26 de agosto de 2009

Espiritualidade

Muitos agentes de pastoral nas avaliações de grupos e nos encontros com o pároco comentam, alguns com legítima inquietude, a falta de espiritualidade! Será que está faltando espiritualidade nas pastorais, movimentos, serviços e grupos de nossa paróquia?

É verdade que todos estamos empenhados em reuniões, encontros e assembléia, nas visitas aos doentes e aos mais pobres... É também verdade que às vezes temos dificuldades no relacionamento interpessoal, problemas de empatia e de aceitação em relação àqueles que trabalham conosco... Mas é por isso que estamos nos sentindo vazios e desmotivados? É por isso que nos sentimos desanimados e queremos largar tudo? Se a nossa resposta é afirmativa, talvez esteja faltando espiritualidade! É essa deve ser uma prioridade na vida paroquial.

Vamos entender o que significa espiritualidade. Temos a percepção que, antes de tudo, a espiritualidade tem a ver com o nosso entusiasmo e com a nossa motivação. É o cerne da nossa vida, aquilo que permanece quando tudo termina. É uma resposta pessoal à presença de Deus, uma experiência interior, por meio de um encontro pessoal e profundo, que transforma a nossa vida.

Espiritualidade vem de espírito. No Antigo Testamento, o termo que traduz espírito é ruah, que significa hálito. A respiração é concebida como um princípio ou como um sinal de vida. No Gênesis, o espírito da vida é o hálito de Deus, o sopro que é comunicado ao homem por insuflação divina (Gn 2,7). É assim que Deus realiza seus desígnios de salvação, suscitando a vida, a lei e a profecia, profundamente permeadas pelo seu Espírito. No Novo Testamento, o termo que traduz espírito é pneuma: é o movimento do ar, principalmente sopro ou vento. A novidade é que o espírito é apresentado como força de Deus, presente na pessoa de Jesus e posteriormente nos apóstolos e na comunidade cristã, na Igreja. O Espírito é comunicado a Jesus no batismo, confirmando-o na sua missão, e no dia de Pentecostes, aos apóstolos, enviados para evangelizar o mundo. No Evangelho de João aparece como o Paráclito, o espírito de verdade que o mundo não conhece, mas que irá revelar a verdade plena, que é Jesus.

Assim compreendemos que espiritualidade é a vida segundo o Espírito, que se contrapõe à vida segundo à carne. Isso exige que todos nós tenhamos uma adesão constante a Cristo e uma opção fundamental pelos valores do Reino.

Podemos viver segundo a carne e seus imperativos: conformando nossa mentalidade e organizando a vida segundo as diretrizes do mundo presente, que é débil, caduco e mortal; considerando a vida no mundo como a única realidade e obedecendo aos mecanismos e aos mecanismos da cultura de morte. Fechando-nos sobre nós mesmos, desfrutando egoisticamente dos bens terrenos e atendendo indistintamente às exigências das paixões humanas. Não vislumbrando nada para além do nascimento e da morte. Tudo se resume em construir este mundo, assegurá-lo o mais possível preservado da morte, embora jamais o consigamos. Para quem vive assim a ganância de acumular é inteligência, a furto é esperteza, a trapaça é habilidade, a corrupção é astúcia nos negócios e na política, exploração do outro é sabedoria de um trabalho lucrativo, e assim por diante. Mas as conseqüências da vida segundo a carne são tremendas: impureza, ódios, discórdias, ciúmes, invejas, divisões. (Cf. Gl 5, 19-21). Isso destrói a nossa comunhão, divide-nos e gera muito mal estar entre nós, porque nos afaste de Deus e não nos permite viver com a autenticidade.

Viver segundo o espírito é a opção fundamental para a plena existência humana, que encontra em Deus a sua plenitude. Isso não quer dizer que quem vive segundo o espírito não esteja livre do peso do dia-a-dia, das tribulações, da dor, da cruz e da angústia. Mas quem vive segundo o Espírito assume sem murmurações e lamúrias a condição humana, com todas as suas vicissitudes, alegria e tristeza, saúde e doença... Sabe acolher com humildade a mortalidade e a pequenez. Para tal pessoa, o mundo não fornece o sentido último daquilo que busca o coração humano, das coisas que trazem felicidade e realização plena. Somente Deus é o descanso do coração inquieto, diz Agostinho. A pessoa espiritual vê este mundo com os olhos da eternidade, com os olhos de Deus. O envelhecer e o morrer pertencem à vida, não matam a vida, mas a transfiguram. Por isso, viver segundo o espírito é viver a relação filial com Deus, na obediência à sua vontade, provocando certo esquecimento de si, generosidade, desapego das coisas, relatividade dos acontecimentos. É viver a fraternidade com todos os irmãos, sem exclusão. É aceitar o Senhor da vida e da história.

A vida segundo o espírito não consiste em recalcar ou negar a própria realidade da criação. Ao invés exige um acolhimento e aceitação humilde do mundo criado. Então não se trata de mortificar a carne e renegar o mundo, mas de vivificá-los. Alguém que dá comida a um faminto movido por Deus, faz um ato espiritual. Nessa situação a conseqüência é sempre o triunfo da vida, pois é o Espírito que gera a vida e a paz (Jo 6,33; Rm 8,6).

Portanto, espiritualidade é viver segundo o Espírito do Senhor, tentando fazer novas todas as coisas, acolhendo e cultivando de modo ativo na prática cotidiana a presença de Deus em nossa vida. Presença que envolve todo nosso ser: corpo, sexualidade, afetividade, inteligência, vontade, liberdade, relação com os outros, com as coisas, com o mundo. É condição para uma vida integrada e integradora, que está sempre motivada por ser centrada em Deus e no amor ao próximo.

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