3 de junho de 2013

Martírio: Vitalidade do cristianismo


A palavra grega mártir significa “testemunha” diante de um tribunal mas, com o tempo, ganhou um sentido cristão e ficou reservada para “todo aquele que dá testemunho, mesmo ocasionalmente, mas sempre enfrentando ameaça de morte”.
Mártires: Testemunhas de Fé
Afirma Orígenes (séc. II): “A comunidade de irmãos na fé reservou o nome de mártir para aqueles que deram testemunho de fé em Cristo derramando seu sangue”. O martírio expressa a mais alta identificação com Cristo e realiza a bem-aventurança proclamada por Jesus: “Bem-aventurados sois vós quando vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós por causa de mim... De igual maneira perseguiram os profetas antes de vós” (Mt 5,11-12).
A primitiva comunidade cristã via nos irmãos que perdiam a vida com o martírio um estímulo à perseverança e novos intercessores junto ao Senhor. Os mártires eram o orgulho da fé cristã e seus túmulos se tornavam locais de oração e de veneração.
Acontecia que alguns cristãos eram torturados, derramavam o sangue, mas não morriam. A esses irmãos, com veneração, a comunidade dos cristãos deu-lhes o nome de “confessor”. Eles possuíam um posto eminente na igreja, impunham as mãos e, em alguns lugares, tinham o poder sacerdotal sem necessitar de ordenação: eram os mártires ainda vivos, um privilégio, uma graça de Deus para seu povo.
A vida de um mártir
Para a Igreja não interessa o passado do mártir, o importante é o momento decisivo do martírio. Assim, um santo mártir não é aquele que viveu heroicamente a fé, mas o que heroicamente derramou o sangue por Jesus. Pode ter sido um grande pecador, mau exemplo, mas se aceitou o martírio, mostrou amor heróico e perfeito pelo Senhor.
Também hoje, nos processos de beatificação de um mártir, não se pedem milagres ou virtudes heróicas, mas a certeza de que derramou o sangue por crer em Cristo, o que é a síntese de todas as virtudes heróicas.
O martírio é uma graça, um carisma concedido por Deus apenas a alguns que são chamados ao amor perfeito.
O martírio é o estado místico por excelência: o crente, abandonado aos sofrimentos, adere a Cristo com todas as suas energias, tomado pela potência do Cristo ressuscitado.
Martírio: identificação com cristo
Com o tempo, a Igreja percebeu que há um outro tipo de martírio, incruento, sem derramamento de sangue: é o martírio-testemunho de toda uma vida dedicada à fé e ao evangelho. Toda perfeição cristã tem algo de martírio: a perseverança no bem, a aceitação de afrontas, a dedicação aos pobres e sofredores. O doente que aceita a cruz da dor cotidiana vive uma espécie de martírio em sua identificação com Cristo crucificado.
Assim, o ideal do martírio se estende a todos os estados de vida: religiosa, matrimonial, apostólica, profissional. O missionário, que vive sem medo o perigo da perseguição, é um mártir. A mãe e o pai de um filho deficiente, em sua generosidade e paciência, vivem o martírio. É martir também o jovem que, com firmeza, dá testemunho de sua fé num ambiente hostil.
Igreja de Mártires e de Santos
A glória da Igreja são seus mártires. Trata-se de homens, mulheres, jovens e crianças que a tal ponto amaram a Jesus que não lhes importou sofrer ou morrer. A perseguição que o império romano moveu aos cristãos durante os primeiros 300 anos do cristianismo, não os atemorizou ou diminuiu seu número. Tertuliano, grande teólogo, dizia: “O sangue dos mártires é semente de novos cristãos”.
Por que a perseguição ao cristianismo? Basicamente, porque os cristãos rejeitavam os deuses do império romano e o culto do imperador, já que, para eles, havia um só Deus e um só Senhor e a nenhum outro podiam prestar adoração. Era até oferecida aos cristãos a oportunidade de disfarce: “finje que adora, mas não adore, ofereça incenso para agradar, sem compromisso, e pronto, salve a pele! Pague uma gorjeta, e estamos falados.” A maioria não aceitava isso: antes sofrer e morrer do que não proclamar publicamente o único Deus e seu Filho Jesus.
O martírio era uma prova imensa, pois supunha imensos sofrimentos, angústias, além da morte física: tortura, decapitação, mutilação, ser entregue a animais ferozes e famintos nos circos, ser queimado...
Santo Inácio de Antioquia, antes de ser despedaçado na boca de leões e tigres, dizia: “Triturado por leões, serei como o trigo que é triturado para com ele se fazer o pão da Eucaristia”.
São Potino, bispo de Lyon, com mais de 90 anos, é levado ao tribunal. Apesar de fraco e doente, foi interrogado com dureza, humilhado, surrado, torturado. Nesse estado de dor e feridas é jogado no cárcere, onde morre dois dias depois.
O mártir dá testemunho do valor único de se crer em Jesus: ele é o tesouro, a pedra preciosa, nada vale mais do que ele.
O imperador Constantino, em 313, concedeu liberdade aos cristãos que, apesar da insegurança e perseguições, tinham crescido e se constituíam na maior e melhor força do Império. O segredo dessa força foi dado pelo heroísmo de quase 100 mil mártires.
História de Martírio
As autoridades ficavam impressionadas com a coragem e a simplicidade dos cristãos entregues aos tribunais. São crianças de 11 anos, como a belíssima romana Inês. Em pleno circo, arrancam-lhe as vestes para rirem de sua nudez, mas Deus faz o milagre de os cabelos crescerem. Santa Inês é decapitada.
É o bispo Policarpo respondendo ao juiz que pede que blasfeme: “Eu sirvo a Cristo há 86 anos e ele nunca me fez mal; como posso blasfemar contra o rei que me salvou?”
É um jovem que vai para o martírio tremendo de medo e sua namorada o anima, encoraja, morrendo os dois.
É o jovem Tarcísio que leva a Comunhão aos doentes, escondendo o Pão embaixo da camisa e seus colegas, para descobrirem o que levava, acabam por matá-lo a pedradas.
É o velho bispo que, antes de ser executado, recomenda o cuidado por alguns pobres e doentes dos quais ele cuidava.
É o legionário Basílide (Egito, ano 203) que acompanha Marcela e sua filha Potamiena ao patíbulo e que escuta o agradecimento de Marcela antes de ser morta: “Rezarei por ti ao meu Senhor, para que ele recompense o bem que nos fizeste”. Basílide pede o batismo e serenamente é decapitado.
É a mãe que manda recados a Deus através do filho que será martirizado.
É o senador Apolônio (ano 183), bem humorado, que responde ao juiz que lhe pergunta se estava contente por morrer. Respondeu que não, gostava de viver, mas que preferia a vida eterna. E depois, concluiu: se morre também de febre e disenteria. Ao ser morto vou imaginar que a causa foi uma dessas doenças.
É a jovem Cecília, pretendida por muitos jovens aristocratas, que por nada trai a Jesus. É colocada numa sauna para morrer asfixiada mas, não morrendo, é decapitada.
É o filósofo Justino (séc. II) que, convertido, vai ao palácio do imperador Marco Aurélio defender os cristãos e acaba decapitado.
É o soldado Sebastião, da guarda imperial, que pede o batismo e depois é condenado a morrer a flechadas, amarrado a uma árvore. Pensando que estivesse morto, é abandonado. Os cristãos recolhem o corpo e cuidam bem, pois estava vivo. Sebastião se retraiu? Não! Foi ser catequista, sendo pouco depois martirizado.
Quanta simplicidade nesses santos que nos ensinam que não existe fé sem heroísmo, que não é possível ser cristão e viver na moleza!
Martírio: prova de vitalidade da Igreja
A história mostra claramente que quando a Igreja se instala, vive encostada nos poderosos, não tem mártires. O serviço à verdade e à caridade não combina com o perfume dos palácios. Quando a Igreja não é contestada, questionada ou perseguida, ela deve seriamente se perguntar se está sendo fiel a seu fundador e cabeça, o Cristo crucificado.
Na Idade Média houve no cristianismo grandes movimentos missionários entre os povos bárbaros, eslavos, germânicos e saxões, com numerosos sacerdotes dando a vida pela causa do evangelho.
A partir do século XVI, tiveram início as missões no Oriente, na África e na América. Milhares de missionários deixaram a tranqüilidade européia, atravessaram os oceanos e foram consagrar a existência ao anúncio de Jesus. Muitos deles derramaram o sangue, junto aos seus convertidos: na Coréia, Japão, Vietnã, África, Filipinas, América. Não se conhece uma Igreja que não tenha brotado de um solo fecundado pelo sangue dos mártires.
O Século XX: um século de mártires
Na sua carta para o Terceiro Milênio, João Paulo II se referia a uma realidade do século XX: estamos diante de um novo tempo de mártires, talvez o maior da história do cristianismo, pois nunca tantas pessoas sofreram para serem fiéis à sua fé, como neste século que termina. Nem todos morreram, mas milhões viveram sua fidelidade na insegurança e na privação.
Os novos mártires podem ser englobados em quatro categorias:
- mártires da revolução mexicana (1927-1941) e espanhola (1931-1939),
- mártires do Comunismo (1917-1989),
- mártires do Nazismo e do Fascismo (1933-1945),
- mártires das lutas tribais e étnicas no Burundi, Congo, Sudão, Nigéria e outros países africanos (1990...).
No México e na Espanha foram milhares os religiosos e religiosas, sacerdotes e leigos, sumariamente fuzilados pelo fato de serem cristãos. Não havia processo nem acusação: era o ódio ao cristianismo que levou os mações mexicanos e os republicanos espanhóis a essa carnificina, numa guerra cruel entre filhos de uma mesma nação. Ao grito de “Viva Cristo Rei!”, explodiu no México em 1927 a revolução cristeira, onde milhares de camponeses e índios foram martirizados por quererem continuar cristãos.
O Comunismo materialista conquistou o poder na Rússia em 1917 e, em 1945, em todo o leste europeu; em 1949 a China e o sudeste asiático. A Rússia transformou igrejas em “museus do ateísmo”, enquanto a Albânia proclamou-se o primeiro país ateu do mundo, punindo com fuzilamento o pai que batizasse o filhinho. Diante do possível desaparecimento da Igreja desse país, o Vaticano permitiu a sagração secreta de bispos. A Igreja retornava às catacumbas, como no império romano. Mas as prisões e as mortes não amedrontaram esses heróicos cristãos. Não menos feroz foi a perseguição movida contra os cristãos da China, Vietnã, Coréia, Laos, Camboja, Birmânia...
O Nazismo alemão (1933-1945), a mais inexplicável mancha da história humana, planejava primeiramente a extinção dos judeus (seis milhões), seguindo-se a dos cristãos. Sacerdotes, religiosos e leigos ergueram-se contra esse moderno paganismo que idolatrava o Estado e por isso morrerram. Entre todos esses gloriosos mártires citamos São Maximiliano Kolbe e Santa Edith Stein.
Mártires por causa da Justiça
As últimas décadas do século XX foram enriquecidas pelos mártires que sofreram e morreram por causa da justiça e da paz, de modo especial no Brasil e na América latina. A situação de injustiça no mundo rural e urbano, as ditaduras militares, a falta de terra, a opressão sobre os índios..., desencadeou um profetismo original: ver o rosto de Jesus no injustiçado, optar por ele e por ele dar a vida. Essa opção evangélica tem feito muitos mártires: bispos, religiosos e leigos que derramaram o sangue por causa dos pobres, os preferidos de Deus.
No Brasil, poderíamos citar: o operário Santo Dias, o índio Simão, a agricultora Margarida, os padres Josimo Tavares, Antônio H. Pereira Neto, Ezequiel Ramin, Rodolfo Lukenbein, João Bosco Penido Burnier, Frei Tito Alencar e o seringalista Chico Mendes.
Em El Salvador, o arcebispo Dom Oscar Romero (1980) e os 4 sacerdotes jesuítas da Universidade católica (1989). Também as jovens Igrejas da Ásia e da África tem a alegria de poder apresentar a Deus seus mártires, cristãos justos que heroicamente deram a vida para que outros tivessem mais vida.
Concluindo esta reflexão, motivada pela festa dos Protomártires da Igreja de Roma (30 de junho), pode-se afirmar que um autêntico encontro com Cristo não deixa ninguém indiferente. Ele é quem dá sentido à existência humana. A prova? Os milhões de mártires desses dois mil anos de cristianismo.
Para Refletir
1 - Quem foi o primeiro mártir de Cristo? Por que foi martirizado? Leia At 6,8-15.
2 - Quais são os mártires modernos? Quais as motivações de seu martírio?
3 - O martírio destrói ou fortifica a Igreja? Por quê?

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