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14 de março de 2008

Domingo de Ramos

Com a celebração do Domingo de Ramos estaremos iniciando a Semana Santa. O tempo da quaresma terminará na quarta-feira santa. O tríduo Pascal marcará o início das celebrações pascais com a missa do lava-pés. Serão dias intensos de uma espiritualidade profunda que nos preparará para celebrar a ressurreição de Jesus Cristo, que passou pelo mundo “fazendo o bem” (At 10,38).
A entrada de Jesus em Jerusalém é marcada por uma grande alegria. “As multidões que iam à frente de Jesus e os que o seguiam, gritavam: Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!” (Mt 21,9-10).
O Evangelista Mateus apresenta o projeto evangelizador de Jesus. Descreve o anúncio central nas suas palavras e nos seus gestos, na qual Ele anuncia o novo mundo que se chama “Reino dos céus” (cf. Mt 4,23-9,35). Do anúncio do “Reino” nasce a comunidade dos discípulos – isto é, nasce um grupo que assimila a sua proposta (cf. Mt 9,36-12,50). Os discípulos são a “comunidade do Reino”: instruídos pelo Mestre, formados na nova mentalidade do “Reino”, eles recebem a missão de testemunhar o “Reino” (cf. Mt 13,1-17,27). Na parte final do seu Evangelho, Mateus descreve a ruptura final de Jesus com o judaísmo (cf. Mt 18,1-25,46) e o final do caminho de Jesus: a paixão, morte e ressurreição (cf. Mt 26,1-28,15).
O texto deste domingo relata a paixão de Jesus. Descreve como a novidade do Reino choca com a mentalidade da opressão e, portanto, conduz à cruz e à morte; no entanto, não podemos dissociar os acontecimentos da paixão daqueles que celebraremos no próximo domingo: a ressurreição é a prova de que Jesus veio de Deus e tinha um mandato do Pai para tornar realidade no mundo o “Reino dos céus”.
Contudo, para realizar a missão que o Pai lhe confiou, a morte de Jesus deve ser entendida no contexto daquilo que foi a sua vida: anunciar o Reino de Deus e a sua justiça, um mundo novo a partir da prática de seus ensinamentos, o amor e a paz entre os seres humanos. Para concretizar esta missão, Jesus passou a sua vida “fazendo o bem” (At 10,38), anunciando uma nova maneira de vida, de viver a liberdade, a dimensão da paz e do amor entre todos. Ensinou que o amor de Deus não excluía ninguém e tampouco os pecadores; que os leprosos, os paralíticos, os cegos, não deviam ser marginalizados, pois não eram amaldiçoados por Deus; que os pobres e os excluídos são os preferidos de Deus. Avisou aos "ricos" (os poderosos, os instalados), que o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, o fechamento só podiam conduzir à morte.
O Profeta Isaias apresenta um Servo Anônimo (Is 50,4-7) que, chamado por Deus para ser sua testemunha no meio das nações. Ele é um servo fiel ao Projeto do Pai e enfrenta todo tipo de incompreensão, mas, graças à sua fidelidade, será exaltado e glorificado pelo Pai. A sua missão profética se concretiza na dor. Mesmo diante do sofrimento, aumenta a sua confiança no Senhor. A certeza de que não está só, mas que tem a força de Deus, torna o profeta mais forte do que a dor, o sofrimento, a perseguição. Por isso, o profeta “não será confundido”. Os primeiros cristãos viram neste "servo sofredor" a figura de Jesus. Ele é a Palavra de Deus feita carne, que oferece a sua vida para trazer a salvação aos homens.
Celebrar a paixão e a morte de Jesus é abismar-se na contemplação de um Deus a quem o amor tornou frágil… Por amor, Ele veio ao nosso encontro, assumiu os nossos limites e fragilidades, experimentou a fome, o sono, o cansaço, conheceu a realidade das tentações, tremeu perante a morte, suou sangue antes de aceitar a vontade do Pai; e, estendido no chão, esmagado contra a terra, traído, abandonado, incompreendido, continuou a amar. Desse amor resultou vida plena, que Ele quis repartir conosco “até ao fim dos tempos”: esta é a mais espantosa história de amor que é possível contar; ela é a boa notícia que enche de alegria o coração daqueles que acreditam na vida nova.
Contemplar a cruz, onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus, significa assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade… Olhar a cruz de Jesus significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo, estruturas injustas, valores, práticas, ideologias; significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens; significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor… Viver deste jeito pode conduzir à morte; mas o cristão sabe que amar como Jesus é viver a partir de uma dinâmica que a morte não pode vencer: o amor gera vida nova e introduz na nossa mente os dinamismos da ressurreição.
Diante do aparente fracasso, o Apóstolo Paulo relata aos Filipenses (2,6-11) a realidade do Servo Jesus Cristo, que apesar da sua condição divina, assumiu a nossa condição humana, “humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,7-8). Foi fiel ao projeto de Deus até as últimas conseqüências. “Por isso Deus o exaltou acima de todo nome” (Fl 2,9). Enquanto a desobediência de Adão trouxe fracasso e morte, a obediência de Cristo ao Pai trouxe exaltação e vida. Este despojamento tem um sentido pleno de servir, para dar a vida, para revelar totalmente aos homens o ser e o amor do Pai. Esse caminho não levará ao fracasso, mas à glória, à vida plena.
Diante de uma realidade onde a vida está se perdendo e sendo ameçada, a Campanha da Fraternidade nos orienta para “Escolher a Vida”. O refrão do Hino da Campanha é muito claro: “Ponho, então, à tua frente dois caminhos diferentes: vida e morte, escolherás. Sê sensato escolhe a vida! Parte o pão, cura as feridas! Sê fraterno e viverás”. Na leitura da Paixão deste domingo somos convidados a perceber que Cristo morre na cruz para nos vida nova. Diz Jesus: “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32).
(fr. João Carlos)