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20 de setembro de 2008

25° Domingo Comum - Vão vocês também para a minha vinha

O Evangelista Mateus coloca o Capítulo 20 no contexto da “vinda definitiva do Reino de Deus”, explicando que o caráter do Reino de Deus é universal. Neste sentido, esclarecendo e comparando a “natureza do Reino”, ele narra a parábola dos trabalhadores da vinha, que é exclusividade sua e não é narrada pelos outros evangelistas. Assim, perceberemos no relato da Parábola que Deus oferece a salvação a todos, sem considerar o itinerário de fé ou os “chamados” créditos pela missão realizada.
Na parábola narrada por Mateus, ele procura deixar bem claro que os primeiros beneficiários da salvação foram os judeus da Aliança selada desde os tempos de Abraão. Porém, eles não devem sentir-se “os privilegiados” por tal salvação. O anúncio da Boa Nova é direcionado a todas as pessoas, principalmente para os pecadores. Neste sentido eles são também convidados a participar do banquete festivo do Reino definitivo de Deus.
Mateus, para explicitar a realidade do Reino do Céu, narra a história de “um patrão, que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha” (Mt 20,1). Assim, o “patrão” saiu e foi contratando, em vários momentos, trabalhadores para a sua vinha: as nove (Mt 20,3), ao meio dia e às três da tarde (Mt 20,5) e combinou pagar uma “moeda de prata por dia e o que for justo” (Mt 20,2.4). Depois, no final da tarde, o patrão encontrou alguns trabalhadores que estavam na praça e disse-lhes “por que vocês estão aí o dia inteiro desocupados?” Eles responderam: porque ninguém nos contratou. O patrão lhes disse: vão vocês também para a minha vinha” (Mt 20,6-7). No final da jornada o patrão chamou o administrador e disse: “chame os trabalhadores e pague uma diária a todos. Comece pelos últimos, e termine pelos primeiros” (Mt 20,8). Houve um murmúrio total, porque aqueles que apenas trabalharam um pouco receberam o mesmo tanto do que aqueles que trabalharam toda a jornada. O patrão, percebendo a insatisfação de alguns disse: “amigo, eu não fui injusto contigo. Acaso não combinados uma moeda de prata? Por acaso não tenho direito de fazer o que eu quero com aquilo que me pertence? Ou você está com ciúme porque estou sendo generoso? Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos” (Mt 20,13-16).
Diante da postura do Patrão, surge uma pergunta: “QUAL SERIA A LÓGICA DO REINO DE DEUS? OU AINDA: O QUE A PARÁBOLA ESTÁ QUERENDO DIZER?
Para compreender melhor o sentido da parábola seria importante ter presente o cap 3,15 do Evangelho de Mateus, que diz: “porque devemos cumprir toda a justiça”. Assim para Mateus, Jesus é o verdadeiro Mestre da Justiça. Neste sentido, todos aqueles que participaram da Escola de Jesus, deveriam praticar o que Ele (Jesus) ensinou: “se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não poderão entrar no Reino do Céu” (Mt 5,20).
Mateus escreveu o seu Evangelho para os judeus convertido ao cristianismo. Assim os primeiros trabalhadores chamados a trabalhar na vinha do Senhor eram os cristãos vindos do judaísmo; os últimos eram os não-judeus, certamente os pecadores, os doentes, os pobres... ou seja, todas as pessoas que se abriam ao convite para participar da vinha do Senhor. Porém, Mateus, irá mostrar no seu evangelho os grandes conflitos de Jesus com os Mestres da Lei, os Fariseus, os saduceus, etc. Este grupo, social, político e religioso eram muitos apegados à Lei. Jesus, o Mestre da Justiça, acolhia a todos, principalmente os pecadores e os publicanos. Os judeus foram os primeiros a serem chamados, por fazer parte da Antiga Aliança, do povo das promessas messiânicas; os últimos (pecadores, publicanos, doentes, etc...), foram convidados, porque entraram no ambiente da misericórdia de Deus... “bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão a misericórdia” (Mt 5,7). Para Deus, não há Judeus ou gregos, escravos ou livres, cristãos da primeira hora ou da última hora. Não há graus de antiguidade, de raça, de classe social, de merecimento… Todos são filhos amados do mesmo Pai. Porém permanece o grande convite do Patrão: “Ide, também vós, para a minha vinha” (Mt 20,7).
Hoje, trabalhar na vinha do Senhor tem um sentido muito amplo. O próprio Jesus afirma: “muitos são chamados, mas poucos são escolhidos” (Mt 22,14); ou ainda: “a colheita é grande, mas os operários são poucos” (Lc 10,2). Neste sentido a “vinha do Senhor” é muito grande e faltam trabalhadores que anunciem o verdadeiro Reino de Deus. Porém primeiramente é preciso entender que a fé e a religião cristã não é passividade, mas atividade transformadora da sociedade iluminada pelo Evangelho. O profeta Isaias já alertava o povo de Deus dizendo: “meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos” (Is 55,8). Assim somos convidados a entrar na ótica de Deus, que quer a dignidade, a justiça, o amor para todos... “os últimos serão os primeiros e os primeiros serão últimos” (Mt 20,16).
“Para quem tem fé, para quem conhece o mínimo do Evangelho não pode conformar-se com essa situação de injustiça, com a crescente insensibilidade para com a pessoa, o desrespeito para com o povo mais simples e pobre... isso não está de acordo com os pensamentos de Deus. O motivo pelo qual trabalhamos na vinha do Senhor, portanto, é para que os pensamentos de Deus estejam presentes em nossos pensamentos e, evidentemente, nas nossas atitudes”.
Percebemos no texto que Deus não quer ninguém desocupado, apenas sentado na praça. Cristo continua convidando: "Ide também vós para a minha vinha!..." Qual será a nossa resposta ao chamado de Deus? Qual é o nosso lugar na vinha do Senhor?
Contudo, a “praça pode ser apenas um local para ver. Por acomodar-se na praça é incapaz de alguma atitude transformadora através do trabalho na vinha do Senhor”. Portanto, aqueles que trabalham na vinha do Senhor esforçam-se para transformar a realidade, ajudando as pessoas e a sociedade enquanto tal a assumirem a lógica da justiça divina, do Reino que se caracteriza pela bondade, dignidade, misericórdia, etc... Assim sendo, trabalhar na Vinha do Senhor significa “gerar modelos culturais alternativos para a sociedade atual” (Doc. Aparecida, 480).
(frei João)