
Acolher uma criança é acolher o próprio Cristo
Jesus afirma:
«“Quem acolher em meu nome uma criança como esta, é a mim que acolhe”
(Mt 18,5).»
Essa palavra revela a profundidade cristológica do acolhimento. Receber uma criança vulnerável não é somente realizar uma obra de assistência social. É encontrar e receber o próprio Cristo.
O mesmo Senhor declara:
«“Eu era estrangeiro e vocês me acolheram”
(Mt 25,35).»
Cristo se identifica com o estrangeiro, com o refugiado e com aquele que chega sem segurança, sem proteção e sem um lugar onde repousar. Por isso, a maneira como acolhemos os migrantes manifesta concretamente a verdade de nossa fé.
O Papa Leão XIV recorda que o Evangelho não nos permite fazer cálculos: mesmo uma só criança merece nossa atenção, proteção e cuidado. Uma única vida humana já possui valor infinito diante de Deus.
Uma vulnerabilidade que não pode ser ignorada
As crianças estão entre as pessoas mais vulneráveis nos movimentos migratórios. Muitas perderam os pais, irmãos e amigos; outras foram separadas de suas famílias ou enfrentaram viagens longas e perigosas. Há também aquelas que sofrem com o tráfico de pessoas, a exploração, a violência sexual, o recrutamento para conflitos armados e os casamentos forçados.
Sua vulnerabilidade torna-se ainda maior quando estão desacompanhadas e não encontram adultos dispostos a protegê-las.
O clamor dessas crianças chega ao coração de Deus, como chegou o clamor do povo de Israel no Egito:
«“Eu vi a aflição do meu povo e ouvi o seu clamor. Conheço os seus sofrimentos. Desci para libertá-lo”
(cf. Ex 3,7-8).»
Deus escuta o clamor dos pequenos, mas também chama pessoas concretas para participar de sua obra libertadora. Assim como chamou Moisés, chama hoje cada cristão, cada família, cada comunidade e cada instituição.
Não podemos permanecer indiferentes nem nos acostumar com o sofrimento dos inocentes.
Dizer “sim” com a vida
A celebração ocorre no 26º Domingo do Tempo Comum — Ano A. No Evangelho, Jesus apresenta a parábola dos dois filhos:
«“Filho, vai hoje trabalhar na vinha”
(Mt 21,28).»
Um filho inicialmente responde “não”, mas depois se arrepende e vai. O outro responde “sim”, mas não cumpre a vontade do pai.
Essa parábola denuncia uma fé feita apenas de palavras. Não basta afirmar que somos favoráveis ao acolhimento, à dignidade humana e à proteção das crianças. É necessário transformar o “sim” pronunciado com os lábios em gestos concretos.
Podemos falar muito sobre fraternidade e, ao mesmo tempo, fechar as portas para quem vem de fora. Podemos defender a dignidade humana em nossos discursos, mas permanecer indiferentes diante das pessoas deslocadas. Podemos dizer que acolhemos a todos e, ainda assim, permitir comentários preconceituosos e atitudes xenofóbicas dentro de nossas próprias comunidades.
A conversão cristã acontece quando a Palavra se torna obra.
Ezequiel anuncia que sempre existe a possibilidade de mudança: quem abandona os caminhos da injustiça e começa a praticar o que é reto encontra a vida. O Salmo nos faz pedir:
«“Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos e fazei-me conhecer a vossa estrada”
(Sl 24/25).»
São Paulo apresenta Cristo como modelo dessa obediência: Jesus esvaziou-se, assumiu a condição de servo e se fez próximo da humanidade. Acolher os migrantes e refugiados significa, portanto, cultivar em nós os mesmos sentimentos de Cristo.
Uma responsabilidade de toda a comunidade
O acolhimento não pode ser delegado somente a instituições especializadas, movimentos ou congregações que trabalham diretamente com migrantes. Toda comunidade cristã é chamada a reconhecer migrantes e refugiados como membros de pleno direito da família eclesial.
A pastoral do acolhimento deve superar o simples assistencialismo. Além de oferecer alimento, roupa e abrigo, é necessário escutar as histórias, respeitar as culturas, proteger os direitos, favorecer a educação e criar verdadeiros caminhos de integração.
A comunidade cristã pode:
- conhecer pelo nome os migrantes e refugiados que vivem em seu território;
- acolher as famílias nas celebrações e atividades pastorais;
- oferecer apoio às crianças para sua integração escolar e comunitária;
- colaborar com instituições que protegem menores vulneráveis;
- combater o preconceito e a xenofobia;
- promover encontros entre jovens locais e jovens migrantes;
- acompanhar espiritualmente as famílias deslocadas;
- defender o direito à vida, à educação, à proteção e à reunificação familiar.
Acolher significa abrir espaço para que o outro participe, ofereça seus dons e se torne sujeito ativo da vida comunitária.
“Mesmo uma só”
O tema escolhido pelo Papa nos impede de esconder os rostos humanos atrás das estatísticas. Talvez não possamos resolver todos os problemas migratórios do mundo. Entretanto, podemos acolher uma pessoa, escutar uma história, proteger uma criança, ajudar uma família ou impedir uma palavra preconceituosa.
Mesmo uma só criança protegida já torna o mundo mais humano.
Mesmo uma só família acolhida já manifesta o Reino de Deus.
Mesmo um só estrangeiro reconhecido como irmão já revela a presença de Cristo entre nós.
O Senhor não nos perguntará quantos discursos fizemos, mas se fomos capazes de reconhecê-lo naquele que chegou cansado, ferido, assustado e necessitado de proteção.
Sob a proteção de Maria
Confiemos os migrantes e refugiados, especialmente as crianças e os adolescentes, à proteção maternal da Santíssima Virgem Maria.
Maria, juntamente com São José, conheceu a angústia de fugir da violência de Herodes para proteger o Menino Jesus. A Sagrada Família experimentou o exílio, a insegurança e a condição de estrangeira em terra desconhecida.
Nossa Senhora conhece o sofrimento das mães que atravessam fronteiras com seus filhos nos braços. Conhece também as lágrimas das famílias separadas e o medo das crianças que perderam sua casa.
Que Maria nos ensine a permanecer junto aos que sofrem e ajude nossas comunidades a se tornarem casas de acolhimento, proteção, fraternidade e esperança.
Oração pelos migrantes e refugiados
Senhor Deus, Pai de todos,
abri nossos olhos para reconhecermos
o rosto de Cristo em cada migrante e refugiado.
Ensinai-nos a acolher aqueles que chegam com medo,
a proteger as crianças de toda violência e exploração,
a promover a dignidade de cada pessoa
e a integrar povos e culturas em uma só família.
Não permitais que permaneçamos indiferentes
diante do sofrimento dos que foram obrigados
a abandonar sua terra, sua casa e seus familiares.
Dai-nos um coração atento,
mãos abertas para servir
e coragem para transformar nossa fé em obras.
Maria, Mãe de Jesus e companheira dos exilados,
protegei as crianças migrantes e refugiadas,
consolai suas famílias
e acompanhai seus passos pelos caminhos do mundo.
Fazei de nossas comunidades
sinais vivos e fiéis do Evangelho,
onde ninguém seja considerado estrangeiro,
mas todos sejam acolhidos como irmãos e irmãs.
Amém.
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Texto elaborado a partir da Mensagem do Papa Leão XIV para o 112º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado e dos subsídios pastorais encaminhados pelo Secretariado da Pastoral da Arquidiocese de Maputo.
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